Assistir TV tem sido uma aventura nesses tempos de calamidade: coronavírus e Bolsonaro. No início, vimos o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, como um herói. Ele falava com calma, clareza, dava instruções e colocava o presidente da nação no seu lugar, enquanto Jair Bolsonaro dizia que o cenário era de histeria e que não devíamos levar essa gripezinha tão a sério.
Anteontem o Ministro da Saúde começou a falar de economia e todo mundo comentou que o discurso do Mandetta tinha mudado. Ele é um político, é preciso lembrar.
No mesmo dia, de noite, Bolsonaro fez um pronunciamento imediatamente antes do Jornal Nacional, da Globo. O Jornal já estava pronto antes do pronunciamento, portanto não houve diálogo possível com o que ele disse. E fomos dormir com essa sensação de que "então suspendeu o isolamento e vamos voltar a trabalhar como se não houvesse um vírus solto nas cidades, é isso que eu entendi?". Pois é. Teve jornal por escrito que analisou inconsistências na fala do presidente a cada afirmação. Em linhas gerais, Bolsonaro criticou a imprensa, disse que o caos social vai se instalar se as pessoas não voltarem trabalhar, que não tem por que as crianças não voltarem pra escola, que ele, como atleta, não sofreria com o vírus se o pegasse, que Covid-19 não passa de uma gripezinha e que já houve várias outras doenças mais letais que causaram menos comoção que essa.
Pois é. Como pode o presidente de um país olhar para a situação mundial, calcular que o presente da Itália, Espanha ou Estados Unidos pode ser o nosso futuro, ver o número de casos e mortos aumentando a cada dia no Brasil e obrigar as pessoas - forçadas a cumprir quarentena pelos governadores de todos os estados brasileiros - a voltarem ao trabalho? Tem gente que enxerga um plano aí. Tem gente que só vê loucura, desatino, irresponsabilidade.
No dia seguinte ao pronunciamento, as ruas de Porto Velho se mostraram mais movimentadas. O governador do Estado de Rondônia, que tinha decretado quarentena e suspendido e fechado tudo, foi o único governador que editou o decreto abrindo parte do comércio. Como justificativa, o governador afirmou que é uma pessoa amiga de Bolsonaro. Por enquanto foram registrados 4 casos de coronavírus em Porto Velho. Não sei como, nem onde: porque não há testes aqui. Nem máscaras, nem álcool, nem luvas.
Mandetta voltou a aparecer na TV, reforçando as palavras do presidente, dizendo que estamos na subida da curva, temos poucos mortos, e que vamos ver no que vai dar. Admitiu que muito poucas pessoas foram de fato testadas. Disse que como todas as cirurgias eletivas foram canceladas, há leitos de sobra nos hospitais. Vamos ver no que vai dar. O isolamento é um remédio muito amargo. Defendeu o agroneócio (quando era deputado e agora), para justificar o pronunciamento de Bolsonaro.
Bolsonaro, que já voltou atrás em várias decisões depois de ver a reação que suas palavras causaram, se manteve firme: brigou com governadores, afirmou que é um crime isolar as pessoas e não permitir que trabalhem, porque muitos dependem do trabalho para sobreviver. Determinou que igrejas abrissem suas portas.
O vice-presidente deu entrevista e disse que Bolsonaro se equivocou, que é pra manter o isolamento.
Ontem o Jornal Nacional todo (não lembro de ter visto a previsão do Tempo!) foi uma resposta ao pronunciamento de Bolsonaro. Cientistas, sanitaristas, médicos e presidentes de outros países diziam, em línguas diferentes: fiquem em casa. Governadores bolsonaristas discordavam de Bolsonaro. Projeções e números apontavam para a velocidade com que o Covid-19 causa estrago. Atletas vieram a público para dizer como foram derrubados pelo vírus. Políticos infectados pelo coronavírus foram mostrados em reuniões de cúpula em Brasília.
Hoje o número de casos aumentou em Brasília. E o Jornal Nacional revelou as estratégias de países com baixa taxa de mortalidade: testes e isolamento. O foco do JN hoje, contudo, foi o aspecto econômico: os pacotes anunciados por países liderados por direitas são centenas de vezes mais generosos que o que foi anunciado pelo governo brasileiro. O Jornal Nacional defendeu a atuação do Estado - o que é inédito - através da fala de economistas de direita. O JN deu a solução de como evitar o caos social.
A condução do país está em disputa. E nós assistimos a essa guerra pela TV. Alguns batem em panelas e gritam pelas janelas em horários marcados. Outros silenciam. Em Porto Velho não há panelaços.
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