quarta-feira, 30 de abril de 2014

Área de risco

Quando Dilma veio aqui, a fábula do lobo e do cordeiro foi ativada. Luis fez uma paródia:
O lobo recrimina o cordeiro por sujar a sua água. O cordeiro argumenta que está a jusante do lobo, portanto não poderia sujar a água do lobo. O lobo responde: mas o rio é meu. Você está sujando o meu rio.

Fui numa escola-abrigo onde a comunidade resiste para não ser removida pra o "abrigo único" e ouvi um ribeirinho dizendo que sabia que estava em "área de risco" quando morava às margens do rio. Fiquei pensando quando é que foi que as margens do rio Madeira se transformaram em "área de risco". Foi a partir da instalação das barragens.

Dizer que as comunidades ribeirinhas precisam ser removidas de seus territórios porque estão em "área de risco" é tão absurdo como se, na época da colonização, os portugueses justificassem o extermínio dos indígenas dizendo: "vocês estão em área de risco. Vocês vão pegar nossas doenças, perder suas identidades, cultura e terras. Vamos remover vocês do mapa."

No caso dos colonizadores portugueses, é evidente que os brancos ofereciam risco aos indígenas. No caso dos mega-empreendimentos, isso não é evidente ainda. Os efeitos são chamados de "desastres naturais" e não se procura retraçar a rede causal.

As hidrelétricas se apossaram do rio Madeira. Os reservatórios das duas usinas são chamados de pools, porque não correspondem ao formato canônico de uma bacia perto da barragem. O reservatório de Santo Antônio foi projetado (não sabemos hoje quais são as reais dimensões do reservatório) para alcançar em média 271 km2 e o de Jirau 302,5 km2 (de novo, a chuva provocou uma cheia sobre a cheia, de modo que é difícil dizer qual é a extensão real do reservatório). Como essa extensão se distribui no espaço? O rio não chega a ter 1 km de profundidade, nem 5 km de largura (de uma margem a outra). Os reservatórios-pool compreendem toda a extensão do rio: o de Santo Antônio vai da barragem de Santo Antônio até a barragem de Jirau. Por isso Mutum-Paraná não existe mais: estava no reservatório de Santo Antônio. O reservatório-pool de Jirau vai da barragem de Jirau até a linha imaginária que separa o Brasil da Bolívia. Em suma: as usinas tomaram posse do rio.

Ao segurarem água em tempo de cheia, as usinas decidiram sobre o destino de quem estava a montante e a jusante. E tudo em volta das usinas virou "área de risco" porque as usinas oferecem risco. Se a gente quisesse cortar o risco pela raiz, teria que remover as usinas.

2 comentários:

Matias disse...

lembro de uma reubião do moab (mov dos afetados por barragens)na usp, onde um quilombola (único negro no auditório) dizia que não sabia nem se importava com os mega wats, queria é poder viver ali onde cresceu e criar seu filho em paz. As barragens são complicantes que a vida moderna com os excessivos excessos têm dificuldade de frear... enfim, obrigado pelas noticias da fonte!

iglou disse...

É, Matias... tenho outra fala de ribeirinho atingido por barragem pra compor com o esse causo puxado da sua memória. Zé Riqueta disse, num debate promovido pela universidade com os consórcios das usinas (que não se fizeram presentes no debate): "Energia é bom. Mas o Madeira é melhor".

O que vai um pouco contra o senso comum é que a energia gerada por essas barragens será de uso doméstico. Em primeiro lugar, 80% de toda a energia gerada aqui vai direto pelo linhão para Araraquara. Em segundo lugar, a função principal dessas usinas é atender a indústria eletro-intensiva (como alumínio, por exemplo, que o Brasil exporta), não o cidadão comum.