segunda-feira, 21 de abril de 2014

Por que os desabrigados repudiam o Abrigo Único

No "Abrigo Único" de Porto Velho, gerido pela Defesa Civil de Rondônia através da pessoa do coronel Gilvander Gregório, o desabrigado pela cheia do Madeira recebe um "tratamento de choque", como diz o próprio gestor do abrigo. Gregório foi portariado para gerenciar o Abrigo Único por duas semanas. A hierarquia no Abrigo Único é composta por dois degraus: Coronel Gregório no primeiro, os desabrigados todos no último (segundo o coronel, ele tem o dever de dar o mesmo tratamento a todos os "maconheiros, drogados, prostitutas, bandidos, encostados ... e pessoas de bem"). Não há comissões, grupos de articulação, esboços de organização interna.

O abrigo tem a função de liberar as escolas dos desabrigados que habitavam as suas salas de aula (há depoimentos de escolas que nunca foram tão limpas como no tempo em que os desabrigados pela cheia moravam lá), para que o ano letivo iniciasse. Acontece que muitos desabrigados preferem ficar nas escolas (onde há paredes, rede elétrica, sombra, espaço para os animais etc.) a migrar para o Abrigo Único.

Luis e eu, enquanto professores da UNIR, conseguimos o que nem a imprensa conseguiu: entrar no abrigo e entrevistar as pessoas. Via de regra, quem tem como endereço o Parque dos Tanques não tem autorização para dar entrevista e só recebe visita no horário de visita. Chegamos lá num domingo, junto com a chuva.

O acampamento parece um campo de concentração: todos são monitorados por câmeras, ninguém entra depois das 22:00, as famílias não podem cozinhar a própria comida e estão à mercê das marmitas que chegam e dos apitos do coronel autorizando que as pessoas na fila possam pegar suas marmitas. Não há móveis nas barracas, não há termômetro que registre a temperatura lá dentro, não há quem suporte o calor no interior das barracas expostas ao sol.

Pedimos para entrevistar algumas pessoas de bairros e comunidades diferentes. As pessoas que entrevistamos foram trazidas pelo gestor do abrigo. Um deles, morador do Triâgulo, que sofreu ano passado e retrasado com o desbarrancamento, não se declarou insatisfeito no Abrigo Único. Relatou que depois das 18h a usina (Santo Antônio) abre suas comportas e a terra treme no Triângulo. A casa dele estava entortando. Para ele, o abrigo chega a ser melhor que a casa que ele teve que deixar pra trás.

Apenas um entrevistado disse que quer voltar para a sua casa no bairro da Balsa. Todos os outros entrevistados estão desterrados, desenraizados. Não voltam para suas casas por causa da lama por toda parte, por causa dos peixes apodrecendo na lama, do fedor, da contaminação dos poços pelas fossas, da inacessibilidade (nunca teve estrada pra Linha 19 em Joana Darc), da plantação e dos animais que morreram.

Todos, no Abrigo Único, esperam. Que o governo dê casa, que a casa não seja de placa, que o tempo passe logo. Um entrevistado nos disse que se sentia como se estivesse no purgatório. Estão sendo "pacificados" para aceitarem de bom grado qualquer medida compensatória que vier.

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