domingo, 24 de outubro de 2021

In the land of invented languages

Em 2009, Arika Okrent publicou um livro muito simpático de popularização da Linguística partindo das 900 e tantas línguas inventadas. É como entrar pela porta de trás da Linguística (que torce o nariz pras línguas artificiais e se concentra nas línguas naturais). Essa abordagem inusitada acaba mostrando ao leitor algumas características das línguas naturais que passam batido: são coletivas (não levam a assinatura de ninguém em específico - que depois lamenta as mudanças da "sua" língua feitas pelos usuários), são usadas (a grande maioria das línguas inventadas não teve adeptos), na maior parte, são nascidas na oralidade (e não na escrita) e altamente irregulares ("Highly irregular" é o título do segundo livro da autora). 

Muitos inventores de línguas foram motivados a criar suas línguas pela necessidade de impor lógica, regularidade e racionalidade à língua. Outros eram movidos pelo desejo de comunicação internacional (Esperanto é a mais conhecida). E claro, há espaço para extravagâncias como Blissymbolics, Láadan (a língua feminina), Klingon e outras línguas para a ficção.

Os capítulos são organizados de acordo com os tipos de propostas registradas. Houve inventores de línguas que achavam que a língua perfeita precisa ter símbolos perfeitos. Como se a notação fosse a língua. Outros já achavam que as palavras eram problemáticas na sua língua materna, e criaram uma língua em que há apenas conceitos. Partiam das mazelas da língua materna para "melhorar" o que achavam que seria uma língua boa. Os universalistas, por outro lado, que investiam na comunicação sem fronteiras, tentavam transcender a sociedade que usa uma determinada língua e esqueciam que a língua está intimamente ligada à identidade e cultura de um povo. Parênteses: descobri que Ferdinand de Saussure tinha um irmão (René) esperantista!!

Agnes e eu nos divertimos com os símbolos. Esses, que tomam ˜ como símbolo para água, ela conseguiu adivinhar. Deu risada no símbolo "cuspir", porque ela mesma chegou à conclusão. Mas o que vale ser dito sobre Blissymbolics, é que os símbolos serviram como ponte para a língua materna de crianças com necessidades especiais que não tinham acesso à língua. A história, porém, é cheia de rancores e sentimentos de posse da língua inventada. Quem é o dono de uma língua? Diante das exceções, meus alunos de alemão ficavam se perguntando por que tinham inventado aquilo. Não foi planejado. Essa é a graça. Pra Franchi, língua é atividade que nos faz - e que nós fazemos.

Nem todas as línguas inventadas representam fracassos. São mais ou menos 900 e você provavelmente só ouviu falar de duas ou três em toda a sua vida. Existem mais de 7 mil línguas naturais - todas diferentes, que nos ensinam sobre o mundo, as pessoas, como as pessoas interpretam o mundo e como funciona a mente humana. "Ambiguidades e falta de precisão permitem que as línguas sejam usadas como instrumentos de formulação de pensamento, experimentação e descobertas." (p. 256) Vagueza e imprecisão da língua oferecem a oportunidade de negociar sentidos. Línguas universais que se pretendem autoexplicativas ignoram uma parte importante das línguas naturais: a convenção. Convenções arbitrárias são aprendidas e estão ligadas a irregularidades, senso comum, conhecimento de mundo compartilhado - ou seja, cultura.

"Nossas línguas naturais são repletas de inconsistências e irregularidades porque são usadas por nós [...]." (p. 260) Nossas línguas atravessam gerações - e mudam! Porque as leituras de mundo mudam com o tempo. Aprendemos nossas línguas porque estamos imersos nelas (Claudia Lemos não acredita em aquisição de linguagem - ativa, em fases, construindo um vocabulário -, mas em ser capturado pela linguagem). Não escolhemos aprender línguas inventadas porque são mais lógicas ou universais. Aprendemos línguas estrangeiras porque precisamos comunicar com pessoas que falam essa língua, precisamos/escolhemos morar no lugar em que essa língua é falada etc. 

Passeando entre línguas inventadas, Arika Okrent nos mostra de que são feitas as línguas naturais. Maravilhados com as anedotas dos inventores de línguas, somos levados a pensar sobre as relações entre línguas e pessoas/comunidades.

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