Semana passada, eu ouvi o relato da Altaci de que a amiga dela estava tomando chuva na Asa Norte.
No mesmo dia, Agnes disse que viu alguns pinguinhos de meio centímetro de chuva na escola.
Ontem de tarde eu vi a chuva caindo.
De noite, o vento ficou batendo na janela e o ar ficou frio na madrugada. Não vi com os meus olhos, mas concluo que tenha chovido.
Hoje de manhã, a terra estava molhada, as folhas verdes das árvores estavam num verde vibrante em contraste com os galhos mais escuros (provavelmente molhados) e o carro estava molhado. Com base nesses vestígios, concluo que tenha chovido.
Em algumas línguas, todo esse monte de informação sobre como eu sei que choveu (alguém me disse que outro disse que, alguém me disse que, eu vi que, tenho boas razões para acreditar que) vem codificado no verbo. Em português, só informamos no verbo a pessoa (no caso da chuva, terceira pessoa do singular) e o modo-tempo (pretérito perfeito, indicativo: choveu). Nas línguas em que o verbo codifica indexicais, as pessoas mostram como a informação chegou a elas. Assim percebemos - na língua - o compromisso do povo com "a verdade" (eu estou dizendo x porque eu vi, então é verdade; estou dizendo x porque tenho pistas, mas posso estar enganado; estou dizendo x porque me disseram e se a informação não for verdadeira, não sou a fonte primária).
A chuva chegou num processo demorado e muito aguardado. A última chuva (antes dessas de agora) que tinha caído (usei o mais-que-perfeito de propósito, pra mostrar que o último evento da chuva está bem distante do momento de agora) em Brasília foi em abril de 2024 (ó!). As primeiras águas que caíram foram tão poucas e distantes, que nem dava pra acreditar. Mas depois eu vi a chuva caindo, ufa! Pode acreditar, choveu em Brasília.
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