sábado, 23 de março de 2013

Marx - a criação destruidora

Luis e eu participamos ontem do primeiro dia da Etapa 2 (de 3) do Seminário sobre Marx, cujo foco principal é Das Kapital. De tarde, no Sesc Pinheiros, aconteceu uma mesa com Roberto Schwarz, José Arthur Giannotti, João Quartim de Moraes e Emir Sader. Em nome dos velhos tempos em que eles eram estudantes e recém-professores, falaram dos primeiros seminários de estudos dO Capital na universidade brasileira (leia-se USP).

O perfil do público estava mais pra universitário curioso que pra militante de esquerda versado, de modo que as falas de alguns foram mais aproveitadas que as de outros. Outra coisa igualmente complicada pros não-iniciados foi perceber as posições políticas de cada um na mesa. Giannotti foi mestre de todos naquela mesa, mas politicamente se afastou deles - que se tornaram marxistas, enquanto Giannotti se declara marxólogo. Poucos puderam apreciar o esforço do Roberto Schwarz em não expor essas diferenças e homenagear o "filósofo municipal" que fazia questão de ler Marx com o rigor de "filósofo mundial". Eu tenho Luis pra entender essas coisas difíceis.

De noite eu recusei os fones que reproduzem a voz da intérprete que desconhece os termos técnicos porque o palestrante era alemão. Pra nossa surpresa, ele falava em inglês. Daquele jeito que os alemães falam inglês. Michael Heinrich, colaborador do projeto MEGA (Marx-Engels Gesamtausgabe) defendeu o projeto editorial de fôlego que consiste em recuperar e publicar todos os originais (com as rasuras, intervenções, cartas recebidas e enviadas, anotações, notas etc.) de Marx e Engels. Porque Marx foi e é o maior estudioso do capital(ismo) e continua atual. O projeto é imenso e conta com relativamente poucos pesquisadores - e pode não atingir o seu fim, como ele mesmo diz. Tive a impressão de que o texto de Marx é tratado como os textos sagrados - com o diferencial de que não são as traduções que tiram o sono dos estudiosos, mas as várias edições. Nada do que existe hoje de Marx (e Engels) está completo: tudo foi alvo de edições (seja para censurar, seja para inserir material).

Fiquei surpresa com a história (que eu não sei se recupero bem aqui) dos originais do Kapital. Marx chegou a publicar apenas o primeiro volume. Antes de morrer, entregou a Engels as versões incompletas dos volumes 2 e 3. Engels dedicou o resto de sua vida a completar as lacunas deixadas por Marx e publicar esses dois volumes. Os originais de Marx antes da edição de Engels se perderam. E agora vem a aventura: Engels entregou todos os originais (editados) ao Partido (SPD), onde ficaram arquivados. Quando a onda do nazismo se abateu sobre a Alemanha, foi preciso proteger esses originais, que foram parar na Holanda via Dinamarca e Reino Unido. Muitos textos se perderam nessas viagens, mas a maior fonte de originais de Marx e Engels hoje está em Amsterdam; a segunda maior em Moscou. E curiosamente foram surgindo textos dispersos em leilões. Quer coisa mais capitalista que um leilão? O valor do objeto não tem relação qualquer com o seu preço, mas é determinado por forças alienantes. Tanto, que o último texto adquirido em leilão foi comprado por um colecionador anônimo - por um preço alienígena.

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