Lidando com pessoas afásicas, aprendi que os sentidos são negociados. A figura do ouvinte não é passiva, mas chamada a colaborar com o falante na construção de sentidos.
Por outro lado, muitas vezes responder com ahã para enunciados incompreensíveis ajuda ao sujeito afásico a não ter que refazer seu enunciado. O ouvinte dá ao falante afásico a impressão de que foi compreendido, o que às vezes é uma grande recompensa. Durante a conversa, o ouvinte vai juntando pistas do que pode ter sido aquilo que ele não insistiu em "clarear".
Agnes não é afásica, mas às vezes fala coisas bastante obscuras. Às vezes eu digo ahã, às vezes eu pergunto se concordamos acerca do sentido. Até há pouco, quando eu perguntava ou repetia o que eu tinha ouvido mas não entendido, ela repetia o que tinha dito, com pronúncia mais cuidada. Normalmente isso bastava. O exemplo mais memorável desse processo é
bedêdsi > obedece? ... bedêdi > band-aid? SIM!!
Na nossa última negociação de sentidos, Agnes mobilizou o cenário em que ocorre o objeto que ela queria. Estávamos no estacionamento, entrando no carro. Ela disse:
eu qué leissinho > lencinho? ... geladêla! > leitinho? SIM!!!
Eu achei genial como ela insistiu em ser compreendida. Fiquei até pensando nas 3 posições da criança em relação à linguagem, segundo Claudia Lemos. Até onde estudei Aquisição de Linguagem, os nomes das posições não significam que acontecem numa dada sequência, apenas indicam ausência de nome melhor.
1 posição: a criança incorpora em sua fala fragmentos da fala do outro (que barulho é esse? fala comigo. Agnes diz essa sequência em bloco)
2 posição: a criança dobra, experimenta, mastiga e deforma a língua (eu fazei/ círculololô)
3 posição: a criança se posiciona em relação aos próprios enunciados (eu disse/ eu perguntei/ eu quis dizer), ou seja, usa a metalinguagem.
No exemplo da geladeira, Agnes não usou a metalinguagem, mas percebeu que a linguagem usada por ela foi um mistério pra mim, portanto era preciso reformular.
Nenhum comentário:
Postar um comentário