sábado, 20 de agosto de 2022

Espírito Santo

Chegamos na capital do ES depois de algumas conexões (PVH - BSB - SDU - VIX) cansativas. Na locadora de carros, quiseram me fazer um agrado e ofereceram um jipe com câmbio automático. Dois pedais e algumas letras pouco transparentes pra operar. Treinei acelerar e frear no estacionamento, mas o pessoal se apavorou. Pedimos pra trocar o carro e foi complicado e demorado, mas deu certo.

De tarde sempre venta mais, mesmo assim fomos a Setiba:

O vento estava muito forte, mas Agnes não se importou com o cabelo bagunçado: se esbaldou na areia, água, ondas.
Em Vitória mesmo, Agnes e eu fomos explorar a Praça, o museu da Baleia Jubarte e o Projeto Tamar enquanto Luis trabalhava.
A cordialidade capixaba, os frutos do mar frescos, a cidade organizada nos cativaram. Mas esse vento...
Ficamos um tempão esperando os tanques das tartarugas encherem, pra vermos elas nadando através do corredor subterrâneo, mas deu a hora de fazer as malas e partir pra Cachoeiro de Itapemirim. Fomos pelo mar, sentindo as rajadas de areia na lataria do carro.

Em Cachoeiro, caminhando na beira do rio Itapemirim, eu me surpreendi com um animal na água. Achei que era um jacaré, mas uma cara de lontra olhou pra mim. Encantados, fomos seguindo juntos: nós pela calçada, ela pela água. 

Acho que foi a última vez que estivemos na casa do pai do Luis, na Praça dos macacos com aquela árvore imensa.

sábado, 13 de agosto de 2022

Lago Maravilha

Fomos entrando na casa da Dona Conceição, seguindo a trilha e avistamos o lago e as pessoas que tinham chegado antes de nós.
Mais uma vez era o Iremar animando e puxando as atividades pelo microfone.

Dançaram a dança do seringandô, em que as moças (vaqueiras) laçam juntas os homens (bois).
Elizeu Braga declamou poesia e fez performance com figurino mínimo, mas muito simbólico.
Jairo conheceu Thais e Isaque (depois deu carona a eles de Kombi até aqui e eu os levei pra casa deles).
Iremar no microfone.
Maravilha, só a câmera que é ruim.

Popscience

 


No início de junho o meu compromisso regular aos sábados era o curso de popularização da ciência oferecido pela Simone Freitas da UFABC. Trata-se de um curso de extensão que ela ofereceu online para quem quisesse aprender sobre o diálogo da ciência com a sociedade botando a mão na massa. Mais panorâmico no início, mais oficina no final, fomos encorajados a produzir um Projeto de Popularização e um produto.

Havia três modalidades e era preciso escolher logo de cara se o que queríamos fazer era texto (blog), podcast ou vídeo. Como, dentre os alunos, havia alguns linguistas conhecidos e integrantes da Comissão de Popularização da ABRALIN, eu escolhi fazer texto - como eles.

Achei muito bacana dedicar tempo ao tema, experimentar, questionar, aprender com os outros. Hoje foi o último dia e dia de apresentar nosso projeto e produto.

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

Sonhos antes de viradas

Pouco antes de voltar ao Brasil, ainda morando na casa dos meus pais em Nordwohlde, quando eu estava prestes a sair de casa, atravessar o oceano e terminar os estudos na USP e morar em São Paulo, na casa da amiga dos meus pais, eu tive um sonho. No sonho, minha mãe e eu estávamos num carro conversível, com o teto aberto e eu tinha um novelo de lã na mão. Joguei o novelo por cima do ombro e segurei uma ponta do fio, tranquilizando a minha mãe: eu saberei o caminho de volta, o fio de Ariadne vai me conduzir.


Ontem tive uma conversa com Samilo Takara, que será o próximo editor da EDUFRO. Ele estava animado com a perspectiva de se aventurar nesse universo do livro, mas um tanto inseguro quanto à burocracia. Prometi a ele que faríamos a transição e que eu lhe ensinaria o caminho das pedras. Por fim, ele pensou que seria interessante montarmos um plano de ação para os próximos 5 anos. 

A agenda da Reitora estava lotada e o único horário possível pra nos receber, Samilo e eu, era às 8h de hoje. Meu medo era que Agnes demorasse pra acordar, sair da cama, comer, escovar dentes, se vestir, por isso anunciei ontem que teríamos que acordar cedão hoje e agilizar a saída pra escola. 

Durante toda a noite eu sonhei muito e acordei várias vezes. Sonhava com engrenagens, com máquinas de papelão que precisavam se mover e que eu testava. Entregar o cargo de editora não está sendo um alívio, mas uma missão de dar ao próximo condições de manter o trabalho realizado até aqui e criar uma marca própria.

domingo, 7 de agosto de 2022

O cara do som

É ele quem tem o som, é ele que toca música, é ele que dá o tom. Ele canta músicas evangélicas na praça nos finais de semana. Ele e a filha. Não sei como a coisa se desenvolveu, mas ontem eu vi que ele tinha todos os cardápios de todas as barracas de comida que se espalham pela praça nos finais de semana na mão e fazia propaganda pra cada uma delas. 

O 28. Grito dos Excluídos e das Excluídas seria na praça. A ideia era que o Grito fosse a atividade cultural da praça. Um sarau dos movimentos sociais. Iremar e Miquéias foram conversar com o cara do som. 

Quando chegamos na praça, o sarau estava sendo anunciado pelo cara do som. E os cardápios e a caixinha de contribuição e as demais atrações da praça como o pula-pula. Miquéias e Iremar cantaram, outros declamaram poemas e o microfone voltou brevemente para o seu dono que anunciou

o grito dos escolhidos.

E assim, na voz do evangélico, os excluídos se tornaram escolhidos. Pra comemorar, caiu uma chuva de 4 gotas pra elevar a umidade relativa do ar.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Florar na seca

A umidade relativa do ar está bem baixa aqui na Amazônia, perto de crítica (30%). E é bem nessa época de seca e calor que os ipês brilham.

No jardim do Jairo, um cheiro sutil de cacau leva até o pé de cacaurana onde estão enterrados o umbigo da Agnes e a nossa canarinha, a Plena.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Vinte Mil Léguas

Aprendi muito ouvindo a primeira temporada do podcast Vinte Mil Léguas - lendo os cientistas como escritores. A primeira temporada, narrada por Leda Cartum e Sofia Nestrovski, trata de Darwin, o contexto de Darwin (o que ele lia, com quem se correspondia) e a ciência da época. É um podcast elaborado com muito cuidado e tato estético e realizado em parceria com a Revista Quatro Cinco Um.

A segunda temporada é em parceria com a Livraria Megafauna e o Instituto Serrapilheira e agora acompanhamos Alexander von Humboldt. Eu achei graça no começo, quando elas avisam que Humboldt é desconhecido: ora, eu estudei no Colégio Humboldt.

No final do terceiro episódio da segunda temporada, a voz narradora agradece a Lúcia Carpena pelas explicações do que seja um "minueto da rainha", uma dança do século 18. Não é todo dia que ouço nome de parente em podcast! "Mundo pequeno", explicou a esposa do meu primo Keki.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Controle

Numa coletânea, quem é que tem o controle sobre os textos? A figura do organizador. Quando os autores de um capítulo pedem a exclusão de um dos autores do capítulo que assinam juntos, o organizador deveria ficar atento e curioso, já que todos os autores assinaram um Termo de Anuência, se comprometendo com a publicação. Se um dos autores é excluído a pedido dos outros autores, qual é a história por trás?

Um texto escrito a seis mãos é da autoria dos três autores? Então por que alguém é primeiro autor e o que significa ser último autor? Quando um texto de aluno de fim de disciplina vira capítulo de livro, quem é o primeiro autor? O aluno ou o professor? Quem controla isso? E por que os professores decidem excluir o aluno da relação dos autores?

Numa editora, o livro a ser publicado passa por um processo de avaliação: o editor avalia a obra, dois pareceristas ad hoc leem e avaliam a obra, o Conselho Editorial avalia a viabilidade de publicação com base nos pareceres. O livro aprovado é revisado. No caso da EDUFRO, são até 3 provas de revisão e até 3 provas de diagramação. Já vi muitas mudanças textuais acontecendo nesse processo, até título de livro muda. 

Especialmente em coletâneas, o que eu percebo é a desarticulação no processo de editoração: alguns autores não são mais localizados pelo organizador, outros não dão resposta quando a prova de revisão é enviada e o organizador não entende como sua tarefa a verificação do texto todo. Cada um lê o seu capítulo quando muito. Passam as provas de revisão e alguns autores resolvem ler o seu texto só na fase da diagramação.

O diagramador não é um profissional de Letras. O diagramador nem mesmo lê o texto, porque o que importa ao diagramador são os espaços na página. Pedir ajustes (envolvendo pontuação, por exemplo, ou itálico, negrito ou maiúsculas no nome do autor dentro dos parênteses  - que são reguladas por norma interna da editora que não segue a ABNT) é, quase sempre, fugir do padrão estabelecido ao longo do livro todo. Normalmente os pedidos de ajustes em fase de diagramação de coletâneas chegam em arquivos avulsos - um pra cada capítulo. É bastante comum que esses arquivos contenham uma tabela com três colunas: página / onde se lê / leia-se. E é comum também que o autor copie o parágrafo todo pra pedir a alteração de uma vírgula (que não é sinalizada na coluna 'leia-se'). Como o diagramador é diagramador, eu assumo a tarefa de converter essas gralhas numa lista compreensível para o diagramador: informo página, parágrafo, linha, o que fazer, onde se lê> leia-se.

Os autores professores que excluíram o aluno autor do texto podem manter o texto sem o autor que trouxe o texto para o papel? Podem enviar outro texto completamente alheio ao processo de avaliação do livro em seu lugar? Podem enviar um texto que não foi revisado ou diagramado quando o processo de editoração do livro se encontra na prova 3 de diagramação?

Ser editor é lidar com textos e autores que são colegas. Lidar com os colegas é que é a parte complicada, porque eu sou a última instância de controle das alterações do texto. Quando fui coordenadora PIBID, contraí uma úlcera porque minha função era controlar os colegas.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Der Mond

Quando Agnes e eu saímos do sítio ontem, vimos a superlua do outro lado do Madeira. É claro que a foto feita pelo telefone ficou feiosa.

Hoje a lua apareceu de novo grande e vermelha. Tive a chance de pegar a máquina fotográfica.

Dá até pra adivinhar Mare Tranquillitatis.

segunda-feira, 11 de julho de 2022

Trilha pra Cachoeira de Santo Antônio

Já tínhamos feito essa trilha, mas não toda. Dessa avistamos muitos macacos (que o meu celular não consegue fotografar) e Agnes chamou nossa atenção pra essa cobrinha verde. Luis identificou o sapo-folha que resolveram chamar de Agnus sapiensis. Enquanto eles olhavam para o chão, eu, como batedora, estava procurando marcações de trilha.
No retorno, percebi que estávamos perdidos pelo volume de teias de aranha na cara, pela árvore enorme e o cogumelo que eu não tinha visto antes no meio da trilha. Não lembrar do caminho não é suficiente para saber que se está no caminho errado: é preciso ter certeza de que o cenário é novo.

Agnes acompanhou bem, mas não conseguiu controlar as reclamações. Sede... casa... cama...
Na maior parte do trajeto que fizemos, a trilha era relativamente fechada. Perto do fim, ela alargou.
Pensamos que uma trilha larga assim levaria à Cachoeira de Santo Antônio. Só que a usina está bem onde era a cachoeira.
Entrando à direita, encontramos o reservatório, cheio de árvores mortas. Dois pescadores cruzaram nosso caminho: "vão dar uma pescada?"
Seguindo pela trilha larga, chegamos nos fundos de um cemitério. Provavelmente a expansão do cemitério de Santo Antônio.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

10 anos!

Foi no dia 07 de julho de 2012 que eu conheci o Luis. Era a festa junina da UNIR. Tínhamos passado por uma longa (e invisível) greve por melhores condições na universidade. Foi uma greve contra a gestão da universidade que culminou na renúncia do reitor. Fizemos campanha para a Berenice, que assumiu a Reitoria e em seguida eu prestei concurso na UFSM. Quando conheci o Luis, eu já tinha sido aprovada em Santa Maria.

Tomei posse na UFSM em novembro, depois de cumprido o estágio probatório na UNIR, o que me possibilitou pedir vacância (ao invés de exoneração). 

A boate Kiss pegou fogo, o prazo de afastamento para cursar o doutorado do Luis foi se acabando, ele foi chamado de volta para UNIR e tivemos que decidir como seguiríamos juntos. Em 2013 nos casamos, a lua de mel foi em Lucena (PB) e pedi minha exoneração da UFSM.

Voltamos juntos pra Porto Velho em 2014 (minha vaga ainda estava lá na UNIR), quando a cheia do Madeira mudou toda a paisagem e vida aqui. Muita gente perdeu tudo, até as esperanças.

Conseguimos entrar na UHE Santo Antônio e fizemos um filme sobre essa cheia histórica. Em novembro de 2014 esse filme foi premiado no FestCine Amazônia como melhor produção rondoniense. Viramos rondonienses. Em 2015 Luis defendeu o doutorado dele na UFRJ.

Em 2016 veio a Agnes. Nasceu na maternidade pública de Porto Velho. Tive sintomas de zica durante a gestação, mas (aparentemente) a criança não foi afetada. Minha mãe e minha tia vieram visitar e conhecer o mais novo membro da família.

Com 1 ano e 4 meses, Agnes aprendeu a andar. A primeira palavra (AQUI) tinha sido enunciada com 1 ano e 2 meses.
Em 2017 eu fui portariada para assumir a editora da UNIR enquanto Agnes estava internada no hospital com alguma virose feroz. Em 2018 teve a facada.


Em abril de 2019 Agnes convulsionou em decorrência de uma febre e acenderam os nossos alarmes. No meio do ano foram as queimadas na Amazônia, no final do ano o meu livro sobre sinais de pontuação foi lançado pela Editora Unicamp. A ideia de estudar sinais de pontuação tinha surgido em 2012, numa conversa com o Renato pelas ruas do Campeche, Floripa. Em dezembro mudamos para um apartamento (minha 6. moradia em PVH).

2020 começou com a morte da Oma, depois a pandemia nos isolou. Passamos a valorizar tudo que era fora do apartamento. Passei a usar óculos pra ler e tivemos que aprender a lidar com Zoom, Meet, Streamyard, Instagram etc.


Em 2021 chegaram as vacinas e começamos a sair mais. Na primeira viagem que fizemos, fomos roubados.

Esses dias eu tava conversando com o Luis sobre as bifurcações que se apresentam nas nossas vidas. Acho que a minha vida é feita mais de linhas retas do que de curvas, voltas e ruas sem saída. Não cabem muitos personagens em mim, não investi em caminhos aleatórios (mesmo em termos acadêmicos: de 2002 pra cá estudei preposições, agramatismo, tópico-comentário e sinais de pontuação). No entanto, é preciso reconhecer que uma importante bifurcação aconteceu no dia 7 de julho de 2012. Escolhi o Luis no meu caminho e seguimos juntos. Tua palavra é lâmpada para os meus pés, luz para o meu caminho.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

O incêndio

O romance O ofício de Serguei Dovlátov publicado pela editora Kalinka em 2017 leva o seguinte subtítulo: "uma novela em duas partes". A primeira parte é situada na União Soviética e trata das inúmeras tentativas frustradas de publicar o primeiro romance (A zona). A segunda parte é ambientada no Estados Unidos, onde um grupo de escritores, poetas e críticos russos emigrados se junta pra fazer um jornal russo. A primeira parte leva o título O livro invisível e a segunda parte leva o título O jornal invisível. 

O livro que Dovlátov, o narrador em primeira pessoa, passa a primeira parte do livro tentando publicar na União Soviética é traduzido por uma americana e sai como The zone em inglês. A primeira publicação é a tradução... 

Ao final da segunda parte do romance (O ofício), o jornal russo em New York é consumido por um incêndio. Os amigos tentam entender o que tinha acontecido e acabam por concluir que o mais mulherengo de todos havia deixado uma toalha sobre o braseiro quando tinha levado uma moça ao jornal na noite anterior. O que fazer diante dessa situação? Adiantava acusar o amigo? Decidiram sair pra beber, oras.

Logo em seguida o narrador revela que o incêndio não aconteceu de fato: o jornal foi decaindo, as pessoas foram perdendo o élan, a coisa foi degringolando. Narrar essa decadência não pareceu atraente, por isso o incêndio.

* * *

A casa em Gramado era enorme. Já hospedou a família toda e guardava muitas memórias. Meus avós moravam na parte de baixo, meu tio mais velho e família ocupavam a outra metade do piso térreo e o andar de cima. Quando os filhos começaram a sair de casa, todo o andar de cima era de hóspedes, mas cada quarto ainda mantinha o nome do seu primeiro dono: eu dormia no quarto do Micha. Meu avô morreu, meu tio também, depois minha vó faleceu aos 100 anos. A moradia dos avós foi alugada, pra minha tia não ficar tão sozinha naquela casa enorme. Toda vez que eu ia visitar, olhava as esculturas do Harro, os jogos de infância, os livros do Gerhard e alguns que eu tinha escondido lá no meio.

Houve um incêndio. Algum problema na chaminé ou no cano que liga os dois andares. O fogo se espalhou pela sala perto da biblioteca, dos jogos, das madeiras do Harro. Todo o piso superior foi consumido pelo fogo, cada um de nós perdeu alguma muleta de memória que abre o portal para o passado. Em seguida choveu tanto e tão forte, que a seguradora encarregada de cobrir o estrago não conseguiu cobrir a casa e o piso do térreo foi comprometido. Minha tia e a empreiteira concordaram em reconstruir só o piso térreo da casa.

* * * 

Fantasioso ou real, o incêndio marca um fim definitivo.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Ver e não ver

"Todos los escritores son ciegos - en sentido alegórico a la Kafka -, no pueden ver sus manuscritos. Necesitan la mirada de otro. [...] No hay forma de leer los proprios textos sino es bajo los ojos de otro." (Piglia, 2017, p. 63)

Lembrei dessa passagem do El último lector do Ricardo Piglia quando li o texto do Luis publicado no A Terra é redonda. Que o autor não perceba seus erros, o excesso de vírgulas que demarcam as interrupções no processo de escrita, eu entendo. Eu mesma não enxergo os meus erros quando o texto ainda está fresco, porque eu adivinho grande parte dele, não leio cada letra, uma depois da outra. Por isso o revisor, a outra pessoa - que não conhece o texto - tem melhores condições de corrigir o texto. Ou o próprio autor, muito tempo depois, quando ele não lembrar mais do que escreveu e tudo for novidade.

Se o autor é cego, às vezes o leitor nem percebe que lê erros. Porque projetamos tanto quanto vemos. Apreendemos o significado de blocos de letras sem decodificar letra após letra. Quando li o texto publicado, identifiquei alguns erros que tanto o autor como a revisora (eu) como o editor do blog deixaram passar. O pior é que não dei pela falta do "cu" em "cirlação".  

*

Damián ligou dizendo que estava na UPA, que tinha sofrido um acidente e que uma mulher tinha passado por cima da bicicleta dele. No caminho, fiquei pensando que estar na UPA (e não no João Paulo, hospital para onde levam vítimas de acidente) era até bom sinal. Fui entrando pelas portas, corredores e encontrei o Damián num leito. Estava com a blusa toda ensanguentada, a cara manchada de sangue seco. Ele sentou na cama (maca?) e contou o que tinha acontecido.

Uma mulher fez a curva pra entrar na BR olhando pra trás. Colidiu com a bicicleta do Damián que trafegava pelo acostamento. Ele girou por cima do carro dela e caiu de costas no chão e depois bateu a cabeça. 

Provavelmente a mulher olhou pra trás porque achou que não precisava verificar se a estrada estava mesmo à sua frente. Ela confiou na estrutura viária, projetou uma via livre. Os garis que trabalhavam ali perto e foram acudir o Damián e ficaram com ele até a ambulância chegar contaram que viram o ciclista dando uma volta completa por cima do carro. Se espantaram que ele não tivesse desmaiado.

Damián disse que perdeu muito sangue pela boca e nariz, que levou sete pontos na cabeça. Quando eu vi o calombo atrás da cabeça dele, meu sangue gelou. A enfermeira me alertou que ele não queria tomar remédio pra dor. Quando ofereci de trazer ele aqui pra casa, ele explicou que ainda quer chegar no lugar pra onde ia antes de ser atropelado. Hoje tem festa de São João. Mas as costas doíam muito. Quando ele levantou a blusa, expondo as costas raladas, eu senti que era informação demais pra mim. Tive que sentar. Levantei porque a cadeira ela longe, mas senti os membros formigando, náusea, fraqueza e tontura. Ver o que ele não via em si mesmo (os ferimentos e a teimosia) baixou minha pressão. Voltei a sentar, a cadeira cedeu, deitei e fechei os olhos.

- Lou?

Trocou a enfermeira e ela quis entender a situação: 

- Você tá bem?

- Sim, eu sou a visita, só baixou a minha pressão, já vai passar.

- E tu, é trauma? Não pode ficar andando, não. Quatro horas de repouso! E sem água.

domingo, 19 de junho de 2022

Tudo está conectado

Por que é a TV Record (do Edir Macedo) que traz com exclusividade a reconstituição da cena do assassinato de Bruno Pereira e Dom Philips? Por que um programa de variedades veiculado no domingo pretende "encerrar o caso"? O caso está encerrado porque o jornalista disse que está? Por que não é a Globo (que recebeu com exclusividade o material da Lava Jato) que mostra a confissão de Amarildo?

O crime organizado, de maneira genérica, é vinculado à ausência de Estado da Amazônia. O crime organizado é o narcotráfico? A pesca ilegal? O garimpo é mais rentável que o narcotráfico. Ouro de aluvião, na Amazônia, se encontra nos rios. A atividade garimpeira nos rios - que são sustento de comunidades tradicionais - é muito mais devastadora que a pesca ilegal, o narcotráfico ou a supressão de madeira. 

Mas volta lá: ausência de Estado, é? A "Nova Funai", nos tempos de Bolsonaro no poder, é presidida por um delegado da Polícia Federal. Ainda na gestão de Temer, em 2017, um General do Exército era presidente da FUNAI. Não só o Estado está lá, na Amazônia, como as forças armadas estão lá. 

Por que Edward Luz foi indicado a ocupar alto cargo na FUNAI depois que virou bolsonarista e se voltou contra os indígenas? Edward Gomes da Luz, seu pai, é fundador da Missão Novas Tribos do Brasil que pretende evangelizar os índios, até mesmo os isolados. Levar a palavra da Bíblia até o último humano e fazer com que os indígenas convertidos administrem a Igreja Indígena (evangélica) é a missão. De que serve essa missão se os indígenas têm sua própria crença, língua e cultura?

Bruno Pereira atuava na FUNAI defendendo os isolados. Isolar-se é uma atitude. Não significa que "ainda não foram descobertos", mas que resistem ao contato. Por causa das doenças, por causa da perda de território, língua, cultura, identidade. 

Não é à toa que os indígenas sejam atualmente os mais mobilizados dos movimentos sociais. Sua existência e história são atacados constantemente por várias vias há anos - agora, com Bolsonaro, por incentivo do governo.

O modo ocidental de analisar as coisas é quebrar tudo em unidades menores e averiguar como a máquina funciona. O modo indígena de perceber a realidade é outro: tudo está conectado. O rio é nosso parente e ele pode morrer se for muito castigado (Ailton Krenak). Os tiros que mataram Bruno Pereira e Dom Philips vieram de um só lugar. Mas a intenção de matar se originou exclusivamente nesse lugar ou ela fechou o cerco ali?

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Mostra Adrian Cowell de cinema

 

O nosso filme (Entre a cheia e o vazio) será exibido no dia 23 em Brasília, como parte da programação do debate sobre hidrelétricas na Amazônia.

domingo, 12 de junho de 2022

Turtles all the way down

 

A-Tuin, a grande tartaruga que vaga pelo espaço, carrega em cima de seu casco quatro elefantes que sustentam a terra plana (Terry Pratchett, Discworld).

E quem carrega A-Tuin? It's turtles all the way down!

Eu vejo A-Tuin e a recursividade infinita nessa parede do bloco de Letras da UNIR.

Ponto de ônibus no campus

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Qual é a função de um editor?

Hoje encerra o prazo para os autores aprovados no edital 2021 enviarem a versão final de seus manuscritos para iniciarmos o processo de editoração. Versão final significa que o livro já contempla as sugestões feitas pelos pareceristas e já contém eventuais paratextos como prefácio, posfácio etc. Um dos autores mandou email perguntando se era possível estender o prazo, porque ele tinha encomendado um posfácil que estava pra sair.

Não, a função do editor não é corrigir o autor.

*

A Diretora de Pesquisa e Pós da universidade me envia mais dois livros para a Coleção Pós-Graduação da UNIR e me cobra a cada passo: já pediu ISBN? Aqui estão os comprovantes de pagamento de ISBN. Já pediu a ficha catalográfica? Para justificar o assédio no meu WhatsApp, ela explica que o editor é que está cobrando dela. 

Não, editor e diagramador não são a mesma coisa.

*

Toca o meu telefone. Uma amiga de longa data está sendo processada por uma mulher que reclama o direito autoral pelo ineditismo de um termo que ela cunhou e que a minha amiga referenciou. Na conversa ao telefone, eu fiquei sem entender por que a autora que foi citada com referência bibliográfica e tudo quer ser indenizada por danos morais.

Não, a função do editor não é lidar com patentes.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Conteúdo

Sei lá, me parece que a palavra 'conteúdo' é uma das mais vazias de significado (de conteúdo).

domingo, 5 de junho de 2022

Crise

Com muito esforço por parte dos envolvidos, o Conselho Superior Universitário da UNIR deliberou pela adoção do passaporte vacinal: era preciso anexar a carteira de vacinação comprovando ao menos as duas doses ao sistema. Alunos que não tivessem tomado a vacina teriam sua matrícula compulsoriamente trancada, já que não temos controle de entrada no campus.

Voltamos ao presencial usando máscara e confiando que todos estavam vacinados. 

Nessa semana saiu uma portaria da vice-reitoria que dispensava o comprovante de vacinação e recomendava o uso de máscara aos que não tinham se vacinado. Opa, peraí! O comprovante de vacina tinha sido uma conquista nessa universidade. Houve muita gritaria. Por que voltar atrás? A explicação veio em seguida: 26% dos alunos não tinham se vacinado. A gestão da Reitoria considerava que trancar um quarto do alunado instalaria uma crise.

Crise é 26% dos alunos de uma universidade pública não acreditarem na ciência e na vacina. Crise é esse negacionismo que vem roendo pelas franjas. Fiquei com vontade de reler A história sem fim, do Michael Ende, em que a grande ameaça é O Nada. O Nada que avança como uma onda ou avalanche, eliminando sem ruído tudo que encontra pela frente. Não se trata de uma mancha negra que cobre o mundo: o que foi engolido pelo Nada deixa de existir no mundo e nas memórias, como se nunca tivesse existido.

Estamos em Rondônia, um estado que se orgulha de desmatar a floresta para ser agro. Um estado que ignora a diversidade étnica e linguística, não percebe a importância da biodiversidade e esqueceu de pensar o coletivo - como se nunca tivesse existido. 

Com essa portaria que permite que alunos não vacinados frequentem o campus e recomendação que usem máscara durante a liberação do uso de máscaras vigente no país, é como se a deliberação do Conselho Superior pelo comprovante vacinal deixasse de existir. O Nada não está só lá fora.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Air quotes

 

Quer saber uma coisa? Vai lá e pergunta!
No ano passado, Renato e eu escrevemos um artigo sobre alguns sinais de pontuação que são usados na oralidade, ou seja, sinais gráficos que viram expressões idiomáticas. Tipo: está decidido e ponto final. 

Percebemos que, diferente dos outros sinais, que eram só mencionados pelo nome, aspas e parênteses ganhavam expressões mesmo: "entre aspas" - que é diferente de "abre aspas [...] fecha aspas" e "entre parênteses" e "vou abrir um parêntese" - que são diferentes de "abre parêntese [...] fecha parêntese". Peculiaridades: no caso dos parênteses, é possível "abrir parênteses dentro de parênteses" para mostrar que a divagação é quase infinita. O recurso é o da reiteração, mas por encaixamento: um par de parênteses dentro de outro(s). Já no caso das aspas, é possível enfatizar a ironia ou sarcasmo que as aspas deveriam apontar através da reiteração cumulativa: "muitas aspas".

Aí nos demos conta de que, além de as aspas e os parênteses, que são sinais gráficos, aparecerem na fala sob a forma de expressões específicas, ambos os sinais podem vir acompanhados de gestos! O gesto das aspas é mais universal - apesar das aspas poderem ser grafadas como aspas inglesas [“ ”], aspas alemãs [,, “], aspas francesas [« »] ou aspas retas [" "]...

Sabíamos pouco sobre gestos, mas eu sabia quem estuda gestos (está escrevendo um livro sobre gestos) e pedi ajuda para Lauren Gawne. Ela me forneceu um texto valioso sobre air quotes (aspas gestualizadas) e recentemente desenterrou algumas notas antigas sobre a natureza desse gesto que não pode ser usado sem a fala. Fiquei bem contente com a parceria :] 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Varal de frases

Primeiro, a preparação. Passei boa parte do domingo na função, com ajuda da Agnes. Ela traçou linhas, organizou as cartolinas coloridas por tamanho e deixou algumas marcas em alguns lugares secretos.

A ideia era que os alunos montassem frases de acordo com uma estrutura dada. Representei algumas estruturas em esquema arbóreo pra fazer eles entenderem que, por mais que falemos ou escrevamos uma palavra depois da outra, nossas frases são planejadas hierarquicamente. Eu não sou gerativista, mas esse tipo de representação ajuda.

Combinamos que a cada um dos 4 tipos de sintagma corresponderia uma cor de cartolina. Sintagmas verbais seriam escritos em cartolina amarela e assim adiante.
Os sinais de pontuação vieram em pregadores de roupa. Distribuí a quantidade de finalizadores (ponto, exclamação, interrogação e reticências) de acordo com o número de frases e dei uns outros sinais de bônus. Quando acabou a aula, reparei que o travessão, ponto e vírgula e dois pontos não tiveram espaço no varal. É, faz sentido: eles não cabem bem em períodos simples.
A fotógrafa não pegou o sinal de interrogação...


Passamos muito tempo envolvidos na tarefa - e o que mais custou neurônios foi a conversão das árvores em frases linearmente ordenadas. No entanto, na vida real, essa tarefa de converter uma estrutura hierárquica em uma linha de palavras é mental e "automática".
O varal de frases exposto na sala não é decorativo, mas resultado de um aprendizado.