Este seria pra mim o último dia (8), porque eu não pretendia participar da Balada Abralin, prevista para o dia 9. Fiz minha própria happy hour na praia de manhã: caminhei por duas horas na areia e dei um mergulho no mar salgado, de ondas fortes e altas.
De tarde, tinha mesa redonda intitulada Linguística e Resistência. Fiquei surpresa com a criatividade dos palestrantes para nos mostrar como os linguistas podem resistir aos tempos sombrios que vêm por aí. Anna Bentes falou das redes sociais, de comunicar aos leigos com clareza o que fazemos e como somos importantes para a sociedade. Eleonora Albano falou (entre outras coisas) do amor que devemos devotar aos nossos alunos e nossas pesquisas. Nosso amor à profissão nos legitima perante a sociedade. Marcus Maia falou de eye-trackers que mostram ao aluno como está lendo, de modo que ele possa ser protagonista do seu aprendizado. Pablo Arantes, do meu lado, comentou que isso literalmente é Linguística Aplicada. Marcus Maia ainda falou de um projeto que está desenvolvendo chamado Viva Língua Viva, de incentivo à descrição de línguas indígenas. Por fim, Rodrigo Oliveira Fonseca dissecou formas e funções do fascismo e encaixou o atual governo no modelo. Muito elucidativo.
A última conferência do dia foi dada por Daniel Everett, que começou por uma longa homenagem a Marcelo Dascal (filósofo e linguista que faleceu em 15 de abril deste ano). Apresentou slides em inglês, mas falou fluentemente em português. Apresentou suas próprias pesquisas sobre as relações entre cultura, gramática e cognição. Ofereceu muitos exemplos em pirahã e contou a aventura que foi conhecer a língua e como ele precisou reformular hipóteses a cada vez que o que eles diziam não correspondia às suas expectativas.
Daniel Everett é uma figura rodeada de polêmica: foi viver entre os pirahã com a família (três filhos pequenos e esposa) na função de missionário. Com base na SIL (Summer Institute of Linguistics) em Porto Velho, sua missão era aprender pirahã para traduzir a bíblia para a língua indígena. Com a convivência com os pirahã e a impossibilidade de convertê-los, Everett virou ateu. Além disso, virou linguista. Como o que o pessoal da SIL faz é religiosamente orientado, seus trabalhos linguísticos (descrição de línguas indígenas) não têm valor para a comunidade linguística. Porque missionários têm uma visão de mundo própria, não compartilhada pelos indígenas, por exemplo. Cultura, gramática e cognição estão imbricados: Deus e o Diabo podem aparecer no relato dos missionários sobre a língua que não conhece nem Deus nem o Diabo, porque quem tem a voz são os missionários, que projetam o seu ponto de vista sobre a língua. Everett mesmo faz isso no livro Don't sleep: there are snakes, quando enfatiza que pirahã não tem uma infinidade de coisas (números, recursividade, casas duráveis, noção do que é infância etc.), ao invés de se ater a descrever a língua e cultura.
Everett se doutorou na Unicamp como linguista e voltou aos Estados Unidos pra esfregar na cara de Chomsky que nem todas as línguas têm recursividade. E a tal da recursividade (possibilidade de aumentar uma sentença infinitamente através do encaixamento de orações) foi debatida por anos: tudo bem, não tem recursividade gramatical, mas tem recursividade semântica etc. No final da conferência, Everett falou da recursividade e lembrou da conferência de Geoffrey Pullum, que dizia que as teorias não deveriam se interessar pela contagem de sentenças, mas deveriam se concentrar na sua descrição.
Eis que Tom Roeper fez uma pergunta (que não era pergunta, era um comentário que pretendia ensinar) em inglês sobre recursividade. Everett respondeu parte em inglês, parte em português. Mencionou textos e resenhas de textos sobre a famigerada recursividade. Tom Roeper retomou a palavra, avisou que não tinha entendido a explicação em português e quis falar mais sobre as resenhas e textos que ele escreveu sobre recursividade. Everett ficou furioso: this is my talk! e não deixou ele terminar a tréplica, explicou ao público que são praticamente vizinhos e que aquela era a primeira vez que Tom Roeper lhe dirigia a palavra. Depois ficou se vangloriando que era a pessoa que mais amava o Brasil e os pirahã, que não devemos ter racismo linguístico etc.
Quando foi que vi tanta emoção num debate linguístico?


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