quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Segundo dia

O segundo dia foi uma transição entre o evento ocorrido no ano passado que desembocou nesse e os eventos futuros sobre saúde para povos de recente contato. 

Lucas Albertoni
Falou-se tanto de contatos passados (korubo, Mamoriá Grande, Xinane) como de avistamentos de povos isolados (Mashko Piro em Mamoadate, por exemplo) e salas de situação - especialmente da comunicação: antes, era rádio. Tinha vezes que, pra uma mensagem sair do Vale do Javari e chegar em Brasília, tinha que passar pelo Acre.

Luziane Lopez
Gradualmente fomos focando em pajés, plantas medicinais, xamanismo e cosmovisão indígena. Conhecemos iniciativas como a Associação Médicos da Floresta e o Projeto Redes de Cuidado.
André Baniwa
Casos específicos (tracoma entre os pirahã, por exemplo) foram nos mostrando os desafios de ações de saúde com povos de recente contato. 
Raquel Paz
Aliás, os pirahã foram tema no terceiro dia: a língua que só eles falam e assobiam, o costume de comer todo mundo junto, inclusive com os cachorros - e aí eu lembrei do livro do Daniel Everett, em que ele afirma que os pirahã "não acreditam em germes" - a não estocagem de nada porque eles não se fixam em lugar nenhum...
Marco Antonio Iusten
De tarde eu levei Agnes. Ela fez sucesso porque tinha um trabalho de ponto em cruz pra fazer pra escola e o pessoal ficou admirado da escola ensinar esse tipo de habilidade.

Wagner Gallo e Luiz Pereira

Celso Takashi, Vitor Bastos e Akemi Kamimura
Ela não aguentou nem ficar até a hora do coffee break... e eu perdi alguns conteúdos.
Maria Christina Barra

Mas eu entendi que a FUNAI foi aos poucos dando lugar a outras experiências, questões e abordagens. Essa abertura pra outros agentes falarem sobre os povos de recente contato foi percebida pelo público.
Antenor Vaz
Assim se pavimentou o terreno para o terceiro dia, sobre segurança alimentar e nutricional.

Idjarrury Kaingang

I Encontro de atenção à Saúde PIIRC

Foram alguns meses de reuniões preparatórias na segunda-feira de tarde com SESAI (Secretaria de Saúde Indígena, vinculada ao Ministério da Saúde), FUNAI e MPI. 

Maria Helena Ortolan 
Foram algumas dificuldades para trazer participantes (entre não respostas ao nosso convite, pendências no SCDP e conflitos de agenda).
Da direita pra esquerda: Clarisse Jabur, Raquel Paz e Tatiane Botelho
De repente virei um pólo de atração, concentrando um fluxo de informações sobre origem, destino, valor de diária, previsão de pagamento de diárias, lista de hotéis em Sobradinho (DF) e a van que não passaria nos hotéis.
Dr. Douglas
Entendi que seria mais seguro criar um grupo de whatsapp com todos os participantes que o MPI trouxe - achando que assim eles poderiam conversar entre si sobre caronas, onde jantar etc., mas o grupo teve outra serventia: juntar os bilhetes de viagem (pra prestação de contas).
Antenor Vaz
O Encontro é um desdobramento da Semana de Atualização dos Planos de Contingência em casos de risco de contato que aconteceu em setembro do ano passado. 
Liderança Yanomami
Dessa vez, o tema central não eram os povos isolados, mas os povos de recente contato. Pela nossa lista, são 25 povos que mantêm a língua materna e cultura e por isso deveriam ser sujeitos de políticas públicas diferenciadas. 
Kolareene Enawene
Por exemplo, um dos Enawene estava com pendência no SCDP. Pedimos pro DSEI (Distrito Sanitário Indígena) dar baixa no sistema pra podermos emitir a passagem dele pro Encontro. Quando resolveram lá em Cuiabá, já havia expirado o prazo de 15 dias antes da viagem. A moça que opera o nosso SCDP sugeriu que esse Enawene viajasse no dia 03, um dia depois de todos os outros enawene. Eu argumentei que não podíamos permitir que um indígena de recente contato viaje sozinho. De fato, no primeiro dia do Encontro, entendemos que ele sequer entende português.
Tatiane Botelho e Neli de Almeida
Aliás, o primeiro dia teve um tema de destaque: a barreira linguística que os povos de recente contato enfrentam. Antenor Vaz falava em "comunicação plena", os indígenas pediam intérprete, a FUNAI alertava que não bastava formar indígenas intérpretes. Espero que a SESAI tenha entendido que, se o Estado pretende oferecer atenção de saúde intercultural, diferenciada e específica, precisa aprender as línguas e concepções de corpo, saúde, doença, vida dos povos com os quais lida cotidianamente.
Lucinha Tremembé
Saúde não é só corpo, é preciso que os indígenas compreendam o diagnóstico, que sejam consultados sobre possíveis remoções pra tratamento em hospital - que costuma ser um local inóspito.
Mislene Tikuna
Quem tem a palavra inquestionada na nossa sociedade são o juiz, o padre e o médico. No sistema de Justiça, a pessoa tem o direito de se defender em sua língua materna e o sistema tem o ônus de arrumar um tradutor/intérprete. E no sistema de saúde, até onde vai a interculturalidade?
Rodolfo Ilário da Silva
Clarisse Jabur é, pra mim, o melhor exemplo do esforço intercultural. Falando metade em yanomami, metade em português, ela contou que aprendeu duas línguas yanomami.
Lucas Manchineri

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Comemoração da virada

Antes mesmo da totalização dos votos, o Datafolha tinha projetado a vitória de virada do Lula. Nos preparamos pra sair, buzinar e gritar. A Esplanada estava bloqueada pela polícia (provavelmente pra Celina Leão comemorar a reeleição dela ao governo do DF), então fizemos um monte de tesourinhas e rotatórias até chegar ao pé do Museu Nacional. Tudo vazio.

O barulho das buzinas e da comemoração vinha do alto da rodoviária, quando o Eixinho sobe por cima do Eixo Monumental. Caminhamos até a rodoviária, subimos as escadas e entendemos que a comemoração era uma carreata com gente buzinando. 

Eis que aparece um sujeito levantando a bandeira do Bolsonaro. Luis foi lá, abaixar a bandeira dele e pedir que vá se juntar ao seu grupo. A polícia veio em peso pra cima, de costas pro rapaz da bandeira - que se escondeu atrás de uma pilastra. Luis contou 11 policiais intimidando ele e argumentou que se uma bandeira vermelha aparecesse na comemoração da Celina, ela seria removida pelos policiais. 

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Malhar as palavras em ferro quente

Guerra é paz

Liberdade é escravidão 

Ignorância é força 

No capítulo 5 do romance 1984, Winston discute com o funcionário Syme sobre a elaboração da versão definitiva do dicionário de novilíngua. Ao invés de revisar definições, o trabalho é de eliminar palavras, na expectativa de que, com um vocabulário reduzido, as pessoas percam a capacidade de pensar. Parte-se da premissa de que se pensa pela linguagem e quanto menos linguagem, menos pensamento.

O Ministério da Prosperidade, proposta de Flávio Bolsonaro, utiliza uma palavra que circula no meio evangélico - inclusive como teologia da prosperidade: Vorcaro é membro da igreja batista da Lagoinha, o que impulsiona a sua carreira de banqueiro.

  

Os 4 ministérios descritos em 1984 são: Ministério da Verdade (responsável por falsificar registros históricos, reescrever jornais e controlar a mídia, a cultura e a educação para moldar a "verdade" oficial do Partido), Ministério da Paz (conduz a guerra perpétua contra as superpotências rivais para manter a população sob controle e escassez), Ministério do Amor (promove a vigilância, espionagem, tortura e "reeducação" de dissidentes até que "confessem" que amam o Grande Irmão) e o Ministério da Fartura (incentiva o racionamento gerando escassez intencional, pobreza e falsifica estatísticas de prosperidade). 

Que tesouraço é esse, que vem aliado a um Ministério da Prosperidade? Ele não explica onde serão os cortes e diz que as especulações que fazemos (ué, vai cortar de onde qualquer extrema direita negacionista cortaria: educação, saúde, programas sociais, servidores públicos) são fake news.

Preocupam as reduções de locais de votação, as mudanças de local de votação e as medidas do Tribunal Superior Eleitoral contra o Exército do Lula. Essas parecem ser atribuições do Ministério da Verdade, que já está funcionando nessa eleição: 

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Os morcegos e a esperança

O congresso tomado pela extrema direita e a possibilidade de legislar com as tintas do ódio são assustadores. É como se morcegos ou corvos tivessem tomado seus assentos, esperando o mestre.

"Krabat" é uma história de Ottfried Preussler. O menino Krabat vaga sozinho por uma paisagem devastada por guerras, fome e peste. Krabat é chamado por um corvo e convidado ao moinho. Faminto, o menino segue o chamado e recebe um teto, comida e trabalho num grupo de outros 11 meninos. Assim que Krabat fecha o grupo de 12, o moinho volta a funcionar.

Entendo que o povo brasileiro esteja sedento de mudança, se sinta atraído pelo discurso de "redemocratização" (não sabemos bem o que isso significa, já que a proposta de Flávio Bolsonaro envolve alterar a Constituição, tesouraço nos direitos trabalhistas e subsídios).

Krabat logo entende que o mestre faz o moinho funcionar por meio de magia negra e que todo ano um dos 12 meninos precisa morrer para o mestre seguir. A "escola negra" é um sistema fechado.

O clã Bolsonaro conseguiu se eleger apesar da pandemia, das denúncias e investigações de corrupção, apesar do desmonte das instituições - que só percebeu quem trabalha nelas e teve o esforço de reerguê-las. O coração do eleitor pertence ao mestre. Armas, misoginia, discurso de ódio, destruição e desmonte movem o coração dos eleitores como um cavalo negro numa cavalgada cega de fúria. Contra o sistema.

Krabat se apaixona por uma voz feminina que canta na noite de Páscoa. O mestre percebe que um dos seus 12 corvos entregou seu coração a outrem, mas não consegue determinar qual - ele não os conhece, são corvos, não pessoas.

É possível reverter a tendência que as pesquisas apontam? É preciso ter esperança e amor no coração. É preciso sentir pelo outro o que aguarda os vulnerabilizados: o marco temporal retirando garantias dos povos indígenas, o discurso de ódio contra não-brancos héteros machos e viris, a suspensão do que é tido como normal.

Com a ajuda de um companheiro-menino-corvo, Krabat aprende a ler a magia no livro que só o mestre pode manusear. Na última página do livro está escrito que o amor é mais forte que a magia. Com a ajuda discreta dos companheiros do moinho, Krabat consegue se aproximar da cantora - mas como ela - ou Krabat - enfrentaria o mestre?

Depois do luto, a luta. Começamos a agitar as redes sociais, passamos a fazer campanha para eleger um presidente que não destrua as conquistas populares nem o meio ambiente ou as pessoas que vivem dele (não pra ganhar dinheiro).

 

O mestre entrega a Krabat uma pá e ordena que vá cavar sua cova. Krabat se rebela, mas não é capaz de vencer o mestre num duelo. O companheiro-corvo ferido traz a moça e o mestre a desafia a reconhecer Krabat. De olhos vendados, ela o reconhece porque percebe o seu medo.

O congresso está eleito, os governadores e deputados também, a questão é a sucessão do mestre. Os morcegos não voltarão a ser meninos com a derrota do mestre, mas há esperança de que o interesse pelo coletivo e o tempo curem a sanha destrutiva.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Tentativas frustradas de adotar um gato

No meio do ano passado, Agnes e eu fomos atrás de gato pra adotar. Sabíamos que pet shops às vezes tinham gatos pra adoção, então começamos por aí. Entendemos logo que se tratava de animais resgatados e adultos. Fomos então numa feira de adoção de gatos e gostamos da Ravena. 

A mulher da ONG que nos deu a gatinha de 4 meses era atrapalhada com documentos, então acabamos não formalizando nada. Levamos a Ravena pra casa e só aguentamos cinco dias, porque a Ravena tinha uma diarreia incessante. Comia vorazmente, mas marcava a casa toda - em torno de 8 vezes por dia. Levamos na veterinária que fez ultrassom, coletou sangue, fez testes e receitou vitaminas. Me senti enganada por todos e concordamos que estava pesado seguir assim. Com o coração na mão, pedi pra moça da ONG levar a Ravena de volta.

Mudamos de estratégia e consultamos criadores de gatos com pedigree. Desembolsaríamos uma grana num gato provavelmente feio e bastante peludo, mas tinha uns ritos que a gente achou esquisito. Tinha que reservar um gato e pagar antes, esperar três meses pros gatos filhotes desmamarem e tomarem as vacinas. Tentamos visitar um gatil desses, mas disseram que não é aberto para visitas. Tentamos mesmo assim e a Waze nos mandou para um lugar afastado e residencial que não dava pistas de onde poderia ser o gatil. 

Desistimos do esquema e passamos a nos interessar por raças de gato. Siamês era o mais promissor, então procurei no OLX por um siamês no DF. Apareceu um anúncio em que a pessoa escrevia que morava na Asa Sul. Mas o siamês que ela tinha já não era mais o filhote macho da foto. E ela não tinha pix e viria de ônibus no dia seguinte às 10h e era possível que o telefone não tivesse sinal durante a viagem até aqui. Tentamos avisar que não queríamos mais o gato, mas nenhuma das mensagens/ligações foi atendida depois que as regras do jogo deixaram claro que não se tratava de uma pessoa que mora na Asa Sul. De repente uma senhorinha estava aqui, tocando a campainha, segurando uma gaiola fedida com um gato adulto assustado dentro. Ofereci de levar ela de carro para casa, mas ela não aceitou. Semanas depois, mandou mensagem cobrando o dinheiro da passagem - viria de ônibus pra receber.

Agnes falava da Ravena até pra quem não tinha perguntado. Explicava detalhes e voltava a ficar triste. Restava uma opção que não tínhamos testado: o Betina Cat Café. Ricardo Kato, diplomata do Itamaraty, tinha me contado que era amigo da dona do café e que recebia gatos na casa dele enquanto não eram adotados. Assim a filha dele tinha milhares de gatos volantes. Agnes e eu fomos no Café e entendemos que se paga por minuto pra ficar numa sala com vários gatos (eles chamam isso de gatoterapia) e que depois era possível adotar um daqueles gatos for free. 

Na segunda vez que fomos lá, levamos o Luis. Juntos escolhemos o Faísca e perguntamos se já podíamos levar o gato de nossa escolha. Não era tão imediato: tem um formulário no Instagram que precisa ser preenchido antes e teríamos resposta em no máximo 5 dias. Respondi no formulário que temos tela nas janelas, que não vamos deixar o gato ir pra rua, que nos comprometemos a comprar sempre ração super premium e pagar seguro saúde pet a partir de 19,90 o mês. No dia seguinte, Agnes levantou cedo (isso não é normal), perguntando: "O Faísca está aqui?" Dois dias depois do envio do formulário, retornamos ao Betina Cat Café para perguntar se tinham recebido o formulário. A atendente disse que não lidava com o Instagram e o processo de adoção e sugeriu que eu enviasse mensagem ao Café pelo Instagram. Fiz isso na mesma noite, mas continuei sem resposta. No quinto dia de ansiedade acumulada da criança, mandei mensagem no WhasApp para o Betina Cat Café. O silêncio continuou. Eu já tinha desistido, mas estava estranhando o destrato. Eis que, passada uma semana (7 dias) desde o envio do formulário em que a minha família manifestava interesse na adoção do Faísca, chegou mensagem no Whats cheia de figurinhas de gatinhos. Informava que o formulário tinha sido enviado à protetora. Junto vinha o contato de uma mulher cujo lugar do sobrenome era preenchido por "protetora". A pessoa do Betina Cat Café que usava o telefone do Café - onde ficava o Faísca - não me informou que o Faísca já tinha sido adotado por outra pessoa/família. 

Esse gato que a gente tanto quer tem que cair no nosso colo, porque quando eu corro atrás, não dá certo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Yoshitaka Amano no CCBB

 Agnes e eu fomos ver a obra da vida de Yoshitaka Amano no Centro Cultural do Banco do Brasil.

Agnes ficou tentando imitar as posturas dos heróis enquanto eu ficava intrigada com a variedade de personagens e dificuldade para determinar (a partir da curadoria) um elemento comum e característico do artista.

Passamos a tarde entre monstros, anjos, donzelas e guerreiros. Em casa, Luis perguntou se havia conexão com Hayao Miyazaki. Acho que são duas linhas que não se cruzam... a fonte de inspiração para Amano é Osamu Tezuka.


domingo, 23 de agosto de 2026

Vacinação em dia

Rolou nos grupos da escola da Agnes um aviso de que sábado era dia de colocar a vacinação em dia. Fomos os três para o posto. Agnes estava com a vacinação em dia, só deram a vacina da dengue pra ela. Nós adultos tomamos muito mais vacinas que ela. Quando eu disse que trabalho com povos indígenas, me deram o pacote completo: gripe, covid, tríplice viral, hepatite b e tétano. Duas picadas em cada braço e uma na perna! Me senti doente depois dessas cinco vacinas...

domingo, 16 de agosto de 2026

Cagaiteira

 

Quase parece um ipê branco, mas as flores são pompons, os galhos caem e a casca do tronco é mais parecida com as outras árvores do cerrado que aguentam essa seca longa.

Todas as folhas verdes caíram num dia e no dia seguinte apareceram os botões das flores que foram se abrindo. Muitos pássaros entram na cagaiteira que parece um vestido de noiva.
As novas folhas serão vermelho-marrons e depois virão os frutos.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Pass

Quando a gente morava em São Paulo, fazia o passaporte alemão no consulado. Quando foi preciso fazer nova documentação pro Harro, fomos ao consulado em Porto Alegre.

Agora que moramos em Brasília, estamos sob a jurisdição do Rio de Janeiro. Brasília, como capital do país, concentra todas as embaixadas, mas quem emite passaporte continua sendo o consulado - e a alocação de consulados tem mais a ver com a concentração de população originária/descendente do que com a organização política do país sede.
Eu tenho dupla cidadania por causa do Harro (minha mãe nasceu em Porto Alegre, ao passo que todos os seus irmãos nasceram na Alemanha) que nasceu na Alemanha. Minha filha pode ter dupla cidadania com base na cidadania alemã do avô. Penso que os filhos dela (se os tiver) já não terão esse direito com base na cidadania do Harro.
Um dos documentos exigidos para solicitar a renovação do passaporte é o desregistro na Alemanha (quando fui na prefeitura de Bassum em 2004 pra avisar que a minha nova moradia estava no Brasil). Eu não lembrava se eu tinha feito isso, então minha mãe foi lá, perguntar. O funcionário lá, notando que tinha inclusive expedido o meu último passaporte (não ele, exatamente, mas a instituição), orientou que eu fosse na embaixada de Brasília pra solicitar que Bassum renovasse o meu passaporte. 

Mesmo sabendo que a embaixada não captura digitais nem faz os trâmites pra emissão de passaporte, liguei lá e confirmei o que eu já sabia. A novidade era que Anápolis foi mencionada como uma unidade que "às vezes" faz passaporte. Achei tudo muito confuso e marquei horário de atendimento no consulado geral do Rio de Janeiro, comprei passagem e reservei hotel que fica equidistante do consulado e aeroporto Santos Dumont. Fiz tudo a pé.
Depois de todos os documentos conferidos, assinaturas firmadas e digitais confirmadas, escrevi meu endereço no envelope que me trará o passaporte, paguei a taxa e perguntei qual seria a documentação necessária para a minha filha solicitar a cidadania alemã. O funcionário respondeu com uma pergunta: você veio ao Rio só pra fazer seu passaporte? Sim. Então, para o da sua filha, vá ao consulado honorário de Anápolis. Eles não emitem passaporte, mas encaminham a sua documentação para cá. Os custos dos Sedex serão menores que os custos da viagem...

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Circo Caramba

Sales mandou um card avisando que estaria em Brasília no fim de semana com o espetáculo Jerônimo Show. Ele já tinha vindo ano passado pelo SESC e eu tinha chamado os amigos da Agnes (Ana Luiza e Antônio) e os pais dos dois colegas dela foram parar no palco. Daí o Sales me mandou a programação do Fest Clown - evento em que o espetáculo estava inserido - e eu compartilhei a programação com a turma da escola da Agnes. 

A apresuntação foi sucesso total, com o maior e mais empolgado público, cheio de gente conhecida (vizinhos, pessoal da FUNAI e IPHAN). Pra minha surpresa, conseguimos reunir 3 tapioquenses: Lívia (que mora em Brasília, mas eu nunca tinha visto aqui), Sales e eu.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

E quem é?

 

No segundo dia, Harro me reconheceu e cumprimentou com jovialidade. 

- Eu vou pra lá. Você vem junto? 

E nessa brincadeira caminhamos por todo o lar. 

- Tá frio aqui. Eu vou pra lá. Você vem junto? 

O pessoal que trabalha lá era outro, parece que há um revezamento, então quase ninguém me conhecia. Perguntavam pra ele: e quem é essa?

- É minha mulher. 

Ninguém acreditou. 

Tenho cá pra mim que ele não se vê. Ou não se reconhece como sendo ele mesmo. Já foi assim quando tentei fazer o reconhecimento facial pelo aplicativo do banco. Ele perguntava quem era aquela pessoa. Quando tirei foto de nós dois, ele também ficou intrigado com a pessoa na foto. Mais que isso, ele não tem ideia da idade dele - tanto é que ano passado teve medo que Agnes fosse sua filha.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Barbaridade

 

Vim para Estância Velha para atualizar o cadastro do Harro no CRAS (consegui!). A luz piscou, a energia caiu e voltou, e tudo que a funcionária tinha digitado não estava mais na tela. Ela respirou e fez tudo de novo. A impressora não quis imprimir, mas tinha a outra e assim pude assinar pelo Harro que todos os documentos dele estão em ordem.

Harro está caminhando com ajuda (tiraram a bengala dele, porque ele ameaçava as pessoas), ensaia movimentos de sentar e levantar antes de executá-los num impulso, dorme bem e come bem. O que me chamou atenção dessa vez é que só falou uma palavra: barbaridade. Todo o resto da comunicação foi gestual.

Quase todos que trabalham no Lar me perguntaram se ele me reconhecia. Não como filha, mas como pessoa conhecida. Só falei alemão com ele, o que deve ter reforçado o sentimento de familiaridade.

Perguntei pra minha mãe qual compositor ele gostava de ouvir. Baixei Tchaikovsky e Smetana no Spotify, pra não depender de sinal lá no Morro Agudo e levei os fones pra ele. Ouviu, fechou os olhos, se recostou na cadeira e logo depois tirou os fones com cara de desdém. Era hora do lanche.

A vida no asilo é espera. Barbaridade... 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Lupas nos olhos

Fui no oftalmologista pra fazer exames periódicos (que, como servidores, fazemos) e ele disse que eu precisava encomendar novos óculos, porque tinha aumentado o meu grau. Eu tenho umas 3 dificuldades óticas, mas o óculos é pra perto.

Quando o grau era 1,5, eu conseguia ver até mais ou menos um metro de distância com os óculos. Mais longe que isso, embaçava tudo. Agora eu precisava de 2,75. Deixei um óculos em casa e levei o outro na ótica, pra aproveitar a armação. Como demoraria uma semana pra ficar pronto, eu precisava garantir um óculos, já que não consigo mais ler nada no celular sem óculos.

Fui na ótica, escolhi entre muitas armações, modelos, cores, e quando o desempate caiu entre dois, nenhum dos dois estava na faixa de preço que eu achava razoável. Acabei escolhendo um que eu tinha testado e que não era assustadoramente caro. 

Os óculos novos me dão dor de cabeça... o grau é muito forte, preciso movimentar o objeto que vou ler ou a minha cabeça pra acertar a distância perfeita pra atingir a nitidez. Poucos centímetros pra frente ou pra trás significam a opacidade devastadora. São lupas, os meus novos óculos.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Poda drástica

 

Brasília tem uma grande quantidade de áreas verdes e a prefeitura conta com um serviço de jardinagem bastante ativo: replantam flores nos canteiros, regam com caminhão pipa, fazem poda, recolhem galhos e folhas deixados nas calçadas.

Quando a sibipiruna na ponta de lá da praça perdeu galhos (arrastando outros, de outra árvore), os homens vieram de caminhão e passaram mais de um dia trabalhando. Deixavam os galhos cortados caídos em cima dos cacti plantados pelo Luis, juntavam galhos em cima de canteiros feitos pelo Luis e derrubavam plantas plantadas pelo Luis quando arrastavam os galhos para a calçada, onde o caminhão os pegaria depois.

Quando foram embora, deixaram um lixão de acampamento: marmitas, copos e plásticos, além de fezes e cheiro de mijo. Além de limpar o lixo deles, Luis ainda reposicionou grande parte dos galhos para o outro lado da rua.

Dessa vez, a prefeitura foi acionada porque as árvores que cobrem o estacionamento estavam largando muito material em cima do telhado do bloco (de 2 andares). Pediram pra todo mundo tirar os carros (não temos garagem coberta) e podaram as árvores. Só que podaram também as árvores da praça que não ficam perto do prédio.

E essa poda foi radical. Desconfio que a placa que Luis colocou no tronco do abacateiro pedindo pros vizinhos recolherem as fezes de seus cachorros salvou a árvore - porque a outra metade foi cortada.

Essa outra árvore foi alvo de corte raso. Não entendemos por que fizeram isso.