sábado, 31 de outubro de 2020

Galeria Agnes

 

Agnes e o sol

Girafa

Lista de compras

A dentista


Papai e Agnes bebê

Alberto, o fantasminha camarada

Borboleta temerosa

Monstros

Agnes brava

Todo mundo brigando com Agnes

 

A novidade é que agora ela desenha os sentimentos dela.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Agora eu uso óculos (pra ler)

2 anos atrás eu fui no oftalmologista reclamando que o celular me dava tontura, mal-estar, que a minha visão embaçava e que - especialmente de noite - eu não conseguia ler. O diagnóstico foi elaborado com base em elementos externos à minha visão: minha idade, vista cansada. Quando ele examinou meus olhos, disse que eu não precisava de óculos, mas deveria ajustar o celular para melhor acessibilidade (aumentar a letra, fundo escuro etc.).

Voltei no mesmo oftalmologista agora, porque não conseguia mais cortar as unhas sem sentir a agonia da imprecisão ou ler sentindo o foco sumir e voltar. Ler no papel para escrever no computador representava um esforço de ajuste de tamanho de fonte que me dava dor de cabeça. Como editora, sou leitora profissional. Como ler com a vista cansada?

Passei a usar os óculos de farmácia que o Luis tem espalhados pela casa - e o incrível é que a visão melhorava. Mas como eu desconfiava da qualidade dos óculos de farmácia (não precisa, eles são basicamente lupas), fui no oftalmologista que me encaminhou para a ótica onde encomendei um par de óculos na cor, peso e tamanho certos.



sábado, 24 de outubro de 2020

Linguística Românica

No meu Departamento, temos dois professores que sabem latim: Valdir e Cristina (ambos ex-orientandos do Jean-Pierre Angenot). Oswaldo dava aula de latim, mas já aposentou. Há anos o Valdir anuncia que agora é idoso e já faz inúmeras reuniões que Cristina anuncia sua aposentadoria.

Eu fiz a minha graduação na USP e tive aulas de Latim (1 ano com Chellini), Linguística Histórica (1 semestre) e Filologia Românica (1 ano com Bruno Bassetto). Não estudei nenhuma das línguas românicas (mas acompanhei 4 aulas de romeno com o Mário Viaro e não me lembro por que parei). Apesar dessa formação (distante no tempo), não me considero apta a dar o curso de Filologia Românica. 

A Escola de Verão do GEL estava oferecendo cursos no formato à distância. Me inscrevi no curso sobre sinais de pontuação (porque é isso que me ocupa agora) e no curso de Linguística Românica com o Ilari - pra medir o tamanho de uma possível disciplina de Filologia na UNIR. Antes de começarmos o curso, Ilari enviou tarefas: um questionário que avançava em páginas e complicava e que mostrou que o meu desempenho assim, a frio, era de 60% de respostas corretas.

Aí começou o curso e Ilari falava em latim, francês, espanhol, alemão, sueco, italiano e piemontês. Aí eu fui vendo que, por mais que eu leia o livro dele, assumir essa disciplina seria um projeto de vida. Assim que der, vou fazer ainda a segunda tarefa do curso, que consiste em escolher (e responder) 2 questões de uma lista de 52 questões relacionadas ao livro do Ilari.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Na costureira

Foi Luis quem descobriu a costureira ali embaixo num dos passeios a pé que dá no bairro com a Agnes. Já encomendou muitas máscaras com ela. Aí eu resolvi encomendar umas coisas também. Ela fez duas fronhas de almofada de sofá e uma fantasia de dinossauro pra Agnes.

A fantasia de dinossauro que chegou da China tinha ficado um tanto grande na Agnes e ela pisou em cima do rabo. A costureira usou essa como modelo pra fazer outra, em malha. Agnes escolheu o tecido e levou um livro de dinossauros pra costureira saber como é o estegossauro - pra máscara e pras placas nas costas. Só que, pra máscara, a costureira preferiu procurar moldes na internet e achou um tricerátopo. Agnes notou a diferença.

Quando as fronhas e a fantasia ficaram prontas, fomos lá e Agnes experimentou as duas fantasias: a da China ajustada e a nova. Ambas ficaram apertadas e a costureira usou giz pra marcar o lugar onde o fecho devia ficar. 

Hoje de tarde começou a ventar e o céu ficou escuro logo depois que a costureira mandou recado avisando que as fantasias estavam prontas. Apesar de serem só duas quadras de distância, Agnes e eu fomos de carro, por causa da chuva iminente. O ateliê de costura é o que deve ter sido a garagem da casa. Pra virar ateliê, imagino que a garagem tenha ganhado uma parede com janela e porta. A janela estava aberta quando chegamos e ela estava sentada à máquina. Cumprimentei. Ao ouvir o segundo oi, a costureira piscou pra mim e disse que tinham levado a fantasia de dinossauro embora, mas que ela tinha feito outra, parecida. Agnes ficou curiosa, bateu na porta e pediu pra ver essa fantasia de que ela falava. 

Abriu a porta, Agnes entrou. Vamos testar? Ih, vou ter que mudar o fecho. Sentou de novo na máquina. Agnes já tinha entrado e passou a explorar o ateliê de costura. Achou o molde de tricerátopo que a costureira tinha imprimido. Queria colorir. Pode levar. A costureira levantou pra pegar um carretel de fio azul. Foi cortando o fio na mão e inserindo na máquina. A agulha estava ao contrário. Trocou a agulha.

Começou a jorrar água. Na maior tranquilidade, a costureira tomou nota de que a água tinha voltado e que tinham deixado a torneira aberta. Não levantou da cadeira pra fechar a torneira, porque os joelhos doíam muito. Vai ter que operar. 

Ei, por que tem giz no chão? 

Porque eu não dou conta de arrumar tudo. Tu não quer sentar?

Eu não: eu não moro aqui!

A costureira terminou de pregar o velcro no lugar certo. Faltava cortar o fio que liga a máquina ao tecido.

Agnes, vê se tu acha uma tesoura por aí. Ontem meu filho levou todas as minhas tesouras pra cortar material de campanha. Ele faz adesivo, essas coisas. Acho que ficou só uma aqui. Onde foi parar? 

Achou a tesoura embaixo da outra fantasia da Agnes. 

Agnes gritou tchau correndo de braços abertos. Brincava que voava ao vento. E nem choveu.


 

Duas fantasias, duas experiências: a da China foi comprada por aplicativo. A de estegossauro com máscara de tricerátopo foi manufaturada por uma pessoa que passamos a conhecer.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Schlappen

Eu falo muito pouco alemão com a Agnes. Aí a comunicação em alemão não é natural, é só não-português, não-minha-língua. Ela entende bastante coisa, só não entende por que eu insisto em falar alemão com ela.

Ela tem tido, até agora, duas posturas em relação a isso: ou adivinhar o que eu estou querendo dizer (você falou que é pra eu pular na cama?) levando as coisas um pouco pro absurdo; ou respondendo numa língua inventada. 

Ontem, pela primeira vez, ela me respondeu em alemão.

Eu: Agnes, du bist barfuß. Zieh dir was an die Füße. Schlappen oder Socken.

Ela: Schlappen. 

Ela entendeu que eu falei alguma coisa relacionada a pés. Ela entendeu que eu estava brava e que ela tinha que fazer alguma coisa. Por fim, ela entendeu que eu ofereci uma opção a ela: chinelos ou meias.  E ela respondeu em alemão. A língua virou instrumento de comunicação, não apenas objeto de conhecimento.


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Negação

 - Agnes, qual é o contrário de colorir? (Eu esperava 'descolorir' como resposta)

- Não colorir.

- Qual é o contrário de feliz? (Eu esperava 'infeliz' como resposta)

- Triste.

Me parece que os prefixos ainda não são muito produtivos na linguagem da Agnes. Entendo que sejam deveras abstratos, já que estabelecem uma relação de negação (que tem várias facetas) com o radical. 

Em 1984 (George Orwell), no capítulo 5, Winston conversa com o dicionarista do regime autoritário. Syme explica que a atividade lexicográfica dele consiste em destruir palavras. A ideia central é que com poucas palavras, poucos pensamentos são possíveis. Restringir o vocabulário equivaleria a restringir a capacidade de pensamento. Quando há duas palavras com sentidos opostos, escolhe-se uma e aplica-se a ela um prefixo que expressa o seu contrário, eliminando assim a segunda palavra. Exemplo: bom e mau são duas palavras. Se ao invés de mau for usado um prefixo negativo com bom, como em imbom, a palavra mau pode ser eliminada.

- O que você achou disso, menina?

- Isso é nem acreditável!

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Informação

Glauco era um dedicado bibliotecário. Gostava mais de trabalhar no atendimento, auxiliando as pessoas a encontrarem o que buscavam. Todos buscavam informação, mas cada um tinha um jeito de perguntar, explicar o que queria, anotar e pesquisar. Depois de anos pensando sobre a informação, Glauco se deu conta de que ela não está simplesmente lá: ela proporciona a interação da pessoa com as ferramentas de busca, da pessoa com outra pessoa, da pessoa com o espaço. A palavra informação carregava, então, mais informação que se encontra no dicionário. Intuitivamente, entendeu que informação podia ser um conceito.

Decidiu retomar os estudos e ingressar no mestrado. Como tinha experiência profissional na área, participava com gosto das discussões em sala de aula e ficava maravilhado com o que os autores afirmavam sobre o que ele conhecia na prática. Ficou espantado com o fato dos filósofos gregos já terem pensado sobre os mesmos problemas que lhe interessavam agora.

Chegou a hora de escrever o seu texto. Buscou informação, copiou trechos e os ordenou meticulosamente. Cada frase que escrevia era acompanhada, no final, por parênteses que continham o nome do autor e o ano da obra de onde Glauco tinha extraído a informação. As páginas iniciais ficaram povoadas de (ARISTÓTELES, 2003), porque a edição que Glauco encontrou na biblioteca era da Martin Claret (editora que ganhou fama por plagiar textos). Para Glauco, Aristóteles não era Aristóteles. Para Glauco, Aristóteles só existia naquele livro de 2003.

Glauco até escrevia com suas próprias palavras, não era tudo citação, não, mas ele não pensava nada daquilo, só reproduzia. Ele conseguia resumir e articular diferentes autores, mas não conseguia se distanciar deles, perceber que eles lidavam com conceitos, não com coisas; e que conceituar é uma forma de entender um problema, não necessariamente "a verdade" sobre aquilo. Se cinco autores elencavam categorias diferentes para o mesmo objeto, Glauco copiava todas e citava a fonte. Não importava que houvesse sobreposição nas categorias, não importava que uns autores avançavam a partir do pensamento de outros. Glauco reproduzia fielmente o que cada um tinha escrito.

O orientador elogiou o trabalho de coleta de informações no extenso trabalho de Glauco, percebeu a técnica de escrita dele, exaltou o volume de fontes consultadas, mas não percebeu que nem metade dos autores citados no texto constavam nas referências bibliográficas. Os membros da banca não leram a dissertação com olhos de revisor, nem exigiram que Glauco fosse original ou desenvolvesse pensamento próprio. Consideraram que a dissertação era um ótimo catálogo sobre informação.

O primeiro leitor da dissertação do Glauco não conseguiu localizar, na biblioteca, nem metade dos autores que Glauco usou no texto (e não informou nas referências). Não conseguiu entender o que Glauco aprendeu sobre informação nesse processo de fichamento - era isso que parecia a dissertação.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Fotografia

 

Agnes adora fotografar, mas grande parte do que ela captura é repetido. Ela grava inúmeros vídeos de si e tira zilhões de fotos do chão, da cama, da parede. Um dia eu reclamei dessa legião de fotos pra imobiliária e mostrei pro Luis uma longa sequência de fotos que Agnes fez de mim (sem que eu percebesse). 

Quando chegou nessa foto, ela comentou: aqui você está presa. 

Entendi, nesse momento, que ela entendeu que fotografia vai além do registro.


terça-feira, 6 de outubro de 2020

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Livro pronto

Autor submete livro em editora e recebe os pareceres. Frio na barriga: será criticado. Demora a ler os pareceres, mas não consegue deixar de especular sobre o seu conteúdo. Abre o email. Baixa o arquivo. Começa a ler. Voa sobre a parte elogiosa, mas na parte das cobranças e sugestões, as letras se embaralham. O coração acelera, é difícil aceitar, concordar, entender. Mas o parecerista reservou tempo e esforço mental para o seu manuscrito. O parecerista merece uma resposta, merece ao menos o esforço de uma resposta. O autor modifica seu texto; e conforme a escrita desenrola, desenvolve, progride, o pensamento avança e o entendimento do próprio texto fica mais claro. O que era labirinto, fica pequeno.

Organizador submete livro em editora. Ele tinha um tema e muitos alunos que pesquisam assuntos que podem ser arranjados em torno desse tema. Pediu a esses alunos os seus trabalhos de conclusão de curso, escreveu uma apresentação descritiva de cada capítulo e chamou isso de coletânea. Chegam os pareceres. Um é elogioso, mas sem detalhes: parece até que o parecerista nem leu o livro. O segundo parecer é de um especialista respeitado na área, que não admite que os autores não alcancem uma visão crítica sobre o assunto de que tratam. Esse parecer é cheio de ideias, propostas e posição. Esse parecer pretende explorar mais o potencial dos autores e dos textos do que apontar falhas ou faltas. Quem recebe os dois pareceres é o organizador. Ele rumina se os alunos entenderão aquilo tudo, se serão capazes de atender às expectativas do parecerista. Pensa em escrever uma apresentação que responda ao parecerista exigente - e manter os capítulos como estão. Percebe que o resultado seria esquizofrênico. Mas os alunos precisariam amadurecer muito para chegar onde o parecerista os quer ver. Pensa: o bebê nasceu, e mesmo os pais não gostando da fisionomia, não tem como trocar os gens da criança! Informa à editora que os autores não querem nem têm condições de fazer as alterações sugeridas. Depois de ouvir sobre a função dos pareceristas, sobre a aventura da escrita, sobre o resultado do processo, decide conversar com os autores de cada capítulo. Organiza uma planilha de reuniões, iniciando pelo capítulo 1.

Autor e organizador submetem versão final à editora, aguardando imediata publicação. Revisora devolve o texto todo marcado de vermelho, cheio de perguntas e sugestões. Fez mudanças incompatíveis com os manuais de redação consagrados e explica que são normas da editora. Autor e organizador dedicam mais tempo e paciência a esse livro que deveria estar pronto desde a primeira vez que o entregaram. Já não é mais o mesmo texto. Diagramador formata o texto de acordo com o padrão dos outros livros da editora. Deixa páginas em branco. Editor pede ISBN, bibliotecário faz a ficha catalográfica e algum técnico da universidade ligado aos periódicos pede DOI. O técnico da gráfica, que reconhece a gramatura do papel ao simples toque, imprime os livros. Guilhotina, costura, cola quente, acerta a capa. A secretária contrata uma transportadora que leva os livros à editora. Editor confere se está tudo em ordem. Não está. Quando lê no papel, percebe erros que ninguém tinha captado, porque os leitores leram a palavra como um todo, não como uma sequência de letras que precisa ser lida na ordem certa. Letras trocadas na lombada, que coisa! Recado para o diagramador que acerta a ordem e manda imprimir de novo.

Enquanto autores elaboram o texto, outros atores entram em cena para confeccionar o livro. Os autores concentram sua expectativa de publicação no tempo da escrita. Os outros atores percebem o tempo do trabalho artesanal. Publicar um livro demanda tempo e atenção de muitos olhos e mãos.

domingo, 27 de setembro de 2020

Música como instrumento de opressão

Passei parte da quarentena lendo Gonçalo Tavares, o que não é fácil nesses tempos difíceis. Na tetralogia O Reino, estamos diante de um mosaico de guerra, força, espera, loucura e esforço de entendimento da violência. Um homem: Klaus Klump talvez seja o mais brutal de todos os romances que compõem o Reino, porque é escrito de maneira tão caleidoscópica e fragmentária. O cenário de fundo é a guerra e as cenas mais brutais são, a rigor, lacunas no texto - mas suficientemente bem preenchidas na imaginação do leitor. 

Me chamaram atenção duas passagens em que a música se torna instrumento de opressão:

"Um dia, Johana regressava da mercearia com três maçãs caríssimas, e escutou uma orquestra que no meio da rua interrompida [um cavalo morto ocupava a via] e quase vazia de pessoas, tocava músicas que ela não conhecia. Não havia palavras, mas a música não era do seu país. Esta música não é daqui, pensou Johana, e começou a correr muito, em direção a casa, e enquanto corria, chorou.

A música é um sinal forte de humilhação. Se quem chegou impõe a sua música é porque o mundo mudou, e amanhã serás estrangeiro no sítio que antes era a tua casa. Ocupam a tua casa quando põem outra música." (p. 20)

 Mais adiante:

"Uma orquestra militar ascende pelo edifício central e a música desce como os aviões que querem atacar. Transformaram a música numa peste, numa forma de doença que vem pelo ar. 

As mulheres e as crianças ganharam medo da música. Esta música anuncia-os." (p. 26)

Parêntese: eu me sinto assim, invadida e violada toda vez que o brega (cabaré, zona) lá embaixo bota a música (brega) no volume lá em cima.

Por fim, a música nativa, conhecida, familiar, é tábua de salvação:

"De repente Klaus viu o que parecia ser uma claridade intrusa na sua noite individual; mas não. Era um som. Era o som de Alof [companheiro] a tocar [flauta]. No meio da massa negra. Terá a música luz, perguntou-se Klaus. Não uma luz de eletricidade, não uma luz de máquina, mas uma luz orgânica: como certos animais deitam luzinhas nas ancas: os pirilampos, certos peixes: terá a música uma luz orgânica?" (p. 76)

Concordo com Adorno: gostar de música é reconhecer essa música. Por isso a música que interrompe o  silêncio, a música indesejada e desconhecida agride.

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Marginalia

Depois que ela se foi, ele dedicou muito tempo a descobrir quem ela era. Meditava sobre cada objeto dela, tentava encontrar ordem no guarda-roupa, nas fotos, nos livros. Folheando os livros, percebeu que ela tinha o hábito de fazer anotações nas margens das páginas. Em outras páginas, sublinhava trechos, dobrava a pontinha da página, desenhava símbolos obscuros. Começou a ler os livros e as intervenções dela na esperança de refazer o caminho dos pensamentos dela enquanto ela explorava o livro. Examinou cada marca inserida por ela, procurou na memória da vivência com ela por passagens semelhantes, tentou concatenar as anotações da leitora com o que conhecia dela. Entendeu que algumas vezes ela traduzia partes do texto, outras vezes se espantava com as exclamações que ela posicionava ao lado do que ele considerava óbvio e aborrecido. No entanto, a maior parte das anotações, marcas e intervenções dela nos livros permaneceu para ele um grande mistério.


*

A nova namorada já se permitia a esquecer objetos na casa dele. Na mesa da sala, ela tinha deixado um livro. Pela capa, parecia um romance. Ele não lia romances, apenas livros técnicos que o ajudassem a adquirir conhecimento. Na verdade, ele não lia: ele estudava através dos livros. O título do livro não lhe despertou a imaginação. Seguiu para a contracapa, onde esperava encontrar uma espécie de sinopse da trama. Lendo duas linhas ao mesmo tempo, percebeu o tema. Abriu o livro depois das páginas iniciais e se deparou com um trecho sublinhado a lápis. Foi fisgado. Sentou, lendo. Mais tarde, precisou acender as lâmpadas. As anotações que ela fazia nas margens do livro dialogavam com o texto, davam brilho à ideia, saltavam para a vida dela. Quando ele entendeu que ultrapassava o ponto em que ela tinha parado a leitura, decidiu marcar passagens para comunicar com ela. Ele, que jamais escrevia nos seus livros, ousou comunicar com a leitora deste livro através de suas anotações nas margens.


terça-feira, 22 de setembro de 2020

Aprender a contar

Lembro de uma viagem que fizemos a Minas Gerais em que Agnes foi o centro das atenções na casa da tia do Luis. Lembro da Sonia contando para as irmãs que Agnes tinha descido as escadas contando um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez.

Morando aqui no prédio, Agnes precisou aprender pelo menos o número 7 e o T do elevador. Com o tempo, foi memorizando os números, mas foi um longo processo. No começo da quarentena, brincamos muito de amarelinha: eu colava fita crepe no chão e usava um polvo (cheio de areia) para funcionar como pedra. Ela confundia o 2 com 5, não lembrava do 6 etc. 

Passei a jogar Uno com ela. A regra era seguir a cor ou o número. Como eu ficava narrando o jogo, ela apenas identificava os símbolos, mas não dizia os nomes dos números.

Aí a quarentena se estendeu por mais tempo que a minha criatividade para novas brincadeiras permitiu e Agnes passou a querer brincar de esconde-esconde. Ela contava: um, dois, três, quatro, sete, oito, nove, dez! Eu reclamei que eu tinha menos tempo de me esconder, porque ela engolia o cinco e o seis. Anotei todos os números numa fileira e dei pra ela. Nas primeiras vezes, deu certo. Daí ela passou a confundir 6 com 9. Escrevi o nome de cada número abaixo do algarismo, confiante de que ela saberia reconhecer o s de seis e o n de nove. Deu certo, mas ela sempre precisava do papel. 

Muitos esconde-esconde depois, o papel tinha sumido e ela voltou a saltar do 4 ao 7. Apostei na rima:

um, dois, três

quatro, cinco, seis,

sete, oito, nove?

Dez!

Agora fixou. Agora ela só conta assim, quase cantando.

domingo, 20 de setembro de 2020

Cobertor de fumaça

Não vejo nuvens há semanas, talvez meses. Estamos embaixo de um grande cobertor de fumaça. Assistindo a uma matéria sobre as queimadas no jornal, Luis lançou o desafio: mostra uma imagem de soja queimando, de boi acuado pelo fogo! Claro que não tem: os fazendeiros não são vítimas.
Os dias amanhecem brancos. Depois do meio-dia, aparece o sol e a fumaça dissipa um pouco. Dá pra ver mais longe.
Hoje de noite caiu uma baita chuva de vento. Vento doido, desordenado, varrendo tudo com força, forçando a chuva pra dentro das janelas. Espero que amanhã tenhamos céu azul. Mas quanto tempo dura?

sábado, 19 de setembro de 2020

Serviço cancelado

Durante a pandemia, ninguém entrou na nossa casa: nem os amigos, nem os consertadores. E assim passamos longos meses com uma privada inativa, porque a válvula de descarga disparava e uma cachoeira passava pelo vaso e até alagava o chão, porque o vaso estava solto. Aí a Rose voltou a limpar a casa e paralelamente o pessoal do prédio ficou decifrando enigmas hidráulicos. Semana passada descobriram uma garrafa pet dentro de um cano, veja só. Nesse dia, veio o encanador que cuida de todos os vazamentos do prédio. Como eu sabia que ele vinha e nós tínhamos previsão de passar o dia fora de casa, pedi a ele que consertasse a válvula disparada e fixasse o vaso no chão.

A válvula ele consertou sem dificuldade, o vaso ele disse que não afixou porque nem daria pra testar, já que naquele dia o prédio todo ficou sem água. Entendi que ele me cobraria mais uma visita se retornasse para resolver o que não tinha feito na primeira vez e lembrei que temos seguro residencial que oferece assistência. Liguei na seguradora que agendou um prestador de serviço para terça-feira, entre 14h e 16h. O prestador (provavelmente terceirizado) tinha essa janela de 2 horas para chegar. Mandariam um link através do qual eu podia acompanhar o pedido e a localização do prestador de serviço. 

No dia e hora marcada, o link não funcionava. Liguei na seguradora e a atendente informou que o prestador estava terminando outro serviço e que seguiria para cá. Extrapolou o horário, eu liguei de novo na seguradora. Entendo, senhora, sei perfeitamente como é frustrante perder a tarde esperando por alguém que não vem. Tentei ligar para ele, mas ele não está atendendo. Vou cancelar e agendar outro. É outro prestador que vai na sua residência, ok?

Só que o prestador de serviço não foi informado de que tinha sido cancelado. Veio uma hora depois de expirada a janela de tempo. Luis olhou pela janela e viu um carro muito velho, amassado, sujo e cheio de peças fazendo manobras agressivas enquanto o escapamento explodia combustão. 

O segundo prestador estava agendado para o dia seguinte, entre 8h e 10h. Faltando 5 minutos para encerrar a janela, o prestador apareceu, fez o serviço, limpou tudo (!) e foi embora. A seguradora me pediu que eu avaliasse o serviço dele e eu dei o assunto por encerrado. Ao meio-dia o porteiro ligou, dizendo que o rapaz da seguradora estava aqui para consertar a privada. Opa, o serviço já foi feito. Olhei pela janela e observei um Uno quadrado e velho todo batido, cheio de sucata dentro soltando explosões pelo escapamento e fazendo manobras imprudentes. Liguei na seguradora e avisei que o prestador que teve o serviço cancelado tinha voltado.

A outra história começou antes, se arrastou por mais tempo e só teve desenlace agora. Era junho, terceiro ou quarto mês de pandemia. Luis tinha pedido mais canais de TV na assinatura e mais megas de internet também. Uma semana depois, o dia já escurecendo, o porteiro ligou dizendo que um técnico da Oi estava aqui, querendo instalar um ponto adicional. Não estávamos mais no horário comercial, não tínhamos pedido ponto adicional e ficamos escandalizados com a ousadia de um técnico querer entrar em nossa casa em plena quarentena. Foi uma longa negociação com o técnico via interfone e no final ele foi embora. 

Luis ligou na Oi reclamando que um técnico queria instalar ponto, quando o que ele tinha pedido se resolve via sistema. Deram prazo de 10 dias e o plano voltou ao básico (perdemos vários canais). Luis reclamou, deram outro prazo, mas nada mais aconteceu. 

Paralelamente a isso, Luis tentou fazer downgrade na Claro (celular), porque como não saímos de casa, não faz sentido ter um pacote de dados de internet tão grande se tem wifi em casa. Não conseguiu. A Claro continuou cobrando o mesmo valor e oferecendo um produto obsoleto na pandemia. Luis cancelou a Claro e pediu um chip da Oi. Já chegaram 3 chips da Oi aqui e nenhum deles é ativado, porque Luis está com o contrato bloqueado na Oi. Foi uma longa jornada de ligações, com atendentes diferentes (provavelmente terceirizadas) que viam telas diferentes e diziam coisas desencontradas. Conversando com a Ouvidoria, ele sentia mais firmeza, mas todas davam prazo de 10 dias e nada acontecia. 

Quando ele perdeu a paciência, mandou cancelar tudo. Mas senhor, todos os seus pedidos já estão cancelados. Parece que o seu contrato foi bloqueado. Quem bloqueou o meu contrato, já que estou há meses ouvindo de vocês que em 10 dias tudo será resolvido? Não dá pra saber quem bloqueou. Técnico consegue bloquear? Isso tá parecendo vingança do técnico que veio aqui e não conseguiu instalar o ponto que eu não pedi. Sim, é possível.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Olhar de diagramador

Quando eu assumi a EDUFRO, Leidijane era a diagramadora. Eu me espantava com o olhar que ela tinha do texto. Ela via a mancha textual, enquanto eu lia as palavras. Eu não sei olhar para um texto sem ler as palavras. Ela reclamava quando tinha que ler as palavras (porque isso é função do revisor).

Agora que a EDUFRO terceirizou a produção de seus livros, percebo claramente o valor do trabalho do revisor e do diagramador. O revisor recebe um valor mais alto: negocia com os autores, argumenta para defender as alterações feitas. O diagramador recebe um valor mais baixo, porque, em essência, a função dele é transportar o texto de um programa (Word) para outro (InDesign). As reclamações que o diagramador recebe concernem espaços, organização de elementos gráficos. 

Nesse processo de editoração em que estamos envolvidos, 18 livros estão sendo feitos pela mesma empresa. Cada etapa (revisão, diagramação e impressão) prevê 3 provas. Por exemplo: revisor apresenta primeira prova, autores avaliam, fazem ajustes. Revisor corrige, apresenta segunda prova. Autores percebem outros erros que tinham passado, fazem emendas, revisor corrige e apresenta a terceira e última prova. Aí entra o diagramador. Só que quando o texto é apresentado em PDF, com 33 linhas por página, no formato já do livro, os autores percebem mais "gralhas" e o diagramador precisa resolver essas demandas.

O meu contato com a empresa terceirizada se dá através do diagramador. É para ele que eu repasso os livros, as capas, as demandas. O diagramador, que recebe o menor valor de todos, acompanha todo o processo de confecção do livro (ele até precisa entender de impressão). Só que o modo como ele lê o texto é ou macro (mancha textual) ou micro (resolver gralha). Num livro, por exemplo, os autores sugeriram que uma vírgula numa frase fosse convertida em ponto final. O diagramador fez isso. Vírgula virou ponto. Mas o que vinha depois do ponto permaneceu em letras minúsculas, porque o olhar micro não foi além do ponto.


domingo, 6 de setembro de 2020

Telepatia

Cena: Marido e mulher na cozinha, reclamando do calor e da sede que não sacia. Homem tira polpa de cupuaçu (de 1kg) do congelador e deposita na pia. Criança demanda atenção, dispersam.

Mulher volta à cozinha depois de um tempo e pensa: "Puxa, ele deixou a polpa aqui na pia e não fez suco. Se derreter, vai estragar. Vou devolver ao congelador."

Marido retorna à cozinha depois de mais tempo ainda, procura pelo suco de cupuaçu na geladeira e pensa: "Ela não fez o suco! Pôxa, eu deixei a polpa bem aqui pra ela fazer..."

Além dos pensamentos serem desencontrados, as expectativas em relação ao outro também são.

 


sábado, 5 de setembro de 2020

Sexta no sítio

Flor de cupuaçu

 

Flor de cacau-rana
Agnes fazendo cócegas em Rompe-mato



quinta-feira, 3 de setembro de 2020

domingo, 30 de agosto de 2020

Trilha paralela à usina

  

Vivas pra Agnes que caminhou a trilha inteira com os próprios pés! Era uma trilha desconhecida, cheia de altos e baixos, caminhos de água e bifurcações.

Narcísio me revelou que essas plantas (acima e abaixo) são parasitas de raiz. Achei fascinantes!
Quando achávamos que toparíamos com o muro da usina (o som das máquinas era mais alto que os sons da floresta), vimos esse lago cheio de árvores mortas. Deve ser consequência do reservatório.
 
Um pouco mais adiante, o linhão apareceu, a vegetação mudou, apareceram pedras no caminho e decidimos voltar antes de sermos vistos.

Ouriço

 

As castanhas (do Pará) ficam alojadas dentro do ouriço. 


Da sapucaia também. Na casa do Jairo tem esses dois tipos de ouriço. E tem outro ouriço: o porco-espinho. É da família dos gambás, (ninguém caça ou come), sobe em árvores e rói tudo, começando do topo. Jairo conta com rancor como o ouriço matou coqueiros, jambeiros e outras frutíferas. No pé de caju ele achou esse espinho:


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Sexta-feira



Agnes e Jairo desenhando com pedras de areia

Rompe-mato e Agnes brincando

A sapucaia perdeu todas as folhas, ficou só o ouriço
Flor da sapucaia

Flor da sapucaia

Pintinhos que Agnes ganhou. Ficaram na varanda por umas semanas. Depois demos pro Jairo, que tinha o projeto de fazer um galinheiro.

Flor de cacau-rana

Ouricuri



terça-feira, 25 de agosto de 2020

Invariável

A classe dos advérbios é um saco de gato. Não é fácil sistematizar a classe, porque os advérbios apresentam comportamentos variados. Mas uma coisa têm em comum, segundo a Gramática Tradicional: são palavras invariáveis quanto à forma. São palavras que não são flexionadas de acordo com número, gênero, pessoa, tempo, modo nem nada. Isso significaria que nada é sempre nada. Só que não.

Nadinha

Nadica de nada

são exemplos consagrados. Novidade é o superlativo furioso da Agnes: nadíssima!


domingo, 23 de agosto de 2020

Viajar na pandemia

A madrasta de Luis faleceu e o neto dela (sobrinho dele) ficou na casa em Cachoeiro de Itapemirim (ES), esperando pelo meu marido. Depois de lutar muito contra uma labirintite que foi sendo tratada de diferentes maneiras, Luis sentiu que estava pronto para viajar.

Cachoeiro não tem aeroporto, Vitória não tem boa conexão com Porto Velho: o jeito foi viajar pelo Rio de Janeiro. Conseguir passagem saindo de Porto Velho não foi fácil, porque há poucos voos e todos estão sempre lotados. De fato, ele se sentiu mais vulnerável no avião de Porto Velho (tanto na ida como na volta). Dormiu em hotel no Rio, seguiu de ônibus para Cachoeiro e ficou instalado na casa de Matheus (irmão da Madá, tiodrasto do Luis), porque Matheus estava passando a quarentena na casa da namorada em Vitória. 

Luis passou 8 dias em viagem: esvaziando a casa do pai, doando livros, despachando livros, fósseis e pedras pelo Correio. O pai do Luis era engenheiro de minas e achou muitas pedras e fósseis durante a vida profissional. 

Agnes se enchia de expectativas. Papai vai me trazer tesouros!

Nesses dias em que estive sozinha com a Agnes, vi a geladeira esvaziando. Até tentei levá-la ao supermercado de máscara, escudo facial e luvas, mas fomos barradas na porta: criança não entra no supermercado. Emprestei o carro pro Jairo (como fazemos sempre, porque a vida no sítio aumenta as distâncias) e ele fez compras pra mim. Não veio o que eu teria comprado, mas ele fez o favor de consertar o carro. Era o ventilador que estava com a correia solta, fazendo barulho de lata véia. Teve grande dificuldade de achar a peça: rodou umas 5 mecânicas depois que o primeiro tentou trocar a peça e percebeu que era de tamanho diferente. Conseguiu a peça na concessionária, mas a um valor exorbitante. Depois de correr atrás desse ventilador por dois dias, conseguiu desenrolar as coisas dele.

Nesses dias em que estive sozinha com a Agnes, não consegui sentar no computador. Nem de noite, depois de ela dormir, porque eu deitava com ela e dormia junto. Tentei acordar mais cedo que ela de manhã, mas não deu muito certo. O que eu consegui fazer foi deitar com o computador no colo ao lado dela e trabalhar em pareceres enquanto ela tirava o cochilo da tarde. De regra, ela dorme direto por uma hora. Se acordar sozinha, sai da cama. Se acordar do meu lado, mesmo que eu esteja com o computador na barriga, ela dorme por mais uma hora.

Rose, nossa empregada, foi beneficiada pelo programa de redução de jornada e do trabalho por 4 meses. Eu pagava 30% do salário, o governo o resto e ela não vinha trabalhar. Aí o programa não foi prorrogado e eu pedi a ela que viesse e limpasse a casa enquanto nós estivéssemos fora. Agnes e eu fomos passar o dia no Jairo.





Rose demorou a terminar a faxina (tudo bem, em dias de faxina eu passava o dia todo limpando a casa) e Agnes não dormia de tarde e ia ficando cansada, irritada, desatenta. Voltamos às 15h cansadas e pensando como seria a próxima vez que ela viria.

Veio a friagem. Começou com trovões, muito vento sul e chuva. Minha dor de cabeça diminuiu quando a chuva desceu. Mas o pé começou a mancar. 13 anos atrás eu quebrei o pé direito e desde então sou um barômetro (Wetterfrosch me é mais simpático). Ontem a dor no pé foi dor vermelha, de carne viva, como no tempo que passei no hospital, sem posição pra dormir.

Aí Luis voltou de viagem. Fomos ao aeroporto, buscar as malas dele (ele seguiu pro hotel). Desfiz as malas enquanto Agnes dormia e depois os dois foram percebendo as peças pelo telefone.


Com medo de ter contraído o vírus, Luis passou 4 dias no hotel em Porto Velho. Vinha pra trocar roupas sujas por roupas limpas, pra trazer compras (também não veio o que eu teria escolhido, apesar da lista) e gradativamente se aproximar. Fomos todos no Jairo na sexta-feira pra Rose limpar a casa e dessa vez (mediante lista de instruções) deu certo de limpar a casa no tempo combinado. Luis não apresenta nenhum sintoma até agora, apesar dos aviões de Porto Velho, da ausência de máscara nas pessoas em Cachoeiro e de todas as situações por que passou. 

Viajar na pandemia é muito mais complexo que era viajar, simplesmente.

domingo, 9 de agosto de 2020

Céu branco, lua vermelha

A fumaça é tanta, que o céu fica branco e não se enxerga muito longe. 


 

De noite, a lua fica vermelha por causa da fumaça e em dias de faxina eu percebo quanta poeira ventou pra dentro de casa nesses dias secos.