Quando eu era criança, eu lembro que os meus primos, que moravam em Gramado e passavam grande parte do dia na Casa da Juventude, de frente pro Lago Negro, descobriram uma bica. Água limpa e fresca que brota da terra. Me mostraram a trilha secreta que levava à bica.
Hoje o caminho até a bica está sinalizado e pavimentado, a bica tem nome e imagem de santa. A água que corria livremente até o Lago Negro está organizada e contida numa piscina cheia de moedas.
Harro foi a Gramado pela primeira vez numa grande exposição de arte e artesanato. Ficou impressionado com os trabalhos, quis expor o próprio trabalho e acabou ficando.
Os limites entre arte e artesanato logo se impuseram. Para o público, executava encomendas que lhe retornavam renda. Para si, fazia arte que não conseguia vender, porque não recebia o devido reconhecimento. No fim, parou de trabalhar. E de comer e de sair de casa. No fim, foi diagnosticado com Alzheimer.
Quando o Opa ainda era vivo e eu passava os Natais em Gramado, lembro que um programão era botar cadeiras de praia no porta-malas do carro e ir de noite até o Lago Joaquina Bier, onde os tenores (ou sopranos, sei lá) cantavam festivamente enquanto luzes e fogos de artifício acompanhavam as águas do chafariz no centro do lago. Naquela época os moradores de Gramado reclamavam dos fogos e da cantoria, zombando dos turistas.
Hoje não se vê o Lago. Construíram tantas arquibancadas e muros e categorias de preço de ingresso em volta do Lago Joaquina Bier, que nem de longe é mais possível avistar a água.
Xixo veio de uma cidadezinha do interior, lutou pelo reconhecimento do seu artesanato, se aproximou da Secretaria de Cultura, montou uma pousada em que não consegue trabalhar porque sempre tem hóspede querendo dormir e agora pretende criar um museu com réplicas de suas próprias peças.
Seu irmão veio a Rondônia, faz móveis rústicos em Porto Velho e atende pelo apelido de gaúcho. O palpite de Harro é que o gaúcho volte a Gramado, porque, por mais decadente que Gramado seja, sempre é um lugar que castiga e recompensa.
Meus avós me levaram ao Mini Mundo quando era novidade. A visita foi encantadora e eu tinha a impressão de que os donos eram amigos do Opa.
Desistimos de entrar no Mini Mundo com a Agnes porque a fila era enorme, o ingresso muito caro e o espaço tinha aumentado enormemente. No Zoológico, na Mina, no Museu do Gaúcho e tantos outros lugares tipo aeroporto, a saída (pra fora ou para o portão de embarque) é conduzida necessariamente por dentro de uma loja. Somos obrigados a passar por produtos em exposição, objetos à venda, se quisermos sair do recinto, não há escapatória. No Mini Mundo, a loja ficava na entrada.
Enio foi parceiro do Harro, até mesmo o acolheu em sua casa e na família. Trocaram bancadas, trabalhavam madeira, expunham seus trabalhos nas feiras e eventos. Quando Harro foi parar no asilo, Enio já não trabalhava mais em madeira. Fibra de vidro era o seu material e Florybal (marca de chocolate) seu patrão. Quando em 2015 levei Harro no Caracol e passamos na estrada pelo Mundo dos Dinossauros Florybal, Harro torceu o nariz praquele mau gosto colorido. Devia saber que era do Enio e reprovava as escolhas do ex-parceiro.
No caminho pra Canela, passamos por pelo menos 5 lojas Florybal. Agnes gostou de entrar na árvore de fibra de vidro, subir as escadas e escorregar pelo escorrega mega inclinado. Foi difícil desviar sua atenção a cada esquina que espalhafatosamente decorava o nome da marca de chocolate. Aliás, meus avós compravam retalhos de chocolate da fábrica Planalto. Hoje eu já não sei mais onde se vende chocolate em Gramado. A disneylândia de Florybal confunde.
Felix, hóspede da Denise, suíço, estava contando de uma garota que tinha ido visitar a Suíça e disse que sabia esquiar. Ele a levou para os Alpes, equipou a moça e viu que ela não tinha a mínima familiaridade com frio, roupas de frio, esquis e tal. O episódio foi perigoso e ao final, agradecendo aos céus que a moça não tinha se acidentado, ele perguntou a ela onde tinha aprendido a esquiar. Snowland, ela disse.
Snowland, como o nome diz, é uma arena resfriada que artificialmente reproduz um cenário com neve. Como os turistas não vão a Gramado nem mesmo preparados para o clima de Gramado, Snowland oferece aos visitantes os casacos, as calças, luvas, toucas e tudo mais - além de equipamentos esportivos como esquis ou snowboards. Para muitos, Snowland é o mais próximo da Europa que conseguem chegar.
Lembro de um Natal em que a árvore na rotatória da avenida principal acendia de noite e a espera silenciosa criava um clima de reverência e comunhão. Lembro do coral cantando, lembro da novidade que era o Natal Luz. Agora Natal Luz é um período (outubro a janeiro) que teve sua 33ésima edição. Tipo megaevento. Caminhar nas ruas de Gramado é como caminhar nos corredores de um shopping - mesmo de noite. As pessoas não percorrem um caminho de um lugar a outro, mas são constantemente fisgadas por anúncios, cheiros, produtos, preços.
Recentemente o Houaiss alterou sua definição de família - tão dispersa nesse Natal, em virtude da polarização política. Minha definição de Gramado - que sempre esteve ligado à família - também mudou.




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