sábado, 4 de fevereiro de 2012

Quando a língua dá um nó na cabeça

Depois da aula de morfologia, em que estudamos processos de formação de palavras, pedi que os alunos resolvessem exercícios. Nesses exercícios, eu queria que eles chegassem à formulação de regras. No entanto, antes de chegar nas regras, era preciso experimentar com as palavras.

Montei paradigmas com lacunas:

objeto              pessoa               estabelecimento

pipoca             pipoqueiro         pipocaria
jornal               jornaleiro           jornaleiria/ jornalismo


Mesmo nunca tendo ouvido ou visto as palavras pipocaria ou jornaleiria, quase todos preencheram a lacuna.

Menos unânime foi a resposta para o reverso de tossir e espirrar. A grande maioria se esforçou muito para achar a resposta certa e acabou deixando a lacuna em branco. Dois responderam não tossir e não espirrar e dois intrépidos responderam que é destossir e desespirrar. Depois dessas exceções, vinha a pergunta: existe uma regra geral? Existe, foi a resposta da maioria.

Eu esperava que os alunos chegassem à conclusão que o processo de derivação não é homogêneo, linear. E esperava que eles percebessem que o processo de flexão, ao contrário, obedecia a paradigmas claros. Tão evidentes, que eu poderia conjugar nomes (eu detergento, tu detergentas, ele detergenta etc.), já que as terminações de um paradigma sempre seriam as mesmas - nos verbos regulares. Inventei três palavras, uma para cada conjugação: felecar, soler e talir. Eu esperava que eles tomassem como modelo as terminações de verbos como cantar, comer e partir. Uma única pessoa acertou as três tabelas de verbos: uma estrangeira.
Perguntei se estavam seguindo alguma regra. A resposta mais surpreendente foi: Não, segui meu estinto! (Com  ponto de exclamação mesmo).

Por fim, pedi que dessem três exemplos de palavras terminadas em diferentes sufixos (-ção, -vel, -izar, -ice, -ada). E não é que me aparecem, por exemplo, lição, piada, criável, musicalizar, difíce e calvice? Fada foi foda, porque eles não perceberam que um sufixo se junta a uma unidade de sentido; e f- não faz sentido.

Acho que os exercícios romperam barreiras linguísticas na cabeça dos meus alunos: se a professora pode inventar palavras que ela chama de logatomas, então agora pode tudo.

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