domingo, 7 de abril de 2024

Ensaio sobre o sol a realidade digital

Agnes e eu fomos no CCBB, ver a exposição "Luz Aeterna, ensaio sobre o sol". 

O texto que acompanha as instalações é importante para nós, adultos, fazermos as conexões mentais entre o que vemos/ouvimos e o que os artistas pensaram. Para as crianças, a experiência é sensorial.
Havia uma instalação sobre trazer a linha do horizonte pra perto que fez um estalo na cabeça da Agnes depois que eu li o texto pra ela, mas as outras coisas - luz como linguagem - ela entendeu sentindo.
Numa sala, nos demoramos mais, tanto que percebi que a sala foi enchendo de gente. As crianças ocuparam o centro da sala e se puseram a interagir com as imagens e o som. Umas corriam atrás de pontos de luz, Agnes dançava agachada.
Observei uma criança menor entrando na sala de braços abertos, completamente imersa em maravilhamento. Boquiaberta, a criança se comportava como se flutuasse. Essa mágica que capturava as crianças não fazia efeito nos adultos.

Contei 9 projetores presos no teto da sala. Os adultos saíam da sala assim que percebiam que a sequência de imagens repetia. As crianças, no entanto, criavam alianças entre si na caça aos vagalumes projetados.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

A foto no whats

Somos algumas arianas na sala da SEART (Secretaria de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas) do MPI, então tem abraços praticamente todo dia. Ontem era aniversário da Andressa Pataxó e de tarde apareceu um bolo na mesa central. Como o pessoal não tinha participado de vaquinha pra adquirir esse bolo e como não havia cheiro de kit festa no ar, o pessoal - mesmo convocado pra comer bolo - não levantava da cadeira, não desgrudava os olhos da tela do computador.

Quando a aniversariante mandou a foto do bolo no grupo de whats, o povo se reuniu em volta da mesa pra cantar parabéns e comer bolo.
 


sábado, 30 de março de 2024

No mesmo escritório

Luis e eu passamos a morar juntos em Porto Velho. Nossa primeira moradia (Av. Rio Madeira) foi um apartamento de 3 quartos em que cada um tinha o seu escritório. Agnes nasceu na segunda (Vila da Eletronorte), uma casa enorme que tinha quatro quartos: o nosso, dois escritórios e o das coisas da Agnes. Dali mudamos para o apartamento (Av. Farquar) em que eu tinha o meu escritório e Luis foi delimitando o seu na sala. 

Aqui em Brasília, morar no Plano Piloto significa quase que forçosamente morar em apartamento (pequeno e caro). Aqui fomos arquitetonicamente induzidos a compartilhar um mesmo escritório (a maior parte dos livros está na sala). 

Como eu bato ponto e sou a motorista da família, meu tempo em casa é reduzido durante a semana. E no fim de semana, como não temos empregada ou faxineira, não me sobra muito tempo para sentar na escrivaninha. Foi preciso um feriado combinado com contraturno pra Agnes para que nós dois pudéssemos nos sentar em nossas escrivaninhas ao mesmo tempo. 

O tempo de trabalho silencioso (eu recebo informativos da plataforma que o MPI usa dizendo quantas horas silenciosas - sem reunião online - eu tive no mês) foi curto, tanto porque conversamos sobre coisas cotidianas como conversamos sobre o que estava na tela e nos incomodava. Mesmo assim, rendeu e as trocas ajudaram a realizar o trabalho pendente.

quinta-feira, 21 de março de 2024

Sobre provas: o que é sabido e o que pode ser descoberto

Elaborar questões de provas não é tarefa fácil. Quando a gente dá aula para uma turma e depois aplica prova, queremos verificar se certos conceitos, métodos ou esquemas de pensamento foram adquiridos e internalizados pelos alunos. Nas minhas provas de morfologia e sintaxe, eu costumava colocar questões em línguas que os alunos não conheciam, para que analisassem, por exemplo, como se faz negação naquela língua (por afixos, por advérbio?) e o que é negado (uma sentença/ uma coisa/ uma qualidade/ uma ação). Eu não queria testar os conhecimentos de tupi ou alemão, óbvio, mas a capacidade deles de analisar estratégias dessas línguas com base em alguns dados.

Como se estuda para uma prova dessas? Não sei, só sei que não adianta decorar nada, porque é preciso pensar conforme um esquema aprendido - ou não.

Quando os meus alunos na UNIR me mostravam questões de provas de concurso em que se pedia a nomenclatura da gramática tradicional, nem eu sabia responder. Eu não domino essa metalinguagem muito bem: eu sou linguista.

Provas de concurso em que o candidato marca a alternativa correta costumam demandar do candidato o que ele SABE sobre determinado assunto. Não é possível aprender nada durante a prova, porque ela não apresenta problemas a serem solucionados, apenas uma alternativa correta a ser encontrada. Corrigir provas desse tipo não implica na leitura das respostas. Basta automatizar o gabarito em relação às respostas dos candidatos e somar os pontos.

É comum que provas-puzzle apresentem um texto que antecede o enunciado e oferece pistas para a elaboração da resposta. Então o candidato precisa interpretar o texto, o enunciado e construir uma resposta. Esse texto às vezes é uma oportunidade perdida em provas em que ele acaba sendo um mero contextualizador do assunto - ou, o que é pior, fonte de dados para serem corrigidos segundo a gramática normativa. Assim como ler textos da literatura clássica pra fazer análise sintática é frustrante, é contraproducente ler parágrafos de texto pra verificar qual palavra poderia ser trocada por qual outra.

O MPI recebeu um representante da Olimpíada de Linguística para pensarmos juntos como a diversidade linguística do Brasil (as línguas indígenas) pode entrar na prova. Pra mostrar do que ele falava, ele nos mostrou algumas questões. O texto que antecedia o enunciado tratava de uma língua, seus falantes e a ameaça de extinção da língua. O enunciado pedia que se relacionasse palavras em língua indígena dispostas numa coluna com a tradução correspondente na outra coluna. 

Aquele não me pareceu ser o tipo de questão que aproveita o potencial exploratório do candidato. Se o texto é sobre a ameaça de morte das línguas indígenas, a questão também deveria ser sobre a quebra da transmissão intergeracional ou o surgimento do português indígena. 

Precisamos pensar juntos (ABRALIN, Olimpíada e MPI) um curso que prepare bons formuladores de questões.

terça-feira, 12 de março de 2024

Presentes

Hoje eu achei que eu ia chegar cedo no MPI e bater ponto antes das 8h pra acumular mais minutos para o meu banco de horas, mas Luis me pediu pra ir no aeroporto, buscar o isopor que o Jairo tinha mandado. Lá fui eu seguindo a voz da Waze pra chegar na parte de cargas, ao lado do aeroporto. Me perguntaram na entrada se o que eu vinha buscar era pesado. Eu disse que não, mas não tinha ideia do que vinha de Porto Velho. Estacionei onde o guarda indicou, peguei senha, fui atendida, preenchi formulário, o rapaz foi buscar e voltou dizendo que era pra eu trazer o carro, porque o pacote era pesado.

Na verdade, o isopor que o Jairo e a Siomara encheram de polpas congeladas de cupuaçu tinha a largura do porta-malas do carro. Voltei pra casa pensando no tamanho do nosso freezer. Quando Luis e eu abrimos a caixa, vimos muitas polpas de cupuaçu, uma de açaí e três que podiam ser tucumã, mas a cor era meio escura. Mesmo tirando tudo de dentro do freezer, não caberia tudo. Peguei as lancheiras (térmicas) da Agnes e consegui colocar três sacolas de 2k de polpa de cupuaçu dentro. Levei pro MPI.

Quando cheguei, o pessoal tava na rua, pedindo taxi pra ir no Bloco K, onde haveria reunião. Eu tinha que bater ponto antes de mais nada - e achar um freezer. Nossa sala tem um frigobar, e nele couberam as três polpas certinho. Pra quem eu daria esses presentes? Pro pessoal do Norte, que conhece e sente saudade desse sabor. Se eu desse 2k de polpa congelada pra quem não tem o hábito de consumir a fruta, eu teria que ensinar umas receitas junto.

Pensei primeiro no Jecinaldo Sateré, porque ele me vê como alguém que veio de Porto Velho, ele é do Norte e conta história de picada de cobra, viagem de barco, se perder na mata. Depois pensei na Juma Xipaia, nossa secretária - que conhece o Jairo, olha que mundo pequeno! Por fim, na falta da Altaci, que está com a Ministra na França, escolhi a Rose, nossa chefe de gabinete que me agradeceu efusivamente e me disse que cupu fresco vale ouro.

Quando cheguei em casa pro almoço, Luis tinha feito açaí batido com banana. Se tivesse mais três copos, eu tomava. Esse açaí da terra do Jairo não tem xarope de guaraná, ou seja, você não encontra açaí puro em loja nenhuma em PVH. Depois do almoço, Agnes tinha escola e hoje eles fariam um escondidinho na aula de culinária. Agnes levava carne moída na lancheira. Botei uma polpa de buriti junto. No caminho pra escola, Agnes e eu fomos pensando nas condições da escola pra fazer suco de buriti e chegamos à conclusão de que precisava de açúcar também. Paramos no mercado e compramos um saco de açúcar.

Luis chamou o amigo dos velhos tempos, que nos apresentou Brasília quando chegamos, e lhe deu uma polpa de cupuaçu. Levou outra polpa pro trabalho. Conseguimos esvaziar o isopor, mas tem que abrir a porta do freezer segurando polpa pra não cair pra fora. Quando fui buscar Agnes na escola, a professora disse que o suco de buriti ficou fantástico e que todas as crianças (menos Agnes) adoraram o ilustre desconhecido. Confesso que eu não lembro do gosto de buriti. Mas temos polpas no freezer pra descobrir.

E assim é o tempo da fartura: de repente dá tanto, que tem que distribuir. Além de Jairo e Siomara nos mandarem um presentão, alegramos outras pessoas, trazendo a Amazônia pra perto.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Revitalizar uma língua

Quanta água tem num rio? Essa pergunta não oferece qualquer resposta confiável, já que a dinâmica dos rios não é compatível com armazenamento e medição de volume estático. Do mesmo modo que não faz sentido perguntar quanta água tem um rio, não faz sentido perguntar quantas palavras tem uma língua. Assim como a água do rio não é suficiente para definir o rio (que tem pedras, lodo, peixes, botos e tantos outros seres, tem margens, desníveis etc.), as palavras de uma língua não são suficientes para caracterizar uma língua, ou seja, conhecer 1.500 palavras de uma língua não equivale a conhecer a língua em que essas palavras ocorrem. 

Os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549 e entenderam que precisavam aprender as línguas indígenas para catequizar os "selvagens" em suas próprias línguas. Essa foi a política linguística dos missionários: aprender a língua pra converter os indígenas à fé cristã. Nesse período (que vai até o séc. XVII), foram produzidas três gramáticas: duas de tupi e uma de kiriri. Essas gramáticas eram instrumentais, dirigidas aos jesuítas que precisavam aprender uma língua estrangeira, não tinham a função de documentar a língua ou descrevê-la para a posteridade.

Os falantes de kiriri (também quiriri, kariri ou kipeá) foram exterminados no violento processo de colonização. A cultura ocidental tem acesso só a essa gramática de 1699 do padre Mamiani. Mas veja:

As ferramentas de pedra estão entre os achados mais frequentes nos sítios arqueológicos. Não porque fossem mais comuns ou mais importantes para os humanos, mas simplesmente porque são feitas de matéria-prima que se preserva mais facilmente com o tempo. Na verdade, é provável que os artefatos de pedra — ou líticos — fossem uma minoria na caixa de ferramentas de humanos antigos. Eles confeccionavam também instrumentos de madeira, fibras vegetais, ossos e outros materiais de mais difícil conservação. (ESTEVES, 2023, p. 46-47, versão do Kindle)

Uma língua não é um código, nem o que se depreende de um dicionário ou gramática. A primeira questão é o registro dessa língua: línguas indígenas que foram grafadas por missionários não passaram pelo processo de invenção da escrita, mas foram vertidas em escrita por membros de uma cultura letrada em outra língua. 

O autor do projeto de revitalização do kiriri (sobre o qual elaborei nota técnica) já publicou um dicionário português-kiriri e vice-versa em que a grafia da língua é normatizada e racionalizada. Além das palavras extraídas dos documentos históricos, o autor desenvolveu um sistema numérico de 1 a 99 para o kiriri, porque a língua só tinha números para quantificar de 1 a 10, sendo que 10 era algo como "todos os dedos das minhas mãos" e 20 era "todos os dedos das minhas mãos e dos meus pés". Por que ele não criou também nomes para 100, 200, mil, milhão, bilhão etc.? No projeto, o autor reconhece que 1.500 palavras é pouco para uma língua e se propõe a inventar mais 4.000 palavras. A última ação do projeto prevê a tradução automática do kiriri com base nas 184 regras da gramática de 1699 e as 5.500 palavras.

Estou diante de um projeto de revitalização de uma língua que não foi usada por séculos que só envolve pessoas indígenas de maneira instrumental: está prevista a gravação de vozes indígenas que saibam pronunciar o y longo. As histórias de línguas inventadas que Arika Okrent conta em In the land of invented languages se fazem muito presentes durante o exame desse projeto. Porque estou diante de um indivíduo que resolveu passar pelo exercício intelectual de construir uma língua usando regras e palavras escritas. Quem vai usar essa língua? Uma língua sem falantes é uma língua morta. Ele pretende revitalizar uma língua para ter como resultado uma língua sem falantes?

Durante o meu processo de pesquisa sobre o kiriri, descobri que em 1974 os kiriri fizeram uma caravana para encontrar com os tuxá e aprender o toré. Através da retomada dos rituais e da constante luta pela retomada do território, surgiu o levante linguístico. Atualmente o kiriri é aprendido e ensinado em escolas kiriri.

Lembrei do protagonista de Dor fantasma que dedica a vida ao treino de uma peça de Lizt. Em sua primeira turnê europeia, ele pretende executar "pela primeira vez" a peça intocável, Rondeau Fantastique. Uma ex-namorada lhe manda um link de um vídeo no Youtube postado 10 anos antes com a execução da peça.

O pianista não era antenado nos eventos, não tinha os contatos certos pra saber que não estava trazendo novidade ao mundo. O autor desse projeto não tem contato com o povo para o qual supostamente está trabalhando ao revitalizar/inventar sua língua.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

A raia e o raio

 

A caminho da escola, Agnes quis me contar a história da raia que terá filhotes sem ter tido contato com macho da mesma espécie, já que divide o aquário com tubarões.

- A minha hipótese é que os donos do aquário tinham um ... um ... raio? Eles tinham uma raia macha. 

Nem deu pra formular a hipótese, porque eu quase morri de rir com o raio da arraia macha.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Restituição de artefatos museológicos

Até o século XVIII, as monarquias europeias ostentavam "gabinetes de curiosidades", "quartos de maravilhas" em que souvenires do império eram expostos em coleções de objetos extravagantes. Essas exposições de objetos exóticos trazidos das colônias, das guerras ou das viagens de exploração mais tarde foram convertidas nos Museus Nacionais. É por isso que a Mona Lisa está no Louvre, na França, e não na Itália; é por isso que a pedra de Rosetta está no British Museum e não no Egito; que o busto de Nefertiti está em Berlin e não em Tebas; e o manto tupinambá está em Copenhagen, Dinamarca. Esses "museus universais", como Françoise Vergès os chama (o livro pela editora Ubu está a caminho) se consideram guardiãos da cultura geral: mostram objetos culturais completamente diferentes da cultura em que o museu nacional está inserido. Em tempos decoloniais, tem-se questionado que poder é esse que os museus têm de mostrar o que roubaram, de mostrar o que não pertence ao povo local - e pode ser sagrado/segredo para as culturas que produziram os artefatos.

A minha história começa com a minha entrada no GT de repatriação do manto tupinambá do Museu Nacional da Dinamarca (Nationalmuseet) para o Museu Nacional (MN) no Rio de Janeiro. Como o meu chefe imediato é o coordenador do GT, eu passei a secretariar as reuniões. Foi através da fala do antropólogo e curador de etnologia do MN, João Pacheco de Oliveira, que eu entendi que o manto tupinambá tem aproximadamente 400 anos de idade, fica exposto em condições de umidade e temperatura do ar específicas e demanda muitos cuidados no transporte (não pode ser manipulado, precisa ficar na vertical). Foi pela fala da Glicéria Tupinambá que eu entendi o que significa o manto para os tupinambás, que estão em processo de retomada de sua cultura. Quando Glicéria viu o manto no Nationalmuseet, ela queria saber como ele é feito, já que os tupinambás não fazem mais mantos. Ela diz que o manto conversou com ela. Assim como o rio é um avô para Ailton Krenak, o manto é parente da Glicéria Tupinambá. Numa das reuniões do GT, Daiara Tukano falou de sua experiência e seus estudos: ela estima que 80% dos artefatos tukano em museus estão no exterior. Ano passado quase fomos ao Rio de Janeiro, fazer uma visita técnica ao Museu Nacional (lembra que ele pegou fogo em 2018), para ver como estão as condições do MN de receber essa peça. 

O Nationalmuseet expõe apenas um manto: esse da foto. Outros 4 mantos ficam armazenados em caixas metálicas na reserva técnica - o público não tem acesso. Além do Museu Nacional da Dinamarca, outros museus europeus possuem mantos tupinambás: Bruxelas (Bélgica); Florença e Milão (Itália); Basileia (Suíça) e Paris (França). No total, 11 mantos tupinambás estão espalhados em museus europeus, mas só um será repatriado: aquele que está exposto no Natoinalmuseet e que, em 2000, fez parte de uma exposição itinerante chamada Mostra do Redescobrimento: Brasil + 500. Essa Mostra rodou 13 capitais brasileiras, NY e Paris. 

Amotara Tupinambá viu o manto em São Paulo, no ano 2000. Reivindicou a repatriação do manto, mas não aconteceu nada. Em 2021, o Embaixador do Brasil na Dinamarca viu o manto no Nationalmuseet e como embaixador formalizou o pedido de repatriação. Ao pedido oficializado em 2022, juntou duas cartas: uma assinada pela Cacica Valdelice, filha de Amotara; a outra assinada pelo cacique Babau, irmão da Glicéria. O Nationalmuseet doou este um manto (manterá os outros quatro) ao Ministério da Cultura. Em maio de 2023, o Ministro da Cultura autorizou o retorno do manto ao Brasil. Como se trata de uma relíquia que envolve cuidados técnicos, o manto será recepcionado pelo Museu Nacional.

Os tupinambás não fazem questão de guardar/conservar o manto. Isso é diferente dos krahô, que pediram a restituição da machadinha que consideram sagrada. O Museu Paulista não devolveu a machadinha, mas assinou um termo de comodato com os krahô. O argumento do museu para não doar a machadinha era que isso mutilaria o acervo. Os krahô não têm a posse, mas usam e conservam a machadinha em rituais. E a machadinha não foi degradada por estar em território indígena.

Um dia tocou o meu telefone lá no MPI. Era a Embaixada do Japão querendo marcar reunião ainda naquela semana com o meu chefe porque ele coordena o GT de repatriação do manto. Tive que perguntar muito pra muitas pessoas até entender a história. Só depois que voltamos da Embaixada do Japão é que percebemos o que estava acontecendo (eles mandaram o link do museu japonês). Um milionário japonês esteve na Amazônia 40 anos atrás e montou um museu particular no Japão com artefatos indígenas. Esse museu fechou 10 anos atrás e os filhos desse milionário (talvez ele tenha morrido) estão interessados em doar o acervo indígena ao Brasil. Provavelmente vamos ter que criar outro GT para identificar as peças, contactar os povos que as fizeram, entender o significado que eles atribuem aos objetos. Na reunião com o secretário do Embaixador, a Chirley Pankará lembrou da repatriação do sangue yanomami. 

Em 2015, o sangue coletado nos anos 70 sem autorização foi repatriado dos Estados Unidos. Os yanomami fizeram um ritual e enterraram os frascos na aldeia. Eles não tinham interesse em expor ou usar o material repatriado. Chirley queria explicar, através desse exemplo, que os povos indígenas é que decidem o que é feito com os objetos expropriados no passado e repatriados anos depois. A restituição significa um reencontro do povo com sua ancestralidade.

O Brasil não devolveu ao Paraguay o canhão El Cristiano que entende como troféu de guerra. Os paraguaios o consideram como herói da Guerra do Paraguay e o reivindicam desde 1870.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Unimed em Brasília

Em Porto Velho, a melhor cobertura médica era da Unimed. Percebemos o movimento da própria seguradora de descredenciar médicos e concentrar os atendimentos no Hospital da Unimed ao longo dos anos. Daí viemos pra Brasília, onde não encontramos nenhum médico credenciado à Unimed. Descobrimos que em Brasília existe um lugar que concentra todos os serviços chamado Espaço Saúde.

Como é um lugar novo, não conta ainda com muitas especialidades. Por exemplo, o pediatra da Agnes a encaminhou para dois médicos que não estão no Espaço Saúde da Unimed. 

Ontem Agnes tinha consulta com o pediatra e Luis a levaria. Esqueci de separar, além do documento e carteirinha de vacinação dela, a carteirinha do convênio. Quando ele me avisou que faltava a carteirinha, peguei o meu celular, abri o aplicativo e procurei a carteirinha digital. Não constava. Tentei entrar com o meu CPF, mas não dava pra fazer nada a não ser ser impedida de cadastrar algo já cadastrado e que não era recuperável. Fiquei bem uma hora tentando mandar qualquer informação relevante pro Luis pra que Agnes pudesse ser atendida.

Liguei na Unimed Nacional que me disse que eu não estou cadastrada e que era pra eu ligar pra Unimed de Rondônia. Lá eu consegui finalmente o número da carteirinha da Agnes - mediante a informação do CPF dela, que eu recuperei numa foto de 2021 armazenada no meu celular. Consegui também o número da minha carteirinha Unimed. Nada disso adiantou. A atendente dizia pro Luis que faltava um dígito. Não teve remédio a não ser sair do trabalho, ir pra casa, pegar a carteirinha física e levar no Espaço Saúde da Unimed. 

Chegando lá, Luis disse que tinha reunião e quem entrou no consultório com a criança fui eu. Perdi a tarde toda por ter esquecido a carteirinha de plástico. Nem a Unimed nem o aplicativo ajudaram, afinal de contas, o número escrito na carteirinha era completamente diferente dos números que me foram informados pela Unimed.

Hoje eu tinha consulta com o ginecologista porque eu preciso fazer exames periódicos enquanto servidora. O ginecologista colheu material do Papa Nicolau e me deu o tubo branco. Disse que era pra eu levar no laboratório, no andar de cima. Levei e depois de muito tempo de consulta aos colegas, a moça atrás do balcão me disse que a análise do material coletado não estava autorizada pela Unimed. Sugeriu que eu fosse em outro laboratório.

Fui com o meu tubo branco até outro laboratório. A atendente abriu o frasco, conversou com as colegas e me deu duas luvas de plástico. O médico deveria ter identificado a lâmina em que estava a amostra com as minhas iniciais. Ela, como atendente, não podia fazer isso, mas eu podia. Eu tinha que lavar as mãos, colocar as luvas e escrever as minhas iniciais com um lápis na lâmina de vidro em que estava (em algum lugar) material coletado. Cuidado pra não contaminar!

Estamos avaliando se vale a pena seguir com a Unimed aqui em Brasília.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Orgulho


Tenho orgulho desse texto publicado hoje na Alfa com data de 2023. Renato e eu enviamos uma primeira  versão para um dossiê na Revista do GEL que acolhia textos sob o viés funcionalista. Fomos avaliados por três pareceristas, dos quais só um gostou do texto e se esforçou pra pensar como melhorar o texto. Lembro que o livro sobre sinais de pontuação que eu tinha comprado na Alemanha e me servia de referência foi roubado em Peruíbe e que eu encomendei esse livro de novo (!). 

O texto é sobre expressões idiomáticas que lançam mão dos sinais de pontuação. Essa foi a parte mais difícil para os pareceristas entenderem: não são os nomes dos sinais de pontuação, nem são os sinais eles mesmos. Quando dizemos "está decidido e ponto final", a expressão "e ponto final" não refere nem ao nome do sinal nem ao ponto, mas resume a função mais saliente deste sinal: encerrar. No caso, a expressão encerra não só a frase, mas a interação/conversa.

Apresentamos o texto para a Revista Alfa em 2022 e fomos avaliados em 2023 por dois pareceristas, um dos quais era português de Portugal e achava algumas coisas estranhas. Lembro que pedi ajuda pra Lauren Gawne porque ela estuda gestos (está pra publicar um livro) e me indicou um artigo sobre o gesto de aspear. Mas em inglês, nem todas as expressões fazem sentido: "muitas aspas", "paizinho, vírgula!", "abrir um parêntese" etc.

Uma vez aprovado, Renato traduziu o texto para o inglês em tempo recorde e ficamos esperando a publicação depois dos ajustes da revisora e do diagramador. Saiu hoje, junto com mais quatro artigos represados - mas saiu! Esse foi um texto trabalhado ao longo de muitos anos e que se beneficiou do tempo de preparo: tenho orgulho dele.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

INMA

Agnes e eu fomos no Instituto Nacional da Mata Atlântica, bem no meio de Santa Teresa. É um parque tranquilo, limpo, sem fedor de animal confinado.

Jogo da memória impossível para pessoas impacientes

No viveiro havia pássaros, mas não os colibris que esperávamos ver aqui na região, onde cada comércio explora ou o nome ou a imagem do colibri. Estamos a poucos quilômetros da Reserva Augusto Ruschi que leva o nome de um renomado especialista em colibris e orquídeas.
Vimos grande variedade de colibris quando nos sentamos de frente pra esse varal de garrafas com líquido que os beija-flores vêm beber. Essa era a parte mais legal: os colibris estavam todos soltos, livres na natureza.
Fomos seguindo uma placa que anunciava animais e tinha o desenho de 3 macacos. Não encontramos esses macacos em canto nenhum. Pouco antes da saída, quando entendemos que não dava pra entrar no pavilhão das epífitas, Agnes perguntou ao jardineiro se tinha macaco no parque. Tem. Tá tudo solto.

domingo, 14 de janeiro de 2024

Parla (italiano)

Estamos em Santa Teresa, uma comunidade italiana no Espírito Santo. Na cafeteria, o preço do café varia com o tanto de italiano que você usa pra pedir o seu café. Isso é política linguística. Agora como faz política linguística pelo Estado pra valorizar as línguas indígenas?
 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Comer o peixe que pescou

Último dia de praia nessas férias, então retornamos à Pedra da Tartaruga.

Luis achou um caramujo e tirou o molusco de dentro da concha pra servir de isca.

Na primeira tentativa, já fisgou um peixe vermelho lindo.
Ainda tentou pegar outros dois, mas não deu certo. Apareceu uma lesma do mar - que logo foi devolvida à água.
O peixe foi conservado no balde, morto na pia - panela (eles disseram que ainda percebiam as barbatanas se mexendo na panela!) e comido com muito orgulho na mesa por Luis e Agnes.
Depois, lavando a louça e o balde, encontramos um anzol no balde. Como esse anzol foi parar no balde? Luis lembrou do peixe vermelho que comeu o anzol dele outro dia - mas essa não parece ser uma boa hipótese.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Voando

Estávamos a caminho da Praia de Castelhanos, mas como demorou a chegar, começamos a prestar atenção nas placas (e não nas indicações da Waze). Apareceu uma placa indicando berçário de tartarugas em Guanabara. Passamos na frente: tinha muita gente, um instituto que cuida de tartarugas marinhas e uma trilha interditada. Um pouco mais adiante, encontramos outra trilha que levava à praia. Ventos incrivelmente fortes nos mandaram de volta ao carro.

Na porta daquele instituto tinha uma placa anunciando a abertura de ninho de tartarugas pra dali a alguns minutos.


Seguimos o cortejo que foi se formando pra ver as tartaruguinhas saindo do ninho e entrando no mar. Só que demorou tanto, que desistimos de ficar ali.

Na mesa do café da manhã, Agnes quis lembrar de uma casa, ou apartamento? "Num Bloco G!" Nossa casa em Brasília? Ela nos olhou fixo: a gente ainda mora em Brasília? 

De tanto voar de praia em praia, ela perdeu a referência do nosso pouso.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Pedra da Tartaruga

No dia em que chegamos em Setiba, fomos logo ver a praia de cima do morro, pra ter uma noção melhor da geografia local. Entendemos que a praia de Setiba é cheia (tava tendo campeonato de canoagem), com quiosques, restaurantes, pousadas, estacionamento e muita gente. Do outro lado do morro, tem o Parque Estadual Paulo César Vinha. O Vinha foi morto brigando pela restinga contra as empresas que queriam tirar areia (pra construção) da restinga, daí fizeram o Parque em homenagem a ele, que foi colega do Luis (é recente). Como a praia ao longo do Parque não tem casa nem gente, tudo é mais tranquilo e selvagem.
 
Subimos numa pedra que tinha muitas piscinas com mariscos, anêmonas e caranguejos. No mar, margeando a pedra, avistamos muitas tartarugas marinhas nadando livremente. Mais tarde, olhando o mapa, vi que essa pedra é chamada de Pedra da Tartaruga.
Luis quase fisgou um baiacu e depois um peixe vermelho ficou com o anzol dele. Agnes aprendeu a tirar sururu e craca de dentro da casca pra colocar no anzol.

A vegetação em cima Pedra da Tartaruga surpreendeu, porque era abundante. Mais tarde, andando pelo Parque Estadual, colhemos vários frutos de cactus. Não sei bem se é pitaya, mas a polpa é branca com pontinhos pretos.
Uma das piscina de água me lembrou o formato de uma tartaruga. Ver a forma de uma tartaruga numa piscina em cima da Pedra da Tartaruga - que recebeu esse nome por causa das muitas tartarugas que nadam por ali não parece coincidência, né... O mito original de A'Tuin...

domingo, 7 de janeiro de 2024

De volta a Vitória

Ontem a previsão era de tempestades em Porto Seguro, onde o nosso avião faria escala. Mas como a saída atrasou, pegamos só chuva mesmo e seguimos tranquilos pra Vitória (ES). Passamos a primeira noite em hotel nessas férias - e foi a noite mais bem dormida de todas.

O programa era passear de barca (ônibus aquático), mas a fila tava tão grande e as notícias que eram entoadas eram todas ruins: barca quebrada, lotação completa e último horário, que decidimos visitar o Projeto Tamar. Agnes e eu já conhecíamos, mas foi bom voltar a ver as tartarugas marinhas.

Na praia de Aleluia (Flamengo, na Bahia), tínhamos visto cercas indicando ninhos de tartarugas. Ali, no Tamar, vimos filhotes que não conseguiam sair dos ninhos - porque a concorrência pela vida começa desde cedo. Não tirei fotos das filhotes, esqueci.
O ponto alto foi a alimentação das tartarugas. As crianças é que podiam jogar comida para as tartarugas. Teve fila e, como as tartarugas já conhecem a rotina, a tartaruga do tanque da esquerda tentava passar a grade pra pegar peixinhos.


quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Terceira morada

Assim que chegamos na Bahia, nos instalamos num apartamento de um quarto só. Ali entendemos que ter trazido a faca de descascar legumes e um pote com tampa era pouco pra quem quer cozinhar. As casas oferecem pratos, copos, xícaras e talheres pro hóspede comer, mas não o suficiente pra fazer comida: tábua, faca grande, jarra, bacia, potes, panelas e frigideiras.

Dali do Rio Vermelho descobrimos muitas outras praias e fomos entendendo os horários das marés - na maré baixa dá pra ver muita vida marinha, na maré alta é uma única onda batendo na areia com toda força.
Nossa segunda morada foi em Ondina. Lá tivemos um apartamento inteiro alugado de alguém que mora lá: a cozinha era bem equipada, dava pra lavar roupa e tinha uma varanda enorme. Sair de lá é que era o problema, porque o apartamento ficava no alto do morro, no fim de uma rua encaracolada e estreita. A praia não ficava longe, mas a gente só saía de casa de carro.

Grande parte das nossas viagens era pra o Rio Vermelho (acarajé, praia, livraria, supermercado).

Agora estamos no Flamengo, num condomínio de chalés. É maior que o primeiro, mas o aperto da cozinha permanece: tem panela de pressão, mas não tem assadeira ou panela pra fazer moqueca. A praia aqui é ótima, mas fomos buscar as piscinas de peixes e caranguejos em Itapuã.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Fogos de artifício

Acho que passei muitos Natais e viradas de Ano Novo em Gramado e acabei me acostumando com o foguetório que começa no Natal e termina bem depois da virada do ano. Confesso que quando acordei com os fogos de artifício, pensei: eles esperaram dar meia-noite!

Nem levantei porque Agnes seguia dormindo e o espetáculo seria pra ela ver. Estamos hospedados numa cobertura, mas o prédio só tem cinco andares. Fica de frente pro mar, mas tem dois prédios de 12 andares bem na frente, tapando quase que totalmente a visão do mar. 

Dessa vez, os fogos de artifício funcionaram (pra mim) como um marcador de tempo, só.