Elaborar questões de provas não é tarefa fácil. Quando a gente dá aula para uma turma e depois aplica prova, queremos verificar se certos conceitos, métodos ou esquemas de pensamento foram adquiridos e internalizados pelos alunos. Nas minhas provas de morfologia e sintaxe, eu costumava colocar questões em línguas que os alunos não conheciam, para que analisassem, por exemplo, como se faz negação naquela língua (por afixos, por advérbio?) e o que é negado (uma sentença/ uma coisa/ uma qualidade/ uma ação). Eu não queria testar os conhecimentos de tupi ou alemão, óbvio, mas a capacidade deles de analisar estratégias dessas línguas com base em alguns dados.
Como se estuda para uma prova dessas? Não sei, só sei que não adianta decorar nada, porque é preciso pensar conforme um esquema aprendido - ou não.
Quando os meus alunos na UNIR me mostravam questões de provas de concurso em que se pedia a nomenclatura da gramática tradicional, nem eu sabia responder. Eu não domino essa metalinguagem muito bem: eu sou linguista.
Provas de concurso em que o candidato marca a alternativa correta costumam demandar do candidato o que ele SABE sobre determinado assunto. Não é possível aprender nada durante a prova, porque ela não apresenta problemas a serem solucionados, apenas uma alternativa correta a ser encontrada. Corrigir provas desse tipo não implica na leitura das respostas. Basta automatizar o gabarito em relação às respostas dos candidatos e somar os pontos.
É comum que provas-puzzle apresentem um texto que antecede o enunciado e oferece pistas para a elaboração da resposta. Então o candidato precisa interpretar o texto, o enunciado e construir uma resposta. Esse texto às vezes é uma oportunidade perdida em provas em que ele acaba sendo um mero contextualizador do assunto - ou, o que é pior, fonte de dados para serem corrigidos segundo a gramática normativa. Assim como ler textos da literatura clássica pra fazer análise sintática é frustrante, é contraproducente ler parágrafos de texto pra verificar qual palavra poderia ser trocada por qual outra.
O MPI recebeu um representante da Olimpíada de Linguística para pensarmos juntos como a diversidade linguística do Brasil (as línguas indígenas) pode entrar na prova. Pra mostrar do que ele falava, ele nos mostrou algumas questões. O texto que antecedia o enunciado tratava de uma língua, seus falantes e a ameaça de extinção da língua. O enunciado pedia que se relacionasse palavras em língua indígena dispostas numa coluna com a tradução correspondente na outra coluna.
Aquele não me pareceu ser o tipo de questão que aproveita o potencial exploratório do candidato. Se o texto é sobre a ameaça de morte das línguas indígenas, a questão também deveria ser sobre a quebra da transmissão intergeracional ou o surgimento do português indígena.
Precisamos pensar juntos (ABRALIN, Olimpíada e MPI) um curso que prepare bons formuladores de questões.
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