quarta-feira, 23 de abril de 2014

Nature x nurture

"[...] porque em janeiro caíram 800 mm de chuva na Bolívia, o que não é normal." (Fala do representante de Jirau na audiência na OAB no início de abril de 2014).

Aquelas chuvas que alagavam a minha casa quando eu morava na Rua Venezuela (a casa alagou 4 vezes enquanto morei lá: 9/nov/2009, 3/dez/2009, 31/dez/2009 e 10/jan/2010) eram de aproximadamente 120 mm. As três últimas aconteceram no período de um mês.

Dá pra dizer que 800 ou 500 mm de chuva num mês é normal? "Normal" é o que obedece a um padrão. E o padrão é ditado pelos dados passados. Se no ano que vem houver outra supercheia como essa de agora, a de 2015 será considerada normal em relação à de 2014.

O que não está sendo considerado com a devida seriedade é que o ciclo da Natureza está sendo paulatinamente alterado pela nossa ação no mundo. Assim, a Natureza deixa de estar separada do homem e passa a ser produto/efeito de sua intervenção. Mario Osava, em seu texto (clique ali para ler o texto na íntegra, aqui estão apenas fragmentos que recortei e colei) publicado pelo Envolverde/IPS, cita:
Transformar uma floresta em pastagem multiplica por 26,7 a quantidade de água que escorre para os rios e por 10,8 a erosão do solo, constatou em 1989 um estudo de Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Isso significa que metade da chuva que cai em pastagens vai direto para os rios, aumentando as cheias e a sedimentação. Essa perda diminui em proporção à presença de vegetação mais alta e de raízes profundas, segundo medições de Fearnside em terrenos com declive de 20% em Ouro Preto D’Oeste, município de Rondônia.
A tese de Marc Dourojeanni (entrevistado por Mario Osava e professor emérito da Universidade Nacional Agrária de Lima) é de que o desmatamento no Peru e Bolívia - e não a chuva que caiu na Bolívia - deve ser tomado como causa das alagações na Bolívia e no Brasil. Ou seja, a culpa pela enchente não é da chuva, mas daquilo que causou essa chuva excessiva. A complexidade está entrando em jogo:
Uma massa de ar seco e quente estacionou no centro-sul do país entre dezembro e março, bloqueando ventos que transportam umidade da Amazônia, e, assim, a precipitação se concentrou na Bolívia e no Peru. Esses eventos climáticos tendem a se repetir com maior frequência devido à mudança climática global, segundo climatologistas. O desmatamento afeta o clima e exacerba seus efeitos.
Ouvi muito o promotor do MPF-RO, Rafael Bevilaqua, dizendo que os consórcios que operam as usinas, estão sendo acusadas de causarem "dano objetivo", ou seja, faz parte das atividades de qualquer usina manejar grandes quantidades de água. Era responsabilidade dos consórcios fazer estudos que previssem essa chuva, assim como era responsabilidade deles ter um plano de ação para lidar com essas massas de água.

No entanto, os consórcios afirmam nada ter a ver com a catástrofe ambiental e culpam a Natureza. Acontece que a Natureza já virou cultura (nurture). Monoculturas e pastos:
Cultivar a terra “é pior” do que as pastagens, porque “limpa todo o solo”, eliminando inclusive a erva que alimenta o gado e retém um pouco de água, apontou Dourojeanni. Mas a pecuária compacta o solo pelo pisotear do gado, acelerando o escorrimento, acrescentou esse biólogo de origem norte-americana e nacionalidade brasileira que pesquisa a Amazônia desde 1974.
E mais adiante:
A Bolívia está entre os 12 países de maior desmatamento atual, revela um estudo de 15 centros de pesquisa divulgado pela revista norte-americana Science, em novembro. O país perdeu 29.867 quilômetros quadrados de florestas entre 2000 e 2012, indicam imagens obtidas via satélite e ferramentas do Google. A pecuária é um grande fator e se expandiu principalmente em Beni, fronteiriço com Rondônia. Ali teriam morrido 290 mil bovinos entre janeiro e fevereiro, segundo a federação local de pecuaristas. A avalanche hídrica ameaça inclusive a eficiência das usinas hidrelétricas.
Estamos nos acostumando a ver catástrofes no noticiário. O capitão do navio coreano que naufragou foi o primeiro a sair, deixando a tripulação à própria sorte. Ele achava que não tinha responsabilidade sobre os estudantes que morreram afogados. Santo Antônio aumentou a cota em pleno dilúvio para gerar mais energia. Tal como o capitão coreano, isentou-se da responsabilidade pelos afetados e "fez o melhor que pôde".

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