Tive professores que usaram os óculos como metáfora da teoria.
Quando se estuda a língua, está-se diante de fatos linguísticos que podem ser descritos através da língua - já que esse é o método mais compreensível e universal. Quanto mais "avançado" o estudo da língua, maior o acúmulo de descrições, ou seja, de metalinguagem. Acontece que a descrição não é isenta de crenças - apostas que a pessoa faz. Esse conjunto de crenças forma uma teoria/ideologia que funciona como óculos: só se enxerga aquilo que os óculos permitem.
As categorias (substantivo, verbo, particípio etc.) são descrições da língua, não são fatos linguísticos. Enquanto descrições, envolvem convicções teóricas.
Gramáticas
Quando os meus alunos chegam no curso de Sintaxe e entendem que a Gramática que vamos estudar não é a Gramática Tradicional (porque se baseia num ideal de língua e não nos fatos linguísticos, porque se concentra na modalidade escrita e ignora a oralidade, porque mistura critérios e aposta na classificação de fatos linguísticos atomizados e fragmentários ao invés de perceber inter-relações), se perguntam se o que aprenderam da GT está errado. São maneiras diferentes de observar a língua.
A GT remonta à descrição gramatical do grego e latim. As categorias com as quais lidamos hoje (substantivo, preposição, conjunção etc.) serviram à descrição de grego e latim e foram assumidas pelos gramáticos da língua portuguesa - que não são linguistas, mas pessoas de notório saber (literário e) linguístico. Mesmo quando linguistas fazem gramáticas, muitas dessas categorias são reutilizadas sem que sejam avaliadas quanto à sua pertinência.
Para a GT, a unidade máxima de análise é a sentença e a unidade mínima é a palavra (que é considerada indivisível). Tanto latim como grego são línguas de caso marcado, ou seja, a função sintática (sujeito/objeto/etc.) é embutida na forma da palavra. Isso significa que, dependendo do caso (nominativo, acusativo, dativo etc.) muda a forma da palavra. Se não existe a noção de que a palavra é composta por unidades que significam (caso/número/gênero/tempo), a maneira de ordenar as palavras é através de paradigmas. Então uma palavra como
menino, por exemplo, tem um monte de paradigmas: nominativo, acusativo, gênero, número etc.
Menino é uma palavra,
meninos é outra palavra,
menina é outra e
meninas
é outra ainda. A GT não enxerga os morfemas (radical + gen. masc./fem. +
sing./pl.) que compõem a palavra, percebe apenas variedades da mesma
palavra.
Hora da metáfora. Desculpem o exemplo consumista: é a sociedade do consumo em que estou inserida que me faz pensar que este exemplo seja compreensível pelo leitor/consumidor.
Entro na bicicletaria e vejo grande variedade de opções. Como organizar toda essa informação? Criando categorias: tem o uso (mountain bike, speed, downhill, infantil, urbana e elétrica), o material (alumínio, carbono, aço), tem a cor e a marca. Para a GT, cada bicicleta corresponde a uma palavra. A speed de carbono preta Specialized é uma unidade concreta, assim como a speed de carbono verde da mesma marca. Ambas estão prontas e não é possível mudar sua forma.
Entro num site que vende roupas. Posso escolher entre camisas, calças etc. Se eu quiser saber o que a loja virtual oferece, ou se eu quiser comprar alguma coisa, preciso continuar determinando características do produto: tamanho, cor etc. Em alguns sites, se eu clicar na bola azul, a foto que ilustra o produto muda e o produto aparece azul. Se clicar na bola roxa, a imagem muda novamente. O que mudou? A maneira de organizar as coisas: parte-se da ideia de que o objeto é composto por unidades abstratas (tamanho/cor) que estão na descrição do objeto, não no objeto ele mesmo.
Borges Neto (2012) apresenta duas formas de classificação: (i) por reconhecimento de propriedades compartilhadas e (ii) prototípica. A primeira maneira de classificar pressupõe o método científico, em que se verifica as condições necessárias e suficientes para agregar um elemento novo a uma classe. A segunda maneira de classificar não pressupõe classes definidas, nem propriedades necessárias e suficientes para encaixar um elemento numa categoria. Basta que, por alguma razão, o elemento novo seja parecido com o melhor representante da categoria. O exemplo que ele cita é o de frutas e verduras: os biólogos não lidam com frutas e verduras, porque essas categorias agregam elementos que a rigor não se encaixam bem em seus limites: abacate é fruta ou verdura? Cenoura é vendida como verdura, mas é uma raiz. Então as categorias de verduras e frutas não servem? Servem, sim, principalmente para descrever seus elementos prototípicos. A conclusão de Borges Neto é que a GT trabalha com categorias prototípicas, que trazem consigo a vagueza e imprecisão.
Último fato curioso, pra aproveitar o Borges Neto: substantivos (nomes) e verbos têm comportamentos diferentes, por isso os gramáticos os descrevem como pertencentes a categorias distintas. Algumas formas verbais, no entanto, compartilham características tanto de verbos como de formas nominais:
cansado é adjetivo ou verbo? A GT criou uma categoria especial para as formas que "participam" tanto dos nomes como dos verbos: particípio.
Dicionários
O que faz um linguista? Descreve fatos linguísticos e os explica. Tá, mas o que um linguista
faz? Gramáticas e dicionários, por exemplo.
Só que poucos dicionários são feitos por linguistas e muitos deles apresentam ideologias do dicionarista (da sociedade em que está imerso). Nos dicionários mais antigos, VIRGEM é definido como donzela, pura, casta, mulher que nunca teve relação sexual. A virgindade masculina não aparece, porque não é importante para o dicionarista ou a sociedade em que ele vive. NEGRO aparece como cor de pele, mas BRANCO não aparece como cor de pele, porque o dicionarista (e a ideologia da época) não percebe a cor de pele branca como diferente - mas a negra, sim.
Percebe que esses dicionários mais antigos usam óculos que enxergam como normal o masculino, branco e católico?
Catálogo de línguas
O Ethnologue continua sendo o catálogo de línguas mais respeitado que existe - e é feito por missionários. O Summer Institute of Linguistics (SIL) tem como missão traduzir a Bíblia para todas as línguas do mundo - como se o mundo todo precisasse conhecer o texto sagrado para a tradição judaico-cristã. Assim como os irmãos Grimm tinham o propósito de anotar e descrever variantes sonoras na língua alemã e tiveram como produto mais reconhecido a coletânea de contos de fada - e não seus estudos fonético-fonológicos -, o produto mais reconhecido da SIL não são as traduções da Bíblia, mas o catálogo de línguas no mundo.
Parece um tanto paradoxal a SIL afirmar que valoriza e respeita a diversidade linguística do mundo quando pretende transformar essa diversidade toda num mesmo e único texto.
O Ethnologue de 2016 registra 7.097 línguas vivas. E agora percebemos os óculos pré-modernos que a equipe da SIL usa ao classificar as línguas do mundo:
- extinta
- dormente
- quase extinta
- moribunda
- em transição
- ameaçada
- vigorosa
- em desenvolvimento (envolve sistema de escrita)
- educacional (envolve sistema escolar)
- comunicação ampliada (envolve limites geográficos)
- regional (
provincial)
- nacional
- internacional
Darwin foi parâmetro de ciência para muitos, tanto é que os missionários consideram a língua como um organismo vivo, biológico, que pulsa, se desenvolve, cresce, transcende fronteiras, é ameaçado, atacado, agoniza, entra em coma e morre.
Se houvesse tantos linguistas quanto missionários e se os linguistas tivessem claros critérios para diferenciar dialetos de línguas e dialetos de sotaques, e se os linguistas tivessem condições financeiras, psicológicas e físicas para rodar e conhecer o mundo e os falantes de todas as línguas, esses números e classificações seriam os mesmos? Acho que a pergunta vale para os demais produtos normativos: se as escolas adotassem gramáticas e dicionários feitos por linguistas, continuaria havendo tanta gente que reprova na língua materna?