Um dia, Luis foi abrir o forno quente e a grade que se projeta pra fora quando se abre o forno (grudada no vidro) travou e o vidro se desintegrou em milhares de pedaços - que ainda hoje encontramos na cozinha. Eu não vi o que aconteceu, nem como. O vidro que se quebrou não era a única barreira entre dentro e fora do forno, de modo que ainda era possível usar o forno. Só que o fogão todo esquentava muito, demorava mais a assar as comidas e de repente as bocas precisavam ser acendidas com fósforo porque o botão não ajudava. Tínhamos um fogão de primeira que foi entrando em falência.
Procuramos fogões no centro, onde há alta concentração de lojas que vendem coisas pra casa. Peneiramos as opções até ficarmos entre um Brastemp e outro, mais barato, Atlas. Eu, que sou meio desligada, nunca tinha ouvido falar em Atlas, mas Luis defendeu a marca e fechamos negócio. A entrega seria só dali a dois dias, então, como tínhamos pressa, fizemos o fogão caber no carro.
O fogão novo tinha (sobre o velho) a vantagem de não cruzar cabos e canos. O cabo da eletricidade saía do mesmo lado em que a parede oferecia a tomada e o acesso pro gás ficava perto do butijão. Liguei tudo, testei as bocas, fiquei feliz e guardei os lixos da embalagem. De tarde, quis fazer pão de queijo pra Agnes. Resolvi pré-aquecer o forno, pra sair qualquer resíduo. Apertei e girei o botão, apertei o outro botão que liga o fogo, vi a chama azul, esperei os 10 segundos indicados no adesivo que tinha retirado antes. Quando soltei a válvula de segurança, a chama apagou. Tentei de novo e de novo. 15 segundos, 20, 30, 60. Toda vez que eu soltava a válvula, a chama apagava. Ou seja, pra usar o forno, seria preciso manter a válvula de segurança pressionada.
Peguei a nota fiscal do fogão comprado na manhã do mesmo dia e voltei na loja. Expliquei o problema, o gerente não entendeu. "Não acende." Acende, sim, o problema é que apaga! O gerente foi pedir instruções pro gerente acima dele e voltou dizendo que "como isso daí é questão de uso, vou te passar o telefone da assistência técnica." Foi no computador e anotou um telefone. Eu peguei o celular e liguei. Ninguém atendia. Ele encontrou outro telefone. Uma moça atendeu falando bem baixo e muito sem vontade de atender. Tive que pedir mais de uma vez que ela falasse mais alto, afinal eu estava dentro de uma loja que expõe TVs ligadas - no centro comercial da cidade, em fim de ano. Ela disse que eu tinha que levar a nota fiscal do fogão lá. Anotei o endereço e fui.
Atravessei a cidade, quase cheguei na zona leste e parei na frente de uma empresa que costuma fazer manutenção nos nossos aparelhos de ar condicionado. A moça que me atendeu também custou a entender o problema do fogão, mas foi categórica: não trabalhamos com a marca Atlas. Reclamei, dizendo que eu tinha dito no telefone que se tratava de um fogão Atlas. Ela foi descobrir quem tinha me atendido no telefone e depois ficou falando mal dessa moça pra gerente. Depois, por caridade, ela procurou saber qual assistência trabalhava com a marca Atlas. Me deu o endereço e eu atravessei a cidade de novo, passei pela minha casa, fiz o retorno e fui me embrenhar pelo bairro Floresta.
A moça entendeu perfeitamente o problema do fogão e me explicou que, enquanto assistência técnica, ela precisava ser acionada pela Atlas. Foi aí que eu pensei: a loja que me vendeu o fogão deveria ter me poupado a gasolina e o tempo gastos na peregrinação e ligado diretamente no 0800 da Atlas. Aí a moça falou que não tinha a peça - porque teria que trocar peça - e demoraria mais de uma semana pra que o problema fosse resolvido. Vendo a minha cara de desânimo, ela lembrou: você não usou o seu forno, portanto não pode ser "problema de uso". Conforme o Código do Consumidor, você tem direito a devolver o produto em até 7 dias. Você comprou o fogão hoje. Ou você pede seu dinheiro de volta, ou troca. Se você acionar a assistência técnica, vai estar aceitando um produto com defeito.
Voltei pra casa porque já era tarde. Pedi pro Luis assumir dali em diante todas as reclamações, trocas, reivindicações de direitos por mim, porque eu sou muito boba pra isso e me deixo guiar pelos João-sem-braço que preferem terceirizar os problemas. Não consegui convencer o meu marido. É preciso aprender com os erros.
Procuramos informações sobre fogões Atlas na internet e bastou um video em que o cara mostrava uma instalação MacGiver que ele tinha feito pra manter o botão apertado enquanto o forno assava comida (porque já tinha ido pra assistência umas 3 vezes e não tinha resolvido) pra sabermos que o nosso problema não era raro no universo Atlas.
No dia seguinte, debaixo de chuva, Luis levou o fogão na loja. Falou com o gerente, explicou o problema, mostrou um vídeo que tínhamos feito. Trocamos, sem problema, foi a resposta. O problema é que não tinha mais nenhum fogão Atlas no estoque e tivemos que levar o do mostruário. E se falhar de novo? O gerente garantiu que vendia muito desse fogão. Se não funcionasse, encontraria uma solução.
Funcionou.
Nenhum comentário:
Postar um comentário