De manhã fui acompanhar um simpósio temático sobre Linguística Funcional centrada no uso. Confirmaram pra mim que fenômenos de gramaticalização agora estão sendo analisados como construções. A última pessoa a apresentar foi uma orientanda de pós-doc do Ataliba sobre preposições introdutoras de verbos (comecei a fazer/ terminei de fazer/ dá pra fazer). Percebi grande esforço por parte dela de estabelecer os graus de gramaticalização das preposições e fiquei com muita vontade de dizer pra ela que eu já fiz isso na minha dissertação, depois na tese e também no capítulo da preposição que saiu na Gramática do português falado. Mas como dizer isso sem admitir minha vaidade? Fiquei quieta.
Neste congresso, calculo que entre 85% e 90% das pessoas que apresentam seus trabalhos são alunos (de pós-graduação, mas sob orientação de outro professor). Neste simpósio não foi diferente: uma professora apresentou juntamente com a orientanda, todos os outros estavam na condição de estudantes. Mas na parte que sucedeu as apresentações, pessoas do público como Marcos Bagno, Lilian Ferrari e Sebastião Votre fizeram comentários valiosíssimos e perguntas interessantes para cada trabalho. Fiquei grata de ver como eles lidaram com os estudantes.
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| Ataliba, o apresentador e Jaime Pinsky |
Depois dessa mesa redonda, havia uma hora de intervalo até a conferência seguinte. Abrindo caminho por entre os pôsteres, dei de cara com Ataliba que me chamou. E seguimos conversando até o início da conferência. E como Ataliba é Ataliba, fomos interrompidos milhares de vezes, tirei um montão de fotos do Ataliba com alunos, apareci em outro montão de fotos, acompanhei conversas e vidas de pessoas que vinham conversar com ele. Num caso, até dei uma solução prum problema cabeludo, pelo qual eu mesma já passei (prestação de contas para CAPES ... 3 anos depois de encerrado o projeto!).
A conferência de encerramento do dia era sobre a ineficiência do gerativismo para descrever dados de linguagem humana. Ótimo para descrever e prever linguagem lógica, computacional, mas inaplicável para a linguagem humana. Alguns argumentos me convenceram: para os gerativistas, não há gradiência de agramaticalidade, ou seja, se algo é agramatical, não é possível na língua, não pode ser analisado. Ora, dados como "estou na esquina, eu" aparecem na fala e são estigmatizados. Não tanto como "bicicréta", no entanto não são tão agramaticais como "na eu esquina estou". Outro argumento é que o que não é da língua, não pode entrar nela. Ora, temos um vocabulário virtual que nos dá pistas de como podem ser as palavras de nossa língua materna. O último (dentre vários outros) que me pareceu cristalino como uma revelação - diz respeito à aquisição. Pra Chomsky, não há aquisição, porque a língua já está em nós: a gramática universal. No entanto - e eu observo isso na Agnes - a aquisição é gradual, com hipergeneralizações e deformações. Exemplo de hipergeneralização: nossa vizinha se chama Júlia (5 anos). Quando fomos a Gramado, Agnes chamava a Helena (filha do meu primo) de Júlia. Agnes adotou "Helena", mas recentemente falou da "outra Júlia", referindo-se à Helena. Exemplo de deformações: arroti, puli, fazi, pegui etc. Alguém no público lembrou que, para as crianças em fase de aquisição, muitas e muitas palavras são mistérios por muito tempo (o tal vocabulário virtual), e no entanto, com tempo, são assimiladas. Por fim, Geoffrey Pullum apresentou a sua MTS (Model Theoretic Syntax) e criticou a postura do gerativismo de medir o tamanho das línguas: capacidade de gerar infinitas sentenças a partir de um número finito de regras; porque a finitude não pode ser verificada. Claro que Daniel Everett e o caso da não recursividade do pirahã foi mencionada, entre outros exemplos de línguas que não dispõem dos mecanismos previstos pela sintaxe gerativa e que deveriam ser universais.

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