terça-feira, 19 de julho de 2016

As pipas e o muro

No mês de junho as pipas começam a enfeitar o céu. E continuam dançando com suas rabiolas julho adentro, até o vento parar de soprar.

No condomínio, não havia ninguém empinando pipas. Por causa da fiação, porque não pode ficar no meio da rua - esse pessoal dirige meio sem regras dentro do condomínio - porque a mãe não deixa. Então o menino ia até o gramado que termina no muro que separa o condomínio do resto da cidade. Ficava andando, olhando as pipas empinadas pelos meninos da favela. Às vezes se cansava e sentava na grama, com os olhos fixos nas pipas e na dinâmica delas. Foi se acostumando com as cores e estilos, imaginando a fisionomia de cada dono de pipa do outro lado do muro. Voltava sempre pro gramado, não apenas para ver as pipas no céu, mas também para coletar pipas cortadas que caíam dentro do condomínio.

Quando juntou três pipas dos meninos do outro lado do muro, chamou os amigos pra empinar pipa. Bem no muro. A algazarra foi grande. Talvez as pipas que eles soltavam fossem reconhecidas, o que tornava a disputa ainda mais interessante. Os meninos do outro lado do muro usavam cerol. Os meninos do condomínio não podiam usar cerol, porque a mãe não deixa.

E as pipas foram cortadas e se balançaram no vento até caírem no território em que tinham sido confeccionadas. Houve júbilo do outro lado do muro, silêncio no condomínio.

Um comentário:

Karin und Walter disse...

Schöne Geschichte! Die wäre wieder was für dein Buch...