sábado, 3 de setembro de 2016

"Não vai ser o rio Madeira que vai me levar"

Jairo ligou de manhã dizendo que tinha uma notícia ruim pra dar: tinha sido assaltado e roubaram a minha bicicleta, os folders e o banner. E ele foi jogado no rio Madeira de cima da ponte.
Demorei a digerir tudo isso. Recentemente emprestei a minha bicicleta amarela pro Guará, que está morando na casa do Jairo, pra ele não ficar tão isolado. Aí Jairo voltou pra ajudar a preparar as oficinas que faremos na reserva Arirambas a partir do fim de semana que vem. Pegou os folders e o banner com o Luis pra divulgar na comunidade Maravilha e, de noite, ao atravessar a ponte, aconteceu uma série de eventos que a gente custa a entender.

A ponte não tem acostamento dos dois lados, apenas de um, e mesmo assim ele some no pé da ponte, quando se chega do outro lado. Isso significa que ciclistas poderiam trafegar pelo acostamento para ir da cidade para o outro lado do rio - mas não de volta -, mas teriam que compartilhar a via com os carros na hora em que a ponte chega no chão. Existe uma calçada estreita para pedestres que compartilham o espaço com ciclistas. Não existe iluminação na ponte inteira.

Jairo estava pedalando a bicicleta na calçada quando avistou um grupo de pessoas. Quando passou pelos 4, foi agarrado pelas costas e jogado por cima da grade pra dentro do rio Madeira. Teve uma queda de uns 30m, mergulhou fundo na água escura, subiu à superfície e foi rebocado por um garimpeiro que achou que se tratasse de um suicida. Boca Rica foi trazendo o Jairo até perto da margem e Barba Azul o trouxe para terra firme.
Jairo conversando com um barqueiro à procura de Barba Azul. Olha a altura da ponte. O rio está seco, aumentando ainda mais a distância entre ponte e água. Foto: Luis.

Jairo não lembra bem como chegou na casa da mãe na noite de ontem. O raio X não mostra fraturas, mas ele está com dores na perna, cotovelo inchado e tórax dolorido. Nunca vi o Jairo tão quieto. Ele sobreviveu a uma tentativa de homicídio. Eu gosto muito da Amarilda, mas ela não vale a vida do Jairo. Ele que cresceu na barranca do rio Madeira, tirou sua matéria-prima do rio, ele que sempre soube navegar pelo Madeira até as usinas assumirem o controle da vazão, não perderia a vida no rio Madeira.

Hoje Luis e Jairo voltaram na ponte com a televisão. Encontraram os dois que resgataram o Jairo e fizeram uma matéria que infelizmente não saiu no Jornal local de hoje. Talvez segunda-feira.

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