sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Amazonizar-se

Quando terminei de ler o último livro da Eliane Brum (2021),  apareceu outro dela (2014) na minha escrivaninha (Meus desacontecimentos). Agora preciso dar um tempo de tanta emoção à flor da página.

Eliane Brum, descendente de italianos, gaúcha e moradora de São Paulo se sente chamada pela Amazônia e resolve mudar-se pra Altamira. A cidade mais violenta, a cidade com estrias de expansão acelerada por causa das obras de Belo Monte, a cidade que devora a floresta. Quem mora em cidades consolidadas tem a impressão de que a cidade sempre foi assim, só mudam as lojas. Quem vai pra Altamira percebe que onde é cimento antes era floresta: "uma cidade moderna é, por definição, uma ruína da natureza" (p. 210). Onde havia indígenas, agora há pobres de periferia, refugiados em seu próprio país.

A partir do olhar de Greta Thunberg, Eliane Brum presta atenção nas crianças e nos jovens, filhos desses deflorestados, desterritorializados que perderam seu modo de vida e seu futuro. Que futuro terão os filhos desses adultos? 

Na análise da jornalista, Trump e Bolsonaro não têm um futuro para oferecer, porque o futuro é colapso climático - que eles se esforçam para negar, já que esse futuro é ruim. Vendem então um passado que nunca existiu.

"Òkòtó é um caracol, uma concha cônica que contém uma história ossificada que se move em espiral a partir de uma base de pião. A cada revolução, amplia-se 'mais e mais, até converter-se numa circunferência aberta para o infinito'." (p. 338) Pois é, assim como no outro livro, a definição do título aparece lá pro final do livro...

Achei bom passar por essa imersão, mas não sei identificar a escritora. 

O texto é uma construção. Percebo na jornalista a compulsão pela escrita, mas não enxergo engenhosidade na forma do texto. É um jornalismo diferente, que contém a sensibilidade da escuta, a relação de quem escuta com quem lê e a mediação entre mundos.

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