Na prova de Morfologia desse ano, uma das questões envolvia perceber conjuntos. Vou mostrar:
casarão livrinho coxinha boiada
salão copinho canetinha macacada
roupão golfinho camisinha bananada
cartão moedinha borrachinha meninada
quentão florzinha quentinha martelada
No primeiro conjunto, 'casarão' era a única palavra que estava simplesmente no aumentativo. É a única palavra em que a soma das partes (casa + aumentativo) resulta de uma lógica interna (casarão = casa grande). Salão não é necessariamente uma sala grande, remete antes a um lugar em que se corta cabelo, pinta unhas etc. O roupão também não é uma roupa grande, ou seja, é uma palavra nova (também ela remete a uma peça de vestuário). O cartão não é uma carta grande, mas um objeto talvez até menor que uma carta. Por fim, o quentão não é um quente grande (vai saber...), mas uma bebida. Ou seja, todos os elementos na lista (exceto casarão) são não composicionais (1+1 dá uma terceira coisa, uma nova palavra).
Na segunda coluna, o 'golfinho' não é diminutivo, como as outras palavras. Até aqui tudo bem.
O drama começa com as competições entre variantes. Especialmente na coluna da 'coxinha', um monte de gente não sabia se a palavra que não se encaixava no padrão das demais (mais um caso de lexicalização, só que dessa vez a estratégia é o diminutivo não-composicional) era a 'borrachinha' (que parecia ser um nome de alguma coisa) ou a 'canetinha' (que é só uma caneta pequena). Eu perguntei pra eles como chama aquilo que vem na lista de papelaria (olha eu antecipando gastos no início do ano) que as escolas mandam. Silêncio. Aquilo que tem tinta e é colorido. Hidrocor, professora. Não é 'canetinha'?
Lembrei imediatamente da minha defesa de tese, em que uma das arguidoras (Ester Scarpa, a mãe de R, a criança cuja fala estudei) apontou para uma transcrição de dado: Raquel não fala chiclé. No dialeto dela é chiclete. De onde surgiu esse chiclé? Nem sei... terei sido eu transportada pra minha infância?
Na última coluna, mais uma surpresa. Todas as palavras terminam com o mesmo sufixo, mas -ada não tem o mesmo valor em todas elas. Mais de uma pessoa marcou 'boiada' porque entendeu a palavra como adjetivo ou verbo no particípio: ela não entendeu nada, ficou boiada. Mas a pessoa não fica 'boiando'? Não, professora, fica 'rodada', 'boiada'. E eu achando que a 'martelada' era tão óbvia... não contava com essa variedade de expressões.
Conclusão: na hora da prova, tanto o professor como os alunos são postos à prova: o que é universal? O que posso testar? O que aprendi?
Nenhum comentário:
Postar um comentário