Meu despertador continua tocando muito mais cedo do que consigo acordar, mas mesmo assim eu sigo sendo a primeira a sair da cama. Sei que fecham uma das pistas do aeroporto de manhã e de tarde. Passei a caminhar lá (quando dá) no aeroportoparque de manhã porque tem sol, mata, vento na cara, pouca gente, superfície previsível e carros bem longe.
Ontem de tarde-noite choveu forte, daquelas chuvas de vento uivando, janela batendo e mundo branco lá fora. Como hoje de manhã apareceu um sol simpático e brisa fresca, me animei pra ir caminhar.
Caminhei olhando pro céu, lembrando da praia. Não sei se é a imensidão do céu na praia, se eram as cores das nuvens, ou se era o olhar vigilante no céu quando se está na praia: chuva nas férias é meio frustrante. O pressentimento de que choveria dali a pouco me veio como lembrança da praia. Ou era frustração por ter cancelado mais uma viagem? Que nada, ômicron taí.
Quando eu estava quase chegando na outra ponta, onde faço meia-volta e retorno, eu ouvi a chuva caindo. Antes de sentir na pele, percebi o som. Virei a direção, apressei o passo, tentei correr, mas logo perdi o fôlego. O cheiro de chuva me invadiu. Os cabelos, antes soltos, passaram a grudar uns nos outros, senti a água escorrendo pelos braços, senti que as meias estavam molhadas e vi que minhas roupas tinham mudado de cor. Quando foi o último banho de chuva? Lembrei de vários, memoráveis, bem remotos.
Melhor que cumprir uma meta de caminhar pelo menos duas vezes por semana de manhã foi esse banho de chuva que me transportou para um passado mais leve e aventuroso.
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