Participamos de muitas reuniões de preparação desse evento que tinha como objetivo reunir lideranças de uns 30 territórios indígenas que pudessem compartilhar suas experiências de vigilância territorial. Foi criado um grupo de zap para trocarmos informações entre nós e havia um link para todo o material (planilhas de quem vem, programação, material), mas parece que o link só funcionava para quem tinha email da Funai. O evento era da Funai, o MPI pagou diárias e passagens e acompanhou a preparação.
O artista gráfico pegou uma imagem de rio e procurou um corpo hídrico que tivesse o formato de olho. Depois ele colocou essa pupila amendoada no meio, como se fosse olho de animal e espalhou cílios-pontas de flecha em formação de cocar.
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Reparou que só tem mulheres na foto dessa última reunião? |
Quando, numa das últimas reuniões, estávamos passando pela programação, havia um bloco com relato de experiências emblemáticas: Univaja que era Civaja (no Vale do Javari) que é pioneira e agora está oferecendo formação para outros povos; Urubu Branco e Munduruku (porque lá as mulheres é que tomam a frente). Mencionei que o MPI tinha acabado de encerrar um curso de formação em vigilância com os Yanomami - e que o curso tinha sido feito em parceria com a Univaja. Pagu decidiu que então, além das três experiências, ainda cabia essa e anotou: Yanomami.
Só que Yanomami é um universo. Ao ler o nome do povo que ocupa a maior terra indígena do Brasil, a Funai pensou na Hutukara, a associação fundada pelo Davi Kopenawa. E a gente pensava nos jaguares e kopariri que fizeram o curso de formação. Vieram todos - e fez sentido, porque os Yanomami são de recente contato, ou seja, não falam muito português. A Hutukara desenvolveu, com o ISA, um aplicativo de alerta em que o parente podia gravar um áudio em língua indígena e transmitir pra Hutukara que traduzia e passava a denúncia para a Casa de Governo instalada no contexto da emergência Yanomami.
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Eu estou atrás de um cocar |
No primeiro dia, a primeira mesa foi formada por autoridades tanto da Funai como do MPI. Quando nossa nova Secretária Nacional recém chegada na SEDAT subiu, foi muito aplaudida. Lúcia Alberta, satisfeita, disse que ela era só emprestada pro MPI e que ela ia voltar pra Funai.
Quem conhece e cuida do território são os indígenas. A Funai tem poder de polícia administrativa, ou seja, não pode prender alguém por ilícitos, mas pode acionar as forças de segurança pública. Fiscalização (controle e apreensão/destruição de materiais) é o que as forças de segurança pública fazem, os indígenas fazem vigilância - que não é reconhecida nem regulamentada. Então o seminário era um convite para os parentes dizerem pra Funai como fazem a vigilância, o que precisam e como o pessoal que faz a fiscalização deveria se comportar. Teve feira de experiências com fotos, mapas e relatos.

No primeiro dia, as quatro experiências apresentaram fotos e relatos para a plenária. Teve gente que achou estranho ver três pessoas do mesmo povo (Yanomami) apresentando e a solução foi iniciar o segundo dia com experiências extra: Xingu e Xukuru. O pessoal da facilitação tinha contratado uma equipe que faz esses desenhos. Tanto o desenhista como a colega dele estavam na plenária, ouvindo e vendo tudo, mas ela anotava conceitos e palavras-chave em post-its.
No último dia, todos os painéis que ele tinha desenhado foram apresentados na tela grande com zoom, pra todo mundo lembrar e ver o que tinha sido dito ao longo do seminário.
Aliás, essa parte da metodologia foi bastante elogiada. No primeiro dia, ainda na fila pro cadastro, cada um pode escolher um entre quatro GTs: tecnologia, financiamento, monitoramento e comunicação. Escolhido o GT, a pessoa ganhava um adesivo que era colado no crachá com o nome do participante. Do segundo dia em diante, nos reunimos em quatro salas separadas para debater sobre avanços, propostas, demandas e diretrizes para uma política de vigilância protagonizada pelos povos indígenas. Ideias eram anotadas em tarjetas pra que o que fora discutido permanecesse visível. E na hora de escolher prioridades, ganhamos 5 adesivos de bolinhas vermelhas pra colar nas tarjetas.
Saindo no intervalo de uma discussão em GT, reparei que o meu
departamento tava sentado ali fora com a Secretária. Sentei com o
pessoal e fui acompanhando a conversa. Gostei de falar sobre Tanaru para
a Secretária.
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| Daqui pra lá: Beatriz Matos (diretora), Luciana (consultora), Samara (coordenadora), Edilena (Secretária) e Paulo (coordenador-geral) |
Na plenária de encerramento, a facilitadora quis mostrar só as diretrizes pra Funai que tínhamos discutido nos GTs. A liderança do Xingu não gostou: conversamos tanto sobre tantas coisas nos grupos, eu queria ver essa discussão aqui. A liderança Krahô concordou: nós falamos de muito mais que vigilância, falamos sobre o cuidado com o território. No fim, avaliando a decisão de ter passado por todas as tarjetas que todos os grupos escreveram, veio a avaliação: fiquei contente de ver que os grupos falaram também de proteger os nossos parentes desconfiados (leia-se: isolados).
No primeiro dia de GT, os Xerente quiseram encerrar os trabalhos com uma cantoria. Formamos o círculo, aprendemos os passos e até as palavras. Perguntei o que significava o canto e ele riu. É um canto de despedida: oh, meu povo, estamos indo embora, mas gostamos de vocês. Os parentes adoraram.
No momento da liderança Munduruku apresentar para a plenária o que tinha sido discutido no GT, ela preferiu cantar.
O jaguar (em cima da mesa) cantou para a grande roda.
E no fim, depois que algumas lideranças tinham escrito seu nome em tarjetas para serem considerados membros de um GT que vai monitorar as ações da Funai em relação à vigilância indígena e Janete ter anunciado que essas tarjetas seriam transformadas numa portaria, os Xerente voltaram com o canto de despedida.