segunda-feira, 11 de março de 2013

O sistema é bruto

Diziam que quem sabia dirigir em São Paulo estava habilitado a se virar em qualquer trânsito de qualquer cidade. Eu aprendi a dirigir em São Paulo e não é raro que quem anda comigo reclame que meu estilo é agressivo ao volante. Percebi que minha postura de motorista mudou quando passei a ser ciclista, mas uma coisa não muda: tanto na bicicleta como no volante, tenho uma profunda confiança que todos os agentes de trânsito (motorizados, pedestres, ciclistas etc.) conhecem (e respeitam) as regras do jogo. Mesmo quando exerço a direção defensiva, confio que o outro saberá calcular e respeitar o meu espaço na via. Nesse sentido, acompanhar pessoas que se movem no trânsito tentando prever todos os movimentos dos outros agentes de trânsito, que vivem em constante estado de alarme e alerta máximo, é pra mim o terror. Porque a insegurança do outro cresce como uma onda que desaba em terrorismo pra cima de mim.

E no entanto, eu deveria ser um pouco mais realista e confiar um pouco menos no bom senso dos outros. Eu deveria levar em conta o transtorno que é o trânsito na vida de cada um que acompanha o aumento da frota de carros individuais e a degradação e o não-alcance da frota dos meios de transporte coletivos. Eu devia contar com desvios crassos como o atropelador de 17 ciclistas em Porto Alegre, o embriagado que amputou o braço de um ciclista usando seu carro, caminhoneiros que dormem no volante e tantos outros, brutalizados pelo sistema que nos faz sofrer todo dia. Ouvir rádio em qualquer capital é seguir os boletins de trânsito.

Estou conhecendo o Rio de Janeiro agora. Não atrás do volante ou guidão, mas como pedestre e usuária do sistema de transporte coletivo (ônibus e metrô). Na segunda vez em que vim ao Rio para ficar na zona norte, tive pesadelos com calçadas apertadas, lixos espalhados, grafitis mórbidos e uma constante sensação de abandono. Agora, que já deveria ter me acostumado, continuo impressionada com os bueiros que transbordam, os lixos que a enxurrada leva, o cheiro de mijo, os cocôs de cachorro.

E se eu achava que a linha Grajaú-Butantã em São Paulo era feita por motoristas estressados, tenho certeza absoluta que todos os motoristas de ônibus do Rio estão/são brutalizados pelo trânsito carioca. As altas velocidades em curtos espaços, as constantes freadas bruscas, as curvas em alta velocidade em ruelas que já tiveram suas esquinas arrancadas por veículos motorizados, as finas que tiram de tudo no caminho, o fato de não pararem nos pontos de ônibus me provam que o trânsito no Rio - medido através dos motoristas de ônibus - é mais brutal que em São Paulo.

Não peguei metrô nos horários de pico porque sempre havia um cinema por perto. Sim, a estratégia pra não pegar o metrô lotado era gastar o tempo numa sessão de cinema. Mas vi que no metrô do Rio tem estruturas de fitas antes da faixa amarela (em São Paulo são grades mesmo) para conter e controlar a população na entrada do trem. O que me assustou nesse esquema não foi a estrutura, mas a postura do segurança. Existe uma guarda especial de homens grandes e fortes que têm a tarefa de gerenciar o fluxo das pessoas com a imposição do próprio corpo. O guarda grande caminhou a passos lentos até a fita, ignorou solenemente as pessoas pardas paradas ali, fechou a fita, ouviu o trem chegando, sentiu o vento do trem parando nas suas costas, ouviu as portas do trem se abrindo, esperou dois segundos e largou a fita, que ricocheteou no braço de uma pessoa esperante. Nesse momento o guarda se deu conta que estava na frente de pessoas que sentem dor, e não de gado que precisa ser manejado. Quando expressei a minha impressão de abuso de autoridade daquele gesto que não leva em conta o outro, ouvi do Luis uma explicação de como é o cenário em horários de pico. O sistema é bruto. E brutaliza.

No Rio de Janeiro, cidade maravilhosa, cartão-postal do Brasil, existe muito investimento em megaeventos, grandes projetos, desapropriação, construção e exploração de recursos naturais e do turismo. Para estas grandes obras, parece ser permitido errar: o Maracanã virou uma piscina depois da chuva forte da semana passada. O prazo de entrega da obra foi protelado por causa das obras de ajuste às forças da natureza - que não estavam no plano original. Ora, se a chuva não estava nos planos, e o complexo olímpico que está sendo construído na Barra servirá apenas à Copa e Olimpíadas, que tipo de sistema perverso é esse, que investe dinheiro pesado no que é passageiro e desconsidera a população local e permanente? Esse sistema é bruto. E brutaliza quem perde a paciência de ser sempre esquecido. E estoura de maneira brutal.

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