segunda-feira, 6 de abril de 2020
sábado, 4 de abril de 2020
De volta
Terminando a terceira semana de quarentena.
O número de infectados em Rondônia continua congelado no tempo: 9 no estado todo. Enquanto o Brasil ultrapassa 9 mil casos, Rondônia continua sem resultados de testes.
Agnes e eu lavamos o carro. Me lembrei de tempos remotos em que as pessoas preenchiam um dia do fim de semana para lavar o carro.
Sou eu quem faz a faxina na casa, sou eu quem passa roupa - como era quando eu morava sozinha.
Todas as refeições são feitas em casa - como (salvo raras exceções) quando eu era criança.
Cortei o cabelo do Luis (coisa que nunca fiz antes, mas que me lembrou a dinâmica da casa dos meus pais, em que minha mãe corta os cabelos do meu pai - e cortava os meus, quando eu era criança).
Agnes e eu pintamos ovos de páscoa - tradição familiar.
Estou esperando o estoque no congelador acabar pra descobrir o que tem lá no fundo. Talvez ainda encontre mangas da casa antiga!
O número de acidentes de trânsito diminuiu, a poluição do ar regrediu.
Quando a pandemia passar e as pessoas voltarem a circular, provavelmente teremos adotado outros hábitos.
O número de infectados em Rondônia continua congelado no tempo: 9 no estado todo. Enquanto o Brasil ultrapassa 9 mil casos, Rondônia continua sem resultados de testes.
Agnes e eu lavamos o carro. Me lembrei de tempos remotos em que as pessoas preenchiam um dia do fim de semana para lavar o carro.
Sou eu quem faz a faxina na casa, sou eu quem passa roupa - como era quando eu morava sozinha.
Todas as refeições são feitas em casa - como (salvo raras exceções) quando eu era criança.
Cortei o cabelo do Luis (coisa que nunca fiz antes, mas que me lembrou a dinâmica da casa dos meus pais, em que minha mãe corta os cabelos do meu pai - e cortava os meus, quando eu era criança).
Agnes e eu pintamos ovos de páscoa - tradição familiar.
Estou esperando o estoque no congelador acabar pra descobrir o que tem lá no fundo. Talvez ainda encontre mangas da casa antiga!
O número de acidentes de trânsito diminuiu, a poluição do ar regrediu.
Quando a pandemia passar e as pessoas voltarem a circular, provavelmente teremos adotado outros hábitos.
quinta-feira, 2 de abril de 2020
Palavras que começam com a letra A
Agnes!
alevador
acupuaçu
amostrar (não é assim, pai! vou te amostrar)
alevador
acupuaçu
amostrar (não é assim, pai! vou te amostrar)
quarta-feira, 1 de abril de 2020
Saúde individual, saúde pública
sábado, 28 de março de 2020
Como estamos vivendo
Animais de criação que vivem confinados têm uma vida que encaramos como mecânica: comem ração (processada a partir de grãos que não fazem parte da dieta natural desses animais), têm pouco espaço, pouco movimento, pouca luz solar e são criados e mantidos vivos para que sejam abatidos.
Se uma doença infecciosa pega em um animal, os outros logo são contaminados também: porque todos estão juntos, comem a mesma coisa, têm organismos parecidos e portanto condições parecidas de se defender - ou não. Tá, entender a dinâmica de infecções em porcos, frangos e vacas é fácil: gripe suína, gripe aviária, vaca louca. Vamos considerar os humanos, então.
A indústria farmacêutica visa lucro.
"Das 18 maiores empresas farmacêuticas, 15 abandonaram totalmente este campo [vacinas e antibióticos]. Medicamentos para o coração, tranquilizantes viciantes e tratamentos para a impotência masculina são líderes do lucro, não as defesas contra infecções hospitalares, doenças emergentes e assassinos tropicais tradicionais" (Mike Davis, em: A crise do coronavírus é um monstro alimentado pelo capitalismo, publicado em Coronavírus e a luta de classes).
Quantos hospitais particulares existem numa cidade? E quantos hospitais públicos? Aqui em Porto Velho consigo lembrar de 3 hospitais públicos e 6 particulares. Hospital particular não trabalha com leitos e equipamentos sobressalentes, porque o que está parado não gera lucro. Trocando em miúdos: a ciência não está preparada para a prevenção de doenças e o sistema de saúde não é público.
H1N1, cuja campanha de vacinação foi antecipada agora no Brasil, é a gripe suína. A gripe do frango é H5N1. Se quisermos procurar por epidemias, teremos ebola, SARS, gripe espanhola e muitas outras. Covid-19 apresenta a novidade de ser global. E isso tem a ver com a movimentação das pessoas infectadas.
As pandemias gripais proliferaram em centros urbanos. Em lugares onde as pessoas comem ultraprocessados, exercitam pouco o corpo, têm pouco acesso a luz solar, moram em caixas pequenas, trabalham em caixas pequenas e são transportadas por caixas mais ou menos compridas. Enquanto a função dos animais de criação é servir de comida aos humanos, a função desses humanos é trabalhar.
Se uma doença infecciosa pega em um animal, os outros logo são contaminados também: porque todos estão juntos, comem a mesma coisa, têm organismos parecidos e portanto condições parecidas de se defender - ou não. Tá, entender a dinâmica de infecções em porcos, frangos e vacas é fácil: gripe suína, gripe aviária, vaca louca. Vamos considerar os humanos, então.
A indústria farmacêutica visa lucro.
"Das 18 maiores empresas farmacêuticas, 15 abandonaram totalmente este campo [vacinas e antibióticos]. Medicamentos para o coração, tranquilizantes viciantes e tratamentos para a impotência masculina são líderes do lucro, não as defesas contra infecções hospitalares, doenças emergentes e assassinos tropicais tradicionais" (Mike Davis, em: A crise do coronavírus é um monstro alimentado pelo capitalismo, publicado em Coronavírus e a luta de classes).
Quantos hospitais particulares existem numa cidade? E quantos hospitais públicos? Aqui em Porto Velho consigo lembrar de 3 hospitais públicos e 6 particulares. Hospital particular não trabalha com leitos e equipamentos sobressalentes, porque o que está parado não gera lucro. Trocando em miúdos: a ciência não está preparada para a prevenção de doenças e o sistema de saúde não é público.
H1N1, cuja campanha de vacinação foi antecipada agora no Brasil, é a gripe suína. A gripe do frango é H5N1. Se quisermos procurar por epidemias, teremos ebola, SARS, gripe espanhola e muitas outras. Covid-19 apresenta a novidade de ser global. E isso tem a ver com a movimentação das pessoas infectadas.
As pandemias gripais proliferaram em centros urbanos. Em lugares onde as pessoas comem ultraprocessados, exercitam pouco o corpo, têm pouco acesso a luz solar, moram em caixas pequenas, trabalham em caixas pequenas e são transportadas por caixas mais ou menos compridas. Enquanto a função dos animais de criação é servir de comida aos humanos, a função desses humanos é trabalhar.
quinta-feira, 26 de março de 2020
A guerra na televisão
Assistir TV tem sido uma aventura nesses tempos de calamidade: coronavírus e Bolsonaro. No início, vimos o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, como um herói. Ele falava com calma, clareza, dava instruções e colocava o presidente da nação no seu lugar, enquanto Jair Bolsonaro dizia que o cenário era de histeria e que não devíamos levar essa gripezinha tão a sério.
Anteontem o Ministro da Saúde começou a falar de economia e todo mundo comentou que o discurso do Mandetta tinha mudado. Ele é um político, é preciso lembrar.
No mesmo dia, de noite, Bolsonaro fez um pronunciamento imediatamente antes do Jornal Nacional, da Globo. O Jornal já estava pronto antes do pronunciamento, portanto não houve diálogo possível com o que ele disse. E fomos dormir com essa sensação de que "então suspendeu o isolamento e vamos voltar a trabalhar como se não houvesse um vírus solto nas cidades, é isso que eu entendi?". Pois é. Teve jornal por escrito que analisou inconsistências na fala do presidente a cada afirmação. Em linhas gerais, Bolsonaro criticou a imprensa, disse que o caos social vai se instalar se as pessoas não voltarem trabalhar, que não tem por que as crianças não voltarem pra escola, que ele, como atleta, não sofreria com o vírus se o pegasse, que Covid-19 não passa de uma gripezinha e que já houve várias outras doenças mais letais que causaram menos comoção que essa.
Pois é. Como pode o presidente de um país olhar para a situação mundial, calcular que o presente da Itália, Espanha ou Estados Unidos pode ser o nosso futuro, ver o número de casos e mortos aumentando a cada dia no Brasil e obrigar as pessoas - forçadas a cumprir quarentena pelos governadores de todos os estados brasileiros - a voltarem ao trabalho? Tem gente que enxerga um plano aí. Tem gente que só vê loucura, desatino, irresponsabilidade.
No dia seguinte ao pronunciamento, as ruas de Porto Velho se mostraram mais movimentadas. O governador do Estado de Rondônia, que tinha decretado quarentena e suspendido e fechado tudo, foi o único governador que editou o decreto abrindo parte do comércio. Como justificativa, o governador afirmou que é uma pessoa amiga de Bolsonaro. Por enquanto foram registrados 4 casos de coronavírus em Porto Velho. Não sei como, nem onde: porque não há testes aqui. Nem máscaras, nem álcool, nem luvas.
Mandetta voltou a aparecer na TV, reforçando as palavras do presidente, dizendo que estamos na subida da curva, temos poucos mortos, e que vamos ver no que vai dar. Admitiu que muito poucas pessoas foram de fato testadas. Disse que como todas as cirurgias eletivas foram canceladas, há leitos de sobra nos hospitais. Vamos ver no que vai dar. O isolamento é um remédio muito amargo. Defendeu o agroneócio (quando era deputado e agora), para justificar o pronunciamento de Bolsonaro.
Bolsonaro, que já voltou atrás em várias decisões depois de ver a reação que suas palavras causaram, se manteve firme: brigou com governadores, afirmou que é um crime isolar as pessoas e não permitir que trabalhem, porque muitos dependem do trabalho para sobreviver. Determinou que igrejas abrissem suas portas.
O vice-presidente deu entrevista e disse que Bolsonaro se equivocou, que é pra manter o isolamento.
Ontem o Jornal Nacional todo (não lembro de ter visto a previsão do Tempo!) foi uma resposta ao pronunciamento de Bolsonaro. Cientistas, sanitaristas, médicos e presidentes de outros países diziam, em línguas diferentes: fiquem em casa. Governadores bolsonaristas discordavam de Bolsonaro. Projeções e números apontavam para a velocidade com que o Covid-19 causa estrago. Atletas vieram a público para dizer como foram derrubados pelo vírus. Políticos infectados pelo coronavírus foram mostrados em reuniões de cúpula em Brasília.
Hoje o número de casos aumentou em Brasília. E o Jornal Nacional revelou as estratégias de países com baixa taxa de mortalidade: testes e isolamento. O foco do JN hoje, contudo, foi o aspecto econômico: os pacotes anunciados por países liderados por direitas são centenas de vezes mais generosos que o que foi anunciado pelo governo brasileiro. O Jornal Nacional defendeu a atuação do Estado - o que é inédito - através da fala de economistas de direita. O JN deu a solução de como evitar o caos social.
A condução do país está em disputa. E nós assistimos a essa guerra pela TV. Alguns batem em panelas e gritam pelas janelas em horários marcados. Outros silenciam. Em Porto Velho não há panelaços.
Anteontem o Ministro da Saúde começou a falar de economia e todo mundo comentou que o discurso do Mandetta tinha mudado. Ele é um político, é preciso lembrar.
No mesmo dia, de noite, Bolsonaro fez um pronunciamento imediatamente antes do Jornal Nacional, da Globo. O Jornal já estava pronto antes do pronunciamento, portanto não houve diálogo possível com o que ele disse. E fomos dormir com essa sensação de que "então suspendeu o isolamento e vamos voltar a trabalhar como se não houvesse um vírus solto nas cidades, é isso que eu entendi?". Pois é. Teve jornal por escrito que analisou inconsistências na fala do presidente a cada afirmação. Em linhas gerais, Bolsonaro criticou a imprensa, disse que o caos social vai se instalar se as pessoas não voltarem trabalhar, que não tem por que as crianças não voltarem pra escola, que ele, como atleta, não sofreria com o vírus se o pegasse, que Covid-19 não passa de uma gripezinha e que já houve várias outras doenças mais letais que causaram menos comoção que essa.
Pois é. Como pode o presidente de um país olhar para a situação mundial, calcular que o presente da Itália, Espanha ou Estados Unidos pode ser o nosso futuro, ver o número de casos e mortos aumentando a cada dia no Brasil e obrigar as pessoas - forçadas a cumprir quarentena pelos governadores de todos os estados brasileiros - a voltarem ao trabalho? Tem gente que enxerga um plano aí. Tem gente que só vê loucura, desatino, irresponsabilidade.
No dia seguinte ao pronunciamento, as ruas de Porto Velho se mostraram mais movimentadas. O governador do Estado de Rondônia, que tinha decretado quarentena e suspendido e fechado tudo, foi o único governador que editou o decreto abrindo parte do comércio. Como justificativa, o governador afirmou que é uma pessoa amiga de Bolsonaro. Por enquanto foram registrados 4 casos de coronavírus em Porto Velho. Não sei como, nem onde: porque não há testes aqui. Nem máscaras, nem álcool, nem luvas.
Mandetta voltou a aparecer na TV, reforçando as palavras do presidente, dizendo que estamos na subida da curva, temos poucos mortos, e que vamos ver no que vai dar. Admitiu que muito poucas pessoas foram de fato testadas. Disse que como todas as cirurgias eletivas foram canceladas, há leitos de sobra nos hospitais. Vamos ver no que vai dar. O isolamento é um remédio muito amargo. Defendeu o agroneócio (quando era deputado e agora), para justificar o pronunciamento de Bolsonaro.
Bolsonaro, que já voltou atrás em várias decisões depois de ver a reação que suas palavras causaram, se manteve firme: brigou com governadores, afirmou que é um crime isolar as pessoas e não permitir que trabalhem, porque muitos dependem do trabalho para sobreviver. Determinou que igrejas abrissem suas portas.
O vice-presidente deu entrevista e disse que Bolsonaro se equivocou, que é pra manter o isolamento.
Ontem o Jornal Nacional todo (não lembro de ter visto a previsão do Tempo!) foi uma resposta ao pronunciamento de Bolsonaro. Cientistas, sanitaristas, médicos e presidentes de outros países diziam, em línguas diferentes: fiquem em casa. Governadores bolsonaristas discordavam de Bolsonaro. Projeções e números apontavam para a velocidade com que o Covid-19 causa estrago. Atletas vieram a público para dizer como foram derrubados pelo vírus. Políticos infectados pelo coronavírus foram mostrados em reuniões de cúpula em Brasília.
Hoje o número de casos aumentou em Brasília. E o Jornal Nacional revelou as estratégias de países com baixa taxa de mortalidade: testes e isolamento. O foco do JN hoje, contudo, foi o aspecto econômico: os pacotes anunciados por países liderados por direitas são centenas de vezes mais generosos que o que foi anunciado pelo governo brasileiro. O Jornal Nacional defendeu a atuação do Estado - o que é inédito - através da fala de economistas de direita. O JN deu a solução de como evitar o caos social.
A condução do país está em disputa. E nós assistimos a essa guerra pela TV. Alguns batem em panelas e gritam pelas janelas em horários marcados. Outros silenciam. Em Porto Velho não há panelaços.
domingo, 22 de março de 2020
Zumbis
Luis e eu temos conversado muito sobre atividades que a universidade pode oferecer/mediar nesses tempos de isolamento. Uma analogia sempre recorrente é o cinegreve que fizemos pelo Cineclube DeLírio na escadaria da Reitoria em 2011, durante a greve que derrubou o reitor. Foram exibições mais numerosas, para um público menor, e à margem do currículo. Como o paralelo envolve audiovisual, pensamos numa lista de filmes sobre epidemias e distopias que podíamos montar.
Nossa lista continha títulos como 12 Monkeys, Ensaio sobre a cegueira e Elysium. Fui no Google, o oráculo pós-moderno, para mais opções de filmes de epidemia e me surpreendi com o número de filmes de terror com zumbis. Luis explicou que era normal que os infectados pobres, sujos e famintos sejam caricaturados como zumbis em situações de pandemia. Fiquei com isso na cabeça.
Pra saber como outra universidade federal está lidando com a continuidade das atividades, conversei com a Fran, chefe de gabinete da UFSB. Ela respondeu que tudo que for acadêmico está suspenso (como aqui) e comentou que provavelmente o primeiro caso de coronavírus no Brasil ocorreu a 60km dali (Itabuna, BA). Naquele casamento milionário da irmã da blogueira no Resort em que um hóspede do Resort, vindo dos EUA, contaminou várias pessoas, inclusive a blogueira. A notícia é uma coletânea de postagens diversas e termina com o casal no aeroporto, a caminho da lua de mel em Dubai.
Esse vírus se caracteriza pelo alto grau de contágio e pegou as pessoas que circulam. A elite que viaja (de avião) foi espalhando o coronavírus. São zumbis?
Iran libertou os presos, houve rebeliões e fugas de presos no Brasil e hoje apareceu (no meu whats, pelo menos) a notícia de que haveria 171 apenados nas ruas de Porto Velho (e bandeiras vermelhas encerravam o enunciado).
Tão aí, os zumbis!!
171 apenados nas ruas de PVH🚩🚩🚩
Li o ofício da Secretaria de Estado de Justiça que acompanha o alerta e verifiquei que se pede 171 tornozeleiras para que os 171 apenados listados (nome, data de entrada posterior ou igual a 2019 e outros números que identificam a pessoa) cumpram quarentena em casa. O gesto humanitário de preservar parte dos apenados (a população carcerária de Porto Velho é muito maior) é encarado pela população com temor. Zumbi é o diferente, é o que você não quer ser.
Nossa lista continha títulos como 12 Monkeys, Ensaio sobre a cegueira e Elysium. Fui no Google, o oráculo pós-moderno, para mais opções de filmes de epidemia e me surpreendi com o número de filmes de terror com zumbis. Luis explicou que era normal que os infectados pobres, sujos e famintos sejam caricaturados como zumbis em situações de pandemia. Fiquei com isso na cabeça.
Pra saber como outra universidade federal está lidando com a continuidade das atividades, conversei com a Fran, chefe de gabinete da UFSB. Ela respondeu que tudo que for acadêmico está suspenso (como aqui) e comentou que provavelmente o primeiro caso de coronavírus no Brasil ocorreu a 60km dali (Itabuna, BA). Naquele casamento milionário da irmã da blogueira no Resort em que um hóspede do Resort, vindo dos EUA, contaminou várias pessoas, inclusive a blogueira. A notícia é uma coletânea de postagens diversas e termina com o casal no aeroporto, a caminho da lua de mel em Dubai.
Esse vírus se caracteriza pelo alto grau de contágio e pegou as pessoas que circulam. A elite que viaja (de avião) foi espalhando o coronavírus. São zumbis?
Iran libertou os presos, houve rebeliões e fugas de presos no Brasil e hoje apareceu (no meu whats, pelo menos) a notícia de que haveria 171 apenados nas ruas de Porto Velho (e bandeiras vermelhas encerravam o enunciado).
Tão aí, os zumbis!!
171 apenados nas ruas de PVH🚩🚩🚩
Li o ofício da Secretaria de Estado de Justiça que acompanha o alerta e verifiquei que se pede 171 tornozeleiras para que os 171 apenados listados (nome, data de entrada posterior ou igual a 2019 e outros números que identificam a pessoa) cumpram quarentena em casa. O gesto humanitário de preservar parte dos apenados (a população carcerária de Porto Velho é muito maior) é encarado pela população com temor. Zumbi é o diferente, é o que você não quer ser.
sábado, 21 de março de 2020
quinta-feira, 19 de março de 2020
O mundo aqui dentro
No domingo, dia 15, Agnes e eu conversamos longamente com o Philip e depois com Opa e Oma pelo whats video. Philip estava de férias antecipadas. Minha mãe estava triste que os eventos todos estavam cancelados. Nós aqui, na Amazônia, nos sentimos muito distantes da Europa. De tarde, passou uma carreata buzinante em apoio a Bolsonaro convidando pelos altofalantes a sair de casa e ficar juntinho no Espaço Alternativo (que eu chamo de aeroportopark). A prévia do meu contracheque informa que o meu salário diminuiu. Não se trata de corte, mas de aumento de quase R$ 400,00 em Contribuição Plano Seguridade Social.
Na segunda-feira, dia 16, a UNIR anunciou a suspensão das aulas a partir da semana seguinte, dia 23 (a 12 de abril). Houve protestos, porque muita gente entendeu que a suspensão das aulas presenciais deveria ser imediata, não dali a uma semana. Circulou logo um abaixo-assinado em que se argumentava que muitas salas contam com 50 alunos e é impossível dar aula sem ar condicionado ligado, porque a ventilação das salas é péssima. Muita gente respirando o mesmo ar pode fazer o vírus andar. As ondas de medo e prevenção chegaram.
Na terça-feira, dia 17, o Governo do Estado de Rondônia publicou um decreto que obrigava as escolas particulares e da rede a suspenderem suas atividades presenciais por 15 dias (prorrogáveis por igual período, conforme a necessidade). Agnes não foi na escolinha nem no balé. Em virtude da suspensão das aulas nas escolas, a UNIR, apesar de ser uma autarquia e ter autonomia, precisou rever a data da suspensão das aulas, porque universidade e escola estão interligadas em vários aspectos.
A partir do dia 18 foram suspensas as aulas na UNIR, mas não houve encaminhamento acerca da continuidade das aulas de forma à distância - o que entendemos que é o mais apropriado para tempos de confinamento. Não é fácil de executar, afinal, quem assume todas as tarefas da casa + criança full time não consegue se isolar dentro de casa pra propor e corrigir tarefas (porque o que eu aprendi que é Ensino à Distância é justamente o gerenciamento de tarefas: o aluno não tem presença, mas muitas notas de atividades).
É um tempo de aprendizados sociais e individuais.
Na segunda-feira, dia 16, a UNIR anunciou a suspensão das aulas a partir da semana seguinte, dia 23 (a 12 de abril). Houve protestos, porque muita gente entendeu que a suspensão das aulas presenciais deveria ser imediata, não dali a uma semana. Circulou logo um abaixo-assinado em que se argumentava que muitas salas contam com 50 alunos e é impossível dar aula sem ar condicionado ligado, porque a ventilação das salas é péssima. Muita gente respirando o mesmo ar pode fazer o vírus andar. As ondas de medo e prevenção chegaram.
Na terça-feira, dia 17, o Governo do Estado de Rondônia publicou um decreto que obrigava as escolas particulares e da rede a suspenderem suas atividades presenciais por 15 dias (prorrogáveis por igual período, conforme a necessidade). Agnes não foi na escolinha nem no balé. Em virtude da suspensão das aulas nas escolas, a UNIR, apesar de ser uma autarquia e ter autonomia, precisou rever a data da suspensão das aulas, porque universidade e escola estão interligadas em vários aspectos.
![]() |
| Agnes brincando de cobra come coronavírus |
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| Agnes desenhando vírus (amarelo), bactérias (verde) e anticorpos (azul) |
É um tempo de aprendizados sociais e individuais.
sábado, 14 de março de 2020
O livro que muda as palavras
Agnes acordou de tarde e veio até o escritório, onde eu estava trabalhando no computador.
- Mamãe, eu quero ver aquele seu livro!
- Que livro?
- Aquele livro que muda as palavras...
- Essa é difícil, Agnes, porque todos os meus livos têm palavras. Conforme a gente lê, as palavras mudam.
- Lembra daquele seu livro que a gente aperta do lado e todas as palavras mudam de uma vez?
- O Kindle! É um leitor de livros. Dentro dele é que tem os livros.
- Mamãe, eu quero ver aquele seu livro!
- Que livro?
- Aquele livro que muda as palavras...
- Essa é difícil, Agnes, porque todos os meus livos têm palavras. Conforme a gente lê, as palavras mudam.
- Lembra daquele seu livro que a gente aperta do lado e todas as palavras mudam de uma vez?
- O Kindle! É um leitor de livros. Dentro dele é que tem os livros.
quarta-feira, 4 de março de 2020
Escola de Verão da ABRALIN
Estou em Aracaju, participando da II Escola de Verão da ABRALIN. Propus uma oficina sobre sinais de pontuação e me inscrevi em cursos e oficinas.
Ontem e hoje participei de um curso ministrado pela profa. Violeta Virgínia Rodrigues sobre sentenças desgarradas (ou insubordinadas). Como eu sou bem agnóstica da Gramática Tradicional, achei ótimo aprender de uma funcionalista os processos de composição de sentença (subordinação e coordenação) do ponto de vista da Gramática Tradicional e da Gramática Baseada no Uso (que, além da subordinação e coordenação, explora também as correlatas e justapostas).
A programação está bem apertada: nem cheguei perto do mar. O hotel serve café da manhã a partir das 7h. Às 7h15 já tem alguém aqui pra buscar Inês Signorini, eu (que estamos no Farol) e Violeta (hospedada ali, mais adiante). A viagem até a UFS é cheia de engarrafamentos e obras e motoristas tentando ocupar espaços impossíveis. Conseguimos chegar pouco depois das 8h. O curso vai até meio-dia e as oficinas começam às 13h.
Este evento traz uma modalidade nova de participação, que é o que chamam de mentoria. Parecido com orientação, é a oportunidade de alguém expor seu trabalho, dúvidas e hipóteses para alguém que já estudou o mesmo objeto. Eu não tinha me inscrito nem como mentora, nem como "mentorada", mas apareceu uma proposta de trabalho com os sinais de pontuação, então topei. Trocamos referências bibliográficas e pensamos sobre usos dos travessões em textos jornalísticos.
Hoje ministrei a minha oficina sobre sinais de pontuação. Nas duas primeiras horas, falamos sobre o sistema dos sinais de pontuação, levei livros sobre sinais de pontuação, pensamos sobre a história da escrita e do livro. Nas duas últimas horas, exploramos cada um dos onze sinais de pontuação que considero como símbolos linguísticos que orientam a leitura. O meu público era composto, em sua maioria, por professoras de Língua Portuguesa (muitas do Ensino Médio e Fundamental) que precisam ensinar os sinais de pontuação e não sabem bem onde buscar instruções. Uma moça veio de Jaru (RO) pra participar da oficina, veja só!
Amanhã é o último dia, com as desgarradas de manhã e muitas horas de avião e aeroporto de tarde - pra só chegar no outro dia em casa. Aqui tem brisa, mas a saudade aperta.
Ontem e hoje participei de um curso ministrado pela profa. Violeta Virgínia Rodrigues sobre sentenças desgarradas (ou insubordinadas). Como eu sou bem agnóstica da Gramática Tradicional, achei ótimo aprender de uma funcionalista os processos de composição de sentença (subordinação e coordenação) do ponto de vista da Gramática Tradicional e da Gramática Baseada no Uso (que, além da subordinação e coordenação, explora também as correlatas e justapostas).
A programação está bem apertada: nem cheguei perto do mar. O hotel serve café da manhã a partir das 7h. Às 7h15 já tem alguém aqui pra buscar Inês Signorini, eu (que estamos no Farol) e Violeta (hospedada ali, mais adiante). A viagem até a UFS é cheia de engarrafamentos e obras e motoristas tentando ocupar espaços impossíveis. Conseguimos chegar pouco depois das 8h. O curso vai até meio-dia e as oficinas começam às 13h.
Este evento traz uma modalidade nova de participação, que é o que chamam de mentoria. Parecido com orientação, é a oportunidade de alguém expor seu trabalho, dúvidas e hipóteses para alguém que já estudou o mesmo objeto. Eu não tinha me inscrito nem como mentora, nem como "mentorada", mas apareceu uma proposta de trabalho com os sinais de pontuação, então topei. Trocamos referências bibliográficas e pensamos sobre usos dos travessões em textos jornalísticos.
Hoje ministrei a minha oficina sobre sinais de pontuação. Nas duas primeiras horas, falamos sobre o sistema dos sinais de pontuação, levei livros sobre sinais de pontuação, pensamos sobre a história da escrita e do livro. Nas duas últimas horas, exploramos cada um dos onze sinais de pontuação que considero como símbolos linguísticos que orientam a leitura. O meu público era composto, em sua maioria, por professoras de Língua Portuguesa (muitas do Ensino Médio e Fundamental) que precisam ensinar os sinais de pontuação e não sabem bem onde buscar instruções. Uma moça veio de Jaru (RO) pra participar da oficina, veja só!
Amanhã é o último dia, com as desgarradas de manhã e muitas horas de avião e aeroporto de tarde - pra só chegar no outro dia em casa. Aqui tem brisa, mas a saudade aperta.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020
Mulher ribeirinha
Agnes e eu fomos lá no Damián. Pela estrada da beira não dava, porque o nível do rio está muito alto e não dá passagem há semanas. Tem chovido muito e as usinas não estão mais segurando água. (Quem controla a vazão do Madeira são as usinas.)
Fomos pelo km 4,5, dar a volta grande. A estrada está um tapete, porque é muito usada. Quando essa estrada encontra com a da beira, já perto da casa do Damián, o mato adensa e os buracos proliferam. Estranhamos que Tauro não tenha vindo nos cumprimentar e perguntamos se ele estava bem.
Pois é - disse Damián - todas as mulheres da casa do Preto viajaram, como fazem todo ano, para casa de parentes da Íris, pra ajudar na farinhada. E os cachorros do Preto vieram todos pra cá. Essa daqui, coitada, tava se tremendo de fraqueza. Aí agora sou eu que estou dando comida pros cachorros do Preto!
Fomos pelo km 4,5, dar a volta grande. A estrada está um tapete, porque é muito usada. Quando essa estrada encontra com a da beira, já perto da casa do Damián, o mato adensa e os buracos proliferam. Estranhamos que Tauro não tenha vindo nos cumprimentar e perguntamos se ele estava bem.
Pois é - disse Damián - todas as mulheres da casa do Preto viajaram, como fazem todo ano, para casa de parentes da Íris, pra ajudar na farinhada. E os cachorros do Preto vieram todos pra cá. Essa daqui, coitada, tava se tremendo de fraqueza. Aí agora sou eu que estou dando comida pros cachorros do Preto!
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Recursividade linguística
Na Linguística, recursividade é reconhecida no encaixamento (potencialmente infinito) de sintagmas em sentenças. Agnes entendeu isso aí intuitivamente:
- É um monstro, mãe! Ele vai comer tudo!
Até a rua, até os carros, até as árvores, até as flores, até ...
Daniel Everett, quando viveu entre os Pirahã, não percebeu essa estratégia na língua que ele estava estudando e afirmou que a língua pirahã não apresenta recursividade. Everett tem doutorado na Unicamp, orientado pela Charlotte Galves (gerativista).
Isso deu polêmica, porque Chomsky postula que a recursividade é uma ferramenta universal (de todas as línguas). Se o falante conta com um universo finito de unidades e ferramentas para gerar sentenças infinitas, a recursividade garante diversidade - e potencialmente infinitude.
Agnes só para de construir sintagmas preposicionados introduzidos por até quando colocamos limite nesses atés.
- É um monstro, mãe! Ele vai comer tudo!
Até a rua, até os carros, até as árvores, até as flores, até ...
Daniel Everett, quando viveu entre os Pirahã, não percebeu essa estratégia na língua que ele estava estudando e afirmou que a língua pirahã não apresenta recursividade. Everett tem doutorado na Unicamp, orientado pela Charlotte Galves (gerativista).
Isso deu polêmica, porque Chomsky postula que a recursividade é uma ferramenta universal (de todas as línguas). Se o falante conta com um universo finito de unidades e ferramentas para gerar sentenças infinitas, a recursividade garante diversidade - e potencialmente infinitude.
Agnes só para de construir sintagmas preposicionados introduzidos por até quando colocamos limite nesses atés.
sábado, 8 de fevereiro de 2020
Circo
Em Ribeirão Preto, Marcão nos indicou o Circo Tihany Spectacular. Agnes e eu vimos videos promocionais
com a trapezista, o malabarista e a rede russa. Fomos com boas
expectativas. O motorista de Uber que nos levou ao local disse que já tinha ido duas vezes ao circo e que valia muito: enche os olhos.
Esse não é o primeiro espetáculo que Agnes vê. Fomos ao Circo Broadway em Porto Velho porque na imagem da propaganda tinha um leão e Agnes queria ver leões. Mas não tinha leão e o palhaço, destaque no início, foi ficando constrangedor.
O picadeiro nos pareceu sólido, a arena decente e o palco próximo. Percebemos escolas no público, muitos portadores de necessidades especiais, um asilo inteiro fazendo excursão. Quando Agnes entendeu o lance do voluntário no público, ela se animou toda pra ir pro palco. Só que o palhaço pedia menino, pedia homem forte e não pedia menina de 3 ou 4 anos.
O investimento no figurino é altíssimo e as moças dançarinas usam trajes que beiram o carnavalesco. Luis reparou que as dançarinas desempenham um papel acessório: no primeiro bloco, tivemos o rapaz do bambolê, o palhaço, o moço do malabares, os meninos da hamaca russa e o ilusionista-apresentador. O gênero feminino estava representado, no primeiro bloco, apenas pelas dançarinas de cancã preparadas para um carnaval exuberante. Mas no segundo bloco teve a trapezista russa e as contorcionistas chinesas (preciso mencionar o figurino delas de dragão ou lagarto fosforescente, que dava um toque de graça ao número).
Luz e luz negra foram muito bem explorados no espetáculo "de encher os olhos". Ter um ilusionista como diretor de circo faz diferença!
Esse não é o primeiro espetáculo que Agnes vê. Fomos ao Circo Broadway em Porto Velho porque na imagem da propaganda tinha um leão e Agnes queria ver leões. Mas não tinha leão e o palhaço, destaque no início, foi ficando constrangedor.
O picadeiro nos pareceu sólido, a arena decente e o palco próximo. Percebemos escolas no público, muitos portadores de necessidades especiais, um asilo inteiro fazendo excursão. Quando Agnes entendeu o lance do voluntário no público, ela se animou toda pra ir pro palco. Só que o palhaço pedia menino, pedia homem forte e não pedia menina de 3 ou 4 anos.
O investimento no figurino é altíssimo e as moças dançarinas usam trajes que beiram o carnavalesco. Luis reparou que as dançarinas desempenham um papel acessório: no primeiro bloco, tivemos o rapaz do bambolê, o palhaço, o moço do malabares, os meninos da hamaca russa e o ilusionista-apresentador. O gênero feminino estava representado, no primeiro bloco, apenas pelas dançarinas de cancã preparadas para um carnaval exuberante. Mas no segundo bloco teve a trapezista russa e as contorcionistas chinesas (preciso mencionar o figurino delas de dragão ou lagarto fosforescente, que dava um toque de graça ao número).
Luz e luz negra foram muito bem explorados no espetáculo "de encher os olhos". Ter um ilusionista como diretor de circo faz diferença!
terça-feira, 4 de fevereiro de 2020
Os primos
sábado, 1 de fevereiro de 2020
Vovó Madá
Enquanto os paulistas desciam pra praia, nós retornávamos a São Paulo. Apesar de eu ter aprendido a dirigir nessa cidade, de ter morado mais de 15 anos nela, não me senti segura pra acertar os caminhos e recorri à voz do Google Maps (que se mostrou muito mais eficiente aqui, dizendo até que placas eu devia seguir). Fomos visitar Madá, hospedada na casa da irmã, para fins de tratamento.
Pequeno programa cultural na Paulista: MASP e Livraria Cultura. No MASP, achei interessante o novo formato do acervo permanente. Quadros do mesmo artista eram dispostos mais junto, mas a ideia principal era a circulação entre as obras, menos sua contemplação. Os nomes dos artistas estão afixados nas costas dos quadros, então era meio que uma charada a ser desvendada. E a novidade mais surpreendente era que dava pra ver as costas dos quadros.
Na Livraria Cultura, Luis e eu lemos vários livros pra Agnes dentro da ossada de um monstro marinho. Era até difícil achar um lugarzinho pra sentar (sábado + chuva lá fora = muita gente dentro!).
A distância entre esses dois lugares é de 3 quadras. Mas choveu e tudo parou pra esperar. Luis teve a ideia de pedir Uber. Me recusei a pagar R$ 7 pra andar 3 quadras a pé, vários km de carro, porque os locais ficam em lados diferentes da mesma avenida que não permite conversões. Quando a chuva amainou, Luis pegou Agnes no colo e guarda-chuva e eu fui correndo de banca em banca. Mas aí a chuva voltou a intensificar. Agora eram 2 quadras de distância. Uber cobrava R$ 11 e nós esperamos muito tempo pro Uber vindo da direção do Masp fazer os retornos e voltas pra voltar conosco até o Conjunto Nacional.
Pequeno programa cultural na Paulista: MASP e Livraria Cultura. No MASP, achei interessante o novo formato do acervo permanente. Quadros do mesmo artista eram dispostos mais junto, mas a ideia principal era a circulação entre as obras, menos sua contemplação. Os nomes dos artistas estão afixados nas costas dos quadros, então era meio que uma charada a ser desvendada. E a novidade mais surpreendente era que dava pra ver as costas dos quadros.
Na Livraria Cultura, Luis e eu lemos vários livros pra Agnes dentro da ossada de um monstro marinho. Era até difícil achar um lugarzinho pra sentar (sábado + chuva lá fora = muita gente dentro!).
A distância entre esses dois lugares é de 3 quadras. Mas choveu e tudo parou pra esperar. Luis teve a ideia de pedir Uber. Me recusei a pagar R$ 7 pra andar 3 quadras a pé, vários km de carro, porque os locais ficam em lados diferentes da mesma avenida que não permite conversões. Quando a chuva amainou, Luis pegou Agnes no colo e guarda-chuva e eu fui correndo de banca em banca. Mas aí a chuva voltou a intensificar. Agora eram 2 quadras de distância. Uber cobrava R$ 11 e nós esperamos muito tempo pro Uber vindo da direção do Masp fazer os retornos e voltas pra voltar conosco até o Conjunto Nacional.
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
Rio Guaraú
Vendo essas fotos agora, percebo como é pouco o que se vê nesse recorte. Estar ali, numa praia semi deserta, com água limpa, rio limpo e ondas tranquilas não tem comparação com o que se vê na foto.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
Prainha
No caminho a Guaraú tem uma saída à esquerda que leva à Prainha. O nome, assim, no diminutivo, nos pareceu atraente. Uma praia curta, pequena, possivelmente sem comércio, provavelmente sem muitos banhistas...
Entramos pela estradinha comprida e já vimos placas anunciando estacionamento com ducha e banheiro por R$ 10. Em Porto Velho, o que damos ao flanelinha não passa de R$ 2. Em São Paulo, o preço padrão do cuidador de carros é inflacionado em relação a PVH. Logo apareceu um homem indicando onde estacionar o carro. Perguntamos o preço. "Trabalhamos com contribuição. O senhor dá o que o seu coração mandar, mas todo mundo me paga R$ 10, até o pessoal que é morador daqui de Peruíbe."
Entramos pela estradinha comprida e já vimos placas anunciando estacionamento com ducha e banheiro por R$ 10. Em Porto Velho, o que damos ao flanelinha não passa de R$ 2. Em São Paulo, o preço padrão do cuidador de carros é inflacionado em relação a PVH. Logo apareceu um homem indicando onde estacionar o carro. Perguntamos o preço. "Trabalhamos com contribuição. O senhor dá o que o seu coração mandar, mas todo mundo me paga R$ 10, até o pessoal que é morador daqui de Peruíbe."
terça-feira, 28 de janeiro de 2020
Cachoeira do Paraíso e Barra do Una
| Cachoeira do Paraíso |
Pelo caminho, notamos várias oportunidades de comprar repelente à base de citronela. Nosso foco era o sol e protetor solar, então nem reagimos. Mas quando chegamos na Cachoeira do Paraíso, percebemos como os borrachudos (mosquito pólvora ou pórva) eram muitos e ferozes. Agnes fez amizade com a neta da cozinheira que fez nosso almoço.
| Voltando pela trilha |
| Barra do Una deserta |
| Gigante dormindo |
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| A estrada é a única explicação pra ter tão pouca gente |
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| Rio Una |
| Caçando carangueijos |
| Agnes entende as diferenças entre siri e caranguejo |
Fiquei muito feliz de ver Barra do Una como era antes: um paraíso. Tenho pena que a logística seja desfavorável agora, mas tenho esperança de voltar no futuro.
PRAIA!!
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| Guaraú |
Ela corria em direção à água, recuava, pegava conchas, fugia das ondas, corria com elas, pulava e gritava de alegria. Agnes ofereceu um espetáculo de júbilo.
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| Guaraú |
A diferença entre Peruíbe e Guaraú é enorme: praia limpa, gente curtindo a praia e não apenas consumindo coisas (passeios, comidas, bebidas, a paisagem, a segurança oferecida pelo policiamento ostensivo), tranquilidade.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2020
Agnes no pediatra
- O que ela tem?
- Deixa eu falar!
- Diga, Agnes, o que você está sentindo?
- Médico, tem uma bactéria me incomodando. Uma bactéria de búfalo.
- Deixa eu falar!
- Diga, Agnes, o que você está sentindo?
- Médico, tem uma bactéria me incomodando. Uma bactéria de búfalo.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
Fogo na terra e monocultura na cabeça
Em agosto de 2019, o Maravilha queimou e isso ainda é visível hoje, quase meio ano depois. Refizemos o caminho pela estrada do 4,5 (km em que se entra pro Maravilha pela BR 319) e pudemos ver a mata se regenerando lentamente. Nada do que nasceu novo tem mais de dois metros de altura. O que morreu no fogo, continua lá.
O desmatamento por queimada é gradual: no próximo verão, a madeira seca e morta no verão passado servirá de lenha na fogueira.
Perceba como não há fundo de mata nessas duas fotos: o que se vê é um clarão, um descampado. Aqui não há mais floresta.
No Maravilha não tem escola, mas tem igrejas.
Aí chegamos na divisa das terras do Jairo. Em agosto, no auge da queimada, a paisagem era assim:
À esquerda, a fundiária do Jairo. No meio, as terras da vizinha: queimadas até o chão.
Agora, a fundiária do Jairo mostra as cicatrizes da queimada, enquanto as terras vizinhas mostram a macaxeira. E foi só macaxeira que vimos plantada em todo o trajeto. Cadê agrofloresta? Derrubou-se a floresta e ficou só o agro-tech-pop-tudo que faz com que pequeno produtor e grande produtor reproduzam a lógica da monocultura.
O desmatamento por queimada é gradual: no próximo verão, a madeira seca e morta no verão passado servirá de lenha na fogueira.
Perceba como não há fundo de mata nessas duas fotos: o que se vê é um clarão, um descampado. Aqui não há mais floresta.
O que abunda na região agora é a propriedade privada, a cerca nova, a sinalização de posses e caminhos.
No Maravilha não tem escola, mas tem igrejas.
Aí chegamos na divisa das terras do Jairo. Em agosto, no auge da queimada, a paisagem era assim:
À esquerda, a fundiária do Jairo. No meio, as terras da vizinha: queimadas até o chão.
Agora, a fundiária do Jairo mostra as cicatrizes da queimada, enquanto as terras vizinhas mostram a macaxeira. E foi só macaxeira que vimos plantada em todo o trajeto. Cadê agrofloresta? Derrubou-se a floresta e ficou só o agro-tech-pop-tudo que faz com que pequeno produtor e grande produtor reproduzam a lógica da monocultura.
Arirambas ainda resiste
quarta-feira, 15 de janeiro de 2020
Abordagem teórica
Tive professores que usaram os óculos como metáfora da teoria.
Quando se estuda a língua, está-se diante de fatos linguísticos que podem ser descritos através da língua - já que esse é o método mais compreensível e universal. Quanto mais "avançado" o estudo da língua, maior o acúmulo de descrições, ou seja, de metalinguagem. Acontece que a descrição não é isenta de crenças - apostas que a pessoa faz. Esse conjunto de crenças forma uma teoria/ideologia que funciona como óculos: só se enxerga aquilo que os óculos permitem.
As categorias (substantivo, verbo, particípio etc.) são descrições da língua, não são fatos linguísticos. Enquanto descrições, envolvem convicções teóricas.
Gramáticas
Quando os meus alunos chegam no curso de Sintaxe e entendem que a Gramática que vamos estudar não é a Gramática Tradicional (porque se baseia num ideal de língua e não nos fatos linguísticos, porque se concentra na modalidade escrita e ignora a oralidade, porque mistura critérios e aposta na classificação de fatos linguísticos atomizados e fragmentários ao invés de perceber inter-relações), se perguntam se o que aprenderam da GT está errado. São maneiras diferentes de observar a língua.
A GT remonta à descrição gramatical do grego e latim. As categorias com as quais lidamos hoje (substantivo, preposição, conjunção etc.) serviram à descrição de grego e latim e foram assumidas pelos gramáticos da língua portuguesa - que não são linguistas, mas pessoas de notório saber (literário e) linguístico. Mesmo quando linguistas fazem gramáticas, muitas dessas categorias são reutilizadas sem que sejam avaliadas quanto à sua pertinência.
Para a GT, a unidade máxima de análise é a sentença e a unidade mínima é a palavra (que é considerada indivisível). Tanto latim como grego são línguas de caso marcado, ou seja, a função sintática (sujeito/objeto/etc.) é embutida na forma da palavra. Isso significa que, dependendo do caso (nominativo, acusativo, dativo etc.) muda a forma da palavra. Se não existe a noção de que a palavra é composta por unidades que significam (caso/número/gênero/tempo), a maneira de ordenar as palavras é através de paradigmas. Então uma palavra como menino, por exemplo, tem um monte de paradigmas: nominativo, acusativo, gênero, número etc. Menino é uma palavra, meninos é outra palavra, menina é outra e meninas é outra ainda. A GT não enxerga os morfemas (radical + gen. masc./fem. + sing./pl.) que compõem a palavra, percebe apenas variedades da mesma palavra.
Hora da metáfora. Desculpem o exemplo consumista: é a sociedade do consumo em que estou inserida que me faz pensar que este exemplo seja compreensível pelo leitor/consumidor.
Entro na bicicletaria e vejo grande variedade de opções. Como organizar toda essa informação? Criando categorias: tem o uso (mountain bike, speed, downhill, infantil, urbana e elétrica), o material (alumínio, carbono, aço), tem a cor e a marca. Para a GT, cada bicicleta corresponde a uma palavra. A speed de carbono preta Specialized é uma unidade concreta, assim como a speed de carbono verde da mesma marca. Ambas estão prontas e não é possível mudar sua forma.
Entro num site que vende roupas. Posso escolher entre camisas, calças etc. Se eu quiser saber o que a loja virtual oferece, ou se eu quiser comprar alguma coisa, preciso continuar determinando características do produto: tamanho, cor etc. Em alguns sites, se eu clicar na bola azul, a foto que ilustra o produto muda e o produto aparece azul. Se clicar na bola roxa, a imagem muda novamente. O que mudou? A maneira de organizar as coisas: parte-se da ideia de que o objeto é composto por unidades abstratas (tamanho/cor) que estão na descrição do objeto, não no objeto ele mesmo.
Borges Neto (2012) apresenta duas formas de classificação: (i) por reconhecimento de propriedades compartilhadas e (ii) prototípica. A primeira maneira de classificar pressupõe o método científico, em que se verifica as condições necessárias e suficientes para agregar um elemento novo a uma classe. A segunda maneira de classificar não pressupõe classes definidas, nem propriedades necessárias e suficientes para encaixar um elemento numa categoria. Basta que, por alguma razão, o elemento novo seja parecido com o melhor representante da categoria. O exemplo que ele cita é o de frutas e verduras: os biólogos não lidam com frutas e verduras, porque essas categorias agregam elementos que a rigor não se encaixam bem em seus limites: abacate é fruta ou verdura? Cenoura é vendida como verdura, mas é uma raiz. Então as categorias de verduras e frutas não servem? Servem, sim, principalmente para descrever seus elementos prototípicos. A conclusão de Borges Neto é que a GT trabalha com categorias prototípicas, que trazem consigo a vagueza e imprecisão.
Último fato curioso, pra aproveitar o Borges Neto: substantivos (nomes) e verbos têm comportamentos diferentes, por isso os gramáticos os descrevem como pertencentes a categorias distintas. Algumas formas verbais, no entanto, compartilham características tanto de verbos como de formas nominais: cansado é adjetivo ou verbo? A GT criou uma categoria especial para as formas que "participam" tanto dos nomes como dos verbos: particípio.
Dicionários
O que faz um linguista? Descreve fatos linguísticos e os explica. Tá, mas o que um linguista faz? Gramáticas e dicionários, por exemplo.
Só que poucos dicionários são feitos por linguistas e muitos deles apresentam ideologias do dicionarista (da sociedade em que está imerso). Nos dicionários mais antigos, VIRGEM é definido como donzela, pura, casta, mulher que nunca teve relação sexual. A virgindade masculina não aparece, porque não é importante para o dicionarista ou a sociedade em que ele vive. NEGRO aparece como cor de pele, mas BRANCO não aparece como cor de pele, porque o dicionarista (e a ideologia da época) não percebe a cor de pele branca como diferente - mas a negra, sim.
Percebe que esses dicionários mais antigos usam óculos que enxergam como normal o masculino, branco e católico?
Catálogo de línguas
O Ethnologue continua sendo o catálogo de línguas mais respeitado que existe - e é feito por missionários. O Summer Institute of Linguistics (SIL) tem como missão traduzir a Bíblia para todas as línguas do mundo - como se o mundo todo precisasse conhecer o texto sagrado para a tradição judaico-cristã. Assim como os irmãos Grimm tinham o propósito de anotar e descrever variantes sonoras na língua alemã e tiveram como produto mais reconhecido a coletânea de contos de fada - e não seus estudos fonético-fonológicos -, o produto mais reconhecido da SIL não são as traduções da Bíblia, mas o catálogo de línguas no mundo.
Parece um tanto paradoxal a SIL afirmar que valoriza e respeita a diversidade linguística do mundo quando pretende transformar essa diversidade toda num mesmo e único texto.
O Ethnologue de 2016 registra 7.097 línguas vivas. E agora percebemos os óculos pré-modernos que a equipe da SIL usa ao classificar as línguas do mundo:
- extinta
- dormente
- quase extinta
- moribunda
- em transição
- ameaçada
- vigorosa
- em desenvolvimento (envolve sistema de escrita)
- educacional (envolve sistema escolar)
- comunicação ampliada (envolve limites geográficos)
- regional (provincial)
- nacional
- internacional
Darwin foi parâmetro de ciência para muitos, tanto é que os missionários consideram a língua como um organismo vivo, biológico, que pulsa, se desenvolve, cresce, transcende fronteiras, é ameaçado, atacado, agoniza, entra em coma e morre.
Se houvesse tantos linguistas quanto missionários e se os linguistas tivessem claros critérios para diferenciar dialetos de línguas e dialetos de sotaques, e se os linguistas tivessem condições financeiras, psicológicas e físicas para rodar e conhecer o mundo e os falantes de todas as línguas, esses números e classificações seriam os mesmos? Acho que a pergunta vale para os demais produtos normativos: se as escolas adotassem gramáticas e dicionários feitos por linguistas, continuaria havendo tanta gente que reprova na língua materna?
Quando se estuda a língua, está-se diante de fatos linguísticos que podem ser descritos através da língua - já que esse é o método mais compreensível e universal. Quanto mais "avançado" o estudo da língua, maior o acúmulo de descrições, ou seja, de metalinguagem. Acontece que a descrição não é isenta de crenças - apostas que a pessoa faz. Esse conjunto de crenças forma uma teoria/ideologia que funciona como óculos: só se enxerga aquilo que os óculos permitem.
As categorias (substantivo, verbo, particípio etc.) são descrições da língua, não são fatos linguísticos. Enquanto descrições, envolvem convicções teóricas.
Gramáticas
Quando os meus alunos chegam no curso de Sintaxe e entendem que a Gramática que vamos estudar não é a Gramática Tradicional (porque se baseia num ideal de língua e não nos fatos linguísticos, porque se concentra na modalidade escrita e ignora a oralidade, porque mistura critérios e aposta na classificação de fatos linguísticos atomizados e fragmentários ao invés de perceber inter-relações), se perguntam se o que aprenderam da GT está errado. São maneiras diferentes de observar a língua.
A GT remonta à descrição gramatical do grego e latim. As categorias com as quais lidamos hoje (substantivo, preposição, conjunção etc.) serviram à descrição de grego e latim e foram assumidas pelos gramáticos da língua portuguesa - que não são linguistas, mas pessoas de notório saber (literário e) linguístico. Mesmo quando linguistas fazem gramáticas, muitas dessas categorias são reutilizadas sem que sejam avaliadas quanto à sua pertinência.
Para a GT, a unidade máxima de análise é a sentença e a unidade mínima é a palavra (que é considerada indivisível). Tanto latim como grego são línguas de caso marcado, ou seja, a função sintática (sujeito/objeto/etc.) é embutida na forma da palavra. Isso significa que, dependendo do caso (nominativo, acusativo, dativo etc.) muda a forma da palavra. Se não existe a noção de que a palavra é composta por unidades que significam (caso/número/gênero/tempo), a maneira de ordenar as palavras é através de paradigmas. Então uma palavra como menino, por exemplo, tem um monte de paradigmas: nominativo, acusativo, gênero, número etc. Menino é uma palavra, meninos é outra palavra, menina é outra e meninas é outra ainda. A GT não enxerga os morfemas (radical + gen. masc./fem. + sing./pl.) que compõem a palavra, percebe apenas variedades da mesma palavra.
Hora da metáfora. Desculpem o exemplo consumista: é a sociedade do consumo em que estou inserida que me faz pensar que este exemplo seja compreensível pelo leitor/consumidor.
Entro na bicicletaria e vejo grande variedade de opções. Como organizar toda essa informação? Criando categorias: tem o uso (mountain bike, speed, downhill, infantil, urbana e elétrica), o material (alumínio, carbono, aço), tem a cor e a marca. Para a GT, cada bicicleta corresponde a uma palavra. A speed de carbono preta Specialized é uma unidade concreta, assim como a speed de carbono verde da mesma marca. Ambas estão prontas e não é possível mudar sua forma.
Entro num site que vende roupas. Posso escolher entre camisas, calças etc. Se eu quiser saber o que a loja virtual oferece, ou se eu quiser comprar alguma coisa, preciso continuar determinando características do produto: tamanho, cor etc. Em alguns sites, se eu clicar na bola azul, a foto que ilustra o produto muda e o produto aparece azul. Se clicar na bola roxa, a imagem muda novamente. O que mudou? A maneira de organizar as coisas: parte-se da ideia de que o objeto é composto por unidades abstratas (tamanho/cor) que estão na descrição do objeto, não no objeto ele mesmo.
Borges Neto (2012) apresenta duas formas de classificação: (i) por reconhecimento de propriedades compartilhadas e (ii) prototípica. A primeira maneira de classificar pressupõe o método científico, em que se verifica as condições necessárias e suficientes para agregar um elemento novo a uma classe. A segunda maneira de classificar não pressupõe classes definidas, nem propriedades necessárias e suficientes para encaixar um elemento numa categoria. Basta que, por alguma razão, o elemento novo seja parecido com o melhor representante da categoria. O exemplo que ele cita é o de frutas e verduras: os biólogos não lidam com frutas e verduras, porque essas categorias agregam elementos que a rigor não se encaixam bem em seus limites: abacate é fruta ou verdura? Cenoura é vendida como verdura, mas é uma raiz. Então as categorias de verduras e frutas não servem? Servem, sim, principalmente para descrever seus elementos prototípicos. A conclusão de Borges Neto é que a GT trabalha com categorias prototípicas, que trazem consigo a vagueza e imprecisão.
Último fato curioso, pra aproveitar o Borges Neto: substantivos (nomes) e verbos têm comportamentos diferentes, por isso os gramáticos os descrevem como pertencentes a categorias distintas. Algumas formas verbais, no entanto, compartilham características tanto de verbos como de formas nominais: cansado é adjetivo ou verbo? A GT criou uma categoria especial para as formas que "participam" tanto dos nomes como dos verbos: particípio.
Dicionários
O que faz um linguista? Descreve fatos linguísticos e os explica. Tá, mas o que um linguista faz? Gramáticas e dicionários, por exemplo.
Só que poucos dicionários são feitos por linguistas e muitos deles apresentam ideologias do dicionarista (da sociedade em que está imerso). Nos dicionários mais antigos, VIRGEM é definido como donzela, pura, casta, mulher que nunca teve relação sexual. A virgindade masculina não aparece, porque não é importante para o dicionarista ou a sociedade em que ele vive. NEGRO aparece como cor de pele, mas BRANCO não aparece como cor de pele, porque o dicionarista (e a ideologia da época) não percebe a cor de pele branca como diferente - mas a negra, sim.
Percebe que esses dicionários mais antigos usam óculos que enxergam como normal o masculino, branco e católico?
Catálogo de línguas
O Ethnologue continua sendo o catálogo de línguas mais respeitado que existe - e é feito por missionários. O Summer Institute of Linguistics (SIL) tem como missão traduzir a Bíblia para todas as línguas do mundo - como se o mundo todo precisasse conhecer o texto sagrado para a tradição judaico-cristã. Assim como os irmãos Grimm tinham o propósito de anotar e descrever variantes sonoras na língua alemã e tiveram como produto mais reconhecido a coletânea de contos de fada - e não seus estudos fonético-fonológicos -, o produto mais reconhecido da SIL não são as traduções da Bíblia, mas o catálogo de línguas no mundo.
Parece um tanto paradoxal a SIL afirmar que valoriza e respeita a diversidade linguística do mundo quando pretende transformar essa diversidade toda num mesmo e único texto.
O Ethnologue de 2016 registra 7.097 línguas vivas. E agora percebemos os óculos pré-modernos que a equipe da SIL usa ao classificar as línguas do mundo:
- extinta
- dormente
- quase extinta
- moribunda
- em transição
- ameaçada
- vigorosa
- em desenvolvimento (envolve sistema de escrita)
- educacional (envolve sistema escolar)
- comunicação ampliada (envolve limites geográficos)
- regional (provincial)
- nacional
- internacional
Darwin foi parâmetro de ciência para muitos, tanto é que os missionários consideram a língua como um organismo vivo, biológico, que pulsa, se desenvolve, cresce, transcende fronteiras, é ameaçado, atacado, agoniza, entra em coma e morre.
Se houvesse tantos linguistas quanto missionários e se os linguistas tivessem claros critérios para diferenciar dialetos de línguas e dialetos de sotaques, e se os linguistas tivessem condições financeiras, psicológicas e físicas para rodar e conhecer o mundo e os falantes de todas as línguas, esses números e classificações seriam os mesmos? Acho que a pergunta vale para os demais produtos normativos: se as escolas adotassem gramáticas e dicionários feitos por linguistas, continuaria havendo tanta gente que reprova na língua materna?
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
Até os 100 anos
| Aniversário de 100 anos |
| Centenário da Oma: Ruth, Karin, Oma, Hans Jürgen e Ulla |
| Marie Agnes e Agnes Maria |
| Agnes com 5 meses |
Deram um gato pra ela, Nina, que foi sua companheira por bem uns 14 anos. Aí ela perdeu a gata e o filho mais velho, Gerhard. Foram perdas duras; e Ruth, a nora, assumiu todos os papéis possíveis dali em diante.
| Crochê |
| Café colonial no nosso casamento: Hans Jürgen e Oma |
| Viagem à Alemanha: Luis, Mama, Ulla e Oma |
| Philip e Oma |
domingo, 5 de janeiro de 2020
Antecipação
Não adianta dizer e repetir MA RA CU JÁ:
Agnes vai dizer que é MA CU RU JÁ.
Agnes não anda de Ô NI BUS,
mas de ÔM BI NUS
Quando uma comida é DE LI CI O SA,
ela fica DE CI LI O SA na boca dela
A menina não se deixa HI Pi NO TI ZAR:
ela fica HI PI TI NO ZA DA
Agnes vai dizer que é MA CU RU JÁ.
Agnes não anda de Ô NI BUS,
mas de ÔM BI NUS
Quando uma comida é DE LI CI O SA,
ela fica DE CI LI O SA na boca dela
A menina não se deixa HI Pi NO TI ZAR:
ela fica HI PI TI NO ZA DA
Coletores
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| Comendo jambo |
Agnes estava com fome e ficou feliz com o jambo, bacuri e curumim que coletamos pra ela.
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| Mostrando buriti |
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| O brejo |
quarta-feira, 1 de janeiro de 2020
Quase
Quando estudávamos na Unicamp, Renato e eu conversávamos sobre os nosso problemas cotidianos: eu falava de preposições (basicamente) e ele de vários quebra-cabeças linguísticos, um deles o 'quase'.
Sim, porque quando dizemos que algo quase caiu, referimos ao processo que se deu antes da queda de fato. Outro exemplo é 'quase comprei a passagem': o processo de escolha de destino e origem, da data, do voo e tudo mais que antecede o ato de efetivar a compra foi interrompido - e a empresa fica me mandando email perguntando se vou mesmo desistir da viagem.
Daí eu quis pregar uma peça e disse pruma amiga: 'eu quase sonhei com você'. Causou grande estranhamento. Essa combinação de palavras era inusitada. A pergunta que não se pode responder é: 'o que foi que te impediu?'
Tatit tem uma música intitulada Quase:
[...]
Fui partir
Era muito tarde
Quase que parto
Mas estava inseguro
Quase que embarco
Num sonho maduro
Quase me curo
Quase, eu juro
Quase dou um grande salto
Para o futuro
Fiquei no caminho
Faltou só um pouquinho
[...]
Tudo isso sobre o 'quase' pra dizer que Agnes está usando uma expressão original que me fez quebrar a cabeça:
"Ufa, essa foi por quase!
Quase que eu escorreguei."
Sim, porque quando dizemos que algo quase caiu, referimos ao processo que se deu antes da queda de fato. Outro exemplo é 'quase comprei a passagem': o processo de escolha de destino e origem, da data, do voo e tudo mais que antecede o ato de efetivar a compra foi interrompido - e a empresa fica me mandando email perguntando se vou mesmo desistir da viagem.
Daí eu quis pregar uma peça e disse pruma amiga: 'eu quase sonhei com você'. Causou grande estranhamento. Essa combinação de palavras era inusitada. A pergunta que não se pode responder é: 'o que foi que te impediu?'
Tatit tem uma música intitulada Quase:
[...]
Fui partir
Era muito tarde
Quase que parto
Mas estava inseguro
Quase que embarco
Num sonho maduro
Quase me curo
Quase, eu juro
Quase dou um grande salto
Para o futuro
Fiquei no caminho
Faltou só um pouquinho
[...]
Tudo isso sobre o 'quase' pra dizer que Agnes está usando uma expressão original que me fez quebrar a cabeça:
"Ufa, essa foi por quase!
Quase que eu escorreguei."
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