sexta-feira, 15 de maio de 2015

A interação

Quando Harro morava nos fundos da D. Maria e eu queria falar com ele, eu precisava ligar na casa dela. Ela tinha que avisar o Harro e ele vinha atender o telefone. Eu ouvia o Harro se aproximando já de longe: o cachorro da D. Maria latia, os chinelos dele arrastavam, ele suspirava, soprava e respirava ruidosamente e então, finalmente, ele atendia o telefone: "Por que você está ligando, o que aconteceu?" Durante a conversa mostrava desconforto: "você deve estar gastando rios de dinheiro com essa conversa telefônica" e se despedia: "e se precisar de mim, liga, mas não tão cedo."

Liguei ontem no asilo e a enfermeira que atendeu foi chamar "seu Harro". Não ouvi os passos dele se aproximando do telefone, mas ouvi um pequeno pigarro antes de atender. O "alô" saiu sóbrio e calmo. Fez graças e piadas durante a conversa, perguntou quando eu vinha visitar e se despediu mandando lembranças "a quem estivesse perto de mim".

Por mais que ele reclame da comida, por mais que ele reclame do tédio, por mais que os rostos catatônicos dos outros o deprimam, por mais que pense que está em Caxias do Sul, Harro agora não está mais sozinho, e isso se faz notar em sua postura. Agora ele tem uma imagem de si através dos outros. Não lembro de ter ouvido seus suspiros, gemidos e exclamações. Pelo contrário, limpou a garganta antes de atender - e antes de desligar, lembrou que eu não vivo sozinha. Não lembrou do Luis, mas lembrou que não sou sozinha.


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