sexta-feira, 25 de novembro de 2022

O Território

Chegamos no Palácio das Artes um tanto impressionados com a quantidade de carros estacionados ao redor: todo mundo veio ver o filme O Território? Depois de passar pelas duas mulheres na porta, nos perguntando onde que era pra deixar os 2kg de alimento que tínhamos trazido, fomos chamados de volta: "vocês vieram ver o filme? É no outro teatro." O outro teatro é menor, mas estava cheio. 

O grupo Minhas Raízes fez a abertura do evento: eles cantam Nazaré, no Baixo Madeira. As comidas, as palavras e os instrumentos beradeiros nos prepararam para o universo dos uru-eu-wau-wau.
Como a Neidinha é daqui e a ONG Kanindé está aqui, Porto Velho foi um lugar de encontro: os parente vieram ver o filme em que atuaram, o camera-man que acompanhou a Neidinha viu o filme com plateia pela primeira vez, Bitaté estava no palco depois da exibição. Essa conversa depois do filme foi importante pra nós (público) entendermos o processo de filmagem. 

O território uru-eu-wau-wau está em disputa. Os indígenas lutam pela permanência no território (território é diferente de terra) e preservação da mata (terra está mais pra solo que pra floresta, caça, rio). Sob a liderança de Bitaté, os uru-eu defendem o território registrando em vídeo os ataques vindos de fora. O olhar indígena se faz presente no filme que não mostra apenas panorâmicas capturadas pelos drones, mas também foca nas formigas, folhas, água. Essa parte do filme - a da autoria indígena - a gente entende sem problema.

A questão é que o colono, o grileiro, as máquinas (motosserra, trator) também dão seu depoimento genuíno. Acompanhamos o colono que sempre foi empregado (trabalhando nas terras dos outros), montando uma associação, esperando os políticos (bolsonaristas) darem carta branca pra expandirem suas conquistas. Acompanhamos o grileiro que não acredita na associação, que afirma que aquilo que ele desmatou já é terra dele por direito, que - como erva daninha - está determinado a voltar toda vez que seu barraco for queimado. O interesse é pela terra. Ser proprietário de terra, expandir a fronteira. Ambos querem avançar sobre o território indígena justificando que nunca viram um índio sequer: "será que tem mesmo?"

Para o espectador, a complexidade da tarefa é destrinchar essa narrativa que se apresenta onisciente (se os uru-eu-wau-wau fizeram o filme, quem foi que filmou o grileiro?). Uma das perguntas do público dirigidas a Bitaté foi: se vocês sabiam onde eles estavam construindo a sede da associação, então por que vocês não foram lá? "Porque a gente não sabia". 

O grileiro não sabia que estava num filme idealizado pela Neidinha, nem Bitaté sabia que Neidinha tinha pedido ao diretor americano Alex Pritz que os dois lados fossem filmados sem o viés de uma narrativa. O filme mostra "a verdade" de cada lado dessa disputa - e isso precisa ser digerido pelo espectador que está acostumado a aderir (ou não) a uma única narrativa consolidada. Temos então dois filmes em um. E parte da disputa pela terra (a floresta, o rio, a fauna não importam) se dá pelo desconhecimento do outro: os povos originários são um empecilho, não humanos, não merecedores da terra porque não fazem com ela o que qualquer um (inserido no sistema capitalista) faria: gerar riqueza. 

Ao deixar as duas narrativas coexistindo, temos um retrato fiel da realidade. E é isso que dá grandeza ao filme.

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