Eu cheguei a escrever um projeto PIBIC (2023) em que eu queria analisar como os sinais de pontuação usados num texto literário eram transportados/ transformados na passagem para os quadrinhos. O conto era o Alienista do Machado de Assis, todo cheio de ponto e vírgulas e travessões com vírgula. As adaptações para os quadrinhos eram pelo menos três: uma dos irmãos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, outra do roteirista Luiz Antonio Aguiar e desenhista Cesar Lobo e uma terceira (horrível) claramente didática, em que a esposa do alienista tinha cara e sobrancelha de Frida Kahlo e numa cena o alienista era retratado como O Grito de Munch.
Lendo sobre as adaptações do Alienista para os quadrinhos, descobri que ainda havia uma quarta - que eu não consegui comprar. Não fiquei triste, afinal de contas, eu tinha muito material para analisar. Comecei comparando o conto com os quadrinhos dos gêmeos: na página esquerda do caderno eu transcrevia o Machado, na página direita do caderno aberto eu transcrevia o texto que havia nos quadrinhos. Como eles transcreveram praticamente tudo, a transformação de ponto e vírgula no conto em ponto e balão, em vírgula ou ponto na legenda dos quadrinhos passou a ser previsível, dependia apenas se o ponto e vírgula estava numa sentença que viraria diálogo ou descrição nos quadrinhos. Já os travessões - que no texto literário funcionavam como separadores - passaram a funcionar (com menor previsibilidade) como reticências antes e depois, tipo pontes visuais entre um balão e outro.
Eu não conhecia o conto do alienista, então fui progredindo na leitura conforme transcrevia o conto nas páginas da esquerda e o texto da adaptação nas páginas da direita do meu caderno. Reparei que o narrador machadiano - que não é aquele que conversa com o leitor - tinha sido editado-apagado dos quadrinhos dos gêmeos. Enquanto eu acompanhava o processo de transposição do original em outro meio, eu ia escrevendo um esboço de artigo.
Caro leitor, aos poucos, comecei a folhear as outras adaptações para os quadrinhos e fiquei chocada com a figura em cinza que abria a adaptação de Aguiar e Lobo e se intrometia ao longo dos quadrinhos (14 vezes). Esse personagem que ecoava o alienista, completava suas frases, escrevia com a pena e se dirige ao leitor funcionava como o narrador que foi obliterado nos outros quadrinhos. Curiosamente, as duas adaptações foram publicadas no mesmo ano (2007). Uma, extremamente fiel ao texto, sem a marca registrada do autor (o seu narrador irônico que desdenha dos personagens), a outra mais distanciada do texto original (dando maior ênfase por exemplo à revolução dos canjicas - que quase virou uma Revolução Francesa), inventando um narrador que era o Outro Oculto ou o Alienista Alienado (conforme é revelado no "making of"). Só que o narrador de Machado faz par com o autor, enquanto o narrador de Aguiar e Lobo é o duplo do personagem principal, o alienista.
Apresentei numa mesa junto com os germanistas. Uma estava em busca de um diário do cárcere de Egon Schiele, o outro tinha como projeto traduzir Das Käthchen von Heilbronn do Heinrich von Kleist, mas não conseguiu passar da segunda página, porque os títulos (Graf, Burggraf, Landgraf, Wildgraf, Rheingraf > Conde) medievais não tinham correspondente em português. A última tentava dar nome aos textos de Walter Benjamin. Todos estudavam alemão como língua estrangeira, todos pronunciavam as palavras de um jeito pouco ortodoxo. E eu, que sou bilíngue, falei sobre Machado e quadrinhos e narrador.
As perguntas que vieram do público foram todas em relação aos sinais de pontuação... No final das contas, o meu propósito inicial de falar sobre os sinais de pontuação foi alcançado. Não tem jeito: me sinto uma popularizadora dos pontos e traços que me ocupam a mente faz tantos anos.




























