sexta-feira, 24 de abril de 2020

Polka dots

Em seu livro Punctuation: art, politics and play, Jennifer DeVere Brody trata dos polka dots (dot: ponto/ polka: a dança; polka dots: pontos que dançam erraticamente), pontos que cobrem o espaço com um padrão irregular de tal forma que a abundância dos pontos acaba chamando mais atenção que as coisas que carregam os pontos. A autora lembra de dois artistas que usaram pontos como meio de expressão: Seurat, com o pontilhismo; e Kusama, com os seus polka dots.
Yayoi Kusama's polka dots
Enquanto os pontilhistas usavam pontos para fazer surgir uma imagem coerente, Kusama enchia a paisagem de pontos para causar uma vibração, desconforto, falta de foco.
O número de casos de covid-19 só cresce no Brasil; hospitais nas capitais brasileiras chegam ao limite de sua capacidade; mais de 3 mil pessoas já morreram vítimas do coronavírus no Brasil ... e o governo nos oferece polka dots:

Sérgio Moro (herói da Lava Jato, superministro da Justiça: Moro-man) pediu demissão em rede nacional depois que seu braço direito, o diretor geral da Polícia Federal, foi exonerado. Moro disse que apesar de sua assinatura constar no Diário Oficial (na verdade, constam as assinaturas do Bolsonaro e do Moro), ele não exonerou seu subordinado, que a exoneração não se deu "a pedido", como consta, e que ele não via motivo para a exoneração. Moro-man reclamou que o presidente passou por cima dele, sendo que tinha lhe prometido carta branca para compor sua equipe como quisesse. Por fim, Moro-man disse que Bolsonaro estava interferindo no trabalho do Ministro da Justiça, querendo que a Polícia fosse um órgão do governo, não do Estado.

Polka dots surgindo ao longo do dia: se Moro não assinou a exoneração, como é que o nome dele aparece no Diário Oficial? Quem pode nomear e exonerar pessoas? Por que Valeixo foi exonerado? Há várias investigações contra os Bolsonaro em curso: a morte de Marielle, as rachadinhas do Flávio Bolsonaro, as fake news do Carlos Bolsonaro. O presidente pode pedir relatórios diários para a Polícia Federal? Acusações graves! Impeachment?
Bolsonaro respondeu seis horas depois. Falou por 46 minutos, com vários ministros postados ao seu redor, pisando nos pés. Não identifiquei o Ministro da Educação, ao passo que o Ministro da Economia, Paulo Guedes, se fez evidente: era o único que usava máscara, que não usava blazer ... nem sapatos. Todos olhavam para o alto, como se estivessem na iminência de entoar o hino nacional - menos Carlos Bolsonaro que, com seus olhos de rapina, olhava fixamente para o pai.

Por 39 minutos, Bolsonaro soltou polka dots. Nos últimos minutos, anunciou que leria 3 páginas (mas não parece que ele chegou ao final da leitura). Primeiro ponto: Sérgio Moro é egocêntrico. Segundo ponto: eu! Eu. "Eu sou o presidente, pô". Comentou que desligou o aquecedor da piscina do Palácio da Alvorada, que mudou o cardápio, que tem 3 cartões à disposição, com quem tomou café da manhã, que Deus é contra o aborto, que luta contra o sistema. 
Explicou que jamais interferiu na Polícia Federal, mas que teve que implorar pra Polícia Federal - através de seu Ministro - que investigasse o Adélio (autor da facada no intestino de Bolsonaro); que descobrisse se o seu filho, 04, tinha namorado com a filha do ex-sargento, suposto assassino de Marielle; que interrogasse o porteiro do condomínio de Bolsonaro que estabeleceu a ligação entre o suposto assassino da Marielle com os Bolsonaro. Polka dots obliterando a paisagem.

Bolsonaro disse que Moro foi um Ministro lamentavelmente desarmamentista, que tinha uma dificuldade enorme com decretos que facilitassem a compra de armamento e munição. Concluiu que não pode conviver/ fica difícil conviver com uma pessoa que pensa bastante diferente de você.
Todos os polka dots do Bolsonaro dançam na nossa frente e dizem a mesma coisa (com formas, tons e texturas diferentes): eu sou o presidente. Dot, dot, dot.

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