sexta-feira, 18 de abril de 2014

Hiato: ocupamos a usina de Santo Antônio

No dia 17 de abril, a partir das 8:00 aconteceu, no Mercado Cultural, na região central de Porto Velho, a assembleia popular dos atingidos - organizada pelo MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens).
Nela, lideranças das comunidades atingidas (marcaram presença as lideranças da Reserva Extrativista Lago do Cuniã; São Carlos do Jamari; Comunidade do Trilho, Linha do Ibama, Linha Sta. Inês e loteamentos em Jacy-Paraná; Jacy-Paraná; Curicacas; Reassentamento Santa Rita; Reassentamento Morrinhos; projeto de Assentamento Joana Darc; Bom Será; Ilha de Belo Monte; Itacoã; Bom Jardim; Tira Fogo; Igarapé do Tucunaré; Nazaré; bairros: Nacional, São Sebastião e Balsa) e representantes de movimentos sociais (MAB, MPA, MST, CPT, CONACOBAM) deram seus depoimentos de violações de direitos humanos ocorridas antes, durante e após a catástrofe ambiental que é a "cheia do Madeira" (coloquei entre aspas, porque não se trata de um fenômeno natural e imprevisível). Estes depoimentos, além de reivindicações dos atingidos, foram incorporados na Carta do Madeira, lida e aprovada ao final da assembleia.
É preciso ainda registrar a presença e o apoio do MPF e de professores da UNIR (inclusive a reitora e o chefe de gabinete) tanto no microfone como na plateia.

Foto: Daniela Moreira
Depois da assembleia popular, todos os presentes (aproximadamente 600 pessoas) entraram em vários ônibus que se puseram em movimento. Eu só descobri nosso destino quando já estávamos em movimento: a usina de Santo Antônio.
Foi a primeira vez que todos nós ali presentes pudemos passar da cancela e entrar no território da usina. O carro de som ficou no pátio do estacionamento, assim como todos os outros veículos.
Caminhamos aproximadamente 1 km até a barragem. Como eu não estava na frente, não sei qual foi a reação dos operários e responsáveis na usina com a nossa chegada. Lembrei do evento ocorrido em 2000 no Rio de Janeiro, quando moradores de rua e de favelas entraram pela primeira vez num shopping. Registrei que quase todos que usavam uniformes nos filmavam e fotografavam.
Quando chegamos perto da água, todos ficamos impressionados com o que vimos. Aquilo não era mais o rio Madeira, não era mais a Cachoeira de Santo Antônio. Aquilo era o reservatório da usina de Santo Antônio.
Um senhor levantava os braços e bradava: "Acabou tudo, minha gente. Acabou tudo."
Dali nos dirigimos ao refeitório da planta em busca de água, porque o calor do meio-dia era intenso e estávamos expostos ao sol escaldante.
Os trabalhadores da usina já estavam manifestando seu descontentamento com as condições de trabalho: reduziram a jornada, planejam greve. Quando chegamos com muitas mulheres e crianças, quando chegamos sem medo, quando chegamos em marcha, eles devem ter se animado.
Mas não se misturaram. As negociações com os imediatos da planta (os dirigentes do consórcio não ficam ali, apenas os contratados e subcontratados das empreiteiras) foram se desenvolvendo enquanto as pessoas usavam os banheiros e tomavam água.
Ficou acertado que seria servido almoço para todo mundo. Entramos no refeitório que lotou com a nossa presença.
Foto: Daniela Moreira
Enquanto eu decidia se ia pegar sobremesa, vi, pela porta de entrada, que a Polícia tinha chegado. Não eram muitos (12), o que nos deu a segurança de que não tinham vindo para nos tirar de lá à força.
Fomos muito fotografados pelos policiais e seus P-2. Uma comissão de cada uma das três posições (nossa, da usina e da polícia) se reuniu para discutir como proceder. Ficou agendada uma reunião com os dirigentes da usina Santo Antônio para discutir a responsabilidade dos consórcios sobre os impactos causados desde a implementação das usinas e a garantia de que haja compensações pelo dano causado.
O dirigente do MAB fez o encerramento da nossa visita-ocupação da usina e fomos transportados pelos ônibus da UHE Santo Antônio até os nossos ônibus, que nos aguardavam do lado de fora da guarita. A imprensa chegou quando os ônibus estavam saindo, mas ainda conseguiu coletar algumas entrevistas. 

O Diário da Amazônia impresso de 18 a 22 de abril apresentou uma matéria sobre a "invasão" do canteiro de obras da hidrelétrica. No formato digital do mesmo jornal, as últimas notícias são de ontem e anteriores ao evento.

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