De repente nos demos conta de que o Jairo logo voltaria e que tínhamos passado pouco tempo com ele. Numa tarde ensolarada, depois que Agnes acordou da soneca, entramos no carro e fomos pro Maravilha. A estrada da beira já estava embaixo d´água, então tivemos que ir por trás. Já de cima da ponte avistamos negra nuvem sobre o nosso destino. Até a bifurcação dos patos, a estrada estava boa. Depois é que apareceram os buracos cheios de água, a lama que fazia o carro perder o rumo e os buracos emendados um no outro.
Chegamos na casa do Damián avisando que ficaríamos pouco tempo, porque tínhamos medo de atolar no escuro. Começou a chover. Aguardamos, mas a chuva não passou, só intensificou. A parte de cima da casa do Damián não tem parede e é voltada para o rio Madeira, de onde vinha o vento (que está bem alto agora, 16 m: o pico da cheia de 2014 foi 19 m), então nos abrigamos na parte de baixo, atrás dos móveis. Foi uma chuva longa, que nos desanimou: a estrada vai estar uma gelatina agora.
Jairo ofereceu de irmos na casa dele, porque tem mais espaço. Fomos. Eu deitei na nossa rede que ainda estava lá, Agnes ficou correndo por onde dava. Jairo fez tapioca com ovo e explicou que essa era a goma mesmo da tapioca, não a fécula, que vendem na feira como se fosse goma. De fato, a diferença é óbvia. A fécula é mais branca e seca, não dá pra comer muito, que tranca a garganta.
Mantivemos a hipótese de voltar pra casa de noite, depois que a chuva tivesse sido absorvida pelo solo. Agnes tinha escolinha no dia seguinte. Acontece que não parou de chover. Jairo trouxe outra rede, essa com mosquiteiro. Achei a arquitetura do mosquiteiro muito genial, com as varetas, o espaço que se tinha. E não entrava carapanã de jeito nenhum. Eu fiquei nessa rede com Agnes, Luis na nossa antiga, passando repelente em intervalos regulares. Jairo subiu na casa dele, Damián voltou pra casa dele e Tauros (o cachorro do Damián) ficou por ali.
No começo, eu tive medo da Agnes sentir frio, porque o ar estava muito úmido e de noite esfria na mata. Mas nos aquecíamos mutuamente, então ela ficou até suada. Durante muito tempo Agnes dormiu em cima de mim, o que me deu a sensação de estar grávida de novo.
Quando a luz apagou, os ouvidos acenderam. Era como se as orelhas crescessem e se transformassem em olhos. Quase não dormi a noite toda, mas foi a experiência noturna de floresta mais legal que já tive. Eu já tinha dormido dentro da casa do Jairo e lembro de ter ouvido a balsa (ou a draga) a noite toda. Ali, na rede, eu estava no meio da floresta e a floresta era puro som. O barulho do motor e de pedras caindo (da draga) seguiu por quase toda a noite, mas fora esse som mecânico, tinha todos os outros sons. Senti a floresta através dos sons dos animais que nela vivem.
Abrindo os olhos, percebi como a casa do Jairo era protegida pela mata. As árvores eram como gigantes de sentinela. Era tão bonito, que não senti que precisasse dormir. No meio da madrugada, Luis e eu trocamos de rede. Luis entrou na rede com mosquiteiro e sentiu alívio das picadas e zunidos de mosquitos. O repelente já tinha acabado, mas eu estava usando roupas grossas. Luis se ajeitou com a Agnes e logo ouvi a prova de que ele dormia. Eu fui perseguida por mosquitos na cara, pescoço e mãos e pela zoada deles. Quando tive a genial ideia de me cobrir toda com o lençol que encontrei na rede, ouvi um pássaro cantando.
Pensei no urutau e lembrei que o urutau que ouvi em Socorro emitia 5 sons em escala, não 3. Fiquei na dúvida. Minha percepção espacial já se organizava pela audição. Os sons que eu ouvia me davam o mapa do território. O urutau, que tinha assobiado distante no sul, de repente assobiou na nossa frente. Luis acordou, eu saí debaixo do lençol. Em seguida, Luis anunciou os macacos. E eles andaram pelas copas das árvores, passando.
Antes do dia clarear, Jairo já andava pela casa, em cima de nós. Desceu, tomou banho de água fria, fez café e só então Agnes acordou. Damián veio nos buscar, porque queria nos oferecer café. Fomos até lá, tomamos outro café e voltamos pra casa. Enquanto Agnes estava na escolinha, dormi. Confesso que dormi de novo durante a soneca da Agnes e dormi mais cedo de noite. Passei o dia recuperando o sono da noite passada em deslumbramento com os sons da floresta.
Um comentário:
Tolle Geschichte! Schöner Text, schönes Erlebnis. Hoffentlich folgt keine Malaria!!
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