terça-feira, 31 de outubro de 2023

Ideofones

Foto de Antônio More / MorePress

Minha fala no simpósio de Linguística Cognitiva era sobre sinais de pontuação desacompanhados em balões de fala nos quadrinhos e se eles podem ser comparados a gestos (que fazemos com as mãos enquanto falamos). Foi na comparação de quatro versões de uma mesma HQ (Asterix, o Gaulês em francês, alemão, inglês e português) que fiquei pensando sobre a natureza linguística ou imagética dos sinais de pontuação desacompanhados - e tive que atentar para o fato de que traduzir quadrinhos significa assumir do original os desenhos - mas não as cores! (caldeirão, escudo, mesa de pedra) e os balões de fala para verter as palavras dentro dos balões de uma língua pra outra. Chamei atenção do público pro fato de que o que não estava emoldurado por balões de fala podia ser suprimido nas versões - ou acrescentado.

 

Na sequência acima, é a versão brasileira que insere uma onomatopeia que não estava lá no original. Eis que uma moça ruiva (fiquei pensando que ela poderia ser a Pipi Langstrumpf adulta) com nome alemão e sotaque americano sugeriu que essa onomatopeia aí podia ser influência dos ideofones das línguas indígenas brasileiras.

Hoje a Sabine Reiter apresentou, no simpósio de Línguas Indígenas, sobre ideofones nas línguas indígenas amazônicas. Ela tinha dados de línguas que pertencem a famílias linguísticas diferentes, mas tinham ideofones similares porque eram línguas de contato (geográfico). Foram feitas muitas perguntas a ela, inclusive se tchibum, toquetoque, tiquetaque eram exemplos de ideofones em português (sim). 

Foto de Antônio More / MorePress 
 

Duas apresentações adiante, um indígena fazendo doutorado sobre tempo e aspecto em mebengokré (kayapó) mostrou alguns dados de pesquisa. No final da apresentação, já tínhamos nos acostumado que nessa língua havia uma distinção lexical (palavras diferentes) entre ações que afetam um objeto ou vários. Um exemplo era o verbo cair: se cai uma pedra, o verbo é tym (pronunciado tum); se caem miçangas, o verbo é rorok.

Não resisti e perguntei se esses verbos, tym e rorok não eram ideofones.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

XIII Congresso da Abralin

Começou o grande congresso da ABRALIN, em que a gente revê várias camadas do nosso passado estudantil/profissional. Sírio Possenti me reconheceu: 

- Rondônia, você é da Federal de Rondônia! 

- Não mais, agora estou em Brasília, no Ministério dos Povos Indígenas.

Na mesa de abertura, por exemplo, estava um representante do MEC que eu tinha visto recentemente na discussão pelas cotas de acesso à universidade. Na fala potente e de voz delicada da Adelaide, ela disse que a criação do Departamento de Línguas e Memórias no MPI foi induzida pela Associação. Eu acredito, já que existe o departamento, mas nenhuma Coordenação de Línguas Indígenas. 

Ao meu lado estava a Bia, com quem fiquei rememorando os tempos de USP, fila no terminal de ônibus, os congressos em que nos encontramos e depois os tempos de Unicamp.

Apresentei num simpósio de Linguística Cognitiva, onde encontrei discípulas da Dudu e ficamos lembrando daquelas meninas que sempre andavam juntas: Fernandinha Cruz, Jana Viscardi e Gabi Schumm. Como eu era orientanda da Rosana, acabei não acompanhando esse trio, mas eu sabia quem eram - até o que estudavam. 

Almocei no RU que em outros lugares chama "bandejão" por causa dessa bandeja-prato de metal. Depois fui tomar um café com a Natália, minha colega na UNIR que disse que conversamos muito mais nos congressos da vida do que no nosso local de trabalho.


Quando foi dito, por pessoas diferentes, que em Curitiba pode chover a qualquer momento, a reação dos não curitibanos era o riso. Mas choveu forte e fez sol. A cidade tem cheiro de musgo molhado.

sábado, 28 de outubro de 2023

Demarcação de território

Não precisa ir pra muito longe para aparecerem placas pintadas à mão anunciando que Jesus voltará, que Jesus te ama e que é fiel. São plaquinhas de PVC ou madeira presas a árvores ou postes. Alguma igreja demarca o seu território de ação.

Na Esplanada eu vi, outro dia, uma pipa sendo empinada no gramado do Eixo Monumental. A rabiola da pipa era um grande cartaz em que vinha escrito CONTRA o ABORTO. 

Surgiram, nessa semana, também na Esplanada, placas de papel presas em postes anunciando PENA de MORTE - plebiscito. 

Eu fiquei pensando: num país em que a pena de morte não é legal, só o fato de se anunciar o plebiscito a respeito dela já é um indicativo de quem está puxando a pauta: aqueles que querem proibir o aborto e legalizar a pena de morte (e se dizem evangélicos). A propaganda é a maior arma do fascismo porque se faz presente o tempo todo, para todos. Essa propaganda é um monotrilho colonizador, porque só mostra uma versão da questão. E não dá pra fazer propaganda por outra religião ou o ateísmo. Não adianta pregar a paz, não basta protestar. Teria que haver uma forma de desmontar, desvalorizar essas certezas.

Havia boatos de uma festa Halloween no MPI. Uns convidavam outros (com certa insistência) pra festa. A primeira vez que me dirigiram a palavra em relação à festa, perguntando se eu vou, respondi com outra pergunta: festa Halloween no Ministério dos Povos Indígenas? Por que vocês querem fazer uma festa americana importada e colonizadora no MPI? Com o passar dos dias, a festa se transformou em festa à fantasia. Os convites continuavam insistentes. Aí o meu colega pataxó anunciou que iria fantasiado de homem invisível. Pronto. Era a solução que todos precisavam pra declinar o convite: vou, sim, vou fantasiada de mulher invisível!

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

De volta à bicicletaria

Estudei o mapa pra saber onde era a bicicletaria mais perto de casa e levei a Amarilda lá. Queriam saber a marca da bicicleta pra botar na ordem de serviço: os adesivos já não permitem mais que se leia Canadian - que não é uma marca que teve vida longa. Disseram que fariam revisão geral e que taria pronta no dia seguinte, ao final do dia. 

No dia seguinte voltei lá e me disseram que o mecânico tinha tentado me ligar pra pedir a chave do cadeado (da corrente que prende a bicicleta no poste) que estava em volta da mesa (conexão entre guidão e quadro). Como eu não tinha recebido ligação, verifiquei o número que eles tinham anotado na ordem de serviço. Tava tudo certo. Alguém reparou que o prefixo não é 61? Ah, então, pois é. Era hora de fechar a loja, o mecânico já não estava mais lá e me pediram pra voltar no dia seguinte no primeiro horário.

Na manhã seguinte, eu estudei o mapa pra entender como eu iria da biciletaria pro MPI. Quando cheguei na bicicletaria, dois funcionários estavam sentados na calçada, vendo celular. Sentei na calçada também e esperei a loja abrir. Procuraram a minha ordem de serviço e não acharam. Qual é a marca da sua bicicleta? O quadro é Canadian, mas não dá mais pra ler, então procura por uma bicicleta amarela. Tá. É essa daqui? Não. 

No andar de cima, o mecânico chamou. Ele estava remontando a Amarilda e se declarou responsável por ela. Mostrou as sapatas de freio desgastadas que tinham sistema de troca de refil. Explicou que na loja não tinha sapatas iguais, porque hoje em dia o suporte e a borracha estão integrados numa peça só. Foi falando das peças e das marcas das peças que compunham a minha bicicleta e eu fui lembrando de tempos remotos. Essa bicicleta tem mais de 25 anos, não é? Tomei um susto e calculei que são só 17. Ele elogiou coroa, câmbio, até os raios: eu troco tanta peça que não aguenta.

Quando me despedi, avisei que no outro mês vou levar a minha Caloi 10. O rosto dele se iluminou: essa é mais antiga ainda, não é? Quadro de ferro - que cor que é? É das azuis? Não... a minha dificuldade com ela sempre foi achar os pneus. Pode trazer que a gente tem.

O caminho que eu percorri até a Esplanada era um tanto diferente do que eu lembrava de ter visto no mapa e exige de fato um planejamento, porque algumas vias são difíceis de atravessar. Demorei 38 minutos pra chegar (quantos anos faz que não pedalo?) e voltei por outro trajeto (cujo início precisa ser repensado). O biciletário do Bloco C fica no subsolo, então a bike ficou na sombra e escondida. Uma vez lá dentro, descobri que posso sair por outra rua que entrei - o que me faz recalcular a rota de ida ao trabalho. 

Amarilda tá nova de novo!

domingo, 15 de outubro de 2023

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

O velho Madeira

As notícias que chegam do rio Madeira são assustadoras. Eu vi a cota máxima (19,74m) do Madeira em 2014, e agora estou desacreditando que o rio tenha chegado ao nível mínimo jamais registrado (1, 11m). Fiquei chocada com a chamada de um jornal que tratava do rio, mas mostrava a foto da usina. Santo Antônio parou de operar em outubro. Olhaí que maravilha: usina hidrelétrica num bioma com regime de chuva sazonal.

Voltei a consultar os boletins da ANA (Agência Nacional de Águas) e conferi coisas curiosas: 1) sim, a linha preta que representa a evolução do nível da água atingiu a mínima histórica;

2) Tanto Jirau como Santo Antônio estão com a água na cota mínima (lembrando: a cota de Jirau varia entre 82 e 90m e a cota de Santo Antônio era 70,5 em 2014 e foi aumentada com o acréscimo de outras turbinas). Jirau segue operando, enquanto Santo Antônio parou - mas repare que Santo Antônio não abriu as comportas: segue acumulando água no reservatório. Do outro lado da barragem, o Madeira em Porto Velho está com 1m de profundidade.

O argumento que move o (agro)negócio é o abastecimento. É preciso continuar navegando no rio apesar da escassez de água para abastecer outros municípios. A solução proposta sela o fim do rio: dragagem. Fazer do rio um canal navegável é desfigurar o velho Madeira.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Abrir portas

A Lei de Cotas (12.711 de 2012) para ingresso nas instituições federais de educação superior e ensino técnico de nível médio seria avaliada dez anos depois de sua implementação. O fim dos 10 primeiros anos coincidiu com o governo Bolsonaro, que não levou adiante a discussão, de modo que o Projeto de Lei (PL 5384/2020) que avalia as cotas como positivas e amplia as cotas para quilombolas foi discutido agora, em 2023. Em primeiro lugar, as cotas são para alunos egressos de escolas públicas e estudantes com renda familiar inferior a 1,5 salários mínimos. Em seguida, abre-se para pretos, pardos e indígenas. 

Meu chefe perguntou no grupo whats se alguém poderia acompanhá-lo ao Senado. Eu me dispus e fui conversar com ele. Ao lado dele estava um assessor instruindo-o acerca da matéria a ser discutida em audiência pública. Éramos três, então. Apesar de ser ali embaixo, fomos de táxi, já que o calor está alto e a umidade extremamente baixa. Chegando no Anexo 2 do Senado, o segurança informou que a audiência pública na CCJ estava lotada. Como Eliel Benites era palestrante, ele passou. Gabriel Zanatta insistiu que Eliel precisava de assessoria e permitiram a entrada de só um. Eu fiquei de fora.

Os dois ficaram do lado de dentro, perto da porta, acionando contatos e tentando me trazer pra dentro. Veio chegando uma fila de parentes. Ouvia-se o canto e os maracás. Pararam na porta, em silêncio. O segurança ficou tenso e com o rosto enrubescido, foi falar com a primeira da fila. Iam pra outra audiência, do outro lado do prédio.

Recebi comunicado de que eu podia entrar. A assessora do senador Paulo Paim tinha liberado a minha entrada. Chegando na sala, reparei que as mesas e cadeiras estavam predominantemente vazias. Depois do primeiro pronunciamento, o Senador Paim pediu aos seguranças que liberassem a entrada de quem quisesse participar da audiência pública (mas quem tinha sido barrado antes não foi chamado de volta). As portas da audiência pública se abriram (um pouco tarde) porque alguém as tinha fechado antes.

Turbante e cocar
A mesa foi composta, de um lado, com palestrantes que defendiam (com dados) tanto a continuidade da vigência da lei de cotas como a ampliação para quilombolas; e de outro lado, por indivíduos que eram contra cotas raciais. Acompanhando as discussões, entendi que fora a Nação Mestiça, não havia entidades, instituições ou organizações que defendessem o abandono das cotas. Eram pessoas que citavam seus próprios estudos, sua própria situação e condição que percebiam que a disputa era entre conservadores (eles mesmos) e progressistas (que, segundo eles, tinham maior dificuldade para compreendê-los que vice-versa). Enrolado, né?

O principal argumento era a discriminação maior ainda que o negro sofria dentro da instituição de ensino, porque a cor de sua pele denunciaria que era cotista (como se não houvesse também concorrência entre os cotistas e como se as notas e rendimentos escolares fossem mais baixos). Eu fiquei pensando como o indígena é específico em relação ao negro: além de ser fisicamente identificável, o indígena vem de um outro mundo. Nesse outro mundo, a língua é outra, a moradia, comida, tempo, cultura são outros. E cada povo é um povo, com sua língua, cultura e cosmologia.

A fala do Eliel Benites apontou para possíveis transformações da própria instituição de ensino ao acolher estudantes indígenas. E isso faz toda a diferença. É o "envolvimento" de que fala Sonia Guajajara, é reflorestar mentes. As portas não se abrem só para as pessoas diversas (do branco classe média), mas também para os seus modos de ser.

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Xikiña

As mulheres indígenas que vieram dos territórios pra acompanhar a Marcha ofereceram artesanato e pintura corporal. Eu não tinha dinheiro (notas, moedas) pra pagar, nem elas não tinham maquininha em que eu pudesse usar o meu cartão (plastic money). No local não havia caixa eletrônico e eu entendi que eu não podia sair e voltar depois. Elas conversaram entre si na sua língua e uma delas disse pra mim que o marido podia receber pix.

Caminhamos em bloco (bem umas dez pessoas) pelo acampamento até localizar o marido. Anunciei que eu queria fazer um pix e ele disse que o celular dele tinha descarregado. Até tentei argumentar que eu só precisava da chave dele pra fazer a operação, mas depois entendi que, sem o celular dele ligado, ele não tinha como monitorar se a operação tinha sido realizada ou não. Talvez ele também não soubesse a chave pix dele... Em todo caso, entendi que, além de ter que ter um celular, o indígena precisava ter conta em banco pra receber pagamentos. Diante do impasse, o marido sugeriu que fôssemos até o motorista do ônibus.

Seguimos em bloco na direção do estacionamento. No caminho, algumas foram atraídas por uma banca de artesanatos. Como um corpo, de repente todas as mulheres indígenas estavam olhando artesanato, só Agnes e eu tínhamos ficado paradas no meio do caminho. Uma delas percebeu o destacamento, chamou as outras e chegamos no ônibus. O motorista tinha ido banhar, disse o homem deitado na rede esticada entre dois ônibus. Ele mesmo era motorista também, e se ofereceu pra receber o pix. Levantou da rede, entrou no ônibus, achou a carteira e tirou uma nota de 50. 

O valor que eu devia pra mulher era 40. Essa nota de 50 causou outro impasse. O grupo já tinha dispersado e restávamos só 5 pessoas: o motorista, duas mulheres, Agnes e eu. Uma foi conversando com a outra, lembrando quais notas ela tinha recebido de quem. Juntas, foram reconstruindo o inventário de notas recebidas e calcularam que ela podia receber a nota marrom de 50 se devolvesse uma nota vermelha de 10. A outra abriu a capinha do celular e retirou dali uma nota de 10. Eu fiz o pix de 40 pro motorista e quando terminei, já estava sozinha com Agnes. 

Eu não sei qual é o sistema numérico na língua daquelas mulheres, mas lembro que em tupi se contava 1, 2, 3, 4 muitos, um cacho, um enxame, um cardume etc. Além de entender a minha língua, as minhas possibilidades de pagar (cartão ou pix, que são muito mais abstratos que notas de dinheiro), ela tinha que entender as notas e que 50 - 10 = 40. 

Elas transitam entre dois mundos. 

Quando estávamos no MEC, na Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena, uma pessoa indígena tinha ficado de editar o texto que aparecia projetado na parede. Essa pessoa escreveu Chiquinha com a ortografia adotada pra grafar os nomes dos povos (x para os chiantes, k em vez de qu e ñ em vez de nh). Eu achei Xikiña uma solução surpreendente.

Estou lendo o último livro do Márcio Seligman sobre tradução decolonial com grande entusiasmo. Ele aponta que Walter Benjamin "escreveu sobre a tradução como uma “arcada”, que permite ver a outra língua, em oposição à tradução como “muro”, que barra a visão do outro, reduzindo-o aos padrões de gosto da língua de chegada."

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Marcha das Mulheres Indígenas

Eu estava quieta no meu canto, sentadinha na frente do computador no MPI, quando ouvi o chamado. Era a Marcha das Mulheres Indígenas passando. Muita gente desceu, se acumulou na calçada, viu a marcha imensa passando e fez registros pelo celular. O som dos maracás dava o ritmo. Um grupo atravessou a avenida pra fotografar mais de perto. Eu atravessei e me misturei na massa.
Falas potentes foram proferidas no alto do carro de som. Cantos foram entoados no gramado.
Desde Agnes, eu choro facinho, facinho. Enxuguei muitas lágrimas, mas senti que não estava só na comoção.

domingo, 10 de setembro de 2023

14 anos

No dia 10 de setembro de 2009 eu, Narcísio, Fátima Molina e outros (que eu não lembro) tomamos posse na UNIR. 14 anos depois, continuo vinculada à UNIR, mas em exercício em Brasília.

Hoje começa a Marcha das Mulheres Indígenas em Brasília. Agnes e eu fomos lá na Funarte, ver o que isso significa. Muitas barracas, muitas tendas de artesanato, até mesmo rostos conhecidos. Chirley Pankará e Altaci Kokama eu vejo também no MPI, mas rever Márcia Mura foi uma surpresa.

Agnes ganhou pintura corporal - que Márcia Mura logo reconheceu como Kayapó. Eu fiquei impressionada: tu reconhece o povo pelo grafismo? Depois, caminhando pelo acampamento, fui entendendo os padrões.

As mulheres levantavam poeira. Senti a energia delas.


sábado, 9 de setembro de 2023

Contador de histórias

Oito de setembro caiu numa sexta-feira depois do feriado de 7 de setembro. As escolas enforcaram, mas a Esplanada, não. Na verdade, foi um vai e volta de declarar o dia 6 como ponto facultativo (por questões de segurança) que no fim das contas não teve ponto facultativo nenhum. Agnes não tinha escola, então, na sexta, mas tanto Luis como eu precisávamos trabalhar.

De manhã ela foi pro CNDH e depois do almoço ela me acompanhou no MPI. Como a minha mesa é muito no cantinho e o meu vizinho estava lá, Agnes ficou na mesa do Daniel, que estava em missão. Todo mundo que via a criança loura na sala do Ministério dos Povos Indígenas procurava quem poderia ser responsável por ela e me encontrava sorrindo: é minha. Agnes pediu cola emprestada pra moça que senta na minha frente e foi fazendo bloquinhos de anotações. O meu vizinho ganhou um, a moça que emprestou a cola ganhou um também, até o Seu Jecinaldo ganhou um bloquinho. No final do dia, quando juntamos as nossas coisas, vi que a minha agenda estava toda recortada.

No final da tarde, Altaci pediu uma reunião pra nos explicar o conceito de língua-espírito. Agnes estava imersa no tablet. A certa altura, Eliel comentou que de manhãzinha ouvia na casa dele o canto de um pássaro que o transportava de volta pra aldeia. Urutau? Perguntei. Vendo que Agnes tinha tirado os fones e desgrudado os olhos da tela, ele contou a história dos irmãos Sol e Lua e do urutau: não pode imitar o canto do urutau, porque ele leva a pessoa embora, como aconteceu com a Lua.

Sol e Lua dormiram na margem do rio. Quando acordaram, de madrugada, com o canto do urutau, Lua imitou o canto do pássaro. Sol ficou dizendo que não podia, mas Lua achava graça. Sol adormeceu de novo e quando acordou, Lua não estava mais lá. Tentou atravessar o rio, procurou um lugar, mas o rio estava cheio de jacarés. Andou pra cima e pra baixo, procurando um jeito de atravessar o rio, até que um jacaré falou pro Sol que levava ele nas costas. Sol teve medo do jacaré, mas o jacaré prometeu que não o comeria. No meio do rio, o jacaré pediu pro Sol xingar ele: fala que o meu casco é duro, que eu sou espinhoso e que meus olhos são grandes demais. Sol respondeu que o jacaré era lindo, que ele se encaixava perfeitamente nas costas dele e que os olhos do jacaré eram os meis belos que já tinha visto. O jacaré seguiu carregando Sol até a outra margem, onde Sol logo pulou num galho e seguiu pelas copas das árvores. Depois de muito caminhar, encontrou o irmão Lua magro, faminto, abanando carnes de caça. O urutau tinha dito que Lua tinha que espantar as moscas, mas não podia comer a carne. Sol derramou farinha de mandioca por cima das carnes e quando o urutau chegou e viu as carnes cobertas de pontinhos brancos, achou que eram larvas e foi-se embora furioso. Lua e Sol se refestelaram e depois foram procurar o urutau. O pássaro estava embaixo de um pé de frutas, esperando as frutas caírem. Sol subiu nos galhos, chacoalhou bem e as frutas caíram na cabeça do urutau, amassando a cabeça dele. Por isso ele tem a cabeça chata.

No carro, voltando pra casa, perguntei pra Agnes se ela tinha gostado da história que o meu chefe tinha contado. Agnes ficou perplexa: Você ACREDITOU nas histórias dele???

terça-feira, 5 de setembro de 2023

A hierarquia e o ponto

Descobri recentemente - porque eu fui lá e perguntei - que eu sou obrigada a bater ponto no Ministério. A jornada é de oito horas diárias, sendo que uma hora (no mínimo) de intervalo é obrigatória. Isso significa que eu preciso fazer 4 registros: entrada, início do intervalo, fim do intervalo e saída. Professor universitário não bate ponto. Eu tinha dó das estagiárias da EDUFRO que tinham que bater ponto - mas rapidinho elas descobriram maneiras de burlar o sistema. Eu não terei parceiro pra burlar o ponto, tenho apenas um chefe que homologa o meu ponto.

Considerando que Agnes fica na escola em tempo integral (8h a 18h dá 10 horas), seria de se esperar que eu fosse capaz de cumprir 8h de trabalho. Mas não são 8h que eu dedico ao MPI: são 9, por causa do intervalo de 1 hora no mínimo. Eu, que desço pra almoçar no refeitório às 11h40 e volto pra minha mesa às 12h, preciso esperar dar 12h40 pra registrar o fim do intervalo. Agnes estuda numa escola localizada no alto de uma colina, a 20km da nossa casa. Isso significa que eu preciso de meia hora pra levá-la pra escola e depois preciso de mais meia hora pra buscar a menina. Pra fazer esses 80km diários, eu gasto uma hora do meu tempo de trabalho. Moramos perto do trabalho, mas longe da escola.

Nunca, desde que cheguei, consegui registrar 8h de trabalho.

Eu cheguei num Ministério em que todos - menos eu - são caciques (possuem cargo ou função paga). Eu sou assessora técnica e estou subordinada a uma coordenadora, um diretor, uma secretária e a ministra. Sou demandada com pouca frequência pelos meus superiores e essa ausência de plano ou tarefas me incomoda (apesar de, por outro lado, ser bom ter tanto tempo pra estudar). Quando decidi tomar a iniciativa de articular contatos e estabelecer agendas, a minha superior avisa que qualquer comunicação com instituições externas deve ser feita em nome do/a coordenador(a) ou diretor(a), e sempre em sua presença. 

Esse tipo de hierarquia é, pra mim, tão contraproducente quanto a obrigatoriedade do registro do ponto. Mas quem sou eu?