Tenho aqui dois livros que tratam os sinais de pontuação como se fossem sinais ortográficos. Um deles se chama Divertimento com sinais ortográficos, do poeta Alexandre O'Neill
e o outro se chama Contos ortográficos, da ilustradora Marilda Castanha.
Nos dois livros, os sinais de pontuação são protagonistas, contracenando com sinais que incidem sobre a palavra, como acentos, apóstrofe e hífen. Nos contos ortográficos, a reforma ortográfica está em evidência e os textos nos ensinam a aceitar (com humor?) o novo acordo ortográfico.
Ora, as reformas regulamentam a grafia da palavra - e não da sentença ou do texto, que é onde atuam os sinais de pontuação. Verónique Dahlet (2006: as (man)obras da pontuação, referência para quem estuda os sinais de pontuação) classifica os sinais de pontuação de várias maneiras, dentre elas, distinguindo sinais de frase, de texto dos sinais de palavra. Para a autora, o ponto abreviativo, hífen e apóstrofe incidem sobre a palavra - mas, segundo ela, isso são questões de ortografia.
Orthós, do grego, significa reto, correto, direito, justo, normal etc. e funciona como prefixo em ortopedia, ortodontia, ortodoxo, ortografia. E como são ensinados os sinais de pontuação? Através de exercícios em que se demanda do aluno que pontue corretamente frases avulsas:
Bom dia
O gato caiu do telhado
Onde foi parar a chave
Se as frases estão fora de contexto, pontuar corretamente significa exercer o poder de telepatia, já que é possível imaginar contextos para
- Bom dia?
Bom dia...
Bom dia!
Bom dia.
"Bom" dia :-[
O gato caiu do telhado...
O gato caiu do telhado?!
O gato "caiu" do telhado.
Onde foi parar "a" chave?
Onde foi parar a chave!!!!
Onde foi parar a chave...
Eu entendo por que os sinais de pontuação - que incidem sobre a sentença e o texto - são em geral entendidos como sinais ortográficos: foram aprendidos no contexto da gramática normativa que separa o certo do errado e prevê apenas um modo possível de pontuar corretamente.


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