sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Eu tenho uma ideia melhor

Luis e Agnes estavam folheando uma revista em que havia meninos vestidos de menina e meninas vestidas de menino.
- E você, Agnes, se pudesse ser diferente do que você é, como seria?
- Eu quero ser o Kayon (no desenho Guarda do Leão, Kayon é filho de Simba que é filho de Mufasa, o primeiro Rei Leão).

                                      *   *   *

Luis chamando pra ir embora, Agnes não querendo soltar a mão de uma menina no parquinho.
- Por que você não queria largar a menina, Agnes?
- Porque eu queria aumentar o nosso bando.

                                     *   *   *

- Agnes, não vai dar pra ir agora. Teria que pegar avião, é longe...
 - Eu tenho uma ideia! Casaco voador!!



sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Certo e errado no reino da pontuação

Fui na Editora da Unicamp pra conhecer o pessoal que avaliou e produziu o meu livro, Onze sinais em jogo, que iria pra gráfica no dia seguinte.
Antes de mandar o livro pra gráfica, a editora, Márcia Abreu, queria sugerir umas pequenas alterações na orelha do livro, que tava assim:

Os sinais de pontuação protagonizam grande parte dos "erros" de redação: são observados nas frases-parágrafo, nas aspas que penas pretendem sublinhar palavras, nas vírgulas que separam sujeito de predicado (não separando outras coisas), nos pontos que nem abreviam nem encerram sentenças etc.
Queria entender por que "erros" estava entre aspas. Expliquei que eu sou linguista e que nenhuma ciência trabalha com as categorias de certo e errado quando descreve seus dados e explica seus fenômenos. Este livro, sobre os sinais de pontuação, não é um manual ou guia, não tem o propósito de ensinar regras, erros e acertos. Além disso, minha trajetória pessoal na Linguística é de alguém que passou o mestrado analisando dados de fala de criança - em que não é possível falar de certo e errado, mas de efeito de sentido - e passou o doutorado analisando dados de fala de pessoas afásicas, que, por conta de uma lesão cerebral, tiveram sua linguagem alterada. Também não faz sentido pensar em certo e errado na fala afásica: o que procuramos fazer é acompanhar o processo de produção de significado, que muitas vezes é pouco convencional e exige um interlocutor atento e disposto a interpretar o que o sujeito afásico diz.

Mas se você corrigir uma redação em que aparece uma vírgula separando um sujeito do predicado, você corrige, você conserta, não é mesmo? Sim, muito mais por uma questão de legibilidade que de acerto. Uma vírgula separando o sujeito do predicado exige que o leitor procure o sentido dessa vírgula nesse lugar. Eu entendo que os sinais de pontuação guiam o leitor. Quando o escrevente não tem familiaridade com a escrita e os sinais de pontuação, pode ser que os sinais guiem o leitor para ruas sem saída, estradas esburacadas e outras dificuldades de percurso. Eu tiraria a vírgula, porque ela não exerce sua função ali, porque ela trava a leitura, porque, ao invés de organizar, ela bagunça o texto. Mas pode ser que o escrevente tenha tido a intenção de dificultar a leitura mesmo, então a vírgula ali cumpre bem o seu papel.

Dentro do livro, você pode até convencer o leitor de que não há erros, mas a orelha ainda não é o livro e pode ser decisiva se a pessoa lê ou não o livro, se compra ou devolve pra estante. A maior parte do público tem acesso à gramática, que claramente diz o que é certo e o que é errado. As pessoas estão acostumadas com erros de redação, não com interpretações dos efeitos que o escrevente talvez não tenha planejado. Podemos tirar as aspas dos erros?


*Suspiro*

Na aula de hoje, sobre como os sinais de pontuação estruturam o texto e a sentença, perguntaram se o ponto e vírgula (que graficamente separa duas sentenças autônomas, mas semanticamente as relaciona) poderia ser substituído pelo ponto. Sim, mas o efeito é outro.

Ele apresentou a decisão; estamos proibidos de viajar.
Ele apresentou a decisão. Estamos proibidos de viajar.

Qual que é o certo? Depende do que você quer dizer. E nessa sentença, pode substituir o ponto e vírgula pela vírgula? Ué, mas a vírgula não encerra sentenças, a vírgula só atua no interior da sentença. Se quiser juntar essas duas sentenças, uma conjunção seria mais adequada. Então é errado colocar a vírgula entre duas sentenças? A vírgula não funciona como conectora. A vírgula separa, delimita e marca. Precisaria de uma conjunção pra conectar as duas sentenças, e se fizer isso, você passa a ter uma principal e outra coordenada (ou subordinada).

Então tem regra! Sim, tem. Mas não seguir a regra não significa errar: veja na literatura, como Saramago escreve. Observe que valter hugo mãe só usa três sinais de pontuação: alínea, vírgula e ponto. Perguntas e diálogos você percebe, mas é um trabalho interpretativo. Repare como são marcados os diálogos nos livros. Alguns autores e editores optam por aspas, outros pelo travessão. Outros autores marcam a troca de turnos apenas com a alínea. Graficamente os diálogos são marcados, mas cada um encontra uma solução. O terreno mais fértil para experimentação com os sinais de pontuação é a literatura.

Seu livro é de literatura, professora?

*Sorriso*

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Centro de Convivência de Afásicos

Fui convidada pela minha ex-orientadora (que defende que existe ex- tudo, menos ex-orientador, porque a relação é perene) para participar de uma reunião presencial do Grupo de Pesquisa ao qual sou vinculada: GELEP - Grupo de Estudos da Linguagem no Envelhecimento e nas Patologias. O grupo está se preparando para se inscrever num simpósio em Roma e foi ótimo para interagir com o pessoal: tanto os sujeitos afásicos do CCA quanto a Rosana e seus orientandos.

Me dei conta, durante as conversas, que o foco no CCA não é apenas a linguagem no sujeito, como se esperaria de um linguista, mas também o sujeito na linguagem. As estratégias e soluções comunicativas encontradas pelos sujeitos são tão valorizadas quanto seus progressos ao longo do tempo. E o tempo é um ingrediente importante: alguns sujeitos participam do grupo há mais de 10 anos. E quando a gente observa os recursos comunicativos e efeitos que têm, as noções de certo e errado deixam de ter sentido.
Sempre tem café com bolo, sim, mas tem atividades de linguagem. A Unicamp fez uma reportagem bacana:



Nesse dia, uma das atividades era ver as fotos das obras de arte da Dona Vera e conversar sobre elas. O projetor no CCA não estava funcionando, então migramos para uma sala vazia.
Cheguei num dia, voltei no outro e fiquei hospedada na Casa do Professor Visitante. Achei tudo certo e justo, só não lembrava mais das distâncias.

sábado, 5 de outubro de 2019

Aqui o contrato: leia e assine

O proprietário da casa em que moramos decidiu colocar a casa à venda. E como nós não temos condições de comprar essa casa, saímos por aí vendo casa e apartamento para alugar. Na primeira imobiliária, quase chegamos nos finalmentes depois de poucos dias: a imobiliária nos enviou o contrato de locação elaborado pela proprietária.

O contrato era bem fascista: eu tenho o imóvel que tem as características tais e deve ser mantido e devolvido em perfeita ordem e vocês têm milhões de obrigações e as sanções são tais e tais. Eu vi que tinha repetições: o valor do aluguel e o dia do pagamento estavam estabelecidos no início do contrato. Como a transação era mediada pela imobiliária, o primeiro aluguel deveria ser pago à imobiliária, o restante à proprietária. No final do contrato, na cláusula 47, quando entrava em jogo o pagamento de caução, estava escrito que a caução deveria ser paga juntamente com o primeiro aluguel - diretamente para a proprietária. Além disso, as cláusulas estavam dispostas em ordem aleatória.

Não sei se por força do hábito de editora/ revisora; ou obsessão por ordem e clareza, fui agrupando as cláusulas: do objeto, das obrigações do locatário, da rescisão etc. Aquilo gerou um escândalo. Lá e aqui, dentro de casa: como que ela vai saber o que você mudou se ela não reconhece mais o contrato? Quando se muda as leis, elas continuam na ordem, mas riscadas. Refiz o contrato, respeitando a ordem caótica, marcando inserções e riscando disparates com os quais não concordávamos.

O simples fato de não aceitar o contrato enquanto tal foi o maior dos problemas. Ou assina, ou não assina. Elaborar o contrato, chegar a um consenso pelo contrato - que deve respeitar as duas partes e deve refletir um acordo - não, isso não é admissível. Uma parte faz o contrato, a outra parte concorda e assina ... ou não assina. Desistimos.

Outra imobiliária nos mostrou outro imóvel que nos interessou muito. Como já tínhamos estudado a Lei do Inquilinato e sabíamos que não somos obrigados a pagar taxas que incidem sobre o imóvel (tipo IPTU), pedimos para não pagar o IPTU. O agente imobiliário disse que isso não seria possível, porque o pagamento do IPTU por parte do inquilino já estava previsto em contrato. Sim, e não tem como alterar o contrato? Não, o contrato é padrão. Por uma questão de honra e justiça, desistimos.

Agora decidimos sair daqui só em dezembro, nas férias. Ufa, vai dar tempo de colher mangas!


terça-feira, 1 de outubro de 2019

Cujubim

Rio Madeira com água limpinha, porque chove pouco
No domingo fomos de carro a Cujubim, nas margens do rio Madeira, onde fica o lago Cujubim. Eu não conhecia a região, Luis já tinha ido uma vez. Sabíamos que Cujubim fica depois do Porto Ammaggi, colado no Porto Bertolini. Seguimos pela Estrada da Penal, passamos os presídios e logo fomos acompanhando caminhões. Mesmo no domingo, havia muitos caminhões na estrada. E a estrada ainda está sendo feita...

Na foto acima tem uma canoa em terra firme. Achou? Mais pra cima, tem uma balsa no rio. Acima dessa balsa, a linha do horizonte fica embaçada. Ali desemboca a esteira que vai do silo que armazena os grãos (soja, principalmente) pra balsa. E quando os grãos caem, levantam uma poeira fedida.

Quando Olga e Simão vieram visitar em 2018, passamos na frente desse porto:
Silos do porto Bertolini vistos do rio em agosto de 2018
Fomos procurando pelo Jackson. Cada um nos ajudava a chegar um pouco mais perto do sítio Arco-Íris. Como a entrada não estava sinalizada, demoramos um pouco a achar. Eu me surpreendi com a comunidade cheia de crianças com nomes tipo Sidharta, Surya, Agnus... 

Jackson não lembrava do Luis, mas como ambos têm o Jairo - Bakhti - como amigo em comum, logo entraram em sintonia. Jackson falou de um pessoal da UNIR que queria estudar o impacto das usinas na comunidade Cujubim. Como o lago não tem contato com o rio Madeira (só foi inundado pelo rio na cheia de 2014), os efeitos das usinas hidrelétricas não se fazem sentir na face sul do lago. Fiquei pensando no tempo da produção de conhecimento pela academia, o tempo da publicação e absorção pelo público (acadêmico). Agora tem pesquisador da UNIR avaliando os impactos das usinas na comunidade ribeirinha de Cujubim.
O que está impactando a comunidade agora é o porto. Os moradores reclamam da fumaça que sobe quando os grãos caem da esteira. Como esses grãos devem estar altamente embebidos de substâncias tóxicas, as cascas que voam pelos ares transportam fertilizante, agrotóxico e outros venenos. E as pessoas sentem os efeitos no corpo.

Paramos pra almoçar num restaurante que fica de frente pro pátio dos caminhões no porto. Não tinha mais caminhão em fila, na estrada: todos estavam no pátio. Um funcionário passou por entre eles e foi levantando a lona que cobre a carga dos caminhões com uma vara. O cheiro ácido que lembra ração quase estragou nosso apetite.

Jackson tinha dito que se margeássemos o rio, passaríamos por baixo da esteira. E que na margem do rio estava tudo dominado pelo garimpo.
Garimpeiros no banco de areia
Fofocas avistadas em agosto de 2018

domingo, 22 de setembro de 2019

Primeiro peixe

Luis e Agnes na pedra do Damián

Primeiro peixe!


domingo, 15 de setembro de 2019

Andorinha

Lembro que quando cheguei aqui em 2009, as revoadas de andorinhas eram em novembro. Eram um evento mágico, com hora marcada: 17h20 o cardume de andorinhas que povoava o céu pousava nas árvores na Praça Madeira-Mamoré. Estou vendo andorinhas orientando seu voo para o rio de tarde.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Maravilha queimado

Eu estava em Manaus, numa sala de reuniões na Reitoria da UEA, participando do histórico primeiro Encontro Regional da ABEU Norte quando tocou o telefone. Era o Damián. Respondi por mensagem que estava em Manaus e acrescentei o telefone do meu marido. Pouco tempo depois, choveu torrencialmente em Manaus e eu invejei quem pode ver e sentir a chuva. Veio uma mensagem de audio do Luis e em seguida textos em que ele dizia que já tinha pedido ajuda para um monte de gente e instituições. Saí da sala pra ouvir o audio. O Maravilha estava pegando fogo.
Vitoria e Camila, as estagiárias da EDUFRO, antenadas nas redes sociais, recebiam e compartilhavam imagens e depoimentos do fogo em Rondônia. Começamos a ficar preocupadas com a visibilidade no aeroporto de Porto Velho. O Maravilha fica em frente ao aeroporto, na margem esquerda do Madeira. A partir das 23h, os voos meio que normalizaram. O nosso voo vinha de PVH e atrasou quase duas horas. Encontrei o Zimpel no aeroporto de MAO. O professor de Arqueologia vinha de Porto Alegre, ficou preso numa conexão em MAO e estava o pó da rabiola. Quando desembarcamos em Porto Velho, o espanto em seu rosto era comovente: que fumaça é essa, Lou!?
Seu Manel passou a noite toda molhando a casa pra se salvar do fogo
Três dias depois, Luis viajou a São Paulo e viu o céu escurecer às 15h e o céu noturno clarear. Quando São Paulo percebeu nos olhos a fumaça de Rondônia, Bolívia, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, é que houve comoção internacional e o G7 decidiu salvar a Amazônia ao invés de punir o Brasil. Um dia depois que Luis voltou pra cá, fomos todos no Maravilha, ver o estrago.
As queimadas foram criminosas, disso não resta dúvida. Foram áreas desconexas que pegaram fogo simultaneamente: ou fazendas ou áreas desabitadas, cobiçadas pelos grileiros. Na estrada da Beira, onde vivem os ribeirinhos, não há sinal de queimada. Só o pessoal da CERON que desmatou uma faixa considerável ao longo da fiação, entrando em propriedades sem pedir licença.
O fogo aconteceu nas fundiárias, ao longo da estrada - também ilegal - que abriram em 2015, depois da cheia do Madeira. Os ambientalistas todos confirmam que abrir estrada na Amazônia é abrir caminho pra conflitos. Os filhos das comunidades tradicionais vendem lotes (terrenos), os grileiros tomam posse, a própria estrada desestabiliza divisas, o pessoal toca fogo pra "limpar" terreno e fazer pasto. Ou seja, o fogo é articulado e planejado por gente que testa a força do IBAMA, da FUNAI, do Ministério do Meio Ambiente, da política nacional.
Fundiária do Jairo sapecada de fogo rasteiro
A cerca do Jairo, por exemplo, que circundava a propriedade dele na estrada por trás, sumiu até a placa. A estrada foi sendo alargada, invadindo as terras do Jairo. Aí toparam com a placa e pararam. Quando acabam as terras do Jairo e começa o terreno da vizinha, que permitiu que os filhos vendessem quase tudo, volta o fogo.
 

 
Divisa das terras da vizinha do Jairo e a floresta do Jairo
Ainda ardendo
Vimos fumaça saindo da terra: raízes queimadas soltando fumaça ainda uma semana depois do dia da queimada. Damián conta que teve duas chuvas fortes depois da queimada. A grama recuperou a cor verde, mas não exterminou completamente a brasa.
Nascente queimou
Aviões Hércules da Força Aérea sobrevoaram Rondônia ontem o dia todo, transportando água para focos de incêndio. Da ponte dava pra ver colunas de fumaça, mas desconfiamos que os aviões tenham viajado mais longe que o Maravilha.
Olho d´água virou cinza
No caminho de volta, depois de ver tanta placa anunciando a venda de lotes, nos deparamos com essa, do Seu Delmiro:

Não mexa na mandioca! Olha o chumbo!

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

1º Encontro Regional ABEU Norte

Carta de Manaus

    Após 32 anos de existência da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU), realizamos a I Reunião Regional ABEU Norte, em Manaus (AM), nos dias 15 e 16 de agosto. Esse encontro tem seu valor não somente pelo ineditismo, mas pelo que significa reunir editoras universitárias de cinco dos sete Estados da Região Norte. Estiveram presentes representantes das editoras da Universidade do Estado Amazonas (UEA), nossa anfitriã, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), da Universidade Federal de Roraima (UFRR), da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA).
    O encontro trouxe a energia da convergência dos saberes amazônicos sobre a editoração de livros no âmbito universitário. Esse saber coletivo foi mobilizado para lidar com assuntos gerais que afetam praticamente todas as editoras universitárias do país, mas também, e principalmente, para olhar de forma diferenciada as problemáticas muito particulares das editoras que atuam na Região Norte, problemáticas estas trazidas à tona para reflexão a partir do que foi posto no encontro pelo vice-presidente de nossa Associação, Marcelo Luciano Martins Di Renzo, a quem agradecemos vivamente. Nós, editores da Região Norte, temos sonhos e pesadelos muito parecidos.
    Dentro do contexto socioeconômico e político por que passa o país e atinge as universidades com um todo e mais particularmente as editoras universitárias, algumas questões surgiram, outras se aguçaram. Todas elas, no entanto, parecem ser perpassadas por uma palavra que sustenta as dificuldades diagnosticadas: distância.
    A distância parece ser uma questão relevante e central na compreensão do cenário e na organização e articulação das ações. Ela se espalha em vários aspectos e espectros do nosso fazer editorial. Há a distância geográfica da Região Norte, que nos isola do que acontece no eixo Sul-Sudeste do país e nos gera, às vezes, um sentimento de deslocamento em algumas discussões nacionais pelo distanciamento do que é discutido em relação à nossa realidade. Há a distância posta entre as editoras e o seu público, tanto interno quanto externo: a distância entre a editora e o autor, a distância entre a editora e o seu leitor, a distância entre o autor e seus público-alvo. Há também, com bastante recorrência, a distância institucional que há entre as editoras e os demais segmentos e setores dentro da sua própria universidade, que compreendem as editoras de formas diversas e diferenciadas, muitas vezes dificultando a própria interlocução institucional.
    Enfim, são as distâncias os grandes desafios. Pensar políticas e práticas editoriais que encurtem essas distâncias em uma sociedade cada vez mais ligada em rede e erguida sob o signo da colaboração e cooperação foi o que se apresentou, em nosso encontro, como mote organizador dos trabalhos a serem feitos. Essa preocupação passa por pensar nossas práticas ligadas à escuta do global, do que fazem as editoras universitárias em outras regiões, mas ao mesmo tempo articulá-las com o local, com o regional, com as vicissitudes particulares de cada uma de nossas editoras do Norte.
    Em função disso, apontamos neste documento para o necessário papel de protagonismo das editoras da Região Norte na próxima reunião da ABEU, a ser realizada em Manaus, em 2020. Convocamos as demais editoras coirmãs a pensar conosco a problemática da distância e seus desdobramentos para que possamos, dessa forma, com a expertise de quem já andou mais do que nós e com o desejo imenso de caminhar de quem não andou tanto, exercer o compromisso de devolver à sociedade, em forma de livros, todo investimento feito na ciência, na pesquisa e na produção intelectual que almejam, em última instância, a melhoria da qualidade de vida de todos nós, privilegiando a ética e a cultura da paz e do bem coletivo e a estética de uma vida bonita. É o nosso desafio cotidiano. É um desafio do tamanho da Amazônia. Mas o sonho de fazer e acertar também o é. Temos a certeza de que somente juntos conseguiremos dar um passo além. E um passo que se dá, temos igualmente a certeza, já nos coloca em outro lugar. Caminhemos, pois.

Manaus, 16 de agosto de 2019

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Quando o rio vira parede

O rio Madeira já é parede em dois lugares: nas usinas de Santo Antônio e Jirau. Agora, no tempo da seca e queimadas, o rio virou também uma parede visual.

Damián, que mora na beira do rio, diz que até 10h da manhã não consegue ver a outra margem do rio. Marcela Bonfim, que mora na outra margem, diz que tem dia que não dá pra ver nem o rio: só fumaça.
A poluição aqui no Norte deve estar pior que em São Paulo.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Passarinho vermelho

Todo ano ele vem e passa o período de seca aqui, no nosso jardim. Ao redor, a vegetação está marrom; no jardim, anéis verdes circundam as plantas que plantamos. O ar tem cheiro de fumaça e se faz visível. De tanto ver a fumaça no ar, não conseguimos ver ao longe. O sol fica vermelho, a lua fica laranja: é a fumaça. O INPE apresenta dados de desmatamento da Amazônia, mas não fica evidente que o desmatamento não é corte de árvores, mas sua queimada. No nosso jardim, o passarinho vermelho reencontra seu lugar no cajueiro, na mangueira e na aceroleira.
O que a câmera me mostra é surpreendente: a penugem está um tanto estropiada. Mas eu sei que é ele que volta todo ano e ele sabe que nos alegramos com sua presença. Enquanto estivermos aqui, o jardim continuará verde apesar da seca. Os primeiros cajus são dele, as acerolas azedas também.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Continuidade

A fragilidade do homem era tocante. Milhões de anos de evolução desembocando em seres incrivelmente não adaptados ao ambiente do planeta, como demonstrava nosso sofrimento diante de mínimas alterações de temperatura ou falta de substâncias, uma vulnerabilidade humilhante a todo tipo de condição atmosférica, exposição a outros materiais e organismos, pra não falar na ainda mais humilhante vulnerabilidade da nossa mente a qualquer baboseira, à ansiedade, à esperança. Éramos inadequados àquela natureza. Não espantava que desejássemos destruí-la. (p. 19)

[...] não havia sol o bastante para todos, a distribuição de amor é totalmente desigual, a sensação de que alguém depende de você, a sensação de que você está fracassando. A sensação de que na vida restam poucas coisas pelas quais devemos lutar; uma vez que se conquista algo, resta pouca coisa a se fazer. A sensação de inutilidade, do fim do mundo se aproximando, de não enxergar propósito na vida dos outros, todo mundo fazendo o que dá vontade de fazer, sem participarmos de um propósito único em direção ao qual caminhamos. (p. 284)

[...] eu tinha marchado pelas avenidas de São Paulo com um grupo de amigos da universidade e me deixado levar pela catarse da multidão e seus gritos de guerra apartidários contra a Copa do Mundo, a corrupção, os buracos sanguinolentos feitos pelas balas de borracha da polícia nas costas, nos braços, nos olhos de manifestantes. Por alguns dias, houve a impressão de que seria possível mudar alguma coisa. [...] e ao chegar em casa, fui tomada por uma sensação de futilidade e desperdício. Tive a convicção de que nada mais iria mudar, que nada mais podia mudar. (p. 132-133)

De que forma eu fui amaldiçoada? Eu não fui. Sempre tive a sorte a meu lado, apesar de nunca ter realizado boas ações. (p. 296)

Os anos passaram e, a partir de certo ponto, não saber o que fazer da vida passou a ser ruim, e havia algo muito pior, que era não querer fazer mais nada. (p. 29)


Estes são trechos de dois livros muito diferentes entre si, mas que se tocam em alguns pontos: os dois autores têm quase a mesma idade, estão imersos num sentimento de pós-catástrofe despercebida e escrevem predominantemente a partir de si mesmos. Sheila Heti escreve em primeira pessoa sobre escrever e a recusa de ter filhos; Daniel Galera dá voz a três personagens que narram alternadamente em primeira pessoa, dissolve elementos autobiográficos entre os quatro personagens principais e mata o escritor. Enquanto a autora canadense mergulha em questões morais e sociais acerca da procriação (se uma mulher decide não ter filhos, ela precisa ter um plano incontestavelmente genial que justifique não ter filhos/ uma mulher sem filhos é vista como um homem sem trabalho), o autor gaúcho explora a continuidade da vida virtual no espaço cibernético (o escritor morreu e a namorada se esforça para apagar seus perfis nas tantas redes sociais). Dos trechos acima, os em bordô são da mulher de meia-idade que escolheu o parceiro pra vida, mas não consegue se imaginar mãe. Em verde estão os trechos de Aurora, a bióloga "acuada entre promessas não cumpridas e anseios apocalípticos [...] diante de um mundo que se dissolve diante de seus olhos". Aurora pagou por um aborto, a narradora de Sheila Heiti toma pílulas do dia seguinte.

Os personagens podem morrer, interromper vidas ou evitar de criar novas vidas, mas os livros dos autores (e ambos fazem um trabalho metalinguístico) lhes esticam a continuidade, prolongam suas vidas, ecoam seus registros por gerações futuras: o livro é semente.

domingo, 4 de agosto de 2019

Flor do Maracujá

Flor de maracujá azedo da nossa pérgola
Dizem que a festa da Flor do Maracujá tem esse nome porque, nessa época, a passiflora é a única aberta aqui no Norte. Não é bem verdade: os ipês (especialmente os amarelos) brilham em sua exuberância, as sucupiras não ficam atrás.
Últimos raios de sol na flor do maracujá
Aqui em casa a única flor memorável (fora o hibisco e as lágrimas de cristo que parecem não ser sazonais) é a flor do maracujá. E veja como a pérgola foi tomada pelo maracujá (que avança em direção ao telhado da casa) nesse último ano:
Pérgola em maio de 2018

Pérgola agora
Hoje encerra a festa da Flor do Maracujá. Nem Agnes nem eu conhecíamos a festa popular, então fomos ver a apresentação das crianças, que abre a noite.
De todas as idades, desempenhavam diferentes papéis. Ao longo de 43 minutos e ao som de música cantada e tocada ao vivo por crianças, diferentes personagens entravam em cena: a menina-árvore coberta de folhas verdes, as meninas-estrela, os índios, a noiva, o boi, o bêbado, o padre e tantos outros.
Agnes gostou muito da apresentação, queria dançar junto, não entendia por que não podia passar da grade e mostrar os seus talentos também.
Depois que fomos embora, outras modalidades de apresentação ocorreram. É uma festa que começa tarde e segue noite adentro. Pra nossa surpresa, não pagamos ingresso (só estacionamento).
Flor de maracujá doce da nossa pérgola

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Rancho Grande

A ideia era passar três dias no Hotel Fazenda Rancho Grande, mas como Luis ficou retido em Brasília, só ficamos dois dias. Pegamos a BR 364 em direção a Cuiabá e passamos Candeias, Samuel, Itapoã do Oeste e Ariquemes. 33 km depois, entramos numa RO em direção a Cacaulândia. 20 km depois de estrada muito esburacada, pegamos 7 km de estrada de terra.
Na primeira noite, fomos ver vaga-lumes. Agnes dava aqueles gritinhos de alegria enquanto os perseguia. Pra mim, essa foi a melhor parte da viagem: os vaga-lumes.

No dia seguinte, de manhã, fomos a Jaru, procurar a Festa Camponesa - ou o que tinha sobrado dela. E só deu pra acompanhar o pessoal desmontando tudo, limpando a quadra, carregando as coisas no ônibus e no carro. Demos sorte de encontrar com Renata, Tijolão e Teresa, mas a conversa foi curta, porque a vontade deles de encerrar o evento era maior que qualquer plano de almoço de domingo. Almoçamos no único restaurante aberto: atrás da rodoviária. Depois desse almoço enche-barriga, voltamos ao Rancho Grande pra fazer a siesta.

Quase, Agnes, quase!

Luis queria pescar e se animou quando viu que eles ofereciam kit pesca: varinha, anzol e isca. Mas a isca era de "massinha", ou seja, farinha com água - que não adere muito bem ao anzol na água.
Aqui os peixes já se acostumaram com a gente
Tentaram aqui, ali, mais adiante. Eu fiquei observando. Agnes era quem chegava mais perto de pegar peixe, mas no final, toda a massinha se perdeu na água.
Pescaria ao pôr do sol
Na última manhã, Agnes queria porque queria andar de cavalo. Vestir roupa - cavalo! Tomar leite - cavalo! Comer pão - cavalo! Os cavalos foram selados antes que terminássemos o café da manhã. E lá foi Agnes, sozinha pela primeira vez, andar de cavalo!

Giovanne puxando o cavalo