quinta-feira, 23 de junho de 2022

Ver e não ver

"Todos los escritores son ciegos - en sentido alegórico a la Kafka -, no pueden ver sus manuscritos. Necesitan la mirada de otro. [...] No hay forma de leer los proprios textos sino es bajo los ojos de otro." (Piglia, 2017, p. 63)

Lembrei dessa passagem do El último lector do Ricardo Piglia quando li o texto do Luis publicado no A Terra é redonda. Que o autor não perceba seus erros, o excesso de vírgulas que demarcam as interrupções no processo de escrita, eu entendo. Eu mesma não enxergo os meus erros quando o texto ainda está fresco, porque eu adivinho grande parte dele, não leio cada letra, uma depois da outra. Por isso o revisor, a outra pessoa - que não conhece o texto - tem melhores condições de corrigir o texto. Ou o próprio autor, muito tempo depois, quando ele não lembrar mais do que escreveu e tudo for novidade.

Se o autor é cego, às vezes o leitor nem percebe que lê erros. Porque projetamos tanto quanto vemos. Apreendemos o significado de blocos de letras sem decodificar letra após letra. Quando li o texto publicado, identifiquei alguns erros que tanto o autor como a revisora (eu) como o editor do blog deixaram passar. O pior é que não dei pela falta do "cu" em "cirlação".  

*

Damián ligou dizendo que estava na UPA, que tinha sofrido um acidente e que uma mulher tinha passado por cima da bicicleta dele. No caminho, fiquei pensando que estar na UPA (e não no João Paulo, hospital para onde levam vítimas de acidente) era até bom sinal. Fui entrando pelas portas, corredores e encontrei o Damián num leito. Estava com a blusa toda ensanguentada, a cara manchada de sangue seco. Ele sentou na cama (maca?) e contou o que tinha acontecido.

Uma mulher fez a curva pra entrar na BR olhando pra trás. Colidiu com a bicicleta do Damián que trafegava pelo acostamento. Ele girou por cima do carro dela e caiu de costas no chão e depois bateu a cabeça. 

Provavelmente a mulher olhou pra trás porque achou que não precisava verificar se a estrada estava mesmo à sua frente. Ela confiou na estrutura viária, projetou uma via livre. Os garis que trabalhavam ali perto e foram acudir o Damián e ficaram com ele até a ambulância chegar contaram que viram o ciclista dando uma volta completa por cima do carro. Se espantaram que ele não tivesse desmaiado.

Damián disse que perdeu muito sangue pela boca e nariz, que levou sete pontos na cabeça. Quando eu vi o calombo atrás da cabeça dele, meu sangue gelou. A enfermeira me alertou que ele não queria tomar remédio pra dor. Quando ofereci de trazer ele aqui pra casa, ele explicou que ainda quer chegar no lugar pra onde ia antes de ser atropelado. Hoje tem festa de São João. Mas as costas doíam muito. Quando ele levantou a blusa, expondo as costas raladas, eu senti que era informação demais pra mim. Tive que sentar. Levantei porque a cadeira ela longe, mas senti os membros formigando, náusea, fraqueza e tontura. Ver o que ele não via em si mesmo (os ferimentos e a teimosia) baixou minha pressão. Voltei a sentar, a cadeira cedeu, deitei e fechei os olhos.

- Lou?

Trocou a enfermeira e ela quis entender a situação: 

- Você tá bem?

- Sim, eu sou a visita, só baixou a minha pressão, já vai passar.

- E tu, é trauma? Não pode ficar andando, não. Quatro horas de repouso! E sem água.

domingo, 19 de junho de 2022

Tudo está conectado

Por que é a TV Record (do Edir Macedo) que traz com exclusividade a reconstituição da cena do assassinato de Bruno Pereira e Dom Philips? Por que um programa de variedades veiculado no domingo pretende "encerrar o caso"? O caso está encerrado porque o jornalista disse que está? Por que não é a Globo (que recebeu com exclusividade o material da Lava Jato) que mostra a confissão de Amarildo?

O crime organizado, de maneira genérica, é vinculado à ausência de Estado da Amazônia. O crime organizado é o narcotráfico? A pesca ilegal? O garimpo é mais rentável que o narcotráfico. Ouro de aluvião, na Amazônia, se encontra nos rios. A atividade garimpeira nos rios - que são sustento de comunidades tradicionais - é muito mais devastadora que a pesca ilegal, o narcotráfico ou a supressão de madeira. 

Mas volta lá: ausência de Estado, é? A "Nova Funai", nos tempos de Bolsonaro no poder, é presidida por um delegado da Polícia Federal. Ainda na gestão de Temer, em 2017, um General do Exército era presidente da FUNAI. Não só o Estado está lá, na Amazônia, como as forças armadas estão lá. 

Por que Edward Luz foi indicado a ocupar alto cargo na FUNAI depois que virou bolsonarista e se voltou contra os indígenas? Edward Gomes da Luz, seu pai, é fundador da Missão Novas Tribos do Brasil que pretende evangelizar os índios, até mesmo os isolados. Levar a palavra da Bíblia até o último humano e fazer com que os indígenas convertidos administrem a Igreja Indígena (evangélica) é a missão. De que serve essa missão se os indígenas têm sua própria crença, língua e cultura?

Bruno Pereira atuava na FUNAI defendendo os isolados. Isolar-se é uma atitude. Não significa que "ainda não foram descobertos", mas que resistem ao contato. Por causa das doenças, por causa da perda de território, língua, cultura, identidade. 

Não é à toa que os indígenas sejam atualmente os mais mobilizados dos movimentos sociais. Sua existência e história são atacados constantemente por várias vias há anos - agora, com Bolsonaro, por incentivo do governo.

O modo ocidental de analisar as coisas é quebrar tudo em unidades menores e averiguar como a máquina funciona. O modo indígena de perceber a realidade é outro: tudo está conectado. O rio é nosso parente e ele pode morrer se for muito castigado (Ailton Krenak). Os tiros que mataram Bruno Pereira e Dom Philips vieram de um só lugar. Mas a intenção de matar se originou exclusivamente nesse lugar ou ela fechou o cerco ali?

quarta-feira, 15 de junho de 2022

Mostra Adrian Cowell de cinema

 

O nosso filme (Entre a cheia e o vazio) será exibido no dia 23 em Brasília, como parte da programação do debate sobre hidrelétricas na Amazônia.

domingo, 12 de junho de 2022

Turtles all the way down

 

A-Tuin, a grande tartaruga que vaga pelo espaço, carrega em cima de seu casco quatro elefantes que sustentam a terra plana (Terry Pratchett, Discworld).

E quem carrega A-Tuin? It's turtles all the way down!

Eu vejo A-Tuin e a recursividade infinita nessa parede do bloco de Letras da UNIR.

Ponto de ônibus no campus

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Qual é a função de um editor?

Hoje encerra o prazo para os autores aprovados no edital 2021 enviarem a versão final de seus manuscritos para iniciarmos o processo de editoração. Versão final significa que o livro já contempla as sugestões feitas pelos pareceristas e já contém eventuais paratextos como prefácio, posfácio etc. Um dos autores mandou email perguntando se era possível estender o prazo, porque ele tinha encomendado um posfácil que estava pra sair.

Não, a função do editor não é corrigir o autor.

*

A Diretora de Pesquisa e Pós da universidade me envia mais dois livros para a Coleção Pós-Graduação da UNIR e me cobra a cada passo: já pediu ISBN? Aqui estão os comprovantes de pagamento de ISBN. Já pediu a ficha catalográfica? Para justificar o assédio no meu WhatsApp, ela explica que o editor é que está cobrando dela. 

Não, editor e diagramador não são a mesma coisa.

*

Toca o meu telefone. Uma amiga de longa data está sendo processada por uma mulher que reclama o direito autoral pelo ineditismo de um termo que ela cunhou e que a minha amiga referenciou. Na conversa ao telefone, eu fiquei sem entender por que a autora que foi citada com referência bibliográfica e tudo quer ser indenizada por danos morais.

Não, a função do editor não é lidar com patentes.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Conteúdo

Sei lá, me parece que a palavra 'conteúdo' é uma das mais vazias de significado (de conteúdo).

domingo, 5 de junho de 2022

Crise

Com muito esforço por parte dos envolvidos, o Conselho Superior Universitário da UNIR deliberou pela adoção do passaporte vacinal: era preciso anexar a carteira de vacinação comprovando ao menos as duas doses ao sistema. Alunos que não tivessem tomado a vacina teriam sua matrícula compulsoriamente trancada, já que não temos controle de entrada no campus.

Voltamos ao presencial usando máscara e confiando que todos estavam vacinados. 

Nessa semana saiu uma portaria da vice-reitoria que dispensava o comprovante de vacinação e recomendava o uso de máscara aos que não tinham se vacinado. Opa, peraí! O comprovante de vacina tinha sido uma conquista nessa universidade. Houve muita gritaria. Por que voltar atrás? A explicação veio em seguida: 26% dos alunos não tinham se vacinado. A gestão da Reitoria considerava que trancar um quarto do alunado instalaria uma crise.

Crise é 26% dos alunos de uma universidade pública não acreditarem na ciência e na vacina. Crise é esse negacionismo que vem roendo pelas franjas. Fiquei com vontade de reler A história sem fim, do Michael Ende, em que a grande ameaça é O Nada. O Nada que avança como uma onda ou avalanche, eliminando sem ruído tudo que encontra pela frente. Não se trata de uma mancha negra que cobre o mundo: o que foi engolido pelo Nada deixa de existir no mundo e nas memórias, como se nunca tivesse existido.

Estamos em Rondônia, um estado que se orgulha de desmatar a floresta para ser agro. Um estado que ignora a diversidade étnica e linguística, não percebe a importância da biodiversidade e esqueceu de pensar o coletivo - como se nunca tivesse existido. 

Com essa portaria que permite que alunos não vacinados frequentem o campus e recomendação que usem máscara durante a liberação do uso de máscaras vigente no país, é como se a deliberação do Conselho Superior pelo comprovante vacinal deixasse de existir. O Nada não está só lá fora.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Air quotes

 

Quer saber uma coisa? Vai lá e pergunta!
No ano passado, Renato e eu escrevemos um artigo sobre alguns sinais de pontuação que são usados na oralidade, ou seja, sinais gráficos que viram expressões idiomáticas. Tipo: está decidido e ponto final. 

Percebemos que, diferente dos outros sinais, que eram só mencionados pelo nome, aspas e parênteses ganhavam expressões mesmo: "entre aspas" - que é diferente de "abre aspas [...] fecha aspas" e "entre parênteses" e "vou abrir um parêntese" - que são diferentes de "abre parêntese [...] fecha parêntese". Peculiaridades: no caso dos parênteses, é possível "abrir parênteses dentro de parênteses" para mostrar que a divagação é quase infinita. O recurso é o da reiteração, mas por encaixamento: um par de parênteses dentro de outro(s). Já no caso das aspas, é possível enfatizar a ironia ou sarcasmo que as aspas deveriam apontar através da reiteração cumulativa: "muitas aspas".

Aí nos demos conta de que, além de as aspas e os parênteses, que são sinais gráficos, aparecerem na fala sob a forma de expressões específicas, ambos os sinais podem vir acompanhados de gestos! O gesto das aspas é mais universal - apesar das aspas poderem ser grafadas como aspas inglesas [“ ”], aspas alemãs [,, “], aspas francesas [« »] ou aspas retas [" "]...

Sabíamos pouco sobre gestos, mas eu sabia quem estuda gestos (está escrevendo um livro sobre gestos) e pedi ajuda para Lauren Gawne. Ela me forneceu um texto valioso sobre air quotes (aspas gestualizadas) e recentemente desenterrou algumas notas antigas sobre a natureza desse gesto que não pode ser usado sem a fala. Fiquei bem contente com a parceria :] 

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Varal de frases

Primeiro, a preparação. Passei boa parte do domingo na função, com ajuda da Agnes. Ela traçou linhas, organizou as cartolinas coloridas por tamanho e deixou algumas marcas em alguns lugares secretos.

A ideia era que os alunos montassem frases de acordo com uma estrutura dada. Representei algumas estruturas em esquema arbóreo pra fazer eles entenderem que, por mais que falemos ou escrevamos uma palavra depois da outra, nossas frases são planejadas hierarquicamente. Eu não sou gerativista, mas esse tipo de representação ajuda.

Combinamos que a cada um dos 4 tipos de sintagma corresponderia uma cor de cartolina. Sintagmas verbais seriam escritos em cartolina amarela e assim adiante.
Os sinais de pontuação vieram em pregadores de roupa. Distribuí a quantidade de finalizadores (ponto, exclamação, interrogação e reticências) de acordo com o número de frases e dei uns outros sinais de bônus. Quando acabou a aula, reparei que o travessão, ponto e vírgula e dois pontos não tiveram espaço no varal. É, faz sentido: eles não cabem bem em períodos simples.
A fotógrafa não pegou o sinal de interrogação...


Passamos muito tempo envolvidos na tarefa - e o que mais custou neurônios foi a conversão das árvores em frases linearmente ordenadas. No entanto, na vida real, essa tarefa de converter uma estrutura hierárquica em uma linha de palavras é mental e "automática".
O varal de frases exposto na sala não é decorativo, mas resultado de um aprendizado.

terça-feira, 17 de maio de 2022

Retorno ao presencial

Hoje foi o meu primeiro dia de aula presencial na UNIR. Estou dando aula de Sintaxe para uma turma que eu já conhecia: ministrei algumas poucas aulas ainda em modo presencial de Introdução à Neurolinguística em 2020, quando eles entraram na UNIR. Depois fomos pro modo remoto, a mesma disciplina foi ofertada no semestre seguinte, e semestre passado dei Morfologia pra eles. Por incrível que pareça, eu não lembrava da cara deles. Uma moça tinha cabelos encaracolados e verdes - eu não fiquei sabendo disso nas aulas remotas.

A lousa se mostrou como o grande diferencial das aulas presenciais, além da possibilidade de comunicar dúvidas através da cara de interrogação. Eu percebi que, por mais que as aulas sejam dialogadas, ainda preciso melhorar a estratégia de envolvê-los na aula.

No final, os alunos agradeceram pela aula e me fizeram entender que o modo presencial é bem mais favorável ao processo de aprendizagem que o remoto. Porque estavam imersos na sala, aula, Sintaxe. Porque a turma toda veio.

Um aluno fez uma afirmação que queria ser pergunta: eu achei que a senhora usava óculos... 

Sim, pra ler eu uso.

domingo, 15 de maio de 2022

O meu servidor

Chegou um pedido de redistribuição de servidor técnico na Reitoria. Tratava-se de um técnico-administrativo que atuava no Departamento de Medicina, tem comorbidades e está com medo de voltar ao modo presencial - especialmente de ter contato com médicos e alunos de Medicina. Ele está a um ano de se aposentar, tem férias vencidas e uma licença de três meses pra usufruir antes de se aposentar. A Biblioteca respondeu que precisava de gente atuando no atendimento ao público e declinou. A EDUFRO foi consultada em seguida e eu pensei: esse sujeito pode não trabalhar muito tempo para a editora, mas quando ele se aposentar, a vaga dele fica na Editora e poderemos contratar novo servidor.

Os trâmites da remoção a pedido, no interesse da administração, foram executados e o servidor foi removido para a EDUFRO. Como todo servidor tem email institucional, escrevi o nome dele na caixinha do destinatário e apareceu um endereço de email vinculado a esse nome. Tentei agendar uma conversa com o novo servidor prestes a se aposentar. No mesmo dia veio a resposta: quando o chefe dele ficou sabendo da remoção, decidiu revogar a portaria de lotação do técnico na EDUFRO e ele fica no DEPMED.

Puxa vida. Quando o pedido de redistribuição foi feito, eu assumi que o técnico estava de comum acordo com a chefia. Não tive a impressão de que ele estava tentando fugir do seu local de trabalho escondido do chefe e com a anuência da Reitoria.

Em paralelo, sou procurada pelo diagramador da Assessoria de Comunicação da Universidade que terá que passar por tratamento de saúde e passará a funcionar em modo remoto. Queria saber da rotina na editora, volume de trabalho, tipo de habilidades demandadas. Contou que estava sobrecarregado no atual local de trabalho e estava pedindo ou redistribuição ou atestado. Conversamos algumas vezes por telefone e pouco antes de formalizar o pedido na Reitoria, ele me disse que o chefe dele, quando soube, não admitiu que ele saísse.

Eu fico pensando no grau de sofrimento dessas duas pessoas que quase vieram pra Editora ao mesmo tempo: não havia diálogo com a chefia imediata, havia apenas um plano de fuga. Eu já avisei à minha chefia imediata (a Reitora) que pretendo sair da EDUFRO em junho, depois de 5 anos na EUditora.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Museu da Língua Portuguesa

Combinei com a Cecília Farias de encontrar no local de trabalho dela e ela me ofereceu uma visita guiada. Cheguei no Museu e encontrei uma vírgula bem grande.

Cecília me deixou vendo o vídeo e voltou ao Centro de Referência. Eu entrei no auditório com uma turma de adolescentes. O vídeo era sobre o mistério da língua e eu senti que eles ficaram impressionados. Depois do filme, a tela de projeção se abriu e nós fomos convidados a entrar ali onde antes tinha passado a provocação para se pensar. Mais uma sessão de projeção, essa toda misturada e meio aleatória. Gostaram do ovo da Clarice Lispector narrado pelos timbres de Arnaldo Antunes e acompanharam o rap. Dali, do escuro, saímos todos pro terraço. Não era mais a língua, era a vida lá fora que causava entusiasmo.

De volta ao Museu, a maior parede era essa, cujas fotos eu não consigo colocar lado a lado.

Aqui vai a parede com as línguas que conhecemos


Então fui procurar sinais de pontuação no Museu, já que a vírgula é a logo.

Achei mais uma vírgula e uma interrogação:


O que pode essa língua?

E se olhar bem, dá pra enxergar uma exclamação também, mas um pouco diferente do símbolo gráfico:


34 Reunião Anual da ABEU

Esta é a terceira reunião anual da ABEU de que participo presencialmente como representante de editora universitária associada. 2018 foi em Petrópolis, sediada pela Fiocruz, 2019 foi em Porto Alegre, sediada pela editora da UFRGS,  2020 foi cancelada (seria em Manaus), 2021 foi virtual e agora estou no Centro de São Paulo.

O primeiro dia sempre tem um escritor convidado. Dessa vez foi Ignácio de Loyola Brandão contando causos bem amarrados com humor.

Voltar à Avenida Paulista, comer em restaurantes vegetarianos, rever prédios históricos e refazer caminhos foi uma aventura. Aproveitei pra visitar Ferrone, meu irmão tapioquense. Na ligação de vídeo, Agnes achou bem mais legal interagir com a Kit (esposa do Fer) e os meninos do que comigo.
Nessa Reunião, que também é Seminário acadêmico, acompanhamos apresentações muito interessantes sobre o livro e a leitura: passado, presente e futuro. Enquanto Márcia Abreu falava sobre século 19, Marisa Lajolo examinava pesquisas sobre leitura mais recentes.
Márcia Abreu (ex editora da Unicamp), Flávia Rosa (EDUFBA por 23 anos), Tânia de Luca e Marisa Lajolo
Na mesa em que a SciELO Livros e a CBL estavam representadas, o assunto foi o livro digital.
João Canossa (FIOCRUZ), Rosane Silveira (Argos), Abel Packer (SciELO) e Vitor Tavares (CBL)
Na mesa em que Bookwire e Árvore estiveram presentes, nos demos conta de como a informática e big data rondam o livro (ao menos no mercado). "Disruptivo", "player" (no sentido de suporte, plataforma e no sentido de concorrente), "ativar" eram palavras que soavam estrangeiras ao longo de uma sintaxe quase inglesa.
Fernando Mattos (UFABC), Marcelo Gioia (Bookwire), Camila Cabete e Flávio Carsalade (UFMG)
Nas reuniões das regionais, conhecemos novos membros da Região Norte e recebemos a Germana, da UNB, que estava sozinha na Região Centro-Oeste. E como editora de grande editora, foi ela que nos deu um Norte.
Germana, eu, UEA, UEPA, Socorro da UEA, Amapá e Sérgio da UFAM
A última roda de conversa foi meio em espanhol, meio em português. Nós pudemos imaginar melhor o cenário argentino de editoração e o cenário latino-americano.
Leandro Sagastizábal, Rita Argollo (Editus), Jézio Gutierre (Unesp) e Sayri Karp (EULAC)
Num dado momento, se discutia os autores independentes que pagam publicações que não são avaliadas e se chegou nas editoras predatórias. Leandro (que não acompanhou bem a discussão em português) pediu à Sayri que traduzisse e ela, mexicana, explicou: hacen libros como tortillas.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Todas as doses

 

A última dose que faltava foi aplicada sem choro nem ansiedade (porque os preparativos pra selfie distraíram a menina). Agora nós adultos tomamos nossas 3 doses e a criança tomou as suas duas.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Tabajara

Olhamos o mapa de relance e pegamos a BR 364 rumo a Ariquemes. Na véspera da viagem, Luis tinha ligado pra pousada e tinham dito que a pousada ficava a 15 km depois de Tabajara (ao Norte de Machadinho). Os sanduíches que eu tinha feito pra viagem se acabaram antes da parada no posto Fazendinha, poucos quilômetros depois da entrada pra Cujubim. Esse (em azul) parecia ser o caminho mais curto.

Enquanto estávamos na BR, reparei que o lado de quem subia pra PVH era mais esburacado que a pista de quem descia pro resto do Brasil. Meu caro Watson explicou que os caminhões sobem mais carregados de mercadoria do que descem. Antes Porto Velho exportava madeira, agora não tem mais (tanta) madeira por aqui.

Se clicar na imagem, ela aumenta e dá pra ver mais detalhes.
O primeiro trecho pela RO 205, até Cujubim, era muito esburacado. E buraco de asfalto não é macio como buraco na estrada de terra. Depois de Cujubim, tudo era terra. Nos espantou a velocidade de alguns caminhões: esse aí deve estar fugindo, olha só a fumaça de poeira que ele levanta! Aí choveu e a poeira virou lama e a lama grudou nos pneus e o carro começou a patinar. Foi tenso quando chegamos na parte em que havia montes de cascalho ocupando uma pista e um caminhão meio atolado na outra. 

A paisagem era bem agro: soja, máquinas, café, trator, milho, boi, soja de novo outra vez. Quando não havia cercas dos dois lados da pista, a gente ficava: de quem são essas terras? Será uma reserva?

Não nos demos conta de que Tabajara poderia não ter posto de gasolina. Pedimos informação pra Tabajara num posto em Machadinho. O rapaz informou que tínhamos que voltar bem uns 5km por onde tínhamos vindo e que todas as terras atrás dele eram do Seu Raul. Seguimos primeiro pro supermercado, e lá perguntamos de novo como fazia pra chegar em Tabajara. Tabajara? O espanto nos revelou que não era muita gente da cidade que vai pra lá. Seguiu-se uma história de como o informante foi parar em Tabajara por engano (estava bêbado). 

Chegamos na bifurcação entre Tabajara e a cachoeira 2 de novembro, onde fica a pousada. Não entramos em Tabajara porque queríamos chegar no nosso destino ainda de dia. 

A imensidão do rio Machado e do tombo eram impressionantes. Todas as horas sentado no carro foram recompensadas pela paisagem.
As fotos não conseguem mostrar os degraus do rio, o barulho da cachoeira, a ausência de mosquitos ou mutucas. Havia pessoas, brega tocando alto demais nos carros, garrafas por aí, gente bêbada tropeçando e gritando, mas tínhamos conseguido chegar. O céu estrelado avistado entre as árvores foi muito legal de ver.
Todas as nossas refeições foram na casa dos donos da pousada e Agnes logo fez amizade com todos os humanos e não humanos: a senhora porca e seus filhotes passando, os gatos que roubavam comida, os cachorros que não podiam entrar, os periquitos que não podiam sair, as galinhas que andavam por aí.

Ali no tombo da cachoeira vão construir uma barragem. Essa paisagem está com os dias contados.
 

Se clicar na foto, vai dar pra ver Agnes e Luis coletando pedrinhas

Nós, que levamos trabalho, só conseguimos fixar os olhos no texto quando Agnes fez amizade com dois meninos hospedados lá. 

Energia só tinha de noite: depois da janta, eles ligavam o gerador e assim funcionavam a luz e o ventilador. O chuveiro não era elétrico: Luis e eu achamos da hora; Agnes gritava. Tinha internet de satélite na casa, mas era beeem lenta e só funcionava de noite.

Agnes poderia ficar dias inteiros coletando pedras preciosas de rio. Luis achou essa (possível) ponta de lança e eu encontrei essa (talvez) cabeça de machado no rio Machado que depois passa a ser chamado de Ji-Paraná e que depois deságua no Madeira lá em Calama. Esse rio faz praticamente a divisa com o Amazonas.
Voltamos por Machadinho e seguimos em direção ao Vale do Anari até a RO 257, que volta pra Ariquemes. Tive a impressão de que as cidades são ilhas no meio do paisagem. E me senti muito Mad Max, só pensando em gasolina conforme ela era consumida. Esse trecho era asfaltado, mas não todo: todas as pontes ainda eram de madeira e antes e depois da ponte havia trechos em terra. A placa informava: "Atenção! Fim do asfalto." Trafegamos por uma estrada que ainda não foi concluída - e já está bem desgastada e esburacada (a suspensão traseira direita que o diga).

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Três homens, duas motosserras e uma árvore em um dia

Da janela da cozinha, eu costumava ver ocasionalmente alguém coletando manga, pitanga, cupuaçu, biribá no terreno baldio ali embaixo. Hoje de manhã vi um homem, depois outro, branco, apontando para a mangueira. Entendi imediatamente que esses não eram os usuais moradores de rua e que a árvore estava ameaçada.

Um homem segurando sacolas chegou a entrar pelo portão semiaberto e perambular entre os galhos. Saiu assim que o homem branco se movimentou em sua direção.
Choveu forte (mais de uma vez) e os homens com as motosserras terminaram o serviço. Perdemos pássaros e outros animais como vizinhos. Desconfio que agora teremos obras ali.

domingo, 17 de abril de 2022

MAO fechado

É a terceira vez (desde o início da pandemia) que cancelamos uma viagem a Manaus. Nas outras vezes foi o medo da covid, dessa vez foi a condição de saúde da Agnes. Foram dois dias de hospital. No primeiro dia, fomos de mochila preparada para internação, já que Agnes estava vomitando muito e com diarreia. No segundo dia, fomos com o resultado dos exames na mão. Não era bactéria: era viral, então a cura se daria pelo tempo, hidratação e alimentação sem leite ou gordura.

O atestado que a médica nos deu garantiu que não tivéssemos que pagar as taxas de cancelamento na companhia aérea. Não embarcar com doença infecto-contagiosa é premiado. 

Nessas idas ao hospital, a gente mergulha na vida de tanta gente, participa de tantos dramas alheios... Hoje, por exemplo, tinha mais criança aguardando atendimento do que adulto. 

Será que devemos desistir de conhecer Manaus?

sábado, 16 de abril de 2022

As palavras e o mingau

Meus pais ligaram de manhã pra cantar parabéns e desejar feliz aniversário pra Agnes que completa 6 anos hoje. Aí ela contou que estava comendo mingau. Meu pai perguntou o que era mingau e a menina se escandalizou: 

"Você nunca comeu mingau em toda a sua vida? Você não conhece mingau???" 

Intermediei, explicando que Opa fala alemão e que o que ela conhece como mingau ele conhece como Brei. 

"Eu tô comendo Brei, Opa."

*

As palavras e as coisas...

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Festa no susto

Ontem veio bilhetinho na agenda da Agnes pedindo um bolo de chocolate com cobertura pra comemorar a Páscoa. Agnes e eu fomos na confeitaria escolher um bolo bem bonito e nos demos conta que não haveria mais oportunidade de comemorar o aniversário dela (sábado) porque viajaremos na semana que vem por uma semana. 

 

Pedi pra cantarem parabéns pra ela, mandei velas e um balão junto com o bolo. Como a escola já tem prática de aniversários, deu tudo certo.

De tarde tinha ateliê e fiz o pedido: podemos levar alguma coisa? Voltamos na confeitaria e levamos brigadeiros pro pessoal e Agnes teve duas festinhas antecipadas e não planejadas.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

44

 

Estou aqui na escrivaninha - em plenas férias!

domingo, 3 de abril de 2022

A estrada embaixo da água

Antes de sair de casa, verifiquei o nível do Madeira pela ponte. Tava alto. Agnes e eu atravessamos a ponte sobre o rio Madeira olhando os troncos descendo no rio. Reparei que na estrada da beira não tinha quase movimento.

O (igarapé) Maravilha engoliu a estrada. Os pescadores disseram que moto e bicicleta passava, mas eu preferi dar meia volta e tentar a sorte pela estrada do 4,5. Pegamos a BR de novo, entramos no Km 4,5 e fomos progredindo, de buraco em buraco, de lameiro em lameiro. Todo ano os desafios mudam.

Eu estava com medo dessa água parada transbordar, mas como existe desnível, continuava sendo possível adivinhar a estrada embaixo da água. Ali no Maravilha, seria preciso lembrar onde era a estrada...