Esse semestre estou dando aula na Química, na Enfermagem e nas Ciências Contábeis. Dei a mesma disciplina nas três turmas, mas saíram muito diferentes, por causa das características próprias das turmas. A proposta do curso - explorar gêneros textuais diferentes e focar nos gêneros acadêmicos - foi a mesma, mas os textos que serviram de base para as avaliações foram direcionados para cada turma.
Para fazer o fichamento,
a turma de Química leu um texto sugerido por uma amiga minha, professora de Química (sobre o conceito de densidade em Química);
a turma de Enfermagem leu um texto do Mecacci (Conhecendo o cérebro, 1987) sobre os dois hemisférios cerebrais;
a turma de Contábeis ... bem, eu não pude contar com a ajuda de amigos professores de Contábeis, nem aproveitar qualquer convergência entre o que eles estudam e o que eu estudo. Como às vezes, durante aulas de sintaxe, por exemplo, havia atrito com um rapaz craque em gramática tradicional, a quem não consegui explicar a contento que a Linguística é uma ciência que toma por objeto a linguagem e que a gramática tradicional não é uma ciência, mas um modelo de uma língua idealizada, decidi oferecer como texto para fichamento o primeiro trecho do primeiro capítulo do Preconceito linguístico do Marcos Bagno. Todos, inclusive esse rapaz, souberam aproveitar bem o texto. Desse modo, o preconceito linguístico, muito disseminado na nossa cultura e expresso por esse rapaz mais de uma vez, se tornou ao menos visível.
Para fazer o resumo,
a turma de Química leu o conto A última pergunta, de Isaac Asimov (eles tinham feito textos argumentativos sobre fake news e se esforçaram para entender o tema. A última pergunta foi um prêmio);
a turma de Enfermagem leu o capítulo Crítica às ideologias do cérebro de Nildo Viana, sobre o determinismo cerebral, em que a separação do cérebro em dois hemisférios é criticada como sendo apenas uma ideologia (dentre outras, por exemplo, de que o volume cerebral informa sobre inteligência; de que é possível mapear comportamentos, sentimentos e dons no cérebro; de que o cérebro é fluido e tudo não passa de relações químicas; do paralelismo psicofisiológico etc.);
a turma de Contábeis leu o conto Um general na biblioteca de Ítalo Calvino. E eu escolhi esse texto porque acompanho o grupo de whatsapp deles (pois é) e as discussões entre eleitores de Bolsonaro e não Bolsonaro foram intensas. Tive acesso a muitas fake news através desse grupo, em que muitas pessoas replicavam desinformação e se agrediam com emoticons😏.
Adotei como estratégia didática estabelecer a data de entrega pra depois da aula. Como sempre recebo trabalhos antes da aula, tenho tempo de ler, perceber tendências, comentar em sala de aula e evitar mal-entendidos. Quase todos que tinham entregado antes do prazo acabam refazendo seus textos com base nos comentários em sala de aula.
Os primeiros resumos de Um general na biblioteca me assustaram: toda a dinâmica dos militares acampando na biblioteca com a missão de censurar livros que "fossem contrários ao prestígio militar" foi descrita - os carimbos, as patentes, os relatórios, a divisão de tarefas. Depois há um salto para o período de silêncio na biblioteca, que conduziu a base militar a decidir encerrar a missão. Em seguida, o general encarregado da missão apresentou seu relatório - que não agradou - e foi aposentado.
Fiquei pensando nO evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago. No romance, Saramago fez uma opção de não transcender a morte de Jesus. A história acaba com a morte do homem. Não há ressurreição - tão significativa para os cristãos. Saramago, enquanto ateu, acreditava que Deus não existe, portanto o Reino de Deus não é uma promessa. Os alunos que leram Um general na biblioteca e produziram resumos como descrito acima, fizeram uma opção por silenciar a transformação que aconteceu com os militares na biblioteca sob orientação do senhor Crispino, o bibliotecário? Eles não acreditam que o conhecimento transforma as pessoas, que convicções podem ser desconstruídas através do diálogo e do argumento?
Ou será que eles não entenderam o conto? Um deles confessou que não tinha entendido o conto nem na segunda leitura. Mas como ele tinha a tarefa de resumir o conto, procurou na internet. Achou um vídeo no Youtube e o entendimento assentou. Percebi grande resistência ao texto escrito. O audiovisual - ver e ouvir uma pessoa falando - fez toda a diferença. Decidi nunca mais fazer a brincadeirinha "gente, eu fiz Letras, não Números", porque parece que a recíproca é verdadeira - e preocupante, a meu ver.
Tentei comparar o conto com uma parábola. As parábolas de Jesus são, por exemplo, sobre sementes jogadas em lugares diferentes; não sobre pessoas que compreendem ou não uma mensagem. No meu entendimento, Um general na biblioteca é sobre militares que decidem censurar livros que não corroborem suas opiniões formadas; não sobre preconceito (pré-julgamento; Vorurteil; nas palavras de Bagno: "resultado da ignorância, da intolerância ou da manipulação ideológica"). Os militares acampados na biblioteca foram confrontados com uma complexidade que seus preconceitos simplificavam. Não conseguiram articular toda a complexidade recém apreendida no ato de apresentar relatório - e os seus superiores, que esperavam uma simples lista de livros permitidos e outra de livros proibidos, não souberam lidar com a desconstrução explícita de seus próprios preconceitos.
"Eu nem leio esse tipo de texto que desconstrói as minhas crenças, professora" disse o rapaz que afirmou que só em Portugal eles falam o português correto, mas fez um fichamento pertinente do início do Preconceito linguístico. Pois é. Escola sem partido é isso, não permitir que visões de mundo diferentes daquelas adotadas pela família (eles chamam de ideologia) sejam apresentadas na escola - e, se Bolsonaro conseguir, na universidade. Escola sem partido chama tudo que é de fora/desconhecido de ideologia, mas está inserido numa ideologia: o conservadorismo, a não abertura.
Retorno mais uma vez a Bagno: "A função da escola é, em todo e qualquer campo de conhecimento, levar a pessoa a conhecer e dominar coisas que ela não sabe [...]."
E já que estamos fazendo pontes entre ideologia e preconceito, complexo e confortável, recomendo A gigantesca barba do mal, grata surpresa do universo dos quadrinhos.
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