domingo, 25 de abril de 2021

Do outro lado do rio

Estão anunciando uma friagem. Esse costuma ser o ponto da virada: o início do fim do isolamento do Maravilha. A estrada por trás já tem menos rios atravessando a via, as chuvas vão minguando e logo o Madeira começa a baixar. Aí a estrada da beira volta a ser trafegável e volta o movimento na beira.

Primeiro foi um tracajá filhote que saiu desse brejo. Depois vieram relatos de jacaré e sucuri. Enquanto eu ficava assustada, Luis e Damián ficavam satisfeitos: sinal que o brejo está vivo.

Enquanto ele oferecia minhocas num anzol que mais parecia um garfo, Agnes brincava com os gatos, cachorros, galinhas. Pediu água pra Íris e agradeceu pela água miReNal. Eu fui levar nossa compostagem pras galinhas e ver o que tinha nos ninhos.


Aqui foram jogadas as sementes de cupuaçu.
E aqui estão as cascas. As polpas estão no freezer ;]

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Amodeio

Acho que precisamos lavar as paredes. Devem ter absorvido tantos gritos e batidas de porta que devolvem ar de prisão.

Quando saímos com Agnes, nem que seja pra tomar a vacina da gripe, ela diz: te amo, mãe. Quando chegamos em casa, ela diz: eu te odeio!

Em casa, nós dois adultos nos fechamos na frente do computador, somos sugados pelo celular, pelas tarefas domésticas. Lá fora, toda a nossa atenção é dedicada à criança. 

A pandemia nos trouxe essa nova palavra, que Agnes anotou num papel (que eu perdi de vista num dos vários sambaquis de papel espalhados pela casa): AMODEIO.

terça-feira, 20 de abril de 2021

LingComm21

Estamos participando do LingComm21. "Nós" quer dizer umas 200 pessoas no total, sendo 5 brasileiros. Raquel Freitag, vice-presidente da ABRALIN (Associação Brasileira de Linguística) nos (os brasileiros) identificou nominalmente na fala de abertura dela. O evento é sobre comunicação linguística (science communication) que traduziríamos como divulgação científica (da Linguística) ou popularização da Linguística. As idealizadoras do evento, Gretchen McCulloch e Lauren Gawne, apresentam um podcast mensal de linguística chamado Lingthusiasm... desde 2016.

Raquel mencionou a iniciativa de maior sucesso da ABRALIN, a série de conferências Abralin Ao Vivo, a explosão de divulgadores da linguística durante a pandemia - principalmente no Instagram - e o fato de não termos grande repercussão internacional em português (nem no Instagram, porque os falantes de inglês são mais adeptos do Twitter).

A plataforma em que o evento online se desenrola é o Gather, que é uma aventura à parte. Parece um videogame: temos um avatar, nos movimentamos em 2D pra cima, baixo, esquerda e direita num cenário que imita um congresso: sala principal, salas menores, há mapas, cadeiras, sala de pôsteres, café. Quando nos aproximamos de outra figurinha (com nome), aparece o vídeo da pessoa e podemos conversar. O Gather suporta muitas conversas paralelas, mas não lida muito bem com mais de 5 pessoas conversando no mesmo lugar. 

No primeiro dia, sentei numa mesa vazia na sala principal. O pessoal foi chegando e lá estávamos Vitor, Luana e eu conversando em português. Chegou uma moça chamada Bri que faz a Encyclopedia Briannica e passamos a conversar em inglês. Acabei não conseguindo acompanhar as sessões seguintes por causa das demandas domésticas.

Hoje foi dia de apresentar poster. O meu era sobre o LingPop, uma iniciativa da ABRALIN de criar um site para expor peças multimídia de popularização linguística (podcasts, vídeos, imagens, infográficos etc.). Não se trata de produzir conteúdo de popularização, mas de organizar e expor, tipo uma curadoria. Me surpreendi com o número de pessoas que vieram saber o que era o LingPop e com as perguntas e comentários pertinentes, afinal, grande parte do público faz divulgação linguística. A cada visita nova, as conversas anteriores eram tecidas pra dentro da minha fala. Acho que saí da sessão de pôster enxergando melhor o LingPop que antes das conversas todas que tive. Achei super bacana que as duas organizadoras do evento vieram me ver também e quiseram saber o que eu tinha pra dizer. Eventos pequenos com público mais homogêneo são muito legais, lembro do CCO de 2018 em que me senti muito acolhida.

Mais uma vez não deu pra ficar até o final. A bicicletaria ligou informando que tinham montado a bicicleta que tinha vindo pelo correio. Agnes e eu fomos lá, buscar o presente de aniversário atrasado - e testar a bicicleta nova, claro!

sábado, 17 de abril de 2021

Retalhos

Andorinhas: se juntam e dispersam

There is no way out, only through

 

O ar-condicionado da sala começou a pingar dentro da sala. Sinal de que precisa mandar pra manutenção. O normal é que se faça limpeza a cada 6 meses. O ar da sala foi instalado há quase um ano e meio e não passou por manutenção ainda. Só que agora, com esses números de casos e óbitos, não vamos chamar o técnico. Vamos economizar energia.


Falta a nação acender seu candeeiro

 

Foi mais de uma vez que entrei de máscara na piscina. Foi Agnes que me chamou atenção. Uso máscara como quem usa óculos. Mas não é isso que eu observo nos outros, que usam a máscara no queixo.

 

O verdadeiro inimigo é a vulgaridade do coração humano

 

Recebi mensagem por whatsapp de alguém que repassava fake news do ano passado. Junto com essa, havia outra, sobre exigir tratamento precoce e tomar invermectina. Respondi sinalizando e destacando a data de 2020, achando que evidenciava que isso era notícia velha (além de falsa). A resposta foi a reafirmação da invermectina (remédio pra verme).

 

Se você se depara com algo ofensivo, 

você é obrigado a adotar postura defensiva.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

5 completos

 

5 anos! A bicicleta ainda não chegou pelos correios, mas teve balão gigante com balas e bolas dentro, muitos balões coloridos, bolo de morango e presentinhos atendendo a pedidos: mais importante que a bicicleta, foi ganhar o "cuco-lelê" (violãozim) que ela pediu e estourar o balão.

Da família, Agnes ganhou mensagens de texto, de voz, flores fotografadas e carinhas felizes. Na pandemia, essa foi a festa que deu pra fazer.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Livro-convite

 

Eu queria fazer colagens, então destacamos folhas coloridas de um bloco. Fui cortando ao meio, dobrando, recortando e colando. 

Ela entendia as folhas A5 como convites e foi desenhando, escrevendo histórias, colando papéis com durex. Pra ela, convites são muito importantes, porque culminam em festas. E o que ela mais quer é festa. Pra mim, a estrutura convidava para fazer um livro.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Análise da conversação

Era domingo, 15h ou 16h horas, sol forte. O som veio na frente, a carreata chegou depois, serpenteando pela avenida. Uma voz masculina gritava no microfone:

Acorda, Porto Velho! Viemos fazer muito barulho!!! Venham até as janelas, vamos buzinar!!

Carros com a bandeira do Brasil no teto, muita buzina e o fato de ser domingo já me posicionaram acerca da autoria da manifestação. Uma voz feminina ao microfone mencionou o decreto de ontem que proibia cultos. Bingo. Conforme a carreata avançava, entendi que havia dois carros de som: um aqui embaixo, outro lá na frente. A voz ao microfone lá na frente anunciava que faria uma oração. A voz daqui debaixo explicava:

Pessoal, o diretor avisou que vai fazer uma oração em frente ao CPA. 

O pastor no microfone em frente ao CPA esperou a voz no outro microfone se calar para iniciar a oração, mas o pastor do microfone aqui embaixo entrou numa corrente:

Vereador: foi Deus quem fez. Prefeito: foi Deus quem fez. Governador: foi Deus quem fez. E o presidente: foi Deus quem escolheu. 

Numa pausa de efeito, outra voz (que eu reconheci) saiu da janela e atravessou a oração iniciada lá na frente e o silêncio de milissegundos aqui em baixo:

GENOCIDA! BOLSONARO GENOCIDA!

E seguiram: um pastor ignorando solenemente a oração do outro, ambos ignorando o protesto. Não havia diálogo porque não havia escuta, não havia outro. Cada um emitia seus sinais.

domingo, 11 de abril de 2021

Pequena fotógrafa

As fotos que Agnes faz podem nos parecer aleatórias. Muitas são muito repetidas, algumas desfocadas. Mas os recortes que ela faz eu acho poéticos.









Eu assumo o papel de editora: escolho as melhores e publico.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Queijo suave

Agnes gosta de queijo em forma de bolinhas (pode ser mussarela) e em formato de tubo (queijo cavalo), mas ela gosta mesmo é do queijo coalho grelhado. 

Aí ela começou a pedir queijo suave. Como ela aceitava o que quer que a gente oferecesse, o queijo suave podiam ser muitos tipos de queijo. Só que ela especificou: 

Queijo SUAVE, mãe. 

Não é esse?

É com ALHO que eu quero.

Queijo suave com alho... É queijo coalho?

É queijo frito!

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Cupuaçu delivery

Jairo mandou fotos do freezer lotado de polpa de cupuaçu. Perguntou se não podíamos levar na feirinha do MAB, pra Cleide vender. Cleide respondeu que o freezer dela tava ruim, e que levar na feira correria o risco de não vender e perder.

Consultei os amigos. Dei o preço do Jairo. Cupuaçu orgânico, tirado na tesoura, sem água, 2 kg. Muitos pediram 1, outros já planejaram doces, cremes, sorvetes e pediram mais. Daqui a pouco eu tava traçando rotas de entrega na cidade. Eu já tinha ido uma vez na casa de todos, mas confesso que me perdi na zona leste. Voltei pra casa com o isopor vazio, contente de ter visto as pessoas, ganhado um livro e ter levado o melhor cupuaçu pros amigos. Aliviou um pouco o freezer e recompensou o trabalho da Iris.

Hoje eu ia de novo no sítio: tinha encomenda. Mas o Preto avisou que o rio Madeira invadiu a Estrada da Beira lá no quebra-pedra e não tinha como chegar no sítio (nem no cupuaçu) de carro. Amazônia é isso: uma adaptação ao tempo.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Segundo aniversário na pandemia

Meus aniversários costumavam ser festas. Quando fui morar na Oca, o meu aniversário foi o primeiro evento da república. E desde então muita gente lembra dessa data - mesmo que não recorde bem a que ela refere. Quando vim pra Porto Velho, meus aniversários continuaram a ser festas. Mais pessoas passaram a lembrar da data. Mas durante a quarentena, não dá pra festejar. Hoje faleceu o colega Tenório. A morte dele passa a fazer parte da minha contagem pessoal da passagem dos anos. Agora são 43.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Resumo

Nós, professores de Letras, damos aula de Língua Portuguesa em diversos cursos da universidade. Quando dei aula na Medicina, passei por uma experiência exemplar que - se não servir de exemplo, serve como anedota. 

Eu tinha pedido aos alunos que resumissem o texto do pintor daltônico de Oliver Sacks (capítulo de Um antropólogo em Marte). Era o caso clínico de um homem que tinha sofrido um acidente e que depois do episódio passou a ver o mundo em preto e branco (e tons de cinza). Esse homem pintava quadros abstratos, portanto estava acostumado a expressar-se através de cores e formas. O médico entendeu que o caso não era exatamente de daltonismo (uma deformação cromossômica), porque era adquirido (através de lesão) e fugia do padrão "confusão de cores". Além de estudar o sistema visual, o neurologista passou a estudar teoria das cores e experimentar óculos com lentes coloridas e outras soluções. 

Eu, que achava que receberia 50 resumos iguais ou parecidos, fui surpreendida com o seguinte padrão de respostas:

Um terço da turma se identificou com o sofrimento do paciente (em parte, talvez, por terem tido um histórico pessoal de internações hospitalares significativo). A dificuldade de exercer o ofício - nos quadros novos, as cores estavam todas fora de lugar -, o desânimo de comer e beber alimentos cinzas, que pareciam mortos, o abismo que a nova situação abria ganharam tal destaque nos resumos, que parecia que o texto tinha sido narrado do ponto de vista do paciente.

Outro terço da turma se identificou com o trabalho investigativo do médico, com a dinâmica exigida no processo e com os avanços e retrocessos do acompanhamento do paciente. O paciente aparecia como mero paciente nesses resumos, não como sujeito.

O terceiro terço da turma apresentou um resumo do texto do Oliver Sacks. Não uma miniatura do texto original, nem resumos de partes, mas uma recontagem equilibrada da história.

Se num fichamento podemos escolher recortar e colar trechos que nos são significativos, no resumo é preciso considerar o texto todo.

segunda-feira, 29 de março de 2021

I me mine

 

As crianças estavam cantando parabéns na escolinha online e Agnes perguntou: "É meu aniversário?"

* * *

A atividade era: desenhe de olhos fechados. Muitas crianças receberam vendas nos olhos, Agnes inclusive. Mas eu reparei que ela acertava as linhas de continuidade, o que me fez desconfiar que ela estava espiando. Tentei baixar a venda e começou a briga. Não só aqui: outras crianças igualmente se recusavam a desenhar de olhos vendados. As mães (o audio estava ligado, acompanhamos tudo...) tentavam convencer a criança que não precisava ficar perfeito, que podia ficar engraçado. 

Algumas crianças choraram. Porque desenhar é pro outro, tem que ficar bonito, colorido. Desenhar é uma das poucas coisas que o adulto confia que a criança faz bem, por isso estimula tanto o desenho. Agnes não tem medo de desenhar, mas se recusou a desenhar sem ter controle sobre o resultado.

* * *

All I can hear I me mine, I me mine, I me mine
Even those tears I me mine, I me mine, I me mine

sábado, 27 de março de 2021

Nome estrangeiro é mais legal

Fui na agência dos Correios só com o pacote da mercadoria que eu queria devolver e um código de postagem reversa. O atendente inseriu o código no sistema, mandou as etiquetas pra impressora e voltou lendo em voz alta - pausadamente - o meu nome. 

É isso mesmo? Esse é seu nome?

Sim, esse é o meu nome. Não fui eu que escolhi. 

É estrangeiro, é?

Não, é inventado.

Ah, mas parece estrangeiro. O meu também é inventado, mas o seu mais é mais legal. Apontou para o crachá: olha aí, ó. JESURÔNIO. Ninguém acerta o meu nome.

* * * 

Quando Agnes inventa de dar nomes às coisas, sai sempre um nome cheio de R retroflexo e schwa (algo como [ã]) e grupos consonantais que não temos em português. Quando Agnes inventa nomes, eles são nomes inventados em inglês - uma língua que ela não conhece.

Numa das aulas online da Agnes (ela precisa de assistência, por isso participamos das aulas da criança, não é uma escolha), um coleguinha inventou nome para um personagem no livro e curiosamente também saiu uma coisa que soava mais inglês que português.

Nome estrangeiro é mais legal...

quinta-feira, 25 de março de 2021

A identidade secreta dos periquitos

 

Quando Luis e Agnes foram comprar os periquitos, pediram uma fêmea branca e azul e um macho verde-amarelo. Os periquitos não receberam nomes próprios (nem de gente, nem de pássaro), eram chamados simplesmente de "macho" e "fêmea". E assim viveram por dois meses. 

O sonho de acordar com os passarinhos foi realizado tanto de manhã como de tarde, na hora da soneca. Em alguns momentos, eles faziam muita algazarra, em outros, mais raros, pareciam emitir sons de satisfação tranquila.

Aí a cabeça do periquito branco-azul começou a apresentar falhas na penugem e as penas começaram a aparecer pela casa. Nossa tradução antropo-cultural resultou em: a fêmea está apanhando do macho. Luis ainda desconfiava de outra coisa: que o verde-amarelo fosse fêmea, porque entrava na casinha. 

Lá vai a tratadora dos periquitos (que não esteve presente no momento da aquisição) na loja, perguntar quem é macho e quem é fêmea e se não dá pra trocar ou devolver o verde-amarelo. Ficaríamos com a vítima, não com o agressor.

Chovia quando estacionei o carro longe da calçada. Estiquei o pé pra fora, firmei na calçada alta, peguei a gaiola, me impulsionei pra fora do carro e pra dentro da chuva, depositei a gaiola embaixo do toldo e voltei pra fechar a porta. Na loja, os periquitos se esconderam dentro da caixa. Pelo buraco da abertura da caixa, a moça viu que o macho era o branco-azul e que a fêmea era verde-amarelo. 

Eu achava que ela tinha que pegar o animal na mão, virar do contrário e inspecionar os órgãos reprodutores. Ela respondeu que via pelo bico (azul: macho; marrom: fêmea). Eu entendi que então tudo estava ao contrário e que era o macho que estava perdendo as penas da cabeça. A moça disse que não troca nem aceita devolução. Ligou pro veterinário e confirmou que nem troca, nem aceita devolução. Ainda fiquei um tempo lá, suspirando. Luis estava certo (verde-amarelo era mesmo fêmea), mas também estava errado (eles eram um casal). A solução de troca se aplicava no caso de os dois serem do mesmo sexo. Resignada, peguei a gaiola e fiz a ginástica pra entrar no carro. 

Quando girei a chave na ignição, o veterinário bateu no vidro do carro. Vamos trocar, sim! Saí de novo do carro e uma outra moça ficou encarregada de pegar os periquitos. Dos seis periquitos, havia duas fêmeas verde-amarelas na gaiola deles. Pegou primeiro a minha, na minha gaiola e colocou na gaiola maior. E agora? E se pegar a minha de novo? Pegou uma aleatória, que conseguiu pegar, tirou da gaiola grande e colocou na minha. Me pediu pra conferir, mas eu não tive certeza. Tirou esse periquito da minha gaiola, devolveu pro coletivo e mirou numa periquita de cabeça bem amarela.

Chegando em casa, consultei o grande oráculo cibernético como se identifica o sexo dos periquitos. Conferi se a periquita da cabeça amarela tinha bico azul e não tinha. Ufa. Agora preciso me acostumar que "fêmea" e "macho" não são mais bons nomes pra eles.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Bolo de macaxeira

Iris fazia o bolo de macaxeira que eu levava pra feira do MAB. O primeiro que ela fez estava espetacular.


Conforme eu ia buscar o bolo na Iris pra Cleide vender na feira, eu descobria como era feito: macaxeira crua ralada, nada de (farinha de) trigo. Pra não sentir o gosto de margarina, eu levava manteiga. Pra ficar mais natureba, eu levava açúcar demerara. Ela acrescentava ainda erva doce, cravos e castanha do pará. Os bolos da Iris foram mudando: um saiu muito gorduroso, outro saiu queimado, outro saiu super doce.

Aí o fogão esculhambou a válvula, as minhas aulas voltaram justo nos dias de feira e paramos com o bolo de macaxeira. Muito tempo depois, o marido da Iris perguntou se não queríamos bolo de macaxeira feito por outra mulher. Encomendei.

No dia marcado, ele me passou o contato whatsapp da boleira. Achei estranho, porque imaginava que o bolo estivesse me esperando na casa da Iris. O combinado era que fôssemos depois das 14h. Mas não conseguimos nos desvencilhar dos compromissos e foi ficando tarde. Como eu também tinha que comprar e levar ração pro Rompe-Mato, fiz questão de ir ao sítio ainda naquele dia, não deixar pro futuro incerto. Agnes e eu chegamos na pet shop 15 minutos antes da loja fechar. Nossa casa ficava no caminho entre a pet shop e a ponte sobre o Madeira. Liguei pra casa, perguntando se Luis queria nos acompanhar. Não. Ele lembrou que devíamos passar repelente, porque era hora do rush dos mosquitos. Não tinha repelente no carro nem na bolsa. Paramos em casa pra pegar repelente. 

Assim, vendo a gente, e vendo o dia escurecer, Luis decidiu nos acompanhar. Tinha chovido muito mais no Maravilha que na cidade (ou não percebemos que choveu tanto, é uma possibilidade também) e a estrada estava uma gelatina. Percebia-se que a lama é que guiava o carro, não a motorista. Chegamos na casa da Iris no escuro e entregamos a ração. O bolo não estava lá.

- Depois do Delmiro, segunda casa, de frente pra igreja. 

Era o desconhecido, porque a casa do Delmiro fica bem na curva e a gente nunca seguia reto pra Niterói. Ainda paramos no Damián, que perguntou mais de uma vez se íamos mesmo na casa da mulher àquela hora. Fomos.

A igreja estava acesa e tinha gente dentro. Luis desconfiou que a mulher estaria no culto. Desceu do carro e bateu palmas na casa em frente. Nada se moveu. Da igreja saiu uma moça segurando um bebê: 

- Hein, o senhor quer o quê? 

- Vim buscar um bolo. 

- É com a minha mãe.

Saiu um homem da igreja, atravessou a rua e voltou com o bolo. Pedimos muitas desculpas pelo horário e voltamos pra casa. Chegamos tarde da noite, sem vontade de fazer janta e acabamos comendo o bolo. Que saudades do bolo da Iris... Provavelmente tinha farinha de trigo no bolo, morder nos cravos era castigo, não tinha erva doce, em vez de castanha acho que tinha coco e a consistência era de pamonha.

Resolvi fazer bolo de macaxeira eu mesma, com o que tinha em casa. Ralei a macaxeira crua, ralei coco, misturei manteiga, açúcar de coco e fermento, deixei menos de 1h no forno. Resultado: errei na medida de manteiga (ficou pingando óleo) e entendi que fazer bolo de macaxeira com pouca macaxeira não vale a pena.

sábado, 20 de março de 2021

Edital 2021 EDUFRO

 

Arte: Leidijane Rolim
 

Sim, novo edital de publicação! Dessa vez, a prioridade é para temas amazônicos. O edital está no site da EDUFRO.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Inquilinos

Somos os únicos inquilinos no prédio: todos os outros são proprietários. Alugamos um apartamento, mas alugamos também o porteiro, o portão, o muro, a segurança. Alugamos a vista, o vento, a piscina. 

Na casa anterior, a maior diferença era entre nós e o que havia atrás do muro do condomínio. Aqui, a diferença se dá na vertical.

segunda-feira, 15 de março de 2021

Campus

Agnes e eu fomos ao campus, passear. Fomos seguindo o nariz e descobrimos esse besouro bisonho (enorme) na parede da biblioteca.

Tinha pitangas, uma parreira nova, muitos gatos e muitos caminhos.

Descemos a rampa que dá no prédio novo da engenharia e voltamos pela rampa íngreme do Tatuzão.
Essa escada me intrigou: não tem porta nem no pé da escada nem no topo. Tem uma porta desenhada na parede, mas não dá pra adivinhar se é um plano ou uma brincadeira o que se vê na imagem. No final das contas, acho que a escada só serve mesmo ao técnico que desmonta o ar condicionado pra levar pra manutenção.

domingo, 14 de março de 2021

Milkshake até

Algumas coisas as crianças aprendem sozinhas (tipo as senhas para desbloquear os celulares dos pais), outras coisas parece que não adianta ensinar. Agnes gostar de sair a pé, mas sempre sai um "vamo até"? Não adianta dizer que "a pé" tem a ver com "pé" que a gente usa pra andar ao invés de usar a bicicleta, o carro etc. Ela vai até.

Durante a pandemia, a cidade mudou: muitas lojas fecharam, outras abriram. Aí um dia resolvemos nos beneficiar do sistema drive thru do novo Bob's. Escolhemos o hamburger, o tamanho da batata e o sabor do sorvete. Ninguém no carro disse a palavra "milkshake", mas a atendente disse - e Agnes pescou. Agora ela pede milkshake até.

sábado, 13 de março de 2021

Golpe pelo celular

Muito tempo atrás, talvez uns dez anos ou mais, fui vítima de uma tentativa de golpe. Eu estava em Gramado, casa cheia, perto do Natal, quando recebi uma mensagem pelo celular que eu tinha sido sorteada e tinha ganhado uma casa. Era mensagem enviada da Paraíba (84) e continha erros ortográficos. Eu ganharia uma casa! Isso me pareceu mais relevante que os erros de ortografia. Entrei em contato e perguntei quem tinha me sorteado. O Caldeirão do Huck. Mas eu nem me inscrevi... Mas seu número é TIM e ele foi sorteado no programa - que está passando agora, enquanto conversamos. Estava mesmo. A voz com sotaque paraibano me disse que eu tinha que fazer uns procedimentos no caixa eletrônico, pra liberar o valor da casa na minha conta. Com o homem na linha, fui até o caixa eletrônico e fui seguindo instruções. No fim, eu disse a ele que se eu seguisse nos procedimentos, eu faria uma transferência. Ele repetia que era só um código. Eu olhava para a tela e repetia: cara, se eu der ok aqui, vou estar transferindo dinheiro para uma outra conta. Virou queda de braço: É assim mesmo, senhora. Não vou fazer isso, meu! CONFIA em DEUS!

Aí eu desliguei. Aí eu entendi que ele não tinha argumentos pra me convencer. Aí deu o click e eu entendi que estava sendo enganada. A família ganhou mais uma anedota pra contar.

*   *   *

Chegou mensagem de celular da esposa do irmão do Luis: ela tinha excedido o limite diário e precisava fazer uma transferência bancária naquele dia ainda. Me pedia pra pagar e prometia reembolsar no dia seguinte. Mostrei pro Luis. Roubaram o celular dela - foi a conclusão. Elisa nunca te pediria dinheiro. Liga pra ela, se está em dúvida. Liguei. Ruídos. Veio mensagem de que a internet estava ruim. E agora? Pela voz, eu teria oportunidade de reconhecer a Elisa. Como testar agora? Escrevi: mais tarde eu vou aí. 

E a conversa parou.


quarta-feira, 10 de março de 2021

O que é essencial

Foi no dia 17 de março de 2020 que foi decretado o lockdown aqui. Em abril, a escolinha em Agnes estava matriculada não ofereceu desconto nem aula, então decidimos rescindir o contrato.

Depois de um ano com a criança em fase de alfabetização em casa, recebemos com alegria a notícia de que as escolas voltariam a funcionar em fevereiro de 2021. A criança ficou encantada com a nova escola, o uniforme, mochila, material, coleguinhas. A rotina da casa mudou: dormir cedo, acordar com o despertador, preparar a lancheira, levar a criança para a escola, trabalhar de manhã e almoçar antes do meio-dia.

Na segunda semana, a menina já confessava que se comportava mal na escola, mas estreitava laços de amizade com os poucos colegas de sala. No último dia em que foi à escola, pouco antes de acabar a aula, Agnes rodopiou de olhos fechados, caiu de boca no chão e sangrou muito. Os dentes fizeram dois furos: um fora e outro dentro da boca. No dia seguinte, ela não foi à escola porque a ferida ainda não tinha fechado. Nesse dia, saiu o decreto de que a partir do dia 4 de março de 2021 voltávamos à Fase 1, ou seja, lockdown.

O rio Madeira inundou a estrada da beira e perdemos o acesso à casa do Jairo ou do Damián. 

Ao invés de deixar a criança na escola, agora temos que acompanhar as aulas da menina online (porque ela precisa de assistência para entender o que a tia pediu, para ligar e desligar o microfone, para localizar a atividade que está sendo feita etc.). Tem dias em que estamos todos em sala virtual ao mesmo tempo: reunião de departamento, aula da criança, reunião de grupo de pesquisa. Dois dias depois de publicado o decreto que restringe a circulação das pessoas, outro decreto é publicado, dessa vez liberando as escolinhas para filhos de pessoas que exercem atividades essenciais e para crianças com deficiência. 

Educação é serviço essencial? Nós não paramos, estamos dando aulas remotas e continuando nossas pesquisas, mas nossa atividade não é essencial: a vida de ninguém (a não ser a nossa) depende da nossa atividade. A qualidade de vida, sim, depende de nossa atuação, mas não a vida pura e simplesmente. 

Na pandemia, escolinha é essencial? Observamos que as crianças precisam de contato com outras crianças, precisam correr, brincar, sair de casa. Quando Agnes fica o dia todo em casa, atividades básicas como comer e dormir são tarefas enormes que geram briga com alto grau de probabilidade. Antes, uma ida ao sítio despertava apetite e dava bom sono. Agora estamos isolados no sétimo andar.

Ter a criança na escolinha geraria mais qualidade de vida para a criança e para os pais que trabalham enquanto a criança está na escolinha, mas pode ameaçar a vida da criança e das famílias em torno das crianças.

sexta-feira, 5 de março de 2021

Isolar os sadios

Acabo de receber notícia da casa de repouso em que está Harro Kleppa. Depois da segunda dose da vacina (aplicada em 24 de fevereiro), um interno apresentou sintomas e a diretora pediu que todos fizessem exames. O resultado saiu hoje e 19 deram positivo (inclusive Harro). Num cenário em que quase todos estão infectados, os sadios é que foram isolados. Não vai ser fácil passar por isso.



quarta-feira, 3 de março de 2021

Quando isso passar

Como será o mundo quando a pandemia passar? Como se passa por isso tudo? Como atravessamos esses tempos difíceis, em que a pandemia já não é mais novidade? Só temos medo do desconhecido? A pandemia vai passar? O bolsonarismo (extremismo, negacionismo e outros -ismos) vai passar?

Não parece que Agnes está comunicando com alienígenas?

Já não há mais auxílio emergencial - e quem recebeu, tem que declarar no IR que recebeu e está sujeito a pagar imposto. Já não há mais redução de jornada custeada em parte pelo governo, mas empregadores são obrigados a manter empregos, mesmo que os decretos locais limitem a circulação das pessoas (ao posto de trabalho, por exemplo, se não for considerado essencial). O conceito de home-office já foi substituído por anywhere-office, já que não precisamos nos fixar a um lugar para trabalhar (e podemos participar de reuniões remotas pelo celular - em qualquer lugar que ofereça sinal).

Nas aulas remotas desse semestre, não tenho mais visto os alunos. Desligam as câmeras, demoram muito a responder quando pergunto. É estranho. Às vezes me sinto como se estivesse apenas emitindo sinais, tipo a menina na foto. Dar aula é isso?

domingo, 28 de fevereiro de 2021

R e L(h)

Quando Agnes dorme pouco, tem olheiras. Mas pra ela, oLHeiras não fazem sentido, então ela diz que tem oRElhas.

Hoje, no carro, ela tava falando da goleira. 

Que fica no gol? 

Não, mãe: go-lê-ra. 

Nada a ver com futebol? 

Macaco, mãe! 

... momento telepatia... Ah, go RI la? 

Isso. 

Go Lei ra > go Ri la.

O LHei ra < o Re lha.

Atualização: Agnes não tem medo de malária, só de marália; e não gosta da Cinderela, só da Cindelera.


sábado, 27 de fevereiro de 2021

Formas e combinações

Brincando com a Agnes, me dei conta que o losango só forma losangos (pensando em formas simples: dá pra formar flores ou a folha de plátano com losangos, mas não consegui fazer quadrados ou triângulos com losangos).

Quadrados formam quadrados e retângulos (mas não triângulos e losangos).
Quanto mais simples a forma, mais formas simples ela forma.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Homogeneização

 

Estamos na segunda onda da covid-19 e ela se manifesta de maneiras próprias em diferentes lugares. No Rio Grande Sul, estão com bandeira preta. Em Rondônia, a situação é que está preta - e ninguém fala sobre isso. Todos nós já temos, no nosso círculo de parentes, amigos e conhecidos, pessoas que foram vítimas do novo coronavírus. Outro dia fui comprar máscaras de pano na porta do supermercado e a vendedora disse que não tinha maquininha (pra cartão) nem troco, porque estava vendendo pouco.

No Amazonas, parece que a segunda onda está sendo muito mais mortal que a primeira - há que se considerar a nova variante: um tsunami.


No Nordeste, em geral, parece que a segunda onda só faz marola. O que explica essas variantes regionais? As pessoas se comportam de maneiras diferentes? O clima? Alguma informação de ordem genética? A estrutura de hospitais e atendimento médico em geral?

Pela forma dos gráficos que representam o cenário de diferentes regiões do Brasil, dá pra concluir que o impacto não é o mesmo, não dá pra homogeneizar. A generalização nada mais é que uma média.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Imagens e palavras

 

Repare na moldura que a folhagem faz na imagem: é o Madeira que corre ali

Galinha d'angola

Canoa do Damián e a balsa

Buritis: sempre na água

Luz da tarde iluminando o teto de palha por baixo. Oficina sem paredes

Eu vejo uma interrogação desmaiada aí. Mas isso sou eu vendo coisas...

Descobertas coloridas

Piquiá: agora falta cozinhar no arroz pra confirmar se é mesmo o fruto amazônico mais saboroso

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Popularização da Linguística

Ainda não está claro pra mim o que é e como se faz popularização da Linguística - que considero muito importante: somos todos falantes, mas nem todos estudamos a língua. Trabalhos de divulgação científica como esses (de popularização) pretendem aproximar as pessoas do fazer científico, dos resultados de pesquisa e das conclusões a que chegam os linguistas. Aí não se trata de alfabetizar, catequizar, instruir o público não-especializado, mas de seduzir o público amplo.

Story of your life, um conto de 39 páginas escrito por Ted Chiang e publicado em 2000 é (pra mim, até agora) o melhor exemplo de popularização da Linguística. A imagem que eu usaria para representar o conto é de um zíper se fechando. Os parágrafos intercalam (i) o cenário do acampamento militar em que a  linguista em diálogo com um físico tentam decifrar a língua de alienígenas com (ii) memórias da filha (no tempo verbal do futuro). Não são duas histórias paralelas, porque há uma sequência aqui que o contista nos apresenta em forma de simultaneidade. O ato de ler o conto é como puxar o zíper e as bandas da esquerda e da direita vão se encaixando, alternadamente.

Fiquei pensando muito nessa coisa de alienígenas: coisa de americano mesmo, só podia. Mas voltando a Chomsky, o argumento mais convincente que ele tem no Managua Lectures é do alienígena tentando aprender (uma das) nossa(s) língua(s) humana(s). Nesse conto, é a linguista que precisa aprender tanto a fala como escrita dos alienígenas - do zero: não se trata de tradução, mas de pura investigação e descrição. E nessa aventura, ela ensina ao leitor sobre escrita, linearidade, tempo, simultaneidade, informação e performatividade da língua. Uma das sacadas dela tem a ver com experimentos paralelos que o físico executa. No diálogo entre as ciências, surgem novos pontos de vista. Os alienígenas acabam não aprendendo muito inglês, porque os militares temem que todo conhecimento dos aliens sobre os humanos seja usado para o mal.

A outra banda, que vai intercalando com essa conforme a leitura progride, são memórias da filha: da morte dela, da adolescência, da infância, dos cuidados, da relação umbilical. A filha é resultado dela, mas não só. Tem o pai e tem o mundo todo que molda a personalidade. Enquanto a linguista decifra a língua dos alienígenas, a mãe decifra a relação dela com a filha. 

Mas essa é a forma de apresentação intercalada. Se pegássemos a sequência temporal toda, ela teria que ser dobrada no meio (o ponto de chegada do zíper). O fio verde (estou usando a imagem acima para fins didáticos) começa com a convocação para decifrar a língua dos aliens e termina na dobra, onde o fio fica vermelho - e volta, entrando nos espaços deixados pelo fio verde. Isso explica por que as memórias da filha estão no futuro (em relação ao acampamento). Louise se ocupa da escrita dos aliens, se apaixona pelo físico e tem com ele uma filha que precisa ser decifrada e que morre aos 25 anos de idade. Por ter passado pela experiência da escrita semasiográfica, a memória da narradora que conta a história da filha (e dela) vem em blocos em que passado, presente e futuro se misturam.

Em 2016, foi lançado o filme Arrival (disponível na Netflix), baseado nesse conto, Story of your life. Como toda adaptação, ela fixa numa determinada sequência de imagens todas as interpretações possíveis; e acrescenta explicações, fundamentações e convencimentos que o conto não fornecia - porque isso tudo fica por conta do leitor. O leitor não apenas recebe o texto, como o espectador de um filme: ele cria junto com o autor, porque a palavra oferece essa liberdade.

Queria mais exemplos de popularização da linguística pela via estética: o leitor aprende linguística enquanto é fisgado por uma história e uma forma específica de contá-la.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Engenharia reversa

 

Desmontar é mais fácil que montar. Agnes faz essa engenharia reversa numa boa.

Montar é mais fácil que alinhar as cores do cubo mágico. Reconstituir o brinquedo (encontrando todas as peças e como se encaixam) é um esforço cognitivo menor que cumprir o desafio do brinquedo.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Hoje pode demorar, tá?

 

Agnes está bem contente de voltar para a escola (outra escola) depois de longos meses sem interagir com outras crianças. Na escola anterior, ela acompanhava uma turma mais velha que ela (o corte de idade é 31 de março. Ela faz aniversário em 16 de abril. Por 16 dias de diferença, convencemos a escola que mesmo só completando 4 anos depois de todo mundo, ela acompanhasse a turma de 4). O resultado é que chamavam ela de bebê e ela detestava. Como ela não foi alfabetizada em casa (não conseguimos nem ler os livros da Magda Soares que encomendei) durante a pandemia, ela voltou para a turma de 4 na nova escola. Está bem satisfeita de ser a mais velha. Até ensinou uma colega como se brinca de amarelinha (e isso não é estranho: numa ida ao parquinho, entendi que Agnes não sabia como se brinca de pega-pega).

Dadas as condições impostas pela pandemia, somente 30% da capacidade da turma pode ter aula presencial. Isso significa que Agnes tem entre 3 e 4 colegas em sala e que os outros acompanham as aulas presenciais através do Meet de maneira remota. Agnes já entendeu isso e foi na frente do computador e se apresentou para as crianças em casa: oi, eu sou a Agnes! O horário das aulas é reduzido devido às condições impostas: das 8h às 11h.

Hoje é dia de carnaval na escola. Agnes está desde ontem em estado de frisson: vai ter festa! Quando deixei ela na escola, ela se despediu de mim dizendo que hoje pode demorar pra buscar.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Dialético

 

Borboleta: leve, livre, efêmera, colorida, em movimento.

Cadeado e corrente: pesado, seguro, tranca, enferrujado.

A borboleta bate as asas, tenta se desvencilhar da pessoa que quer capturar sua imagem, mas sempre volta para o mesmo lugar. Tanto lugar pra ir, mas ela retorna aos grilhões.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Boas e mais notícias

Agnes aterrissou na cozinha toda empolgada:

- Mamãe, tenho boas e mais notícias!

- É? Quais são as boas notícias?

- A fêmea comeu o espinafre que eu dei pra ela!!!! 

- Ah, que bom, Agnes.

- E as mais notícias é que o macho quase deu uma cambalhota.

- Isso é ruim?

- Não, é mais uma notícia dos periquitos.

- Ufa, eu tava esperando más notícias, notícias ruins.