quinta-feira, 13 de maio de 2021

Palavra-alvo

Quando fui levar Agnes na escolinha, uma das tias que ajuda a lavar as mãos (na entrada) me contou que outro dia Agnes tinha se recusado a comer a manga (que eu tinha mandado no lanche) porque era ácida e ela tinha medo de morrer de câncer. Surpresa, a tia tinha perguntado que história era essa, de câncer, e Agnes respondeu que a vó da amiga da tia tinha morrido de câncer. 

Eu entendi que Agnes se referia à Madá. Ela confirmou e eu expliquei: Madá era a madrasta do pai da Agnes, não era avó direta, por isso ela colocou esse monte de gente no meio da história pra fazer a intermediação.

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Em 2007, entrevistei MS, um sujeito afásico. Rosana (minha orientadora na época) e eu aplicamos o teste de nomeação: mostrávamos figuras e esperávamos que ele dissesse o nome do objeto representado no desenho. Apareceu a imagem de uma pirâmide e MS disse MÚMIA. Nos surpreendemos com a resposta, indicamos que não era bem essa a palavra e ele tentou de novo: ESFINGE. Rosana deu a ele um contexto: Sou louca para ir ao Egito e conhecer as ... CATARATAS - ele disparou. 

Cada tentativa de MS de chegar na palavra-alvo estava relacionada ao seu campo semântico (das pirâmides e depois do turismo).

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Em 2012, conheci VA, uma moça de trinta e poucos anos que sofreu um AVC e ficou afásica. Diferentemente de MS, que consideramos ser agramático, VA lidava com a estereotipia: ela só dizia uma palavra - que nem mesmo é uma palavra em português. Ela escrevia no celular, lia se apoiando nas vogais, mas na fala espontânea só saía TISSA. 

E mesmo assim a comunicação era possível: VA usava gestos, entonação, a fala do outro e a escrita para comunicar.

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A língua que falamos não se resume às palavras usadas. Tanto a criança como os dois sujeitos afásicos não chegaram na palavra-alvo, mas são falantes e se movimentam na língua.

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