quinta-feira, 6 de junho de 2024

Vai dar certo

Era o que diziam e eu duvidava. Estávamos há dois dias baixando arquivos de um filme em DCP (que só roda no projetor de cinema) e não sabíamos onde estava o erro: se no arquivo original que estava no drive, se no processo de download, porque a internet não era sólida, se na mídia usada pra transportar os arquivos baixados de um computador no ministério para o computador do Cine Brasília ou se era outra coisa. 

Não consegui acompanhar o desfecho depois que uma internet de 20mbps foi instalada no Cine Brasília para baixar os arquivos diretamente para o computador ligado à projeção, mas isso não quer dizer que o técnico não tenha continuado a tentar conseguir e testar o filme que seria exibido na Jornada Bruno e Dom.

Tive que buscar os músicos no hotel, levar para o Memorial dos Povos Indígenas, esperar o pessoal da sonorização, o pessoal das cadeiras e negociar com indígenas que queriam vender artesanato no evento.

Duas turmas escolares vieram visitar o Memorial. Uma turma fez a visita durante a passagem de som, a outra turma ficou gingando capoeira ao som de cantos indígenas. Enquanto isso, o técnico no Cine Brasília dava notícia no grupo de WhatsApp de que testaria o filme durante o coffee break - imediatamente antes da exibição. Eu continuava duvidando, mas deu certo.

Minhas fotos (especialmente as  noturnas) são péssimas, eu sei. Pra dar a dimensão do público, coloco um video que o pessoal da organização fez.

No Memorial, as 100 cadeiras não foram suficientes para o público, o coffee break foi anunciado e servido durante as falas das autoridades e Djuena Tikuna cantou duas músicas porque já estava tarde e todos estavam cansados, mas felizes.

E deu certo, apesar do pânico e ranger de dentes que nos acompanhou no processo.

domingo, 2 de junho de 2024

Agnes crescendo


2017

 
Outubro 2021

Maio 2024
Estivemos em Campinas (Barão Geraldo) no fim de semana passado. Os dois tocos na Praça do Coco são um ímã...

terça-feira, 21 de maio de 2024

Literatura Indígena com muitas aspas

Chegou ao MPI uma proposta de distribuir livros supostamente de literatura indígena para crianças no intuito de salvar o planeta. Como as versões digitais estavam baratinhas, baixei pra ver qual é a desses livros.


Como se pode ver pelas capas dos livros (supostamente "literatura indígena"), não se trata de projetos de autoria indígena. Todas as capas seguem o mesmo padrão de desenho, ou seja, a identidade cultural de cada povo é atropelada por uma estética padronizante de como são os tupinambás, tupinikins, tikuna etc. 

A Editora Nova Leitura não dá créditos aos autores dos livros - a quem fez a pesquisa, buscou e organizou os conhecimentos acerca desses povos, quem tentou rimar o texto. Igualmente não há créditos para o/a ilustrador(a) que por vezes tem seus desenhos repetidos no mesmo livro. 



Em suma, a Editora Nova Leitura - que não possui site ou endereço - não apresenta literatura indígena, mas livros sem qualquer autoria que apresentam uma certa visão sobre os indígenas (vivem em harmonia, caçam, pescam, usam arco e flecha). No livro sobre os yanomamis, por exemplo, a pintura corporal é descrita como preta ou vermelha, mas não há menção aos materiais usados para fazer a pintura corporal. O olhar externo do não indígena registra as cores, mas não conhece o processo de produção. 

Os indígenas são descritos como protetores da floresta, respeitosos com a natureza e cultivadores de uma relação muito próxima com os animais - mas não é explicado como eles protegem a floresta, como respeitam a natureza (o conceito de natureza diferente do homem é fruto da visão ocidental que instrumentaliza os recursos naturais) e como se relacionam com os animais. O choque cultural entre o capitalismo que naturaliza a extração de recursos, que aposta na competição entre indivíduos, que usa os animais como mediadores (pets, grande parte da produção cultural para crianças é ancorada em animais falantes que se comportam como cachorros - amigos naturais do homem) e cada uma das culturas indígenas não é exposto: os indígenas pasteurizados se encaixam no padrão capitalista, na visão não indígena que é superficial. 

Em plena crise yanomami, o livro sobre os yanomamis, p. 10, postula que "sua alimentação é saborosa e variada, para uma dieta saudável e reforçada". Os yanomamis se reconheceriam nesse livro? No livro, todos vivem em harmonia, caçam, pescam e fazem artesanato - como se não lutassem pela demarcação de seus territórios, como se as fronteiras de seus territórios não fossem constantemente invadidas por empreendimentos transnacionais, garimpeiros, madeireiros, posseiros, grileiros, fazendeiros, como se as taxas de suicídio entre jovens não fossem aterrorizantes.


No livro sobre os tupinambás, há, na p. 4, um mapa em que famílias linguísticas (jê, tupi-guarani, pano, aruak) são mostradas como se fossem etnias (tupinambá, tupiniquim, potiguara). O território tupinambá - até hoje em disputa e sem a devida demarcação - é mostrado nesse mapa como sendo no Norte do Brasil, no Pará. E a mesma cor verde usada para marcar o território tupinambá no Pará é usada para determinar o território tupiniquim entre Recife e Aracaju. Essas imprecisões conflitam com o mapa mostrado na página seguinte, na p. 5, em que os tupinambá são alocados na Bahia - e não no Pará - mais especificamente em Olivença. Os mapas não são referenciados - não se sabe de onde essas informações foram retiradas. A realidade de Olivença, em que há mais de 20 caciques (homens e mulheres), não é retratada no livro quando se afirma, na p. 20, que que há apenas 1 cacique (homem) no povo tupinambá. Ainda no livro sobre os tupinambás, a confecção de mantos em arte plumária vermelha aparece como corriqueira nas p. 6, 12 e 13.

Toda a identidade do povo tupinambá - que somente foi reconhecido pela FUNAI em 2001, depois que a
liderança Amotara reconheceu, em 2000, o manto exposto em São Paulo pela Mostra do Redescobrimento em comemoração aos 500 anos - está relacionada ao manto, mas não porque produzem mantos cotidianamente. Os mantos confeccionados antes do/e durante o período colonial eram usados em rituais de canibalismo (que não é mencionado no livro). Os tupinambás se reconheceriam nesse livro? Percebe-se uma romantização dos povos originários, um apagamento de sua história e espelhamento da identidade na identidade ocidental branca. Para os tupinambá, esse livro pode ser considerado uma ofensa.

Na ficha catalográfica de todos os livros da editora consta a cidade (Barueri), a editora (Nova Leitura), o ISBN e ano - mas não tem nome de nenhuma pessoa responsável. Fico imaginando se foi o estagiário da editora que fez os livros ou se foi o Chat GPT mesmo.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Dibujos

Começou hoje o curso oferecido pela Sala Tatuí de desenho com o Troche, autor de Desenhos invisíveis, Bagagem e Lumbre.

Achei muito massa a história de vida dele: a mãe era palhaça, o pai poeta e a família teve espetáculos censurados no Uruguay depois do Golpe Militar. Exilaram-se na Argentina, que também teve Golpe, foram para a França. A mãe, acostumada com teatro de rua, não falava francês. O pai passou a escrever os roteiros dos sketches mudos - mas cômicos - que ela apresentava. Não havia voz, palavras ou recursos, mas havia a relação de um personagem com um objeto.

Com a redemocratização, retornaram ao Uruguay. Troche, desenraizado, fez da folha de papel a sua casa e passou a desenhar personagens se relacionando com um objeto. O primeiro foi a lanterna.

Nos pediu um exercício de desenhar um personagem e um objeto. Eu escolhi o livro.

Entramos no universo das palavras, da trama, dos personagens quando o livro nos pega.
Não lemos um só livro, mas vários: um depois do outro.
Montamos bibliotecas e selecionamos quais autores podem ficar ao lado de quais outros autores.


O exercício para a semana que vem é relacionar esse objeto escolhido a uma estrela. 

Agnes ficou profundamente triste por não poder mostrar os desenhos dela, mas eu mostro aqui.




terça-feira, 14 de maio de 2024

Condecoração de Ailton Krenak

Felipe Milanez tinha vindo de Salvador pra esse evento de condecoração do Ailton Krenak na Embaixada da França no dia 13. Eu perguntei na Assessoria Internacional do MPI quem ia nesse evento da noite e como só tinha um representante do Ministério, pedi que o meu nome fosse incluído na lista. De tarde veio a confirmação de que o meu nome estava na lista da Embaixada. Tinha uma questão de logística: busquei a Agnes na escola, fomos até uma padaria onde estavam Luis, Brent e Felipe, deixei a Agnes com o pai e Felipe e eu fomos na Embaixada da França.

Eu nunca tinha visto o Krenak pessoalmente e gostei de ouvir suas palavras serenas e sonoras. Não conseguimos chegar perto dele, porque os pedidos de foto e autógrafo eram tantos. Mas eu conheci um tantão de gente: Terri Aquino, Henyo Trindade, Manuel Andrade, a filha do Ailton, Noua Krenak e o estilista Mauricio Duarte, o médico do Ailton! Achei bacana transitar por tantas referências e ter o retorno das referências bibliográficas sobre o Luis: ah, o Novoa!

domingo, 12 de maio de 2024

Almoço de domingo

 

Luis tinha convidado o (Reverson) Pantaleão prum carneiro assado no domingo. Felipe Milanez disse que estaria em Brasília no domingo porque participaria de homenagem a Ailton Krenak pela Embaixada Francesa no dia 13. Chamei pro almoço e chamamos também o Alexandre Falcão, que veio mais ou menos na mesma época que nós viemos da UNIR pra Brasília, mas que a gente só tinha encontrado por acaso num espetáculo de teatro.

Esse foi o primeiro almoço que Luis e eu oferecemos em Brasília, nesse apartamento apertado, com esse banheiro minúsculo. Sentimos o limite do espaço, mas as conversas nos levaram pra tantos lugares...

domingo, 28 de abril de 2024

ATL e a pluriversidade

Eu não tinha conseguido ir no Acampamento Terra Livre em nenhum dia. Tinham até pedido pra trancarmos as nossas agendas pra podermos atender os parentes tanto lá no ATL como no Ministério, mas no final das contas o MPI não ganhou espaço lá para montar a sua tenda. O movimento separa governo de movimento. As agendas da Secretária foram atendidas pelo Diretor e algumas agendas dele ele não conseguiu cumprir e me mandou em seu lugar. Segunda e terça tivemos reunião no MEC, quarta eu fui no Senado e quinta a escola da Agnes iria no ATL.

Na manhã de quinta o MPI tinha convocado representantes do movimento e outras instituições que se voltam à educação escolar indígena para debater a universidade indígena. Era um dia em que a Esplanada tinha sido fechada porque de tarde haveria a marcha do ATL ao Congresso Nacional. Não consegui ficar até o final, porque o carro estava estacionado do outro lado da Esplanada e eu ainda tinha que buscar Agnes no contraturno. Pelo grupo do whatsapp, fiquei sabendo que a discussão em torno da universidade indígena resultou na constatação de que só mesmo uma pluriversidade daria conta das demandas dos povos.

De tarde, atravessei o estacionamento vazio e desci as escadas em direção aos anexos. Altaci mais dois estavam lá, esperando Uber. No caminho até a Torre de TV, descobri que uma das pessoas que acompanhava a Altaci era a irmã dela - que tinha ido na escola da Agnes pra contar histórias kokama. 

Agnes já tinha ido na Marcha das Mulheres Indígenas e já sabia o que esperar do ATL. Nem pediu para fazer pintura corporal que os colegas da turma fizeram (mas precisava de uma pulseira). Ouviu as diversas línguas indígenas, compartilhou o lanche com crianças indígenas e coletou penas soltas por aí.

Foi um dia de intensa alteridade.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Lei de cotas em concursos públicos

A Assessoria de Assuntos Parlamentares do MPI precisava uma indicação de alguém da SEART para acompanhar a votação do Projeto de Lei 1958/2021 na CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania) do Senado. Meu chefe imediato tinha agenda no ATL (Acampamento Terra Livre), Edilson se queixou que o projeto de lei previa 20% de cotas para negros aprovados em concurso público - sem presença indígena, portanto - e eu aceitei ir. 

Victor Nunes e eu fomos caminhando do Bloco C até o Senado porque lá embaixo é ruim de estacionar. Como nem ele nem eu somos de alto escalão, havia a possibilidade de sermos barrados em alguma porta. Como eu já fui barrada na entrada uma vez, comemorei quando a moça da portaria me deu adesivo de visitante. Mas essa não era a barreira da vez. Na porta da sala havia seguranças e muita fila. Disseram que receberam muitas listas e que compuseram a lista filtrada deles. Nem Victor nem eu estávamos na lista impressa. Victor começou a acionar os contatos, até que reconheceu um segurança que disse que quando um ministério listava mais uma pessoa, eles colocavam na lista deles só o primeiro nome - e o nome do Victor tava lá. 

Se um podia entrar, talvez pudéssemos controlar quem entra. Victor me puxou pra fora da fila e explicou que o PL original, do senador Paulo Paim, era cota de 20% para negros e que, depois de diversas tentativas de estabelecer cotas para indígenas, foi redigido um substitutivo que determinava 30% de cotas para negros, quilombolas e indígenas. Esse substitutivo era da autoria de Humberto Costa. Não haveria espaço pra eu falar nada, mas se perguntassem se tinha alguém do MPI presente, que eu desse um alô. Como eu tinha que buscar Agnes no contraturno, combinamos com o segurança que eu entraria no início e que Victor trocaria comigo no fim.

Havia uma barreira e um segurança impedindo acesso às mesas. No curto espaço que restava, as cadeiras estavam ocupadas. Fui entendendo a dinâmica da coisa. Da outra vez eu sentei na mesa porque era uma audiência. Agora as mesas eram dos parlamentares. Reconheci primeiro o Sérgio Moro, depois um Bolsonaro mais jovem. Tive que conferir com a minha vizinha se eu estava enxergando certo. É o Flávio, ela disse. Em seguida entrou pela porta o ex-vice, Hamilton Mourão. Com esse pessoal na sala, será que o PL tem chance de ser aprovado?

Victor, do lado de fora, assistiria à sessão pela TV. Enquanto não começava, ele me mandou uma foto de uma moça do MGI que tinha elaborado a minuta do PL substitutivo. Pediu pra eu me apresentar a ela. Calculei que ter aliados nessa sala era importante. Localizei ela, fui lá me apresentar e senti convicção na fala dela: agora vai!

Mas as falas iniciais foram na direção contrária. Um tinha dúvidas se a votação seria do PL original ou do substitutivo, o outro ficou dizendo que somos todos humanos e que viemos todos da África, que as cotas são aceitáveis para ingressar na universidade, mas não no mundo do trabalho etc., etc., etc. O jovem Bolsonaro fez um discurso estarrecedor: deveria haver cotas para pobres, não para negros. E as universidades públicas deveriam ser só para quem não pudesse pagar. Fiquei chocada com a ignorância desse homem acerca da função social das universidades públicas (ensino, pesquisa e extensão) e das universidades privadas, em que o ensino é tratado como mercadoria. Como professora universitária, fiquei escandalizada com esse discurso que coloca as públicas em pé de igualdade com as privadas, como se a única diferença fosse o valor da mensalidade.

Quando saí, passei na Anna do MGI e comentei que os discursos eram terríveis e ela concordou. Eu tinha ouvido duas pessoas defendendo o PL e umas cinco pessoas proferindo seu discurso de ódio e medo dos negros. Na audiência, as defesas de posição eram intercaladas. Saí de lá percebendo um espaço vazio, ausente: ninguém falou dos indígenas. A contenda dizia respeito aos pretos e pardos. Victor entrou no meu lugar e só fiquei sabendo do resultado pelo noticiário.

Por 16 votos a 10, o PL foi aprovado.

terça-feira, 16 de abril de 2024

Parabéns pra Agnes!

Agnes acordou ouvindo os pais dela cantando parabéns a você. Os meus pais sempre cantaram pra mim e pra Agnes, mas nunca imaginei que eu fosse fazer isso também.

Hoje eu gastei 8 horas do meu banco de horas e não fui pro MPI pra preparar a festinha de aniversário da Agnes na escola. De manhã, Olga e eu fizemos compras e assamos as esfirras. Aí já deu a hora de buscar Agnes no contraturno e almoçar com ela. Almoçamos na torre de TV.

Pra Agnes, encontrar peixinhos (que não existem) na fonte era muito importante.

Deixamos a criança na escola e fomos pra casa, fazer o bolo de laranja com glacê de limão que ela tinha pedido. Fiz também suco de cupuaçu com a polpa do Jairo. Chegamos na escola bem na hora do lanche. Achei bacana sentar com as crianças, conversar com os colegas dela, cortar bolo pra todo mundo.
Agora ela completou 8 anos. Espero que ela consiga agora obedecer os pais, tomar banho sozinha, comer enquanto nós comemos, não interromper quem fala, escovar dentes numa boa (eu acho que eu é que devia ter assoprado aquela vela, ó, ia tudo se realizar!!).

sábado, 13 de abril de 2024

Pessoal, essa é a Olga!

Olga chegaria na sexta-feira de manhã. Agnes não tinha conseguido acordar a tempo de ir no contraturno e tava em casa, me esperando. Eu saí de uma reunião no MPI, passei em casa pra pegar a criança e fomos no aeroporto. O painel que informava os horários das chegadas me deixou em dúvida, afinal, o horário informado pela Olga não constava lá. Agnes estava ansiosa, perguntando o tempo todo se aquela senhora lá longe era a Olga.

Enfim ela chegou, deixamos a mala em casa e fomos almoçar no Ministério, que é mais barato. Em seguida, subimos para a sala em que eu trabalho. Agnes abriu a porta e anunciou em alto bom som: "Pessoal, essa é a Olga!" Todos acharam graça e entenderam que Olga tinha sido muito aguardada pela Agnes. Aí Agnes lembrou que no início eu ficava no sétimo andar - onde a Maria tinha um pote de biscoitos - e pediu pra mostrar pra Olga a outra parte do  Ministério dos Povos Indígenas. Mesma coisa. Ela abriu a porta da sala e anunciou para os que estavam lá: "Pessoal, essa é a Olga!"

Fomos pra escola e Olga foi apresentada ao porteiro, à diretora e secretária. As educadoras já se anteciparam e perguntaram se essa era Olga. Porque Agnes tinha falado na turma que receberia visita e que brincaria muito com a Olga.

domingo, 7 de abril de 2024

Ensaio sobre o sol a realidade digital

Agnes e eu fomos no CCBB, ver a exposição "Luz Aeterna, ensaio sobre o sol". 

O texto que acompanha as instalações é importante para nós, adultos, fazermos as conexões mentais entre o que vemos/ouvimos e o que os artistas pensaram. Para as crianças, a experiência é sensorial.
Havia uma instalação sobre trazer a linha do horizonte pra perto que fez um estalo na cabeça da Agnes depois que eu li o texto pra ela, mas as outras coisas - luz como linguagem - ela entendeu sentindo.
Numa sala, nos demoramos mais, tanto que percebi que a sala foi enchendo de gente. As crianças ocuparam o centro da sala e se puseram a interagir com as imagens e o som. Umas corriam atrás de pontos de luz, Agnes dançava agachada.
Observei uma criança menor entrando na sala de braços abertos, completamente imersa em maravilhamento. Boquiaberta, a criança se comportava como se flutuasse. Essa mágica que capturava as crianças não fazia efeito nos adultos.

Contei 9 projetores presos no teto da sala. Os adultos saíam da sala assim que percebiam que a sequência de imagens repetia. As crianças, no entanto, criavam alianças entre si na caça aos vagalumes projetados.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

A foto no whats

Somos algumas arianas na sala da SEART (Secretaria de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas) do MPI, então tem abraços praticamente todo dia. Ontem era aniversário da Andressa Pataxó e de tarde apareceu um bolo na mesa central. Como o pessoal não tinha participado de vaquinha pra adquirir esse bolo e como não havia cheiro de kit festa no ar, o pessoal - mesmo convocado pra comer bolo - não levantava da cadeira, não desgrudava os olhos da tela do computador.

Quando a aniversariante mandou a foto do bolo no grupo de whats, o povo se reuniu em volta da mesa pra cantar parabéns e comer bolo.
 


sábado, 30 de março de 2024

No mesmo escritório

Luis e eu passamos a morar juntos em Porto Velho. Nossa primeira moradia (Av. Rio Madeira) foi um apartamento de 3 quartos em que cada um tinha o seu escritório. Agnes nasceu na segunda (Vila da Eletronorte), uma casa enorme que tinha quatro quartos: o nosso, dois escritórios e o das coisas da Agnes. Dali mudamos para o apartamento (Av. Farquar) em que eu tinha o meu escritório e Luis foi delimitando o seu na sala. 

Aqui em Brasília, morar no Plano Piloto significa quase que forçosamente morar em apartamento (pequeno e caro). Aqui fomos arquitetonicamente induzidos a compartilhar um mesmo escritório (a maior parte dos livros está na sala). 

Como eu bato ponto e sou a motorista da família, meu tempo em casa é reduzido durante a semana. E no fim de semana, como não temos empregada ou faxineira, não me sobra muito tempo para sentar na escrivaninha. Foi preciso um feriado combinado com contraturno pra Agnes para que nós dois pudéssemos nos sentar em nossas escrivaninhas ao mesmo tempo. 

O tempo de trabalho silencioso (eu recebo informativos da plataforma que o MPI usa dizendo quantas horas silenciosas - sem reunião online - eu tive no mês) foi curto, tanto porque conversamos sobre coisas cotidianas como conversamos sobre o que estava na tela e nos incomodava. Mesmo assim, rendeu e as trocas ajudaram a realizar o trabalho pendente.

quinta-feira, 21 de março de 2024

Sobre provas: o que é sabido e o que pode ser descoberto

Elaborar questões de provas não é tarefa fácil. Quando a gente dá aula para uma turma e depois aplica prova, queremos verificar se certos conceitos, métodos ou esquemas de pensamento foram adquiridos e internalizados pelos alunos. Nas minhas provas de morfologia e sintaxe, eu costumava colocar questões em línguas que os alunos não conheciam, para que analisassem, por exemplo, como se faz negação naquela língua (por afixos, por advérbio?) e o que é negado (uma sentença/ uma coisa/ uma qualidade/ uma ação). Eu não queria testar os conhecimentos de tupi ou alemão, óbvio, mas a capacidade deles de analisar estratégias dessas línguas com base em alguns dados.

Como se estuda para uma prova dessas? Não sei, só sei que não adianta decorar nada, porque é preciso pensar conforme um esquema aprendido - ou não.

Quando os meus alunos na UNIR me mostravam questões de provas de concurso em que se pedia a nomenclatura da gramática tradicional, nem eu sabia responder. Eu não domino essa metalinguagem muito bem: eu sou linguista.

Provas de concurso em que o candidato marca a alternativa correta costumam demandar do candidato o que ele SABE sobre determinado assunto. Não é possível aprender nada durante a prova, porque ela não apresenta problemas a serem solucionados, apenas uma alternativa correta a ser encontrada. Corrigir provas desse tipo não implica na leitura das respostas. Basta automatizar o gabarito em relação às respostas dos candidatos e somar os pontos.

É comum que provas-puzzle apresentem um texto que antecede o enunciado e oferece pistas para a elaboração da resposta. Então o candidato precisa interpretar o texto, o enunciado e construir uma resposta. Esse texto às vezes é uma oportunidade perdida em provas em que ele acaba sendo um mero contextualizador do assunto - ou, o que é pior, fonte de dados para serem corrigidos segundo a gramática normativa. Assim como ler textos da literatura clássica pra fazer análise sintática é frustrante, é contraproducente ler parágrafos de texto pra verificar qual palavra poderia ser trocada por qual outra.

O MPI recebeu um representante da Olimpíada de Linguística para pensarmos juntos como a diversidade linguística do Brasil (as línguas indígenas) pode entrar na prova. Pra mostrar do que ele falava, ele nos mostrou algumas questões. O texto que antecedia o enunciado tratava de uma língua, seus falantes e a ameaça de extinção da língua. O enunciado pedia que se relacionasse palavras em língua indígena dispostas numa coluna com a tradução correspondente na outra coluna. 

Aquele não me pareceu ser o tipo de questão que aproveita o potencial exploratório do candidato. Se o texto é sobre a ameaça de morte das línguas indígenas, a questão também deveria ser sobre a quebra da transmissão intergeracional ou o surgimento do português indígena. 

Precisamos pensar juntos (ABRALIN, Olimpíada e MPI) um curso que prepare bons formuladores de questões.

terça-feira, 12 de março de 2024

Presentes

Hoje eu achei que eu ia chegar cedo no MPI e bater ponto antes das 8h pra acumular mais minutos para o meu banco de horas, mas Luis me pediu pra ir no aeroporto, buscar o isopor que o Jairo tinha mandado. Lá fui eu seguindo a voz da Waze pra chegar na parte de cargas, ao lado do aeroporto. Me perguntaram na entrada se o que eu vinha buscar era pesado. Eu disse que não, mas não tinha ideia do que vinha de Porto Velho. Estacionei onde o guarda indicou, peguei senha, fui atendida, preenchi formulário, o rapaz foi buscar e voltou dizendo que era pra eu trazer o carro, porque o pacote era pesado.

Na verdade, o isopor que o Jairo e a Siomara encheram de polpas congeladas de cupuaçu tinha a largura do porta-malas do carro. Voltei pra casa pensando no tamanho do nosso freezer. Quando Luis e eu abrimos a caixa, vimos muitas polpas de cupuaçu, uma de açaí e três que podiam ser tucumã, mas a cor era meio escura. Mesmo tirando tudo de dentro do freezer, não caberia tudo. Peguei as lancheiras (térmicas) da Agnes e consegui colocar três sacolas de 2k de polpa de cupuaçu dentro. Levei pro MPI.

Quando cheguei, o pessoal tava na rua, pedindo taxi pra ir no Bloco K, onde haveria reunião. Eu tinha que bater ponto antes de mais nada - e achar um freezer. Nossa sala tem um frigobar, e nele couberam as três polpas certinho. Pra quem eu daria esses presentes? Pro pessoal do Norte, que conhece e sente saudade desse sabor. Se eu desse 2k de polpa congelada pra quem não tem o hábito de consumir a fruta, eu teria que ensinar umas receitas junto.

Pensei primeiro no Jecinaldo Sateré, porque ele me vê como alguém que veio de Porto Velho, ele é do Norte e conta história de picada de cobra, viagem de barco, se perder na mata. Depois pensei na Juma Xipaia, nossa secretária - que conhece o Jairo, olha que mundo pequeno! Por fim, na falta da Altaci, que está com a Ministra na França, escolhi a Rose, nossa chefe de gabinete que me agradeceu efusivamente e me disse que cupu fresco vale ouro.

Quando cheguei em casa pro almoço, Luis tinha feito açaí batido com banana. Se tivesse mais três copos, eu tomava. Esse açaí da terra do Jairo não tem xarope de guaraná, ou seja, você não encontra açaí puro em loja nenhuma em PVH. Depois do almoço, Agnes tinha escola e hoje eles fariam um escondidinho na aula de culinária. Agnes levava carne moída na lancheira. Botei uma polpa de buriti junto. No caminho pra escola, Agnes e eu fomos pensando nas condições da escola pra fazer suco de buriti e chegamos à conclusão de que precisava de açúcar também. Paramos no mercado e compramos um saco de açúcar.

Luis chamou o amigo dos velhos tempos, que nos apresentou Brasília quando chegamos, e lhe deu uma polpa de cupuaçu. Levou outra polpa pro trabalho. Conseguimos esvaziar o isopor, mas tem que abrir a porta do freezer segurando polpa pra não cair pra fora. Quando fui buscar Agnes na escola, a professora disse que o suco de buriti ficou fantástico e que todas as crianças (menos Agnes) adoraram o ilustre desconhecido. Confesso que eu não lembro do gosto de buriti. Mas temos polpas no freezer pra descobrir.

E assim é o tempo da fartura: de repente dá tanto, que tem que distribuir. Além de Jairo e Siomara nos mandarem um presentão, alegramos outras pessoas, trazendo a Amazônia pra perto.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Revitalizar uma língua

Quanta água tem num rio? Essa pergunta não oferece qualquer resposta confiável, já que a dinâmica dos rios não é compatível com armazenamento e medição de volume estático. Do mesmo modo que não faz sentido perguntar quanta água tem um rio, não faz sentido perguntar quantas palavras tem uma língua. Assim como a água do rio não é suficiente para definir o rio (que tem pedras, lodo, peixes, botos e tantos outros seres, tem margens, desníveis etc.), as palavras de uma língua não são suficientes para caracterizar uma língua, ou seja, conhecer 1.500 palavras de uma língua não equivale a conhecer a língua em que essas palavras ocorrem. 

Os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549 e entenderam que precisavam aprender as línguas indígenas para catequizar os "selvagens" em suas próprias línguas. Essa foi a política linguística dos missionários: aprender a língua pra converter os indígenas à fé cristã. Nesse período (que vai até o séc. XVII), foram produzidas três gramáticas: duas de tupi e uma de kiriri. Essas gramáticas eram instrumentais, dirigidas aos jesuítas que precisavam aprender uma língua estrangeira, não tinham a função de documentar a língua ou descrevê-la para a posteridade.

Os falantes de kiriri (também quiriri, kariri ou kipeá) foram exterminados no violento processo de colonização. A cultura ocidental tem acesso só a essa gramática de 1699 do padre Mamiani. Mas veja:

As ferramentas de pedra estão entre os achados mais frequentes nos sítios arqueológicos. Não porque fossem mais comuns ou mais importantes para os humanos, mas simplesmente porque são feitas de matéria-prima que se preserva mais facilmente com o tempo. Na verdade, é provável que os artefatos de pedra — ou líticos — fossem uma minoria na caixa de ferramentas de humanos antigos. Eles confeccionavam também instrumentos de madeira, fibras vegetais, ossos e outros materiais de mais difícil conservação. (ESTEVES, 2023, p. 46-47, versão do Kindle)

Uma língua não é um código, nem o que se depreende de um dicionário ou gramática. A primeira questão é o registro dessa língua: línguas indígenas que foram grafadas por missionários não passaram pelo processo de invenção da escrita, mas foram vertidas em escrita por membros de uma cultura letrada em outra língua. 

O autor do projeto de revitalização do kiriri (sobre o qual elaborei nota técnica) já publicou um dicionário português-kiriri e vice-versa em que a grafia da língua é normatizada e racionalizada. Além das palavras extraídas dos documentos históricos, o autor desenvolveu um sistema numérico de 1 a 99 para o kiriri, porque a língua só tinha números para quantificar de 1 a 10, sendo que 10 era algo como "todos os dedos das minhas mãos" e 20 era "todos os dedos das minhas mãos e dos meus pés". Por que ele não criou também nomes para 100, 200, mil, milhão, bilhão etc.? No projeto, o autor reconhece que 1.500 palavras é pouco para uma língua e se propõe a inventar mais 4.000 palavras. A última ação do projeto prevê a tradução automática do kiriri com base nas 184 regras da gramática de 1699 e as 5.500 palavras.

Estou diante de um projeto de revitalização de uma língua que não foi usada por séculos que só envolve pessoas indígenas de maneira instrumental: está prevista a gravação de vozes indígenas que saibam pronunciar o y longo. As histórias de línguas inventadas que Arika Okrent conta em In the land of invented languages se fazem muito presentes durante o exame desse projeto. Porque estou diante de um indivíduo que resolveu passar pelo exercício intelectual de construir uma língua usando regras e palavras escritas. Quem vai usar essa língua? Uma língua sem falantes é uma língua morta. Ele pretende revitalizar uma língua para ter como resultado uma língua sem falantes?

Durante o meu processo de pesquisa sobre o kiriri, descobri que em 1974 os kiriri fizeram uma caravana para encontrar com os tuxá e aprender o toré. Através da retomada dos rituais e da constante luta pela retomada do território, surgiu o levante linguístico. Atualmente o kiriri é aprendido e ensinado em escolas kiriri.

Lembrei do protagonista de Dor fantasma que dedica a vida ao treino de uma peça de Lizt. Em sua primeira turnê europeia, ele pretende executar "pela primeira vez" a peça intocável, Rondeau Fantastique. Uma ex-namorada lhe manda um link de um vídeo no Youtube postado 10 anos antes com a execução da peça.

O pianista não era antenado nos eventos, não tinha os contatos certos pra saber que não estava trazendo novidade ao mundo. O autor desse projeto não tem contato com o povo para o qual supostamente está trabalhando ao revitalizar/inventar sua língua.