Eu estava em Manaus, numa sala de reuniões na Reitoria da UEA, participando do histórico primeiro Encontro Regional da ABEU Norte quando tocou o telefone. Era o Damián. Respondi por mensagem que estava em Manaus e acrescentei o telefone do meu marido. Pouco tempo depois, choveu torrencialmente em Manaus e eu invejei quem pode ver e sentir a chuva. Veio uma mensagem de audio do Luis e em seguida textos em que ele dizia que já tinha pedido ajuda para um monte de gente e instituições. Saí da sala pra ouvir o audio. O Maravilha estava pegando fogo.

Vitoria e Camila, as estagiárias da EDUFRO, antenadas nas redes sociais, recebiam e compartilhavam imagens e depoimentos do fogo em Rondônia. Começamos a ficar preocupadas com a visibilidade no aeroporto de Porto Velho. O Maravilha fica em frente ao aeroporto, na margem esquerda do Madeira. A partir das 23h, os voos meio que normalizaram. O nosso voo vinha de PVH e atrasou quase duas horas. Encontrei o Zimpel no aeroporto de MAO. O professor de Arqueologia vinha de Porto Alegre, ficou preso numa conexão em MAO e estava o pó da rabiola. Quando desembarcamos em Porto Velho, o espanto em seu rosto era comovente: que fumaça é essa, Lou!?
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| Seu Manel passou a noite toda molhando a casa pra se salvar do fogo |
Três dias depois, Luis viajou a São Paulo e viu o céu escurecer às 15h e o céu noturno clarear. Quando São Paulo percebeu nos olhos a fumaça de Rondônia, Bolívia, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, é que houve comoção internacional e o G7 decidiu salvar a Amazônia ao invés de punir o Brasil. Um dia depois que Luis voltou pra cá, fomos todos no Maravilha, ver o estrago.
As queimadas foram criminosas, disso não resta dúvida. Foram áreas desconexas que pegaram fogo simultaneamente: ou fazendas ou áreas desabitadas, cobiçadas pelos grileiros. Na estrada da Beira, onde vivem os ribeirinhos, não há sinal de queimada. Só o pessoal da CERON que desmatou uma faixa considerável ao longo da fiação, entrando em propriedades sem pedir licença.
O fogo aconteceu nas fundiárias, ao longo da estrada - também ilegal - que abriram em 2015, depois da cheia do Madeira. Os ambientalistas todos confirmam que abrir estrada na Amazônia é abrir caminho pra conflitos. Os filhos das comunidades tradicionais vendem lotes (terrenos), os grileiros tomam posse, a própria estrada desestabiliza divisas, o pessoal toca fogo pra "limpar" terreno e fazer pasto. Ou seja, o fogo é articulado e planejado por gente que testa a força do IBAMA, da FUNAI, do Ministério do Meio Ambiente, da política nacional.
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| Fundiária do Jairo sapecada de fogo rasteiro |
A cerca do Jairo, por exemplo, que circundava a propriedade dele na estrada por trás, sumiu até a placa. A estrada foi sendo alargada, invadindo as terras do Jairo. Aí toparam com a placa e pararam. Quando acabam as terras do Jairo e começa o terreno da vizinha, que permitiu que os filhos vendessem quase tudo, volta o fogo.
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| Divisa das terras da vizinha do Jairo e a floresta do Jairo |
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| Ainda ardendo |
Vimos fumaça saindo da terra: raízes queimadas soltando fumaça ainda uma semana depois do dia da queimada. Damián conta que teve duas chuvas fortes depois da queimada. A grama recuperou a cor verde, mas não exterminou completamente a brasa.
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| Nascente queimou |
Aviões Hércules da Força Aérea sobrevoaram Rondônia ontem o dia todo, transportando água para focos de incêndio. Da ponte dava pra ver colunas de fumaça, mas desconfiamos que os aviões tenham viajado mais longe que o Maravilha.
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| Olho d´água virou cinza |
No caminho de volta, depois de ver tanta placa anunciando a venda de lotes, nos deparamos com essa, do Seu Delmiro:
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| Não mexa na mandioca! Olha o chumbo! |
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