sexta-feira, 23 de maio de 2025

Adaptação: criação e apagamento

Eu cheguei a escrever um projeto PIBIC (2023) em que eu queria analisar como os sinais de pontuação usados num texto literário eram transportados/ transformados na passagem para os quadrinhos. O conto era o Alienista do Machado de Assis, todo cheio de ponto e vírgulas e travessões com vírgula. As adaptações para os quadrinhos eram pelo menos três: uma dos irmãos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, outra do roteirista Luiz Antonio Aguiar e desenhista Cesar Lobo e uma terceira (horrível) claramente didática, em que a esposa do alienista tinha cara e sobrancelha de Frida Kahlo e numa cena o alienista era retratado como O Grito de Munch.

Lendo sobre as adaptações do Alienista para os quadrinhos, descobri que ainda havia uma quarta - que eu não consegui comprar. Não fiquei triste, afinal de contas, eu tinha muito material para analisar. Comecei comparando o conto com os quadrinhos dos gêmeos: na página esquerda do caderno eu transcrevia o Machado, na página direita do caderno aberto eu transcrevia o texto que havia nos quadrinhos. Como eles transcreveram praticamente tudo, a transformação de ponto e vírgula no conto em ponto e balão, em vírgula ou ponto na legenda dos quadrinhos passou a ser previsível, dependia apenas se o ponto e vírgula estava numa sentença que viraria diálogo ou descrição nos quadrinhos. Já os travessões - que no texto literário funcionavam como separadores - passaram a funcionar (com menor previsibilidade) como reticências antes e depois, tipo pontes visuais entre um balão e outro.

 

Eu não conhecia o conto do alienista, então fui progredindo na leitura conforme transcrevia o conto nas páginas da esquerda e o texto da adaptação nas páginas da direita do meu caderno. Reparei que o narrador machadiano - que não é aquele que conversa com o leitor - tinha sido editado-apagado dos quadrinhos dos gêmeos. Enquanto eu acompanhava o processo de transposição do original em outro meio, eu ia escrevendo um esboço de artigo. 

Caro leitor, aos poucos, comecei a folhear as outras adaptações para os quadrinhos e fiquei chocada com a figura em cinza que abria a adaptação de Aguiar e Lobo e se intrometia ao longo dos quadrinhos (14 vezes). Esse personagem que ecoava o alienista, completava suas frases, escrevia com a pena e se dirige ao leitor funcionava como o narrador que foi obliterado nos outros quadrinhos. Curiosamente, as duas adaptações foram publicadas no mesmo ano (2007). Uma, extremamente fiel ao texto, sem a marca registrada do autor (o seu narrador irônico que desdenha dos personagens), a outra mais distanciada do texto original (dando maior ênfase por exemplo à revolução dos canjicas - que quase virou uma Revolução Francesa), inventando um narrador que era o Outro Oculto ou o Alienista Alienado (conforme é revelado no "making of"). Só que o narrador de Machado faz par com o autor, enquanto o narrador de Aguiar e Lobo é o duplo do personagem principal, o alienista.

Quando apareceu uma chamada pra um Colóquio de Tradução e Criação, eu resolvi que a transmutação dos sinais de pontuação era menos interessante que o sumiço/ a criação do narrador. Fiz um resumo, enviei pra organização do evento, recebi o aceite, conversei com o meu chefe e fiquei muito feliz que ele me liberou pra participar de evento acadêmico, afinal ele entende que eu sou professora e pesquisadora.

Quando publicaram a programação, vi que o meu nome estava na manhã do primeiro dia. Apavorei, porque eu pegaria avião de manhã, desembarcaria na hora em que começariam as comunicações e corria o risco de não chegar a tempo por causa do trânsito. Trocaram o dia da minha apresentação, o que me deixou muito mais tranquila. Pude sentir a dinâmica do colóquio, das interações, preparar a minha fala sincronizando os slides com o tempo que eu tinha pra apresentar ... e ler o final do Alienista no conto e nas duas adaptações em quadrinhos. Putz! Se o alienista morre depois de um ano e meio em todas as versões, como é que aquele personagem cinza pode ser o duplo do alienista de barba e cabelos brancos? Seria o narrador/alter ego um fantasma?

Apresentei numa mesa junto com os germanistas. Uma estava em busca de um diário do cárcere de Egon Schiele, o outro tinha como projeto traduzir Das Käthchen von Heilbronn do Heinrich von Kleist, mas não conseguiu passar da segunda página, porque os títulos (Graf, Burggraf, Landgraf, Wildgraf, Rheingraf > Conde) medievais não tinham correspondente em português. A última tentava dar nome aos textos de Walter Benjamin. Todos estudavam alemão como língua estrangeira, todos pronunciavam as palavras de um jeito pouco ortodoxo. E eu, que sou bilíngue, falei sobre Machado e quadrinhos e narrador. 

As perguntas que vieram do público foram todas em relação aos sinais de pontuação... No final das contas, o meu propósito inicial de falar sobre os sinais de pontuação foi alcançado. Não tem jeito: me sinto uma popularizadora dos pontos e traços que me ocupam a mente faz tantos anos.

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Autoria e tradução

Muito tempo atrás, um menino entrou em contato dizendo que estava estudando sobre popularização da Linguística no doutorado e queria fazer uma entrevista comigo. Na época, além de ser mais ativa no Instagram, eu era a coordenadora da Comissão de Popularização da ABRALIN, além de editora da Revista Roseta. Ele me disse que, pra passar no comitê de ética da pesquisa, era preciso que eu assinasse um TCLE - termo de consentimento livre e esclarecido. Como era praxe, assinei sem ler. Um tempo depois, ele me pediu que eu escolhesse um pseudônimo. Achei tão bizarra a solicitação, que demorei a responder. 

Nos bastidores, ouvi do Vitor Hochsprung que esse rapaz tinha roubado a sua ideia de doutorado e ouvi da Cecília Farias - que também tinha sido entrevistada - que Janaísa Viscardi tinha ficado muito incomodada com o tratamento dispensado por esse menino a ela. Esses três são popularizadores de longa data que gostariam muito de ter seu nome promovido pelo trabalho que fazem - tanto pensando sobre a popularização como fazendo popularização da Linguística.

Aí esse menino mandou a versão final da tese dele. Procurei meu nome nas referências bibliográficas, não achei. Pensei que deveria ter havido um descompasso entre a publicação do prefácio e - em outro volume - do capítulo que escrevi pros livros sobre popularização da Sílvia Adélia Guimarães. Procurei meu nome nas citações de entrevistados e só achei Agnes. O pseudônimo da Cecília ficou Ceci. Janaísa não escolheu pseudônimo, bem como outro popularizador e um coordenador de curso de pós-graduação.

Entendi que diferentes grupos de pessoas foram entrevistados: professores de escola, professores de estágio supervisionado, público amplo, coordenadores de cursos de pós-graduação em Linguística e popularizadores. Os dois grupos que não eram massas de pessoas, mas um grupo seleto e pequeno, eram o de coordenadores de pós e os popularizadores. Havia um asterisco no pseudônimo daqueles que não escolheram o seu próprio pseudônimo.

Achei sintomático que só tinha asterisco em dois grupos: dos coordenadores de pós e nós, popularizadores. Quando vi, por escrito, as minhas ideias sem referência ao meu nome, me senti enganada, roubada da autoria. Fiquei com receio de ser vaidade minha, mas pensei o seguinte: a qualidade dos dados que os diferentes grupos ofereceram ao autor da tese é diferente. Os 50 entrevistados de um grupo, os 30 de outro, viraram número ou estatística na tese. Já as minhas declarações - não todas, claro - viraram citação e tema de discussão.

O anonimato acordado no TCLE pretende proteger a identidade dos participantes, em caso de algo que dizerem ser vexatório ou alvo de estigma. Se ele entrevista pessoas que produzem um fenômeno que ele quer analisar, TCLE e anonimato se aplicam perfeitamente, afinal de contas, o fenômeno pode ser socialmente estigmatizado e aí não cabe expor as pessoas que voluntariamente participaram da pesquisa. Agora se ele entrevista pessoas que pensam sobre aquilo que ele estuda, entendo que ele deveria reconhecer a autoria dessas pessoas - assim como reconhece e cita referências bibliográficas.

Espero que esse rapaz converse com a orientadora dele sobre a qualidade dos dados fornecidos pelos diferentes grupos e que pense sobre o valor da autoria no universo acadêmico.

Estou participando do Colóquio Tradução e Criação que está acontecendo na UFF. Fiquei muito impressionada com a palestra de ontem da Lucía Tennina, que traduziu o Ferréz pro espanhol da Argentina. Primeiro ela foi morar na periferia de São Paulo, depois ela traduziu O Manual Prático do Ódio como um etnólogo que olha para o Outro: com milhares de notas de rodapé, glossário, mantendo um montão de palavras em português, marcando-as com itálico e encomendando 4 paratextos que abrem e fecham a obra.

Aí, pra vender a tradução na Argentina, ela convidou o Ferréz pra vasta agenda de eventos e, numa noite, num auditório lotado, Ferréz escolhia um trecho aleatório do original pra ler em voz alta e ela lia o trecho correspondente da tradução. O público entendia melhor o Ferréz que ela - que falava a língua deles, mas não sabia como pronunciar as palavras deixadas em itálico e não teve chance de recorrer ao glossário ou às notas de rodapé.

Anos mais tarde, lendo essa mesma tradução com apenados (a universidade oferece o curso de Letras para pessoas encarceradas), um deles começou a traduzir o texto do Ferréz para a gíria dos marginalizados argentinos. Ela animou e pretende refazer a tradução dela, dessa vez entendendo a tradução como uma performance, disothering, uma adaptação.

Não é novidade que se tenha mais de uma tradução para o mesmo texto no mercado. Mas eu nunca tinha visto um mesmo tradutor querendo fazer uma segunda tradução do mesmo texto original.

domingo, 18 de maio de 2025

Primeira noite fora de casa

A turma da escola da Agnes está planejando uma viagem da turma - sem pai nem mãe por perto, só as crianças e a professora. Pra que isso dê certo, eles resolveram treinar dormir juntos e fora de casa - exceto um (em cuja casa aconteceu o acampamento).

No dia anterior, os pais que tinham barracas foram lá montar as barracas. A minha barraca ficou com o Damián em PVH. Na tarde/noite de sábado, as crianças se encontraram lá, ajeitaram suas coisas (isolante, saco de dormir - que eu emprestei pra Agnes) e jantaram o que uma equipe de pais cozinhou.

Teve até criança que dormiu, mas a maior parte das barracas tava um ti ti ti constante. Fiquei sabendo que as três meninas na barraca da Agnes devem ter dormido por duas horas nessa noite.

Nós levamos, conforme combinado, dois tipos de frutas para o café da manhã coletivo (às 7h30). O jet lag não se fez perceptível nas crianças, estavam todas animadíssimas, cheias de histórias. Todos gostaram da experiência - e nós nos demos conta de que foi a primeira noite que Agnes passou fora de casa.

sábado, 26 de abril de 2025

E os efeitos da colonização

O tema do último dia eram os efeitos da colonização e conflito armado sobre os povos indígenas. Com base na nota conceitual referente ao tema - que inclusive podia ser usada pra argumentar contra a "mineração responsável" - eu elaborei a minha fala. Mandei pro meu chefe que achou muito negativo e ponderou com os avanços tímidos do governo (13 terras demarcadas quando existe um passivo de 300 processos paralisados no MJ ou Casa Civil e 500 demandas por demarcação na Funai). 

O rapaz de uma outra delegação chegou pra Elaine e disse que o Embaixador dele não chegaria em tempo e se quiséssemos ser o quinto (em vez de décimo terceiro) país a falar, podíamos trocar. Topei, porque de tarde eu tinha alguns eventos paralelos pra ir, então, quanto mais cedo eu pudesse falar, mais tranquila eu ficaria. Reparei que a Chair estava intercalando país, instituição ligada à ONU (FAO, UNESCO, UNFPA) organização indígena. Nos dias anteriores, ela chamava um país e duas ou três associações indígenas. Achei curioso, o movimento de dar a palavra aos países e ONU. Por que os países queriam tanto falar sobre os efeitos da colonização?

A minha fala foi tranquila. Não tremi a voz, consegui desprender os olhos do texto por vezes e Marcos Terena até elogiou o meu progresso. Não pense que só eu tremi a voz: pra maioria dos povos indígenas, aqueles 3 minutos eram a chance de denunciar as desgraças sofridas. Não era só a voz que tremia: o corpo todo tremia.

Eu já tinha me acostumado com a Ucrânia reclamando da Rússia e vice versa. A Chair se sentiu obrigada a lembrar que o tema era povos indígenas, mas os ucranianos todos eram tartar da Crimeia, então o problema era a Federação Russa mesmo. Era comum que países falassem contra seus povos indígenas e vice versa (Austrália, Equador, Bolívia, Canadá,  Sibéria, Latvia) e que as (ex-)colônias falassem contra seus colonizadores (West Papua e Indonesia chamou mais atenção).

Fiquei impactada com a fala dos asiáticos dizendo que havia formas colonização interna anteriores à colonização, com a fala dos indianos dizendo que na Índia todos são indígenas (tipo quem é contra cotas pra negros e indígenas argumentando que não precisa de cotas: somos todos humanos), do Egito dizendo o mesmo e que não existe perseguição religiosa no país. A delegação da Tanzânia fez o movimento contrário, negando que haja povos indígenas em seu país (mas por que então a delegação estava presente no Fórum Permanente de Questões Indígenas?). Uma delegada do Reino da Dinamarca falou pela independência da Groelândia e um delegado dos Estados Unidos criticou a China em relação ao Tibet  - ninguém entendeu.
Marcos Terena coordenando

Fui no evento paralelo sobre jogos indígenas mundiais e depois no evento paralelo sobre corredores de proteção a indígenas isolados na fronteira Brasil - Peru em que reconheci Toya e Bushe Matis. 

De volta à plenária do Fórum, acompanhei a última hora. Não fiz mais questão de anotar, de ouvir as falas traduzidas na concha que a gente põe no ouvido, tava só acompanhando mesmo. Reparei que só as organizações indígenas  falavam. Os países e instituições da ONU devem ter ficado contentes de terem tido sua chance de falar na parte da manhã, por que a sala estava consideravelmente mais vazia. A poucos minutos do final, um membro do Fórum (pra quem o tempo de fala não conta) pediu a palavra e fez um resumo da semana toda. Quando pensávamos que a Chair ia declarar a sessão por encerrada, ela concedeu a palavra pra China. Que, em 3 minutos e com a voz tremendo de raiva, criticou duramente os EUA. Foi a chave de ouro.


quinta-feira, 24 de abril de 2025

Diálogo sobre desenvolvimento

O movimento indígena sempre se chocou com o governo (tanto de direita como de esquerda, porque o governo é uma máquina burocrática lenta e pesada). Quem compõe a ONU são os Estados membros. O Fórum Permanente de Questões Indígenas tentou intercalar falas de movimentos/organizações/associações indígenas com falas de representantes de governo dos países. Cada um tinha 3 minutos de fala e os movimentos não sabiam quando seriam convocados a falar. A Elaine conseguia uma lista de países, daí dava pra calcular quando seria a minha vez.

No segundo dia, um representante de movimento disse: vocês estão percebendo que os indígenas estão apontando problemas e os Estados estão dizendo que não há problemas, que está tudo bem? Que sentido faz intercalar falas de 3 minutos completamente desconexas? A resposta foi que essa dinâmica do Fórum proporciona o diálogo.

No terceiro dia, o tema geral era acesso de indígenas a financiamento - que foi quebrado em dois blocos: na parte da manhã, o debate era sobre mineração responsável e o debate da tarde era sobre financiamento. Muitos alertas acenderam: grande número de indígenas dizendo que não eram contra o desenvolvimento; o fato de se aventar a mineração como fonte de renda para indígenas; o fato de somente um dos 6 painelistas (membros da equipe organizadora do Fórum) falar contra a mineração; e a insistência em dizer que os indígenas podem não consentir. (O que é estupro, senão uma relação sem consentimento? Se a mulher pode dizer NÃO,  por que os estupros acontecem?)

Observei que todos os movimentos/associações e organizações indígenas listaram mazelas da mineração: perda do território, contaminação da água e dos rios (peixes), violência armada, dinheiro pra dividir as pessoas, doenças, suicídios. Os Estados, em contrapartida, faziam discursos de 3 minutos sobre financiamento no geral. 

A minha voz tremeu de novo, mas dessa vez consegui dizer tudo:

Thank you, Chair.

The greatest biodiversity there is on this Planet breathes on indigenous territories. This biodiversity thrives now thanks to the guardians of biomes who do not extract from the environment more than they need. Mining in rivers or the land destroys a fine tuned balance of whole ecosystems. Shifting from fossil fuels to minerals for batteries maintains the patterns of predatory exploitation of finite resources. Our consuming model and views on development and progress must change because they mean disaster for indigenous peoples. We have no legislation supporting mining in indigenous territories.

The Ministry of Indigenous Peoples has already performed 8 disintrusion operations. Environmental criminals of all kind have been expelled with the aid of Police forces from Yanomami, Munduruku, Arariboia, Apyterewa, Karipuna, Alto Rio Guamá, Trincheira Bacajá and Kaiapó territories. Expelling invaders is not enough, because they return. And they return because the borders of demarcated indigenous territories are not protected. A permanent protection of indigenous territories is costly and unfortunately depends on the political situation the country is going through. Because companies make such enormous pressure on the state and our justice system, we need to strengthen international cooperation to protect indigenous territories.

Brazil has registered 114 isolated peoples in the Amazon biome. Since the late 80’s, the contact policy has changed in order to avoid genocide through our viruses and illnesses. There are now 6 indigenous territories demarcated exclusively for isolated peoples: Tanaru, Massaco, Piripkura, Igarapé Taboca do Alto Tarauacá, Hi-Merimã and Pirititi, but most of the isolated peoples live on other peoples’ demarcated territories. Safeguarding policies don't protect indigenous rights from the "national interests" that always seek for exceptions.

Avisei pro meu chefe que a minha fala foi a única fala de Estado contra a mineração, o desenvolvimento e o progresso. Ele me deu os parabéns. 

Depois que acabou, fui na Missão Permanente do Brasil em NY. Havia lá um grupo sortido de lideranças munduruku, mŷky e wajampi com o CIMI, um antropólogo da USP e eu na mesa com o Embaixador. Me tocou quando o parente do Amapá disse: o que que eles ainda não entenderam? A Constituição diz que os povos indígenas são soberanos em suas terras. Como pode o STF abrir mesa de conciliação se os nossos direitos são inegociáveis? Será que eles não dormem direito? Por que não entendem? Nessa fala, eu ouço um eco: não foi consentido.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Dinâmica de falas

Só tinha um lugar com microfone onde estava escrito Brazil. Perguntei pra Elaine se esse lugar era do Embaixador e ela respondeu que daqui pra frente é comigo.

Eu tinha preparado uma fala com Nayra, achava que era curta, mas como só tenho bloco de notas aqui, não tinha ideia de quantas palavras eram. Eu sabia que na primeira parte da manhã a pauta ainda era a mesma de ontem. Fiquei pra entender a dinâmica, apesar de ter sido convidada pelo pessoal da Harmony with Nature and Living Well. 

Percebi como as falas de governo divergiam das falas de organizações de povos indígenas e achei incrível observar como colônias e colonizados disputavam a verdade e lei. Todo mundo tinha 3 minutos de fala, exceto as pessoas do Fórum, que não tinham tempo estabelecido. Essas pessoas também podiam pedir a fala pra criticar/enfatizar falas anteriores. Aí entrou o tema sobre o qual eu falaria. Elaine foi lá descobrir qual era a ordem de oradores e disse que éramos o 18 lugar. Chile, Suriname, depois você.

Comecei a anotar. Colômbia foi chamada umas três vezes, a mesma chilena falou duas vezes (uma pela associação,  outra pelo governo), o número de associações intercaladas entre os países variava. Deu a hora do almoço e paramos pra retomar de tarde.

Elaine calculou que minha fala ficaria mais pro final. Quando chegou a minha vez, a voz tremeu e não consegui dizer tudo antes de desligarem o microfone. Mas o efeito foi que vieram até mim. Pra falar dos pataxó, pra convidar pra side events, pra pedir que eu enviasse a fala por email.

Em busca do passe sagrado

Cheguei por volta de 5h da manhã no aeroporto de JFK. Eu confiava que minha mala teria sido despachada direto de BSB porque havia dois voos (BSB - GRU e GRU - JFK) no comprovante de bagagem. A nossa fila de imigração para estrangeiros era bem menor que a fila de residentes, mas as duas acabaram juntas. Minha mala estava em pé, fora da esteira, de tanto que o processo demorou. 

Ainda no avião em BSB, eu tinha mudado o meu plano de celular pra ter roaming nas Américas. Reiniciei o celular em NY e o Uber apareceu em inglês.  Dava mais de 100 dólares a corrida pro hotel. Entrei na fila dos táxis amarelos porque tinha preço fixo pra Manhattan: 70 dólares. Entrei no taxi e fomos passando vagarosamente por diversos canteiros de obra... Quando chegamos no hotel depois de mais de hora, o taxímetro já marcava mais de 83 dólares. Enfiei o meu cartão e não aconteceu nada. O motorista disse que eu tinha que escolher no outro painel que dava opção de quanto de gorjeta que eu queria pagar. 20%, 25% ou mais. Fiquei com vergonha de dizer que eu não queria pagar gorjeta e nem achei a opção de não pagar. O meu cartão de crédito informa que a corrida custou mais de 600 reais. 

O hotel só disponibilizava quarto a partir das 15h. O recepcionista poderia guardar as minhas malas. Pedi banheiro e ele me deu um cartão que me dava acesso a uma porta com escadas. Os meus planos de trocar de roupa ficaram dentro da mala.

Fui caminhando até a sede da ONU e perguntei onde era o ID office. Me mandaram pro centro de visitantes e entendi que lá era pra turistas. Vi os indígenas de outras nações e perguntei pelo ID office. Encontrei. Eu não tinha recebido o e-mail de confirmação do credenciamento e aqui as contas gov.br não funcionam. 

A moça procurou pelo meu nome e descobriu que o meu pass já tinha sido coletado na semana anterior e que eu precisava entrar em contato com a minha missão. Chegou mensagem da Elaine dizendo que o meu badge tava na missão permanente do Brasil em NY. Deu localização no Maps e lá fui eu. Quando o meu ponto azul no mapa coincidiu com o marcador vermelho, tocou o telefone. Perguntei se a missão ficava no prédio 747. Sim, suba ao nono andar. Subi e um moço mega tímido de mãos geladas me entregou o meu crachá. 
Voltei nas Nações Unidas entendendo que eu sou advisor mesmo e que o que eles olham é o D vermelho de delegada.
Sentei onde estava escrito Brazil e conversei com quem falava português. O Embaixador da Missão Permanente sentou no microfone, ao meu lado, e Elaine sentou atrás de nós. Essa é a delegação brasileira: quem já está aqui y yo. Elaine foi muito legal comigo: me mostrou onde tem restaurante por kilo acessível dentro e fora da ONU e me deu a dimensão do que se espera do MPI.

Preparação pro Fórum Permanente de Questões Indígenas

Meu chefe me perguntou ainda em março como estava a minha disponibilidade pra viajar pra New York no fim de abril. Luis tinha planos de tirar licença capacitação em Buenos Aires, tinha que coordenar mesmo as datas. Uma vez que Luis deu ok, começou a corrida pelo passaporte oficial. Depois que ele chegou, fui com a Fran algumas vezes na Embaixada dos EUA pra pegar o visto. Reservei o hotel mais perto das Nações Unidas e mais barato, ainda assim mais caro da minha vida (5 dias dava quase todo o meu salário). Daí começou a corrida pelo credenciamento de todos os participantes. Como o Fórum dura 2 semanas (21 abr até 02 mai), e como as altas autoridades estavam mais requisitadas no final, só duas assessoras (Nayra e eu) iriam na primeira semana e a Ministra iria na segunda semana com quem sempre acompanha ela. Pra credenciar, tinha que mandar foto do passaporte aberto e foto com fundo branco, tipo 3x4. O pessoal de imprensa tinha que dar endereço e lista completa de equipamentos. Advisor era uma palavra muito genérica e não era aceita, precisavam de mais detalhes. A cada 5 que eu cadastrava, dois voltavam. Meu chefe me mandava contatos de gente de outros ministérios pra eu cadastrar. Enquanto isso, corríamos pra pedir visto pra uma assessora da Ministra. As nossas autorizações de viagem precisavam ser assinadas pelo regente máximo da instituição e nossas portarias de afastamento do país precisavam ser publicadas no Diário Oficial. 

Era uma semana com feriado, as assinaturas precisaram ser negociadas. Quando finalmente enviei a portaria de afastamento pra publicação, a pessoa da gestão de pessoas pediu pra corrigir. Assessora técnica é um cargo. Lou, o MPI não te paga, você não tem função aqui, você é professora. Entrei em crise. Eu não dou aula, faço pesquisa ou extensão no MPI. Como professora, eu nem poderia participar desse Fórum em NY. Como assino os meus despachos daqui pra frente? Sem função. Assinar como professora é desvio de função. O trabalho que eu desempenho - batendo ponto ainda por cima! - é administrativo, não é de professor. O que eu faria em NY era justamente assessorar a Nayra que precisa de tradução. Mudei a portaria pra Professora do Magistério Superior requisitada em exercício no Ministério dos Povos Indígenas e consegui a assinatura. As diárias estavam vinculadas à publicação no Diário Oficial e só cairiam na metade da viagem, por causa dos feriados bancários.

Na noite seguinte à publicação do afastamento, o meu chefe mandou mensagem. O visto da Nayra tinha expirado. Lou, você vai sozinha. Eu não sou indígena. Ficamos combinados de construir as minhas falas conjuntamente.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

9 anos

 Minha menina completou 9 anos de vida hoje. Viva Agnes!


quarta-feira, 9 de abril de 2025

Arianos

Hoje a Assessoria Internacional comemorou o aniversário do Chico, nosso chefe.

Do meu lado esquerdo: Adriana (consultora), do lado direito: Chico; segurando as plaquinhas com a campanha "Meu chefe, minha vida": Pedro (estagiário) e Nayra Kaxuyana (assessora técnica). Do lado da Nay: Fran (secretária); do lado do Pedro: Maria Gavião (consultora) e por último: João Urt, cujo lugar estou ocupando na ASSINT, mas que se sente em casa com o Chico.

O meu aniversário caiu no domingo e foi comemorado no WhatsApp.

sábado, 5 de abril de 2025

Coincidências

Altaci e eu recebemos a Embaixada da Nova Zelândia e um representante de além-mar que fala maori. Como eles têm uns 40 anos de experiência de revitalização da língua maori, eles meio que exportam algumas técnicas, como por exemplo o ninho de línguas, que foi adotado, no Brasil, pelos kaingang e pelos kokama. 

Eu fiquei surpresa ao ouvir do Edron que, apesar dos esforços, pouca gente na Nova Zelândia é monolíngue em maori. Ele mesmo tem inglês e francês como línguas maternas e aprendeu maori quando tinha seus 30 anos de idade. Altaci, que saiu da aldeia aos 10 anos de idade, entendeu bem o que é revitalizar uma língua que é do seu povo, mas que ficou adormecida nos indivíduos da geração dela. São as crianças que estão falando kokama agora, no ninho de línguas em Manaus.

Em maori, língua ancestral é considerada alimento e quem trabalha com a língua tem as mãos quentes.

A Embaixada da Nova Zelândia tinha financiado esse projeto de revitalização do kokama, então Altaci contou o que foi feito, que resultados trouxe e que desafios estão pela frente. Ela dizia que as crianças estão aprendendo kokama aos 8 anos de idade, mas é preciso que eles continuem falando a língua quando tiverem 18 anos. Em inglês - e com tradução - veio o paralelo: mesmo a escola maori sendo exclusivamente em maori, o desafio é o mesmo, porque é difícil, por exemplo, dar aula de química, física, biologia em maori. A língua ainda não está em todo lugar: a ciência não é produzida em maori.

Daí Altaci contou que tiveram, como parte do projeto de revitalização, encontros com os parentes do Peru (kokama é língua do povo kokama/kukama no Brasil, Peru e Colômbia) para lembrar alguns ikarus. Pedi que ela explicasse esse lance de ikaru, que é o canto de preparação para diferentes atividades. Edron entendeu isso perfeitamente, porque em maori também há cantos que exercem essa função. Altaci contou que no Peru os mais velhos é que autorizavam alguns ikarus específicos, o que foi um choque para os kokama brasileiros que procuram lembrar e compartilhar tudo relativo à língua. Edron contou que alguns cantos maori eram cantados por pessoas específicas.

Altaci contou de um ikaru funerário que os kokama peruanos não conheciam e anunciou: vou cantar pra vocês. E cantou. É assim que se chora os mortos em kokama. Edron agradeceu e disse que o canto funerário maori só é conhecido das mulheres. E cantou um outro canto, sobre a chuva lavar os medos e incertezas e trazer calma.

Edron olhava pra Altaci e se surpreendia como ela era parecida com uma prima dele. Ela foi contando que vem de duas linhagens: kokama e ticuna. Da parte da mãe, todos os ticuna já são misturados. Da parte de pai, o clã kokama é dos que sonham. Sonham o futuro? Perguntou Edron. Também, respondeu Altaci - que já me contou sonhos intrigantes.

domingo, 30 de março de 2025

Rolezinho pop

A Olimpíada Brasileira de Linguística compreende algumas fases antes da prova propriamente dita. A pedido, dei uma aula online sobre palavras (morfologia, tecnicamente) daquele jeito que foram as aulas durante a pandemia: professora em modo monólogo, câmeras fechadas, mas bastante interação pelo chat. Apesar de o público não ser de universitários (eram de todos os anos do ensino médio), fiz questão de tratar de morfema zero - que deu nó na cabeça deles, mas revelou como opera o linguista. Com essa introdução, quero dizer que eu já era conhecida do pessoal quando começou o Rolezinho.

Esse ano o Rolezinho foi diferente dos outros no seguinte sentido: havia um único tema para todos os grupos. A proposta era coletar dados escritos ou falados referentes à formação do futuro. Em português, o futuro do presente pode ser expresso no verbo ou fora dele, de diferentes maneiras:

futuro do presente no indicativo - forma sintética: farei

perífrase - forma composta: irei fazer ou vou fazer/vou estar fazendo

presente do indicativo + adjunto de tempo: faço amanhã

formas subjuntivas: talvez eu faça, se eu fizer

modais: posso fazer/vou poder fazer, quero fazer/vou querer fazer

O que eu achei desafiador era que o tema era fixo, os grupos eram fixos, mas os orientadores podiam variar. Minha experiência pessoal de orientação é acompanhar uma pessoa ou grupo do começo ao fim e supervisionar o desenvolvimento da pesquisa. Éramos mais orientadores que grupos e cada orientador informava dois horários ao longo da semana em que estaria disponível. Cada grupo tinha 4 (mais ou menos) integrantes e eles podiam nos (orientadores) escolher conforme a curiosidade, disponibilidade de horário ou outro critério. 

No primeiro encontro, eles já tinham definido onde buscariam seus dados: 3 sets de 50 dados de um mesmo meio (havia quatro meios possíveis: 1 escrito formal, 2 escrito informal, 3 oral formal, 4 oral informal). Os sets podiam ser divididos por idade (jovem, adulto, idoso), período (anos 80, anos 2000, última década), gênero textual (discurso de posse, promessa de campanha, entrevista no Roda Viva). Quando acertamos os ponteiros, eu disse: quero ver vocês de novo! E pronto, fui adotada por esse grupo. Ainda bem (!) porque o esforço cognitivo de entrar toda vez num novo projeto seria grande.

Foram três semanas de orientação e de histórias de outras pesquisas pra ajudar nessa. Os alunos do ensino médio puderam interagir com uma pessoa que faz pesquisa, descobre coisas por acaso, desconfia dos dados coletados pelos alunos, percebe estruturas no sistema, ajuda a interpretar os resultados e acha a Linguística uma aventura muito legal.

Mais que uma orientação de pesquisa, considero que o que aconteceu ali durante três semanas foi popularização da Linguística.

sábado, 15 de março de 2025

Politizar as palavras

O texto do colunista Jamil Chade publicado no UOL dia 13 de março desse ano começa assim:

Nesta semana, uma discussão como qualquer outra no pátio de uma escola primária em Nova York terminou com uma frase incomum para crianças de dez ou onze anos. Após um estranhamento entre vários alunos, uma das meninas se virou a um garoto e lançou:

"Tomara que você seja deportado".

Ele analisa esse discurso de ódio que ganhou novas formas de agredir os outros depois da ascensão da extrema direita nos EUA. O diferente vira inimigo e é preciso proteger as fronteiras do país, do bairro, da escola, da classe social. Só fica dentro quem merece. Faço o paralelo com o que eu sofri no grupo de WhatsApp de pais dos alunos do 3 ano Fundamental:

"Então saia do grupo, melhor pra todos nós". Emoji de joinha.

"Não adianta gente, existem pessoas que não querem ajuda, querem confusão essa é a verdade. Vamos manter o grupo como saudável como sempre foi." Dois emojis de coração.

Sigo lendo o texto do Jamil Chade e copiando trechos pro caso de você não ter acesso por não ser assinante do portal:

Ao chegar em casa, depois do incidente, liguei a televisão e, num canal que serve de braço armado do trumpismo, a apresentadora insistia sobre a necessidade de que a deportação não acontecesse apenas com os imigrantes que estariam de forma irregular no país.

"É hora de debater quem merece estar aqui".

Tínhamos superado o nosso "Ame-o ou deixe-o", slogan da ditadura militar que ainda persistiu para além dos anos de chumbo em adesivos colados em carros-fortes. O homem que usou o imperativo me instando a sair do grupo de pais não percebe que seu discurso é ideológico. Ideologia e sotaque a gente só percebe nos outros.

*

"Lou me desculpe mas discordo que consenso tenha que ser unânime." Emoji de joinha.

"As definições que vocês apresentam de CONSENSO e DEMOCRACIA não estão no dicionário, gente." Emoji de cocô.

Assim como nos EUA a extrema direita profere seu ódio mandando deportar quem é diferente, no Brasil, depois de Bolsonaro, alguns conceitos ganharam novos sentidos para a extrema direita. Só que eles ainda não conseguiram mudar o significado das palavras para todos os falantes da língua.

"[...] mas a democracia tb se refere a Liberdade. em que cada um pode fazer o que quer."

*

"Mineração sustentável" só existe no nível do discurso. Imagine que descobrem que uma substância que produzimos no nosso cérebro vale muito dinheiro. 

Você vai deixar abrir seu crânio? Mas você certamente precisa de muito dinheiro. Então autorize que a gente abra a cabeça de quem não pode se defender. Aí você fica com uma parte do dinheiro.

Mas esses que não podem se defender são meus parentes. O rio é meu pai e a terra é minha mãe. Os povos indígenas não possuem terras: eles pertencem ao território. Por que violá-lo? Por dinheiro? Não dá pra comer dinheiro.

Acho muito sábia a simplicidade que emana do discurso da Ministra Sonia Guajajara:

Os povos indígenas não acreditam no desenvolvimento. O que precisamos é de envolvimento.

É pelas palavras - seus usos e suas definições - que percebemos discursos ideológicos. Afinal, pra repetir o bordão da Jana Viscardi, "como nos comunicamos importa".

quarta-feira, 12 de março de 2025

Bullying

Eu não tenho condições de seguir com um grupo em que adultos colocam o emoji do cocozinho no que eu escrevo. Não me sinto à vontade de continuar num grupo em que um homem me escreve com todas as letras que eu devo sair do grupo, que é melhor para todos. Não me faz bem seguir convivendo com quem me recomenda que eu procure um psicólogo porque eu não reagi ao audio fofo que ela me mandou no privado.

Sério, eu tenho medo de ser agredida fisicamente por esses pais dos coleguinhas da minha filha que não têm vergonha de se comportar como crianças mais novas que os filhos deles. Sério, eu chorei diante da tela hoje de manhã no MPI. Os outros devem ter pensado que minhas lágrimas eram pelo parente pataxó que foi assassinado anteontem. 

Agnes não vai sair da escola porque a mãe dela sofreu bullying no grupo de whatsapp de pais. Ela vai sair porque ela vinha sendo excluída, porque reclamava que as professoras não tinham autoridade sobre as crianças. Essa não é a primeira vez que este grupo de pais expele uma família. 

Na Escola da Árvore, a Letícia, diretora da escola, me disse: aqui tem 3 filtros. O primeiro é a estrada de terra até aqui. O segundo é aquela placa de rua em homenagem a Marielle Franco. O terceiro sou eu. E mesmo assim o consumismo exacerbado e a atitude de alternativo ostentação dos pais me incomodava. No Colégio Seriös não percebemos logo que o filtro é outro. Tem que tratar os funcionários da escola como se fossem seus empregados que cuidam dos seus filhos, consenso não tem nada a ver com unanimidade, democracia é sinônimo de liberdade, indivíduos são respeitados, o grupo e a discussão não existem. Pede pra sair. Sério?

terça-feira, 11 de março de 2025

Carnificina

Hoje o grupo WhatsApp de pais das crianças que estão na mesma turma teve um de seus dias mais ativos e as emoções subiram e desceram numa montanha russa. Uma mãe perguntou se topávamos dar um presentinho para as professoras na páscoa. Outra foi no shopping e encheu os nossos celulares de fotos de produtos Lindt, Kopenhagen e Cacau Show. Muitas opções, muitas cores, muito apelativo. Outra foi em outra loja, fotografar outras coisas, a animação ia crescendo. Eu estava diante de uma tela com o projeto de lei sobre conhecimentos tradicionais e expressões culturais tradicionais e direito à propriedade intelectual para povos indígenas e a outra tela exalando doce, colorido, caro, importado.

Ficaram pensando se dariam presentinhos para as duas professoras que ficam em sala ou se dariam presentinhos para todos os professores que têm contato com as nossas crianças (artes, educação física, inglês...). Algumas pessoas lembraram que ano passado tinham contribuído com R$ 89,00 cada um pra esse presentinho coletivo. Eu lá, na repartição justa e equitativa de benefícios, pensando: essas mulheres não trabalham? Fiquei alarmada com o valor e escrevi que eu não concordava e achava mais interessante cada um contribuir com R$ 30 para comprarmos um presente para as duas professoras.

Veio um audio gravado todo sorridente de uma mãe me explicando fora do grupo, só pra mim, que talvez eu não tenha entendido direito e que sempre foi assim, mas se eu não quisesse participar da vaquinha, tudo bem. Protocolos comunitários, anuência, decisões coletivas. Cada um no grupo escolhia uma postura para apoiar, e foram se multiplicando os mal-entendidos: então é um presente de R$ 15 para cada professora? Mixaria! Luis entrou na conversa e afirmou que estávamos dispostos a pagar o valor que eles estipulassem, era só dizer pra quem transferir o dinheiro. Pela primeira vez, outro homem respondeu no grupo: acho que você não entendeu. Consentimento livre, prévio e esclarecido, contrato e exploração comercial por tempo determinado. Não precisa participar, é voluntário.

Saí do MPI e fui buscar Agnes na escola. Ela estava brava e triste, pedindo pra gente tirar ela dessa escola em que não tem amigos. No grupo, alguém achou que dar presentinho pra 14 professores deixava de fora pessoas importantes, como o bedel que chama as crianças na hora da saída. Luis extrapolou: então vamos dar presentes também pras cozinheiras, faxineiras, guardas. Dádivas, pessoal. Aí reclamaram. Não era pra politizar, que se quiséssemos, podíamos criar um grupo WhatsApp só pra discutir política e minorias. Eu respondi que começava a entender por que a minha filha não se enturmava na escola. Veio gente latindo pra cima de nós, dizendo que se Agnes não se adaptava, "a responsabilidade nunca é de apenas uma das partes. E vcs mal nos conhecem ou aos nossos filhos." Carnificina. Luis saiu do grupo e comemoraram a saída dele. Eu avisei que eu ainda estava lá. A cena da Jodie Foster e John Reilly com Kate Winslet e Christoph Waltz na sala representava o que Luis e eu sentíamos diante da tela. Uma das mães montou uma enquete para votarmos com qual valor queríamos contribuir. Outra repetia que ninguém era obrigado a participar do presente coletivo, se alguém quisesse dar o seu presente por fora, tudo bem, eram democráticos. Deus da Carnificina. Eu perguntei se excluir quem pensava diferente era democrático. Veio uma definição perolar de "democracia": "Democracia é cada um fazer o q quer. Se quiser participar no grupo, ótimo. Não quer, tem a liberdade de fazer à sua maneira". Carnage (2012) do Roman Polanski. Os pais de dois meninos que se agrediram na escola passam a se agredir.

Uma das mães que não tinha se manifestado até então disse que preferia não dar presente na Páscoa, porque, na visão dela, fazia mais sentido dar presente no dia do professor. A recusa individual foi acolhida, mas o grupo não conseguiu chegar a um consenso sobre o presente. Começaram, aos poucos, depoimentos de mães que entendem o sofrimento das crianças que não são acolhidas num grupo escolar e que empatia precisa ser ensinada. Vieram moções de apoio, depoimento longo de outra mãe de menina que ainda não se encaixou e apostava muito na Agnes como amiga da filha seguida de comentários assombrados de gente que não sabia que havia crianças à deriva na classe. No final, muitas mensagens em formato de coração e mensagens apagadas. 

Acho que muita gente se viu no espelho hoje. Ou não, só ficaram felizes que o grupo perdeu uma voz crítica.

segunda-feira, 10 de março de 2025

Homenagem pra juntar todo mundo

 

As mulheres que trabalham no MPI (exceto a ministra, que tava em outra agenda)
 

No fim do expediente, organizaram uma homenagem às mulheres no MPI. O bom foi juntar todo mundo no mesmo lugar, fazer a dança circular guiada pelo baniwa, ouvir o canto guarani, ver a liderança sateré-mawé fazendo a liga.