quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Filtros

Lou-Ann Kleppa

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Tchau Oi

Ultimamente, quando nosso telefone fixo recebia chamadas, era de pessoas que diziam "Alguém?" e aí caía a ligação. No entanto, na maior parte das vezes, a ligação simplesmente caía. Como o telefone tocava em horários inconvenientes e costumava não ser ninguém, tiramos o fio do telefone - e não sentimos falta dele.

Nossa conta de telefone fixo estava 50% mais cara que a conta de telefone celular.

Vamos mudar de casa e decidimos não levar o telefone fixo.

Em 2012, quando me mudei pra Santa Maria, fui na loja da Oi no centro e pedi pra cancelar o telefone. A atendente me deu um papel que eu assinei e não insistiu nenhum pingo que eu mantivesse a linha ou a relação com a Oi. Não peguei fila nem passei dificuldades pra conseguir o desligamento.

Ontem fui na loja da Oi no Shopping, porque a loja do centro fechou. Me disseram que tinha que ligar no 10314 e fazer o cancelamento pelo telemarketing. Liguei e achei estranho que a voz automatizada me oferecia duas opções: cancele imediatamente por meio de atendente ou cancele em 2 dias, sem intermediação de atendente. Preferi cancelar imediatamente.

Demorou umas duas músicas pra eu ser atendida. Um rapaz com sotaque mineiro atendeu e perguntou se eu queria mesmo cancelar.
Sim.
Por que?
Vou mudar de casa.
E não vai instalar lá?
Não.
Ok, perfeito. Para que eu possa prosseguir com o cancelamento, preciso fazer algumas perguntas. Vejo aqui que a senhora está pagando uma faixa de R$ 60  pelo telefone fixo. Como a senhora já tem um longo relacionamento com a Oi, aparece aqui pra mim uma oferta de (XY condições) por R$ 40.
Querido, eu quero cancelar esse telefone. Não me ofereça descontos.
Mas é que essa ligação está sendo gravada e eu preciso seguir o protocolo, senhora. Eu não consigo chegar ao final do processo de cancelamento sem passar por essas telas aqui que oferecem condições melhores. Por favor, senhora, quando eu terminar, diga sim ou não, pode ser?
Não quero continuar com telefone fixo.
Apareceu pra mim (condições ABC) por R$ 30. A senhora aceita?
Não.
A senhora vai mudar para outro local no mesmo estado? Vai mudar o DDD?
Sim, vou pro Tocantins!
Ah, entendi. Apareceu aqui (condições XZ), por R$ 15. O que me diz?
Não.
Tudo bem. A senhora quer mesmo ficar sem os benefícios de um telefone?
Sim, quero cancelar.
Senhora, apareceu aqui (condições YG), por R$ 10. Vai querer?
Não.
Tudo bem, agora preciso que a senhora me forneça um número de telefone para que possamos enviar o protocolo de finalização do procedimento de cancelamento.
Não vou dar nenhum telefone, pra vocês ficarem fazendo propaganda.
Eu preciso de um número, senhora, senão não finaliza aqui.
(inventei um número)
Obrigado, senhora. A Oi agradece e tenha um ótimo dia.
Tchau, Oi!

domingo, 8 de dezembro de 2019

Bodas de açúcar

Convidamos amigos pra passar a manhã e almoço no Jairo e eles toparam. Primeiro passamos no Edison, buscamos gelo e atravessamos a ponte. Quando chegamos, Valdir já estava na frente do portão (fechado), com o telefone na mão.

Todos desceram do carro, inclusive as coisas. Valdir e Luis se ocuparam da mesa e do fogo, Agnes ficou brincando com o Edison - que ela não conhecia. Eu voltei pra buscar Emanuel, Vao e as três crianças: Gabriel, Cecília e Augusto. Ainda procuramos álcool, porque tinha muito material molhado na fogueira.

Quando Agnes viu as crianças, se animou toda e entrou na brincadeira deles. Luis e eu percebemos o cordão umbilical afrouxando. Tentei dar comida pra Agnes, ela não quis, Luis tentou, foi difícil. Daqui a pouco Agnes chamou "mãe" e foi pedir peixe pra Vao.

Chegou Damián, cansado e faminto e logo em seguida se achegou o Fabão - que sempre esteve por lá, a gente é que tinha pouco contato. Fabão foi entrando na conversa, ia lidando com o suspense e a curiosidade dos ouvintes e contou histórias e causos. Depois do almoço, Agnes anunciou que essa era a festa de casamento de 6 anos do papai e da mamãe. Foi uma festa surpresa para os convidados.
Foto: Edison Arcanjo
Antes de dar o soninho pós-almoçal, fomos fazer trilha. Só até o brejo, por causa das crianças. Na volta, os três irmãos foram guiando e se achando muito responsáveis pelo nosso destino, afinal eles conseguiram nos trazer de volta pra casa do Jairo.

Foto: Edison Arcanjo

sábado, 7 de dezembro de 2019

Pensar "por escrito"

Arte: Leidijane Rolim
Fui convidada a participar da VII Semana Acadêmica de Biblioteconomia da UNIR que aconteceu no IFRO entre os dias 02 e 06 de dezembro, em comemoração aos 10 anos do curso de Biblioteconomia da UNIR. Minha fala foi curta, no último dia: sobre a EDUFRO e as tarefas de um editor e de uma editora universitária e também sobre o meu livro sobre sinais de pontuação. Acho que o que mais iluminou o rosto do público foi o lema da EDUFRO: pensar por escrito.

Arte: Leidijane Rolim

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Lançamento do livro na Unir Centro


Aconteceu ontem, no auditório da Unir Centro, o lançamento do livro "Onze sinais em jogo". Representando o Departamento de Letras Vernáculas, Lucas Khalil, o chefe de departamento, apresentou a mim e suas impressões sobre a obra. Sua fala versava sobre o retorno que esse livro representa para a comunidade acadêmica: trata-se de um livro didático (incomum) sobre um assunto pouco explorado no ensino.

Condensei aqui a minha fala na mesa:

Esse livro é fruto de uma experiência vivida em sala de aula. Sou professora de língua portuguesa fora do curso de Letras e de linguística dentro do curso de Letras. Percebi que os alunos não usavam uma variedade grande de sinais de pontuação – na verdade, usavam basicamente o ponto e a vírgula nos textos que me entregavam. Passei a incorporar os sinais de pontuação na minha agenda e a ensinar como funcionam.

O primeiro sucesso dessa brincadeira foi apresentar os sinais de pontuação aos alunos, fazer com que eles se interessassem pelos sinais e pensassem no seu uso.

Outro passo, menos explícito, era assimilar a função dos sinais de pontuação: trata-se de recursos gráficos que organizam o texto escrito.
O que não se aprende nas escolas é que, para entender a função dos sinais de pontuação, é preciso ter clareza da constituição da sentença. É preciso acomodar elementos inseridos, encaixados, deslocados ou invertidos. Há quem defenda que os sinais de pontuação sejam fenômenos linguísticos que protegem e evidenciam a integridade da sentença. Ou seja, para entender de pontuação, é preciso entender de sintaxe. 

As categorias de certo e errado não fazem sentido no universo da ciência, em que se tenta descrever dados e explicar fenômenos. O que tentamos fazer é chegar na formulação de regras, de regularidades, de normas – que fazem parte do que é considerado normal. Essas regras mostrarão que a língua não é caótica, que, em se tratando de comunicação, não estamos diante de um vale-tudo. A tarefa do linguista é investigar a complexidade da língua e dos processos linguísticos.

Depois das falas, tivemos um coffee break no hall externo (Agnes queria cantar parabéns, porque pra ela era festa) e fiz dedicatórias (eu confesso que no começo estava insegura, mas acho que consegui fazer algumas bem bonitas) para aqueles que adquiriram exemplares do livro.

Como o livro é pequeno, já recebi hoje retornos entusiasmados :) de quem esteve no lançamento ontem. Agradeço pela oportunidade de mostrar o trabalho!

domingo, 24 de novembro de 2019

Trilha e peixe com banana

Pegamos o Valdir no posto da Farquar com a Costa e Silva, atravessamos a ponte e fomos no Jairo. Damián já tinha feito fogo e sabia onde estava a grelha. Colocamos o peixe na brasa e fomos fazer trilha. Damián e Valdir iam abrindo a trilha, que há muito estava abandonada. O mateiro ia vendo açaís, bacabas, tucumãs e pupunhas. O ciclista se empenhava em retirar da trilha os espinhos (de pupunha e tucumã). Nós observávamos flores e frutas.
Uma passiflora

Não conhecemos esse fruto
Tínhamos o tempo contado por causa do peixe na grelha e dum compromisso posterior, por isso eu ficava controlando o tempo. Damián dizia que o nosso destino era logo ali, mais 100 metros. E assim caminhamos até a antiga casa de farinha.
Ficamos lembrando do Narcísio e das vezes que ele fez essa trilha com a gente.

Na volta, eu pensei: já abriram a trilha, voltaremos mais rápido do que viemos. Só que Valdir e Luis engataram na conversa e diminuíram o ritmo. Damián e eu chegamos antes, colocamos os tubérculos na brasa e viramos os peixes.
No último domingo, uma banda (metade) de tambaqui tinha alimentado cinco adultos e uma criança (mas tinha banana, farinha e salada); dessa vez, havia três bandas de tambaqui pra quatro adultos e uma criança (e banana, mandioquinha e batata doce).

Frutos

Acerola

A mangueira

Dendê

Sementes


Casa de sementinhas que abre e fecha conforme a temperatura/umidade
Essa é a flor

Agnes no Parque Ecológico brincando com sementes

Essa é de uma flor roxinha que parece um trompete

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

No blog da Editora da Unicamp

Tem uma resenha bem bacana. Aqui.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Manga e mosca

A quantidade de mangas amanhecidas no chão foi aumentando de 1 pra 3 pra 7 bacias cheias. A população de moscas foi crescendo conforme a produção de cascas foi aumentando e conforme a mucura (gambá) vai deixando restos de manga por aí.
No freezer (que o pessoal aqui chama de "a friza") as mangas "tomaram de conta". Eu passo horas descascando e cortando manga, jogo no liquidificador e coloco nesses plásticos. Não cabe mais nada no freezer.
Os vizinhos, os guardas, a faxineira, a escola, o rapaz que corta grama, as estagiárias, os amigos, as faxineiras da biblioteca e as bibliotecárias já ganharam manga (alguns, mais de uma vez). Com o rapaz que vende abacaxi ali na esquina, eu troco uma sacola de manga por 2 abacaxis.

domingo, 17 de novembro de 2019

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Onze sinais em jogo


Quais são os sinais de pontuação? Cada autor (de manual, gramática, livro didático ou mesmo infantil) apresenta sua lista. O que fazem esses sinais? Cada autor apresenta regras e exemplos. Por que existem? Aí já é preciso acompanhar a história da escrita e do livro. Como se aprende a usá-los? Escrevendo, experimentando e observando. Neste livro, em que o sistema dos sinais de pontuação está em jogo, cada um dos onze sinais tem um capítulo – em que vira personagem, poesia, metalinguagem. Os sinais de pontuação não são entendidos como marcadores de pausas ou melodia, mas como organizadores do texto escrito que cumprem basicamente três funções: separar, delimitar e marcar.

O livro foi aprovado no Edital 2018 da Editora da Unicamp, que era voltado para livros didáticos. Como editora da EDUFRO, eu tenho a obrigação moral de publicar por outra editora que a da minha universidade. Agora o livro está pronto e à venda no site da Editora da Unicamp. Pelo site, dá até pra ler as 20 páginas iniciais do livro.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

1m

O pediatra mediu a Agnes ontem e deu um metro.
Um metro de gente de 3 anos e meio.
Dentro desse metro, cabem tantos outros de alegria, bagunça, choro, descoberta, brincadeira, revolta, simpatia, energia e outras coisas que não acabam de completar a descrição.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Os usos sociais do rio

No domingo, fomos a Santo Antonio. Lá tem a igrejinha que sobreviveu a tudo, lá é o ponto de Porto Velho mais próximo da usina de Santo Antônio, lá fizeram o Museu Rondon, lá passava a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Descemos do carro e fomos em direção ao rio. Achamos uma trilha que passava por dentro da cerca que isola o rio Madeira, ao qual as pessoas tinham acesso livre antes das usinas.
 Eis que chegamos bem perto do rio
e percebemos que não estávamos sozinhos. Nas pedras grandes, escuras e antigas, que ficam submersas no tempo da chuva, havia muitos pescadores. Luis foi invadido pela saudades da Cachoeira de Santo Antônio, que era bem aqui, onde construíram a usina.
Ficamos observando o movimento de barcos que vinham pescar, de pescadores que puxavam linha, puxavam tarrafa e traziam cardumes de pacu pra pedra.

Da parede da usina à cidade, passando pelos pescadores nas pedras.


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Eu tenho uma ideia melhor

Luis e Agnes estavam folheando uma revista em que havia meninos vestidos de menina e meninas vestidas de menino.
- E você, Agnes, se pudesse ser diferente do que você é, como seria?
- Eu quero ser o Kayon (no desenho Guarda do Leão, Kayon é filho de Simba que é filho de Mufasa, o primeiro Rei Leão).

                                      *   *   *

Luis chamando pra ir embora, Agnes não querendo soltar a mão de uma menina no parquinho.
- Por que você não queria largar a menina, Agnes?
- Porque eu queria aumentar o nosso bando.

                                     *   *   *

- Agnes, não vai dar pra ir agora. Teria que pegar avião, é longe...
 - Eu tenho uma ideia! Casaco voador!!



sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Certo e errado no reino da pontuação

Fui na Editora da Unicamp pra conhecer o pessoal que avaliou e produziu o meu livro, Onze sinais em jogo, que iria pra gráfica no dia seguinte.
Antes de mandar o livro pra gráfica, a editora, Márcia Abreu, queria sugerir umas pequenas alterações na orelha do livro, que tava assim:

Os sinais de pontuação protagonizam grande parte dos "erros" de redação: são observados nas frases-parágrafo, nas aspas que penas pretendem sublinhar palavras, nas vírgulas que separam sujeito de predicado (não separando outras coisas), nos pontos que nem abreviam nem encerram sentenças etc.
Queria entender por que "erros" estava entre aspas. Expliquei que eu sou linguista e que nenhuma ciência trabalha com as categorias de certo e errado quando descreve seus dados e explica seus fenômenos. Este livro, sobre os sinais de pontuação, não é um manual ou guia, não tem o propósito de ensinar regras, erros e acertos. Além disso, minha trajetória pessoal na Linguística é de alguém que passou o mestrado analisando dados de fala de criança - em que não é possível falar de certo e errado, mas de efeito de sentido - e passou o doutorado analisando dados de fala de pessoas afásicas, que, por conta de uma lesão cerebral, tiveram sua linguagem alterada. Também não faz sentido pensar em certo e errado na fala afásica: o que procuramos fazer é acompanhar o processo de produção de significado, que muitas vezes é pouco convencional e exige um interlocutor atento e disposto a interpretar o que o sujeito afásico diz.

Mas se você corrigir uma redação em que aparece uma vírgula separando um sujeito do predicado, você corrige, você conserta, não é mesmo? Sim, muito mais por uma questão de legibilidade que de acerto. Uma vírgula separando o sujeito do predicado exige que o leitor procure o sentido dessa vírgula nesse lugar. Eu entendo que os sinais de pontuação guiam o leitor. Quando o escrevente não tem familiaridade com a escrita e os sinais de pontuação, pode ser que os sinais guiem o leitor para ruas sem saída, estradas esburacadas e outras dificuldades de percurso. Eu tiraria a vírgula, porque ela não exerce sua função ali, porque ela trava a leitura, porque, ao invés de organizar, ela bagunça o texto. Mas pode ser que o escrevente tenha tido a intenção de dificultar a leitura mesmo, então a vírgula ali cumpre bem o seu papel.

Dentro do livro, você pode até convencer o leitor de que não há erros, mas a orelha ainda não é o livro e pode ser decisiva se a pessoa lê ou não o livro, se compra ou devolve pra estante. A maior parte do público tem acesso à gramática, que claramente diz o que é certo e o que é errado. As pessoas estão acostumadas com erros de redação, não com interpretações dos efeitos que o escrevente talvez não tenha planejado. Podemos tirar as aspas dos erros?


*Suspiro*

Na aula de hoje, sobre como os sinais de pontuação estruturam o texto e a sentença, perguntaram se o ponto e vírgula (que graficamente separa duas sentenças autônomas, mas semanticamente as relaciona) poderia ser substituído pelo ponto. Sim, mas o efeito é outro.

Ele apresentou a decisão; estamos proibidos de viajar.
Ele apresentou a decisão. Estamos proibidos de viajar.

Qual que é o certo? Depende do que você quer dizer. E nessa sentença, pode substituir o ponto e vírgula pela vírgula? Ué, mas a vírgula não encerra sentenças, a vírgula só atua no interior da sentença. Se quiser juntar essas duas sentenças, uma conjunção seria mais adequada. Então é errado colocar a vírgula entre duas sentenças? A vírgula não funciona como conectora. A vírgula separa, delimita e marca. Precisaria de uma conjunção pra conectar as duas sentenças, e se fizer isso, você passa a ter uma principal e outra coordenada (ou subordinada).

Então tem regra! Sim, tem. Mas não seguir a regra não significa errar: veja na literatura, como Saramago escreve. Observe que valter hugo mãe só usa três sinais de pontuação: alínea, vírgula e ponto. Perguntas e diálogos você percebe, mas é um trabalho interpretativo. Repare como são marcados os diálogos nos livros. Alguns autores e editores optam por aspas, outros pelo travessão. Outros autores marcam a troca de turnos apenas com a alínea. Graficamente os diálogos são marcados, mas cada um encontra uma solução. O terreno mais fértil para experimentação com os sinais de pontuação é a literatura.

Seu livro é de literatura, professora?

*Sorriso*

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Centro de Convivência de Afásicos

Fui convidada pela minha ex-orientadora (que defende que existe ex- tudo, menos ex-orientador, porque a relação é perene) para participar de uma reunião presencial do Grupo de Pesquisa ao qual sou vinculada: GELEP - Grupo de Estudos da Linguagem no Envelhecimento e nas Patologias. O grupo está se preparando para se inscrever num simpósio em Roma e foi ótimo para interagir com o pessoal: tanto os sujeitos afásicos do CCA quanto a Rosana e seus orientandos.

Me dei conta, durante as conversas, que o foco no CCA não é apenas a linguagem no sujeito, como se esperaria de um linguista, mas também o sujeito na linguagem. As estratégias e soluções comunicativas encontradas pelos sujeitos são tão valorizadas quanto seus progressos ao longo do tempo. E o tempo é um ingrediente importante: alguns sujeitos participam do grupo há mais de 10 anos. E quando a gente observa os recursos comunicativos e efeitos que têm, as noções de certo e errado deixam de ter sentido.
Sempre tem café com bolo, sim, mas tem atividades de linguagem. A Unicamp fez uma reportagem bacana:



Nesse dia, uma das atividades era ver as fotos das obras de arte da Dona Vera e conversar sobre elas. O projetor no CCA não estava funcionando, então migramos para uma sala vazia.
Cheguei num dia, voltei no outro e fiquei hospedada na Casa do Professor Visitante. Achei tudo certo e justo, só não lembrava mais das distâncias.

sábado, 5 de outubro de 2019

Aqui o contrato: leia e assine

O proprietário da casa em que moramos decidiu colocar a casa à venda. E como nós não temos condições de comprar essa casa, saímos por aí vendo casa e apartamento para alugar. Na primeira imobiliária, quase chegamos nos finalmentes depois de poucos dias: a imobiliária nos enviou o contrato de locação elaborado pela proprietária.

O contrato era bem fascista: eu tenho o imóvel que tem as características tais e deve ser mantido e devolvido em perfeita ordem e vocês têm milhões de obrigações e as sanções são tais e tais. Eu vi que tinha repetições: o valor do aluguel e o dia do pagamento estavam estabelecidos no início do contrato. Como a transação era mediada pela imobiliária, o primeiro aluguel deveria ser pago à imobiliária, o restante à proprietária. No final do contrato, na cláusula 47, quando entrava em jogo o pagamento de caução, estava escrito que a caução deveria ser paga juntamente com o primeiro aluguel - diretamente para a proprietária. Além disso, as cláusulas estavam dispostas em ordem aleatória.

Não sei se por força do hábito de editora/ revisora; ou obsessão por ordem e clareza, fui agrupando as cláusulas: do objeto, das obrigações do locatário, da rescisão etc. Aquilo gerou um escândalo. Lá e aqui, dentro de casa: como que ela vai saber o que você mudou se ela não reconhece mais o contrato? Quando se muda as leis, elas continuam na ordem, mas riscadas. Refiz o contrato, respeitando a ordem caótica, marcando inserções e riscando disparates com os quais não concordávamos.

O simples fato de não aceitar o contrato enquanto tal foi o maior dos problemas. Ou assina, ou não assina. Elaborar o contrato, chegar a um consenso pelo contrato - que deve respeitar as duas partes e deve refletir um acordo - não, isso não é admissível. Uma parte faz o contrato, a outra parte concorda e assina ... ou não assina. Desistimos.

Outra imobiliária nos mostrou outro imóvel que nos interessou muito. Como já tínhamos estudado a Lei do Inquilinato e sabíamos que não somos obrigados a pagar taxas que incidem sobre o imóvel (tipo IPTU), pedimos para não pagar o IPTU. O agente imobiliário disse que isso não seria possível, porque o pagamento do IPTU por parte do inquilino já estava previsto em contrato. Sim, e não tem como alterar o contrato? Não, o contrato é padrão. Por uma questão de honra e justiça, desistimos.

Agora decidimos sair daqui só em dezembro, nas férias. Ufa, vai dar tempo de colher mangas!


terça-feira, 1 de outubro de 2019

Cujubim

Rio Madeira com água limpinha, porque chove pouco
No domingo fomos de carro a Cujubim, nas margens do rio Madeira, onde fica o lago Cujubim. Eu não conhecia a região, Luis já tinha ido uma vez. Sabíamos que Cujubim fica depois do Porto Ammaggi, colado no Porto Bertolini. Seguimos pela Estrada da Penal, passamos os presídios e logo fomos acompanhando caminhões. Mesmo no domingo, havia muitos caminhões na estrada. E a estrada ainda está sendo feita...

Na foto acima tem uma canoa em terra firme. Achou? Mais pra cima, tem uma balsa no rio. Acima dessa balsa, a linha do horizonte fica embaçada. Ali desemboca a esteira que vai do silo que armazena os grãos (soja, principalmente) pra balsa. E quando os grãos caem, levantam uma poeira fedida.

Quando Olga e Simão vieram visitar em 2018, passamos na frente desse porto:
Silos do porto Bertolini vistos do rio em agosto de 2018
Fomos procurando pelo Jackson. Cada um nos ajudava a chegar um pouco mais perto do sítio Arco-Íris. Como a entrada não estava sinalizada, demoramos um pouco a achar. Eu me surpreendi com a comunidade cheia de crianças com nomes tipo Sidharta, Surya, Agnus... 

Jackson não lembrava do Luis, mas como ambos têm o Jairo - Bakhti - como amigo em comum, logo entraram em sintonia. Jackson falou de um pessoal da UNIR que queria estudar o impacto das usinas na comunidade Cujubim. Como o lago não tem contato com o rio Madeira (só foi inundado pelo rio na cheia de 2014), os efeitos das usinas hidrelétricas não se fazem sentir na face sul do lago. Fiquei pensando no tempo da produção de conhecimento pela academia, o tempo da publicação e absorção pelo público (acadêmico). Agora tem pesquisador da UNIR avaliando os impactos das usinas na comunidade ribeirinha de Cujubim.
O que está impactando a comunidade agora é o porto. Os moradores reclamam da fumaça que sobe quando os grãos caem da esteira. Como esses grãos devem estar altamente embebidos de substâncias tóxicas, as cascas que voam pelos ares transportam fertilizante, agrotóxico e outros venenos. E as pessoas sentem os efeitos no corpo.

Paramos pra almoçar num restaurante que fica de frente pro pátio dos caminhões no porto. Não tinha mais caminhão em fila, na estrada: todos estavam no pátio. Um funcionário passou por entre eles e foi levantando a lona que cobre a carga dos caminhões com uma vara. O cheiro ácido que lembra ração quase estragou nosso apetite.

Jackson tinha dito que se margeássemos o rio, passaríamos por baixo da esteira. E que na margem do rio estava tudo dominado pelo garimpo.
Garimpeiros no banco de areia
Fofocas avistadas em agosto de 2018