A primeira vez que me deparei com questões existenciais nas entrevistas foi quando entrevistei Arika Okrent e Kory Stamper e depois traduzi e transcrevi tudo pra ser publicado na CadLin como duas entrevistas separadas (Arika Okrent aqui e Kory Stamper aqui).
Eu era a entrevistadora, mas essa figura não constava no hall de colaboradores que a revista usava, a taxonomia CRediT. Escrever a entrevista não significa transcrever, ou seja, ouvir e escrever as palavras ouvidas, porque na conversa face-a-face muitos acordos comunicativos são fechados através de gestos, olhares, risos e outras coisas que não se escreve. Escrever uma entrevista então é um compromisso entre anotar o que foi dito e preencher vazios aos quais o leitor, em outro tempo, não tem acesso. Cheguei a ler o livro do Alberto Lins Caldas (Nas águas do texto) pra confirmar que escrever entrevistas envolvia um ato criativo.
Eu não queria ser a única autora da entrevista, meu nome não precisava aparecer em primeiro lugar, mas pô, na taxonomia, quem tinha ESCRITO a entrevista era eu - elas falaram.
A segunda vez que me deparei com questões existenciais nas entrevistas foi agora, mas dessa vez com o foco na verdade. Quando eu estava no RS, o arqueólogo em exercício na SEART e uma representante da Sociedade Brasileira de Arqueologia entrevistaram quatro membros do GT de repatriação de artefatos indígenas situados em museus no exterior (Eliel, Julia, Karkaju e eu) sobre o processo de restituição do manto. Eles queriam entender qual tinha sido o papel do MPI - que quase não apareceu na mídia em relação ao manto tupinambá - nesse processo de repatriação.
A primeira data e horário marcados pra essa entrevista online não foi possível pra mim, então mudaram a data e horário e me senti importante. Fomos orientados a responder as perguntas um por vez, pra facilitar a transcrição. O Teams, a plataforma que usamos pra fazer a reunião online, grava e transcreve a fala - mas do jeito dela. Karkaju, por exemplo, foi transcrito como Carcaju, Carajá e Caixeta. Outro nome que saiu irreconhecível foi Amotara, que a máquina transcreveu como Mota Ramos. Universidade Indígena ficou anotado como Universidade de Jena. Isso não surpreende. A máquina não sabe os nomes das pessoas.

Mas o entrevistador, colega de MPI, deveria ler o que a máquina escreveu. Quando ele nos enviou "a entrevista pronta", identifiquei problemas com vírgulas, crases, frases soltas, nomes, afirmações do tipo que o GT do MPI conduziu o processo de repatriação do manto tupinambá, falhas na transcrição (Eliel dizia: os tupinambá vieram aqui no MPI pra reivindicar o retorno do manto. Ficou escrito: nós no MPI reivindicamos o retorno do manto). Por fim, reparei que as referências à Lou eram apagadas, além de que todos tinham o seu cargo de diretor, coordenador geral e coordenador ao lado do nome, ao passo que a Lou era só linguista. Meu cargo de assistente não me paga muito dinheiro, mas é um cargo.
Passei dois dias ouvindo a gravação e reescrevendo a entrevista que "tava pronta". O que mais me indignou foi a falta de familiaridade com o gênero entrevista e o descompromisso com o que os entrevistados falaram (em favor do que a máquina transcreveu). Dessa vez, eu fui uma das pessoas entrevistadas, mas quem escreveu a versão final fui eu - de novo.