domingo, 4 de dezembro de 2022

Eu - a língua - o outro

Rosa Attié Fiqgueira (2001) explora a fala da criança à luz da teorização de Claudia Lemos, de acordo com a qual a criança não "se apropria da língua", não a "domina", mas se relaciona com ela. Essa relação se dá de três maneiras diferentes, não cronologicamente determinadas: relação com a fala do outro, relação com a língua e relação com a própria fala. Nesse artigo, sobre marcas insólitas de gênero, Rosa analisa principalmente dados em que a criança reflete sobre a língua. Por exemplo, a mãe diz: "você é um barato!" e a menina corrige: "barata, mãe, barata." No outro dado, o apresentador na TV diz Bom dia, ao que a menina responde "Bom dio" - e a irmã explica: "Bom dia é pra mulher e bom dio é pra homem." Em outro, a mãe lamenta que formou um galo e a menina retruca: "não é galo, é galinha". Em todos esses episódios, a criança ajusta o gênero gramatical ao seu sexo: eu sou menina e pequena, então tudo que me descreve tem que terminar em -a ou -inha (e não importa que a barata e a galinha sejam outra coisa no mundo ou que dio não exista). A criança, em processo de subjetivação, ajusta a língua à sua identidade. Não surpreende que a língua não-binária pretende fazer esse ajuste identitário também.

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O real é o que é. A verdade é o que dizemos do real, ou seja, um recorte do que conseguimos perceber. Nosso acesso ao real é mediado pela língua. Pós-verdade tem a ver com a percepção de que a verdade é construída. Para Cesarino,

[...] à medida que o storytelling começa a passar cada vez mais pela infraestrutura acelerada e não-linear das novas mídias e sua economia de atenção, a linearização das narrativas coletivas, propiciada pela estabilidade dos metaenquadramentos e da confiança social a ela associada [ciência, imprensa profissional], vai se desfazendo. Intensifica-se, com isso, o colapso de contextos entre fato e ficção e as pessoas passam a entender e explicar fenômenos da "vida real" cada vez mais por meio de narrativas absorvidas nessas mídias. [...] quem vende melhor suas estórias, consegue levar seus fatos mais longe." (Cesarino, 2022, p. 225)

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Quando fui jurada do Prêmio ABEU 2022, me deram a tarefa de avaliar 38 livros e escolher os dois melhores. Eu e mais dois jurados concordamos em uníssono com o primeiro lugar, mas o outro teve que ser negociado (e a menção honrosa também). De todos os livros avaliados, o que mais me ocupou - segui lendo mesmo depois de termos definido os vencedores, era uma tese adaptada ao formato de livro sobre a escrita fantástica feminina (O fantástico e suas vertentes na Literatura de autoria feminina no Brasil e em Portugal). Poucas mulheres se aventuraram na escrita fantástica em português, pouco se entende (ou sou só eu?) sobre escrita feminina. A pesquisadora escolheu quatro autoras portuguesas e quatro autoras brasileiras. Como a escrita feminina se diferencia da escrita não-feminia? Não é pela linguagem, afirma Ana Paula Martins, mas pelas temáticas ligadas ao cotidiano, à casa. Além de adotarem a narrativa fantástica, todas as autoras estudadas se lamentam da parca fortuna crítica. Escritoras há anos, são pouco reconhecidas nacionalmente - o olhar do outro atribui valor, construindo identidade. Eu sou eu em função do outro.

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