Agnes e eu embarcamos num voo com conexão em Campinas. Em São Paulo estava chovendo, o piloto teve que contornar um conglomerado de nuvens densas, então pousamos na hora em que deveríamos embarcar na conexão pra Porto Alegre. Saindo do avião, tinha uma moça chamando quem fosse pra POA. Eu ouvi, fui pra perto dela, mas Agnes já estava subindo pela escada rolante. Mamãe! Ela gritava enquanto subia. Não tinha outro elevador à vista que descesse. A moça da companhia aérea explicou que Agnes tinha que descer de elevador. Sinalizei a direção do elevador. É tua? Ela perguntou. Sim, é minha filha. Quer subir atrás dela? Só se for de elevador. Apertei o botão, esperamos e quando a porta abriu, lá estava Agnes. Acho que ela teve um pequeno salto de amadurecimento aí.
Na manhã seguinte, Luis insistiu que não ficássemos em Porto Alegre esperando a chuva chegar, que deveríamos subir a serra enquanto o tempo estava bom. Tava tão bom que fomos por Nova Petrópolis, pela estrada antiga e sinuosa. Em Gramado, Ruth e Agnes se deram super bem e Agnes estava disposta a ajudar em tudo - quase fiquei com inveja. A chuva anunciada não caiu. Pudemos dar uma volta no Lago Negro e tentar nos aproximar dos gatos que Ruth alimenta.A grande chuva estava prevista pra domingo, e como não tinha caído até o meio-dia, aproveitamos pra descer a serra - dessa vez por Taquara, menos emocionante. Chegando no pé da serra, já seguimos pra Estância Velha. Harro me reconheceu, mas ficou confuso com Agnes. Fazia muito tempo que eles não se viam. Todos no asilo pararam pra olhar pra nós. Tu é filha do Harro? Essa é a neta dele? Perguntavam os cuidadores que não me conheciam.Voltamos no Harro na manhã seguinte e ele tava da pá virada. O que vocês vieram fazer aqui? Quantos anos tem essa menina? Mas se ela tem nove, então essa história começou dez anos atrás. Eu não posso ser o pai dela porque dez anos atrás eu estava na Europa. Harro, ela é minha filha. Agnes é tua neta. Lembra do Theo Kleine? Sim, foi meu sogro. E da Karin? Não, essa eu não lembro. Lembra da Marie Agnes? Sim, lembro da minha sogra. Agnes tem o nome dela, da minha avó. Essa menina aí não é tua filha. Mas ela nasceu da minha barriga! Que nada, pode vender ela. Harro, vou te levar pro almoço. E quem é que vai pagar?
Achei que não ia conseguir fazer prova de vida e ir no cartório com ele desse jeito, querendo cortar laços. Conversei com os meus pais e depois com o meu marido. Todos me disseram que sim, segue com o plano, afinal de contas, com o passar do tempo, vai ficar cada vez mais difícil de conseguir a assinatura dele numa procuração. Pedi pra moça do asilo avisar o Harro que eu ia levar ele na cidade. Fui no cartório, levar a documentação que eu tinha trazido pra começarem a escrever a minuta.
Quando chegamos no asilo, ele tava esperando. Topou ir na cidade, nem quis muita explicação sobre prova de vida, aposentadoria, deixa isso tudo pra depois. Caminhava sem bengala, quase não precisou de ajuda pra andar ou entrar e sair do carro. Fomos na confeitaria, comer Apfelstrudel e tomar café. Depois disso fomos no cartório, onde já éramos aguardados. Assinou com mão firme, deu risada, agradeceu e depois, no carro, ficou insistindo que eu desse um presentinho pro homem que trabalha no banco (leia-se cartório). Argumentou como os pequenos agrados eram importantes - que o homem que tinha feito os papeis que ele assinou não era alemão - mas saberia reconhecer um alemão gente boa se recebesse uma lembrancinha.
E assim terminamos uma family trip entre altos e baixos, serra e baixada, gente na casa dos oitenta e gente completando a primeira dezena de vida.





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