A história poderia começar assim:
Vacinei.
E é assim que ando ouvindo esse verbo ser conjugado: Vacinou? Vacinei. Tipo aposentar, operar e tantos outros que são conjugados como se o sujeito fosse também o agente de um verbo intransitivo:
João aposentou ano passado. (Aposentou a bicicleta?)
Maria operou da vesícula. (E ela é médica?)
Mas quem ainda lembra disso? Hoje em dia, as pessoas aposentam, operam e vacinam. No caso da vacina, não fui eu quem aplicou a vacina: foi a vacinadora. Contudo, não tive papel de paciente para conseguir a vacina: tivemos que ser agentes, o que envolveu muita ansiedade.
Havia rumores de tantas mil doses adquiridas pela Prefeitura de Porto Velho. Em seguida vimos um video do prefeito anunciando um aplicativo que deveríamos baixar no celular chamado SASI e que organizaria a fila de vacinação. Fizemos o cadastro e percebemos que esse aplicativo tem poucos botões, sendo que o mais movimentado era o das notícias. Bem no começo do mês de junho, veio a notícia de que os Trabalhadores da Educação tinham que refazer o cadastro para informar em que nível atuavam, porque quem trabalha em creche e Ensino Infantil seria vacinado primeiro ... e quem atua no ensino superior, por último.
Refizemos o cadastro, esperamos ansiosos e o SASI passou a ser o aplicativo mais visitado no celular. Passaram-se os dias e fomos surpreendidos pela notícia de que a vacinação dos Trabalhadores da Educação estava sendo temporariamente suspensa - então tinha sido iniciada...
O SASI informava que era a vez dos Trabalhadores do Transporte Coletivo (como Uber e taxi estavam de fora e há apenas 30 ou 40 ônibus rodando em PVH, calculamos que essa etapa seria cumprida rapidamente). Começaram rumores de que receberíamos a vacina da Janssen, que é dose única. Assim poderíamos voltar ao trabalho presencial. De repente começaram a vir pelo WhatsApp informações sobre local e data de vacinação dos professores.
Em Porto Velho existem pelo menos 4 universidades/ faculdades particulares e a UNIR, única pública, fica a 10km da cidade. A UNIR não era local de vacinação, mas Uniron, São Lucas e FIMCA eram. Segundo a tabela, havia dois locais distintos para Trabalhadores da Educação privada e um terceiro local para os Trabalhadores da Educação (sem adjetivo qualificando). Esse último, em que nós seríamos vacinados, também era Mecca dos sem comorbidade entre 50 e 55 anos.
Entendi que nós, profissionais da Educação, éramos as últimas prioridades a serem vacinadas, já que conosco seriam vacinados aqueles que não eram prioridade, eram apenas mais velhos. Chegaram informações de que era tudo fake news. Chegaram áudios de fontes fidedignas que confirmavam que a vacinação seria no fim-de-semana, mas que o local ainda não estava definido. Voltaram a aparecer tabelas com local e hora de vacinação diferenciando o setor privado (maior em PVH) do público. Começaram os planos, as estratégias, os cálculos: ansiedade.
Ainda houve margem para interpretações: Trabalhadores da Educação e colaboradores. Seriam os técnicos? Seriam os terceirizados? Alguém perguntou se os estagiários também entravam, mas aí já é demais: estagiário não tem vínculo empregatício. Cada um alimentava, do seu isolamento, esse comboio de perguntas e respostas pelas redes sociais - já que esse é o meio em que socializamos atualmente. Alguém dizia que a validade da vacina da Janssen estava perto do fim, outros disseram que a vacina da Janssen não chegaria. Muitas vozes (por escrito). O jornal (G1, hein) anunciava um quarto ponto de vacinação com drive-thru (que depois não se confirmou).
Quinta-feira de noite, na cama, vendo o celular, Luis vibrou: fui agendado! Vou vacinar amanhã pela idade. O agendamento (e a notificação) chegou menos de 12 horas antes do evento. Sexta-feira ele foi, passou a manhã na fila e voltou vacinado, com data pra tomar a segunda dose. De noite, pouco antes da meia-noite, foi a minha vez de receber a notificação do agendamento. No dia da manifestação, eu seria confinada à fila de vacinação.
A manifestação, descobri no meio do caminho, era uma carreata que passava pelo meu caminho ao ponto de vacinação. Quando cheguei na FIMCA (que não era o local de vacinação previsto na tabela da Prefeitura, mas o local indicado no agendamento), fila sem distanciamento:
Reconheci colegas na fila, vi gente segurando o braço (na verdade, o algodão) e fui progredindo, ao longo de uma hora, até a sala de vacinação. Depois de vacinada, segurando o algodão, só consegui dizer "não dói" à primeira pessoa que reconheci na fila dos que aguardavam.
No dia em que o Jornal Nacional mudou o tom para descrever as manifestações populares, destacando o valor da ciência, a bandeira do Brasil (ignorando as bandeiras vermelhas) e o FORA BOLSONARO (reforçando, no editorial ao fim, que não tem dois lados nessa história), no dia em que o Brasil ultrapassou a marca dos 500 mil mortos por covid, eu fui vacinada.
Nas redes sociais, cada um dava testemunho das reações à vacina. Reparei que aqueles que tiveram covid relataram febre, frio e tremedeira, dores de cabeça e nas pernas. Eu não tive nada. Luis teve enjôo de noite e dores no fígado, mas também já passou. Reparei também que mesmo que nós, professores, tenhamos tomado vacina no mesmo dia, não estamos agendados para a segunda dose na mesma data. Imagino que isso esteja relacionado ao lote da vacina que tomamos. De todo modo, a segunda dose será em setembro e o semestre (2020-2) que começa amanhã encerra em outubro. Imagino que quando dermos o semestre de 2021-1, será em modo presencial.