quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Meninos machos

O casal de quero-queros que habita a área comum dessas bandas de cá conseguiu trazer ao mundo um filhote. Luis e eu comemoramos o fato, dois dos guardas que fazem a ronda de moto pelo condomínio também. Mas de tarde vimos o filho do vizinho tentando pegar o filhote. Luis estava com a Agnes no colo quando viu. Saí de casa em direção ao menino sem pensar no que dizer. Parei na altura dele, ele parou. Levantou e saiu duro, sem olhar pra lado nenhum.

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Depois da chuva, fui passear com Agnes no sling. Quando passei pela quadra, fiquei horrorizada com o que vi e ouvi. Uns oito adolescentes com a bola de basquete vociferavam palavrões e faziam gestos obscenos uns para os outros. Se Agnes quisesse aprender palavrões (e diversos usos) relacionados ao pênis e ânus, aquela era a melhor ocasião.

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Luis anda ouvindo podcasts da Rita Laura Segato sobre feminicídio (causar a morte de mulheres) e estupros. Segundo a professora, o estupro (principalmente o coletivo) tem menos a ver com prazer sexual e mais a ver com autoafirmação diante dos outros machos. Quanto mais jovem o estuprador, mais cruel é o ato, porque mais ele precisa ser aceito como macho pelos outros.

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Por um lado tenho pena da Agnes ter tão pouca interação com outras pessoas. Por outro, temo jogá-la aos leões. Ainda mais quando se trata dos moradores de condomínio. Percebo que são crianças cujos pais trabalham muito e pouco acompanham os filhos. É como se as crianças se espelhassem umas nas outras, sem desenvolver a capacidade de se ver de fora. Onde estão os pais do menino que não sabe valorizar o filhote recém-nascido? Onde estão os pais dos meninos que se destratam em alto e bom som? Esses meninos não precisam de pais, eles se bastam enquanto bando.

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