sábado, 9 de fevereiro de 2019

Noite na floresta

De repente nos demos conta de que o Jairo logo voltaria e que tínhamos passado pouco tempo com ele. Numa tarde ensolarada, depois que Agnes acordou da soneca, entramos no carro e fomos pro Maravilha. A estrada da beira já estava embaixo d´água, então tivemos que ir por trás. Já de cima da ponte avistamos negra nuvem sobre o nosso destino. Até a bifurcação dos patos, a estrada estava boa. Depois é que apareceram os buracos cheios de água, a lama que fazia o carro perder o rumo e os buracos emendados um no outro.

Chegamos na casa do Damián avisando que ficaríamos pouco tempo, porque tínhamos medo de atolar no escuro. Começou a chover. Aguardamos, mas a chuva não passou, só intensificou. A parte de cima da casa do Damián não tem parede e é voltada para o rio Madeira, de onde vinha o vento (que está bem alto agora, 16 m: o pico da cheia de 2014 foi 19 m), então nos abrigamos na parte de baixo, atrás dos móveis. Foi uma chuva longa, que nos desanimou: a estrada vai estar uma gelatina agora.

Jairo ofereceu de irmos na casa dele, porque tem mais espaço. Fomos. Eu deitei na nossa rede que ainda estava lá, Agnes ficou correndo por onde dava. Jairo fez tapioca com ovo e explicou que essa era a goma mesmo da tapioca, não a fécula, que vendem na feira como se fosse goma. De fato, a diferença é óbvia. A fécula é mais branca e seca, não dá pra comer muito, que tranca a garganta.

Mantivemos a hipótese de voltar pra casa de noite, depois que a chuva tivesse sido absorvida pelo solo. Agnes tinha escolinha no dia seguinte. Acontece que não parou de chover. Jairo trouxe outra rede, essa com mosquiteiro. Achei a arquitetura do mosquiteiro muito genial, com as varetas, o espaço que se tinha. E não entrava carapanã de jeito nenhum. Eu fiquei nessa rede com Agnes, Luis na nossa antiga, passando repelente em intervalos regulares. Jairo subiu na casa dele, Damián voltou pra casa dele e Tauros (o cachorro do Damián) ficou por ali.

No começo, eu tive medo da Agnes sentir frio, porque o ar estava muito úmido e de noite esfria na mata. Mas nos aquecíamos mutuamente, então ela ficou até suada. Durante muito tempo Agnes dormiu em cima de mim, o que me deu a sensação de estar grávida de novo.

Quando a luz apagou, os ouvidos acenderam. Era como se as orelhas crescessem e se transformassem em olhos. Quase não dormi a noite toda, mas foi a experiência noturna de floresta mais legal que já tive. Eu já tinha dormido dentro da casa do Jairo e lembro de ter ouvido a balsa (ou a draga) a noite toda. Ali, na rede, eu estava no meio da floresta e a floresta era puro som. O barulho do motor e de pedras caindo (da draga) seguiu por quase toda a noite, mas fora esse som mecânico, tinha todos os outros sons. Senti a floresta através dos sons dos animais que nela vivem.

Abrindo os olhos, percebi como a casa do Jairo era protegida pela mata. As árvores eram como gigantes de sentinela. Era tão bonito, que não senti que precisasse dormir. No meio da madrugada, Luis e eu trocamos de rede. Luis entrou na rede com mosquiteiro e sentiu alívio das picadas e zunidos de mosquitos. O repelente já tinha acabado, mas eu estava usando roupas grossas. Luis se ajeitou com a Agnes e logo ouvi a prova de que ele dormia. Eu fui perseguida por mosquitos na cara, pescoço e mãos e pela zoada deles. Quando tive a genial ideia de me cobrir toda com o lençol que encontrei na rede, ouvi um pássaro cantando. 

Pensei no urutau e lembrei que o urutau que ouvi em Socorro emitia 5 sons em escala, não 3. Fiquei na dúvida. Minha percepção espacial já se organizava pela audição. Os sons que eu ouvia me davam o mapa do território. O urutau, que tinha assobiado distante no sul, de repente assobiou na nossa frente. Luis acordou, eu saí debaixo do lençol. Em seguida, Luis anunciou os macacos. E eles andaram pelas copas das árvores, passando.

Antes do dia clarear, Jairo já andava pela casa, em cima de nós. Desceu, tomou banho de água fria, fez café e só então Agnes acordou. Damián veio nos buscar, porque queria nos oferecer café. Fomos até lá, tomamos outro café e voltamos pra casa. Enquanto Agnes estava na escolinha, dormi. Confesso que dormi de novo durante a soneca da Agnes e dormi mais cedo de noite. Passei o dia recuperando o sono da noite passada em deslumbramento com os sons da floresta.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Pequenos registros

Fui buscar Agnes na escolinha. Ela veio correndo:

- Mamãe, mamãe, eu tô fugindo
- Tá fugindo de quem?
- Dos policiais, eles são malvados.
- Ih, Agnes, já tá fugindo dos policiais? Eles querem prender você?
- É.
- E você é ladrão, Agnes?
- Não, eu sou a Princesa Guerreira, mas não deu certo.

* * *

Em casa, não somos mais mamãe e papai. Durante as férias, Luis percebeu que ela nos chamava de pai e mãe. Pra ele, muito mais intenso. Como se ela tivesse crescido.

Agora ela chama o Luis de Luis. E eu sou Mô. E isso faz ela ficar muito pequena de novo.

* * *

Depois da escolinha, Agnes me contou que Maria Clara é sua prima. Bom, se as pessoas adultas na escolinha são tias, então por que as crianças não seriam suas primas?

Agnes e o peixe Beta. Foto: Luis

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Duas semanas sem ônibus

Não conheço outra capital de estado que passe duas semanas sem oferecer o serviço de transporte urbano à população e fica por isso mesmo. Rose veio religiosamente fazer faxina, mas cada vinda era uma aventura. Veio de Uber, deixou de vir porque com a falta de ônibus, Uber ficou muito caro. Veio de mototaxi, mas ficou com tanto medo das manobras do piloto, que decidiu nunca mais. Veio de carona quando deu, e todas as outras vezes veio de compartilhado. Isso é um táxi que faz a linha do ônibus e cobra R$ 10 de cada passageiro. O que eu pagava de vale transporte deixou de valer, porque a cada dia ela gastava R$ 20 pra se deslocar pra cá e de volta pra casa dela.

Hoje à tarde, quando o fim do lockout (greve patronal, quando o empregador fecha as portas) estava sendo anunciado como boa notícia nos jornais, vi um punhado de estudantes segurando cartazes ilegíveis numa esquina no centro da cidade.

O que eu vi e ouvi foram boatos: de que a empresa de ônibus não tinha dinheiro pra pagar a gasolina dos ônibus (como pode? a empresa não tem concorrência!), que os motoristas e cobradores se demitiram, que quando a "greve" é do patrão, o empregado faz de conta que a greve é dele, que outra empresa assumiria o transporte público.

Duas semanas sem ônibus na cidade. O centro ficou vazio. Lojas passaram a fechar muito antes do horário normal por falta de clientes.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Desfralde

Dois livros me serviram de orientação para o desfralde da Agnes.

O primeiro conta a historinha de Samuel, irmão de mais três que precisa se adaptar à imposição de que agora a vida segue sem fralda. Agnes pedia pra ler essa história e acompanhava com simpatia os pequenos acidentes de Samuel. No fim da história, o menino ganha de presente cuecas e adora se olhar no espelho com essa nova vestimenta.

O segundo livro não serviu pra Agnes (ela não gostou da historinha), mas pra mim. Agnes gostou mesmo foi do bonequinho de feltro que acompanhava o livro. A fralda, cueca, chapéu e blusa eram removíveis e coláveis através de velcro. O que me ajudou - em contraposição ao outro - foi perceber que não adiantava tirar a fralda, avisar que tava sem fralda e depois lamentar o xixi na roupa, no chão, no tapete... Era preciso contar com um certo amadurecimento da criança em relação à precepção do próprio corpo.

Durante as férias (Agnes sempre dá saltos evolutivos nas férias), Agnes desenvolveu consciência corporal suficiente pro desfralde. Teve episódios de avisar que queria fazer xixi e simplesmente agachar pra já ir fazendo, mas foram raros.

O desfralde significa uma grande economia na farmácia!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Gramado: do artesanato ao shopping center

Quando eu era criança, eu lembro que os meus primos, que moravam em Gramado e passavam grande parte do dia na Casa da Juventude, de frente pro Lago Negro, descobriram uma bica. Água limpa e fresca que brota da terra. Me mostraram a trilha secreta que levava à bica.

Hoje o caminho até a bica está sinalizado e pavimentado, a bica tem nome e imagem de santa. A água que corria livremente até o Lago Negro está organizada e contida numa piscina cheia de moedas.

Harro foi a Gramado pela primeira vez numa grande exposição de arte e artesanato. Ficou impressionado com os trabalhos, quis expor o próprio trabalho e acabou ficando.

Os limites entre arte e artesanato logo se impuseram. Para o público, executava encomendas que lhe retornavam renda. Para si, fazia arte que não conseguia vender, porque não recebia o devido reconhecimento. No fim, parou de trabalhar. E de comer e de sair de casa. No fim, foi diagnosticado com Alzheimer.

Quando o Opa ainda era vivo e eu passava os Natais em Gramado, lembro que um programão era botar cadeiras de praia no porta-malas do carro e ir de noite até o Lago Joaquina Bier, onde os tenores (ou sopranos, sei lá) cantavam festivamente enquanto luzes e fogos de artifício acompanhavam as águas do chafariz no centro do lago. Naquela época os moradores de Gramado reclamavam dos fogos e da cantoria, zombando dos turistas.

Hoje não se vê o Lago. Construíram tantas arquibancadas e muros e categorias de preço de ingresso em volta do Lago Joaquina Bier, que nem de longe é mais possível avistar a água.

Xixo veio de uma cidadezinha do interior, lutou pelo reconhecimento do seu artesanato, se aproximou da Secretaria de Cultura, montou uma pousada em que não consegue trabalhar porque sempre tem hóspede querendo dormir e agora pretende criar um museu com réplicas de suas próprias peças.

Seu irmão veio a Rondônia, faz móveis rústicos em Porto Velho e atende pelo apelido de gaúcho. O palpite de Harro é que o gaúcho volte a Gramado, porque, por mais decadente que Gramado seja, sempre é um lugar que castiga e recompensa.

Meus avós me levaram ao Mini Mundo quando era novidade. A visita foi encantadora e eu tinha a impressão de que os donos eram amigos do Opa.

Desistimos de entrar no Mini Mundo com a Agnes porque a fila era enorme, o ingresso muito caro e o espaço tinha aumentado enormemente. No Zoológico, na Mina, no Museu do Gaúcho e tantos outros lugares tipo aeroporto, a saída (pra fora ou para o portão de embarque) é conduzida necessariamente por dentro de uma loja. Somos obrigados a passar por produtos em exposição, objetos à venda, se quisermos sair do recinto, não há escapatória. No Mini Mundo, a loja ficava na entrada.

Enio foi parceiro do Harro, até mesmo o acolheu em sua casa e na família. Trocaram bancadas, trabalhavam madeira, expunham seus trabalhos nas feiras e eventos. Quando Harro foi parar no asilo, Enio já não trabalhava mais em madeira. Fibra de vidro era o seu material e Florybal (marca de chocolate) seu patrão. Quando em 2015 levei Harro no Caracol e passamos na estrada pelo Mundo dos Dinossauros Florybal, Harro torceu o nariz praquele mau gosto colorido. Devia saber que era do Enio e reprovava as escolhas do ex-parceiro.

No caminho pra Canela, passamos por pelo menos 5 lojas Florybal. Agnes gostou de entrar na árvore de fibra de vidro, subir as escadas e escorregar pelo escorrega mega inclinado. Foi difícil desviar sua atenção a cada esquina que espalhafatosamente decorava o nome da marca de chocolate. Aliás, meus avós compravam retalhos de chocolate da fábrica Planalto. Hoje eu já não sei mais onde se vende chocolate em Gramado. A disneylândia de Florybal confunde.

Felix, hóspede da Denise, suíço, estava contando de uma garota que tinha ido visitar a Suíça e disse que sabia esquiar. Ele a levou para os Alpes, equipou a moça e viu que ela não tinha a mínima familiaridade com frio, roupas de frio, esquis e tal. O episódio foi perigoso e ao final, agradecendo aos céus que a moça não tinha se acidentado, ele perguntou a ela onde tinha aprendido a esquiar. Snowland, ela disse.

Snowland, como o nome diz, é uma arena resfriada que artificialmente reproduz um cenário com neve. Como os turistas não vão a Gramado nem mesmo preparados para o clima de Gramado, Snowland oferece aos visitantes os casacos, as calças, luvas, toucas e tudo mais - além de equipamentos esportivos como esquis ou snowboards. Para muitos, Snowland é o mais próximo da Europa que conseguem chegar.

Lembro de um Natal em que a árvore na rotatória da avenida principal acendia de noite e a espera silenciosa criava um clima de reverência e comunhão. Lembro do coral cantando, lembro da novidade que era o Natal Luz. Agora Natal Luz é um período (outubro a janeiro) que teve sua 33ésima edição. Tipo megaevento. Caminhar nas ruas de Gramado é como caminhar nos corredores de um shopping - mesmo de noite. As pessoas não percorrem um caminho de um lugar a outro, mas são constantemente fisgadas por anúncios, cheiros, produtos, preços.

Recentemente o Houaiss alterou sua definição de família - tão dispersa nesse Natal, em virtude da polarização política. Minha definição de Gramado - que sempre esteve ligado à família - também mudou.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Harro agora é Opa

Buscamos Harro no asilo em São Leopoldo e o trouxemos pra Várzea. Agnes o chama de Opa ou de vovô. Fomos juntos ao Museu da Mina, uma réplica de uma mina. Harro ficou encantado com as formas, cores e tempo que os cristais levaram pra se formar. Agnes se divertiu com os fósseis, águas, a nossa curiosidade.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Gramado a partir da Várzea

Quando Gerhard morreu, Oma e Ruth ficaram sozinhas naquela casa. Dieter (meu primo), Denise e Helena (9 anos agora) ocuparam a casa, deixando a casa na Várzea vazia. Pensaram em alugar, mas depois desistiram. Quando perguntamos onde poderíamos ficar em Gramado, a casa na Várzea pareceu boa ideia. Aqui temos autonomia.

Agnes e Helena se deram bem e Agnes já aprendeu onde Oma guarda os chocolates-de-boa-noite.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Carro na praia

Fomos na Praia da Galheta (também chamado de corvo marinho). Agnes vira outra pessoa na praia. Não para um instante. Corre das ondas, atrás delas, constrói castelos de areia, derruba tudo, senta e deita na areia, vira à milanesa e nem se importa com a areia. Segundo Luis, ela se funde com a Natureza.

Quando a onda grande a derrubou com sua água gelada, Agnes foi rolando e se virando de cabeça pra cima, acompanhando o movimento, sem se desesperar ou sentir medo. Mas se ela corresse pra areia em direção às dunas, nós é que ficávamos com medo. Porque passava muito jipe, SUV e picape pela praia. Tudo quanto é carro grande, às vezes com crianças no volante.

Enquanto a Europa desmonta o esquema do automóvel individual, no Brasil as pessoas querem brincar com seus carrões na praia. Não basta ostentar o carro na cidade: "agora nóis vamo invadir sua praia!!!" Quando reclamamos na pousada do perigo que esses carros representam, contaram que uma pessoa morreu atropelada na Praia do Cardoso, pouco antes do Farol de Santa Marta. Em função desse sacrifício humano, o prefeito providenciou um estacionamento de frente pra praia e fechou o acesso aos veículos motorizados.

Quando fomos a Camacho, onde a Lagoa de Jaguaruna se conecta com o oceano, observei que o estacionamento de carros era margeado por um dique de areia. Não creio que seja uma duna natural, mas resultado de uma política de contenção de carros na praia.
Lagoa de Jaguaruna
Estamos entendendo que o turista sai de casa, viaja para o longe e não consegue se adaptar ao lugar em que ele chega. Ele continua querendo consumir paisagens, tirar fotos de si mesmo e dirigir o carro.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Dunas





Farol ao fundo

To the Lighthouse

Há mais de 10 anos, estive com a Oma em Farol de Santa Marta. Agora alugamos uma casa sem TV no Canto da Lagoa. Tudo é perto e integrado. O mar de um lado, a lagoa do outro e as dunas no meio.

Quando perdemos a saída de Farol de Santa Marta e entramos numa pirambeira, é que tivemos uma grata surpresa: uma trilha cheia de plantinhas curiosas que levava aos fundos da casa em que estamos hospedados. Everything is connected!


Farol no fundo

Oceano à direita, dunas no meio e lagoa na linha do horizonte

Ano Novo

Dia 31 chegamos em Porto Alegre. Procuramos muito por restaurantes abertos pra jantar. O Google dizia que tava aberto, mas a realidade negava o fato. Rodamos pela cidade ouvindo a voz feminina e mecanizada do aplicativo de localização. Tudo fechado. Por fim, jantamos numa churrascaria 24h. Fechamos o ano chutando o balde!
Foto: Siomara
Siomara (esposa do Jairo) estava em “Porto”, com a mãe, então levamos a Agnes pra ela conhecer. Agnes adorou a visita. De noite, Luis teve que nos acordar pra vermos os fogos no Guaíba. Foi bonito.


sábado, 29 de dezembro de 2018

O olhar do outro

Ontem estivemos na piscina do prédio em que mora a família: Marcão, Kika, Pedro e Miguel. A piscina aquecida (a céu aberto) é longa e tem duas raias. Acoplada a esta piscina, numa ponta, tem outra, que faz um semicírculo rasinho, que dá no joelho da Agnes. Nessa parte se concentram as crianças com boias e as crianças com necessidades especiais.

Quando chegamos, tinha um menino com Down sentadinho no raso e duas irmãs correndo, fugindo do pai-tubarão. Agnes observou o movimento e quando a irmã menor percebeu o olhar de interesse da Agnes, ela disse pra minha filha: "você não pode brincar com a gente." Agnes engoliu essa, fez bico e olhou pra baixo.

Depois de uma certa disputa de território com essas meninas, Agnes disse que estava com sede. Busquei uma água de coco em caixinha, dei a ela e depositei a caixinha na beira da piscina. Vendo aquela água de coco, as avós, tias e cuidadoras de metade das crianças na piscina lembrou que era hora do lanche e houve certa debandada.

Veio gente nova e um menino entrou na piscina rasa, parou na frente da caixinha de água de coco e começou a jogar água nela. (De costas pra mim), jogou tanta água, que a derrubou. Levantei brava, achando que se tratava de mais uma criança capeta sem limites. Me enganei e fiquei com vergonha ao ver que o menino era diferente. Fazia gestos repetitivos e tinha um jeito não convencional de se movimentar. O menino tinha dois irmãos mais novos.

Fiquei pensando na loteria que é ter um filho com necessidades especiais. Luis me disse que para a família, a criança é normal, integrada. Para os outros, para o olhar do outro, de fora, é que a criança é deficiente, coitada, limitada. Subimos: banho, janta e TV. Por coincidência, tava passando Ian, uma animação argentina justamente sobre o olhar do outro: um menino se desintegrava toda vez que era alvo dos olhares de chacota das outras crianças no parquinho. Era o olhar do outro que o colocava na cadeira de rodas, na posição de deficiente, incapaz. E também é o olhar do outro que o reconhece como igual.

Fica o desafio: olhar para crianças com necessidades especiais como se pudessem ser também meus filhos, não agradecendo a Deus que não são. Como dizia Elizeu Braga, preparando estudantes PIBID para lidarem com desalojados pela Cheia do rio Madeira em 2014: ver o outro como uma extensão sua.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Marcão, Kika, Pedro e Miguel

Os meninos dão muita risada com a Agnes - quando não jogam videogame pelo celular. Kika apresenta todo dia novos (velhos) brinquedos pra Agnes. Ontem a menina pediu uma boneca que fala. Kika achou, nos brinquedos dos filhos, um monstro que emite sons. Concluímos que ele fala uma outra língua e agora Agnes se diverte apertando o botão, ouvindo o som e dizendo que o monstro malvado fala outra língua.
Kika também achou papel e canetinhas e tinta: coisas que Agnes conhece e sente falta.
Estamos em Ribeirão Preto (SP) com chuva e quase frio. Marcão disse que a chuva veio conosco - o que foi um alívio pra essa terra quente.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Café com quintal para crianças

Descobri um café em Campinas que oferece muitas coisas: brinquedoteca, quintal e até brechó. Gato Mia é o nome. Agnes e eu entramos num Uber e fomos até lá. Pedi o nosso lanche e deixei que ela explorasse a casa e seus brinquedos. Depois de um tempo, ela voltou choramingando. Tinha feito xixi na roupa. O desfralde tinha deslanchado bem, mas pelo visto, contava com recaídas.

Fomos ao banheiro, tirar e lavar a roupa, meter num saco plástico e fomos, ela de tênis e camiseta, até o brechó, escolher um short (esse da foto).
Daí tinha um portão separando o café com brinquedos do quintal com caixa de areia e casa de boneca e escorregador. A placa afixada no portão avisava que a entrada custava R$ 20 adicionais. Uma moça perguntou se a gente não queria conhecer e fomos ficando. Agnes e o monitor se envolveram na brincadeira. Escavaram ossos de dinossauro na areia, fizeram bolos de morango, entraram e saíram de bambolês de diversas cores e tamanhos. A despedida foi difícil.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Feliz Natal

Ano passado Agnes conheceu os primos e logo se encantou pelo Pedro. Dessa vez não foi diferente, apesar do Pedro ter agora 1.88m e ser menos criança. Subia e descia escada com ela, brincava de esconde-esconde sem precisar se esconder e perdeu a conta de quantas vezes contou até dez.
 
Grande sensação foi o jogo de passar o anel: ideia da Elisa. Agnes colocava o anel nas mãos do Pedro toda vez - e avisava que era lá que o anel estava escondido.
Agnes foi a alegria do Natal na família Novoa.
Foto: Rodrigo

domingo, 23 de dezembro de 2018

Alegria, alegria

Fizemos um passeio curto, mas bem legal com Madá. Fomos de Uber até o Largo do Café, que estava vazio. Antes de pegar Uber de volta, resolvemos tomar uma água de coco no Taquaral. Passou o bonde apitando e decidimos aproveitar a chance de dar uma volta de bonde no parque.
Agnes e Madá se entendem muito bem. Mas ela gosta mesmo é do Pedro (o primo).

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Os sinais

Identifiquei o ninho quando vi o ponto vermelho. Depois fui entender que se tratava da boca aberta do passarinho recém-eclodido. A mãe provavelmente se orienta por outros sinais pra identificar os filhotes.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Tá escrito aqui, papai

Agnes e eu estávamos lendo a história da Cinderela. Um livro bem disney que ela ganhou de alguém (não me vejo comprando um livro assim). Chegamos nas últimas páginas, em que o sapato encontra o pé da Cinderela e cabe certinho. Agnes ficou com pena da moça estar com aquele vestido feio quando o príncipe veio visitar. (Na página oposta, o casal aparece casando - de vestido e terno.)

Eu disse não preocupa, porque agora (apontando para a última página) ela vai casar com o príncipe, e ele vai dar TUUUDO pra ela. Ouvindo esse "vai dar tudo pra ela", Luis comentou que isso era meio machista, não é não? Respondi que eu tinha inventado essa parte.

Agnes pegou o livro, apontou para as letrinhas e gritou: tá escrito aqui, papai, tá escrito aqui!

Aos dois anos e oito meses de idade, Agnes já entendeu o valor das letras, ou seja, fase 1 do letramento cumprida.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Bodas de madeira

Luis e Agnes encontraram esse ninho. Foto: Luis


O casamento no cartório foi dia 4 de dezembro, mas foi tão de ordem prática, que preferimos comemorar o casamento na igreja, dia 7 de dezembro. Mas a comemoração de cinco anos de casados aconteceu dia 08.

 Enquanto os homens falavam de política, Agnes passeava pelas histórias.

Foto: Nayara