domingo, 3 de maio de 2015

Meu passado, minha herança

O telefone tocou de noite, Luis atendeu. Pelos suspiros, ahs e puxas, entendi que alguém da família estava mal de saúde. Quando me passou o telefone, entendi que esse alguém era da minha família, mais especificamente o meu pai biológico. Minha tia de Gramado, Ruth, contou que Harro estava no hospital.

Oma já tinha ligado alguns meses antes para se queixar que Harro tinha esquecido por cinco meses de pagar o aluguel da casa de fundos onde mora. Como a Oma é fiadora dele, foram reclamar com ela. Ele até foi na imobiliária, mas quando chegou lá, percebeu que não tinha levado o talão de cheques.

O mal do Harro não era físico, mas uma desorganização temporal e espacial. Enquanto estava na casa da D. Maria, semanas antes de ser levado ao hospital, Harro parou de sair de casa. D. Maria foi ver se estava bem e o viu deitado, dormindo. Ofereceu comida, ele disse que comeria mais tarde. Quando ela voltou, a comida continuava intocada. Passou a levar comida para ele todos os dias. Ou ele escondia a comida, ou ignorava. Só comia quando ela ficava do lado, esperando ele terminar.

D. Maria pediu socorro para a Ruth, ex-cunhada dele. Ruth passou a levar comida todos os dias, até decidir pedir ajuda. Uma psicóloga e uma assistente social foram lá, viram o estado de degradação da casa em que Harro viveu seis anos sem nunca limpar nada, e o encaminharam para o hospital. Lá ele tomou soro e tentou voltar pra casa todas as noites. Por isso Gerhard e Ruth foram chamados para passar as noites com ele. Enquanto isso, D. Maria fez faxina de quatro dias na casa dos fundos.

Consegui passagem que não me custasse metade do salário para a semana seguinte. Os exames do Harro se mostraram normais e Ruth e Gerhard o levaram consigo para casa, aguardando a minha chegada. Cinco dias o Harro ficou na casa de Gerhard e Ruth. Quando via uma porta aberta, entrava e deitava. Dormiu em todas as camas e sofás da casa.

Cheguei de noite, depois de um dia inteiro de viagem. A primeira coisa que notei foi a confabulação:

Harro disse que tinha dormido na casa dele na noite anterior e que só tinha voltado para a casa do Gerhard porque sabia que eu vinha. Disse que era um homem ocupado, que tinha mil coisas para fazer, que o trabalho o chamava de volta. Expliquei que eu estava ali em Gramado no meio do semestre porque ele tinha ido parar no hospital e precisava, segundo o atestado médico, de cuidados contínuos. Ele respondeu que tinha ido ao hospital para fazer uns exames de rotina e que estava bem. Perguntei onde estavam os exames, então. Ele se defendeu dizendo que tinha passado adiante, porque o médico só é liberado se tiver os exames do paciente na mão.

Memória

No dia seguinte, a memória se mostrou fragilizada: não lembrava mais que a mãe tinha morrido, que o pai tinha morrido, que o tio tinha morrido, que os únicos parentes que ele ainda tem são Philip e eu. Não tinha se dado conta de que parara de trabalhar há três anos em madeira, não se lembrava mais da D. Maria ou da casa que habitou. Encontrou um bilhete na carteira em que estava anotado o seu endereço e não o reconheceu como seu endereço. Quando viu a D. Maria, não teve dúvidas de quem ela era. O mesmo se deu com a Oma. Quando falei da Oma, ele perguntou se a mãe dele ainda estava viva. Expliquei que eu falava da minha outra avó. Nem o nome dela não ajudou a evocar a memória dela. Só quando ela entrou na cozinha é que passou a ser óbvio quem é a Oma.

Harro não lembrava que eu tinha casado (em Gramado), que o Philip morava na Alemanha e trabalha num jardim de infância. Todas as noites, minha conversa com o Luis (no telefone) foi sobre Harro. Luis entendia melhor do que eu esse homem que me era estranho, e foi me ajudando a conduzir a situação.

Ficou claro pra mim que a memória de si está no outro. Harro viveu muitos anos isolado, não viu o tempo passar, não viu o espaço mudar, nem tinha com quem conversar. D. Maria, Ruth e Enio, antigo amigo artesão do Harro, me disseram mais coisas sobre Harro do que ele seria capaz de puxar da memória. D. Maria me deu um maço de papéis (contas, contratos e cartas). As contas e contratos datavam entre 1999 e 2004. As cartas giravam em torno da morte dos pais. Isso ele guardou. Mas não lembra.

Espaço

Me deram o quarto ao lado do quarto dele. Às 6h da manhã depois da primeira noite de sono, ele errou a porta do quarto ao voltar do banheiro. Eu já estava acordada, porque ele não tinha conseguido abrir as portas sem fazer barulho. Depois dessa vez, não entrou mais no meu quarto.

Num outro dia, depois de dormir à tarde, Harro quis ir ao banheiro, mas não lembrava onde era. Saiu do quarto, passou pela porta aberta do banheiro, desceu as escadas ofegando, me perguntou onde era o banheiro e subiu as escadas de novo.

Desenhei a planta da casa dele (na D. Maria), explicando cada cômodo, alocando as coisas dele no espaço esquecido. Esse papel ele guardou na carteira. Frequentemente ele abria a carteira e olhava para o desenho que eu tinha feito.

Tempo

Todo dia "mas eu já fiz isso" se repetia. "Já está na hora do almoço? Mas nós já não almoçamos? Eu já peguei batatas" (e o prato continuava vazio).

Não lembrava se tinha se separado ou divorciado da minha mãe. Eu disse que eles tinham se divorciado e que minha mãe tinha casado de novo. Com Walter. Ele completou: Walter Rosenbaum. Disso ele lembrava.

Quando foi me apresentar para outra pessoa, disse que eu tinha estudado Belas Artes (o que se aplica à minha mãe) e disse que também tinha um filho e esticou a mão, mostrando o tamanho de menos de um metro - como se Philip ainda fosse criança. Se despediu de mim mandando lembranças a São Leopoldo (cidade em que nasci e de onde saímos há 30 anos).

Harro foi convencido de que não podia mais viver sozinho, que não podia voltar para a casa dos fundos da D. Maria e esperar que o abandono de si mesmo voltasse outra vez. O único lar (casa de repouso, asilo, os nomes variam) que tinha vaga para homens fica a meio caminho de Nova Petrópolis. Fomos lá num dia, para conhecer. A enfermeira me mostrou tudo, dizendo que das 22 pessoas internadas ali, apenas umas quatro eram lúcidas. Tive medo de colocar o Harro num lugar tão parado, mas ele concordou - lhe pareceu o mais barato e perto. No dia seguinte, Ruth e eu levamos o Harro. Pareceu tranquilo, conformado. No dia seguinte, fui visitar com Gerhard. Levamos uma escultura do Harro para ser exposta no salão maior, para que se soubesse que ele era artesão e pedimos que ele não fosse chamado de vô (ele não tem netos), mas de Harro. No dia seguinte, quando fui visitar (dessa vez com a D. Maria), a peça tinha sumido, Harro estava bravo, desconfiado de tudo e todos, não queria me deixar ir.

E não foi fácil deixá-lo. Coloquei o meu pai no asilo porque nos pareceu a melhor solução (para ele, para Ruth, Gerhard, Oma e D. Maria). Mas, no asilo, ele é tão diferente dos outros, que não parece estar no lugar certo. Fiquei espantada como ele confiava em mim e fiquei pensando se não seria uma facada nas costas deixá-lo no asilo. Entendi que eu era a única pessoa que tinha condições de fazer isso - com ajuda do meu marido. O apoio do Luis foi fundamental.

Quando cheguei em Porto Velho, o administrador da casa de repouso me ligou dizendo que tinham encontrado a escultura nas coisas do Harro. Dias depois, liguei para conversar com a enfermeira que me tranquilizou: Harro estava bem, tomando banho todos os dias, comendo bem, tinham cortado suas unhas, aparado barba e cabelo e ele estava "bonitão". Pediu permissão para levá-lo ao parque em Nova Petrópolis. Ruth, Gerhard e Oma tinham visitado naquele mesmo dia e levaram revistas, livros e palavras-cruzadas em alemão.

Harro fez parte da minha infância até os sete anos, mas eu não lembro dele na minha infância. Grande parte da minha memória de São Leopoldo tem como suporte as poucas fotografias que possuo. Lembro do jardim, lembro das frutas, das árvores, da piscina que era uma caixa d'água, mas não lembro dos meus pais (entre si ou comigo). Assim como o Alzheimer de Harro mergulha partes de sua vida numa densa neblina, a minha infância não me é bem acessível.

Nos dois álbuns de fotografia que tenho de São Leopoldo, Harro está em apenas uma foto. Há poucas fotos de amigos brincando no jardim. Contei pro meu irmão que eu tinha uma lembrança de uma cena do Opa e eu sentados num banco comendo laranja do céu - e que ontem encontrei essa foto do Opa descascando laranja. Philip considerou que eu estivesse construindo memórias a partir das imagens, mas lembrou do jeito que o Opa descascava as laranjas: ele ia girando a laranja, cortando uma tira longa de casca e depois cortava a laranja em fatias, na horizontal. Fiquei em silêncio. É assim que eu descasco laranjas.

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