quarta-feira, 24 de junho de 2026

Poda drástica

 

Brasília tem uma grande quantidade de áreas verdes e a prefeitura conta com um serviço de jardinagem bastante ativo: replantam flores nos canteiros, regam com caminhão pipa, fazem poda, recolhem galhos e folhas deixados nas calçadas.

Quando a sibipiruna na ponta de lá da praça perdeu galhos (arrastando outros, de outra árvore), os homens vieram de caminhão e passaram mais de um dia trabalhando. Deixavam os galhos cortados caídos em cima dos cacti plantados pelo Luis, juntavam galhos em cima de canteiros feitos pelo Luis e derrubavam plantas plantadas pelo Luis quando arrastavam os galhos para a calçada, onde o caminhão os pegaria depois.

Quando foram embora, deixaram um lixão de acampamento: marmitas, copos e plásticos, além de fezes e cheiro de mijo. Além de limpar o lixo deles, Luis ainda reposicionou grande parte dos galhos para o outro lado da rua.

Dessa vez, a prefeitura foi acionada porque as árvores que cobrem o estacionamento estavam largando muito material em cima do telhado do bloco (de 2 andares). Pediram pra todo mundo tirar os carros (não temos garagem coberta) e podaram as árvores. Só que podaram também as árvores da praça que não ficam perto do prédio.

E essa poda foi radical. Desconfio que a placa que Luis colocou no tronco do abacateiro pedindo pros vizinhos recolherem as fezes de seus cachorros salvou a árvore - porque a outra metade foi cortada.

Essa outra árvore foi alvo de corte raso. Não entendemos por que fizeram isso. 


terça-feira, 16 de junho de 2026

Chuvas de junho em Brasília

Semana passada choveu 4 dias seguidos. Foi chuva boa, que fez a grama voltar a se mostrar verde, não foi chuva de florada que dura só um dia. Nos dois primeiros dias, choveu na hora do almoço. No terceiro dia, choveu o dia todo e no último choveu à noite. 

Já estávamos há mais de 2 meses sem chuva, os ipês estavam começando pelos roxos e aí veio uma frente fria subindo do sul que colidiu com o calor vindo do Pacífico: El niño.


 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Memória e conexão

De trás pra frente, a semana passada encerrou com um evento na Funai sobre memória dos indigenistas mortos: Maxciel Pereira dos Santos (Vale do Javari), Rieli Franciscato (Uru Eu Wau Wau), Bruno Pereira (Vale do Javari) e Adonias Jaboti (Vale do Guaporé) e outros que Beto Marubo enumerou com a ajuda dos mais velhos (lembra, Sydney?). Estavam na plateia Wellington Figueiredo e Sydney Possuelo, formuladores da política de não-contato adotada pela FUNAI a partir de 1987. 

Wellington Figueiredo no microfone
Ambos foram convidados a falar. Sydney reclamou que, na reestruturação da FUNAI, a carreira de sertanista deixou de existir e Wellington olhou para a plateia colorida e disse estar feliz com essa nova geração que está aí. 


Sydney Possuelo

Agnes (que não tem contraturno de sexta-feira) me acompanhou nesse evento e em outro, no MPI, em que recebemos os certificados de conclusão de curso (3 meses!) sobre parcerias MROSC. O grupo de pessoas ligadas à mesma secretaria (no meu caso, a SEDAT), teve como tarefa trabalhar cenários e possibilidades de um estudo de caso (fictício) envolvendo vigilância territorial.

Grupo 1 (SEDAT) com professora no meio
Na noite anterior, teve o evento de premiação do concurso Dom Phillips e Bruno Pereira no Itamaraty. A memória de Bruno e Dom estava tão presente, que, na longa mesa de abertura, o primeiro a falar sobre o concurso de jornalismo investigativo foi Capobianco (MMA). Djuena Tikuna cantou o hino em ticuna e eu voltei pra 2024, quando ajudei a organizar o evento em memória de Bruno e Dom.
 
Sidônio (SECOM) fez a fala mais forte, inclusive atendendo ao pedido histórico dos peticionários da Medida Cautelar 449 de 2022: formulou um pedido de desculpas pela ausência do Estado. Ouvindo o Sidônio, entendi por que a SECOM tinha assumido o concurso e não o MPI.
As duas viúvas também falaram e a premiação propriamente dita trouxe a público reportagens de texto, fotojornalismo, audiovisual e iniciativas de povos tradicionais - tanto indígenas como de matriz africana bem instigantes. Fiquei particularmente curiosa em relação ao podcast "Dois Mundos", que trata de um caso de descompasso trágico pelo qual passaram pessoas pertencentes a um povo de recente contato.


E ao longo de três dias estive na Escola Superior do Ministério Público da União - com pessoas que reencontrei nos outros eventos - para um curso sobre populações indígenas de recente contato e isolados. O curso foi iniciativa do Daniel Dalberto do MPU, mas eu percebi (pelos suspiros e olhares pisados) que ele aprendeu mais que nós. 

Tivemos aulas com Carla Rodrigues sobre saúde Yanomami e o alcance dos braços da SESAI; com Janete (DPT/Funai) sobre a história da Funai e as demarcações de terras indígenas; com Dominique Gallois (Iepé) sobre políticas públicas para povos de recente contato, especificamente Waijampi e Zoé; com Daniel Cangussu (FPE Madeira) sobre vestígios de povos isolados Tupi; e com Awamirim Tupinambá (CGIIRC/Funai) sobre o reconhecimento que a Funai deve aos (mateiros) colaboradores indígenas nas Frentes de Proteção Etnoambiental. 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Undine

Vi um filme alemão chamado Undine (2020) e fiquei intrigada: o livro que eu li tantos anos atrás - e que foi traduzido para o português com o título Ondina - conta a mesma história?


Botei o livrinho na fila de leitura e me surpreendi: a história de Undine se parece mais com a de Rusalka. Só que Undine tem uma homóloga que nem o filme nem a ópera mostram: Bertalda.
Undine foi criada por um casal de pescadores que vivia numa península. Eles haviam perdido a sua criança pequena para um ser das águas. E das águas veio Undine, com a mesma idade da criança perdida. Undine é um elemento da Natureza: os pais adotivos a amam muito, mas têm dificuldade de lidar com o seu humor variável, com as peças que prega, com a ausência de maturidade da pessoa que vai crescendo.
 
Quando Undine é adulta, chega um cavaleiro à casa da pequena família. Huldbrand von Ringstetten logo se encanta com Undine e vice-versa. Ele vinha de um torneio em que havia se interessado pela princesa Bertalda. Quando lhe pediu a luva (ele podia ter pedido outra coisa, mas pediu a luva), ela lhe impôs uma condição: só se atravessar a floresta escura. Ele foi, o tempo virou, as águas subiram e ele foi se refugiar numa casa de pescadores.
 
Logo em seguida, outro temporal traz para a casa do casal de pescadores um religioso que concorda em unir o casal Huldbrand e Undine.
Depois da noite de núpcias, Undine se transforma: é como se ela tivesse ganhado uma alma. Devota, obediente e centrada, Undine conta ao marido que é um ser da água. Huldbrand leva a esposa para o seu castelo e promove uma festa. Bertalda, que ficou esperando o cavaleiro retornar, foi na festa e se encantou com o casal. Durante a festa, um ser das águas veio contar um segredo a Undine. Ela revelou o grande segredo no aniversário de Bertalda: Bertalda era a criança que os pescadores haviam perdido para as águas. Bertalda, vendo o casal de pescadores, não gostou de ter pais tão pobres. Tinha sido adotada por rei e rainha, não se via como filha de pescadores. Os pais adotivos dela ficam chocados com a soberba dela, os pais verdadeiros ficam ofendidos e Bertalda acaba ficando com Undine e Huldbrand.
 
Eles vivem bem, mas Bertalda vai alimentando desejos pelo Hulbrand e ele gostaria de poder satisfazê-los. Os seres da água passam a atormentar tanto Huldrand como Bertalda. Undine é frequentemente visitada por um espírito da água que vem da fonte. Ela explica a Hulbrand que se ele perder a compostura com ela perto da água, ela será buscada pelos seres da água. Ele entende e ela pede para colocarem uma pedra enorme em cima da fonte, para que o espírito da água não possa mais incomodá-los. Escreve sinais na pedra que só ela entende para impedir que Kühleborn venha atormentá-los.

Bertalda entra em parafusos quando vê a fonte fechada: como vou manter a minha pele fresca e limpa sem essa água que tem poderes curativos? Sai do castelo transtornada e se embrenha na floresta escura. Huldbrand vai atrás dela, é enganado por uma miragem, se depara com Kühlebron e é salvo por Undine. Os três voltam ao castelo e seguem uma vida comportada até que um deles tem a ideia de fazer um passeio de barco no Danúbio.
 
As águas se agitam, as ondas ameaçam virar o barco e Hulbrand grita com os seres da água e por extensão com Undine. Os seres da água vêm buscar Undine que some na espuma das águas. Huldbrand não sabe se ela está viva ou não e retorna ao castelo com Bertalda. O pai dela, o pescador, não acha certo que seu genro viva com sua filha sendo casado com Undine e vai buscar Bertalda. Ela não quer ir e a solução é um segundo casamento de Huldbrand. 

Undine aparece nos sonhos do padre e de Huldbrand. O padre, convocado a casar Huldbrand com Bertalda, se nega a celebrar o matrimônio, mas fica nas redondezas porque intui que terá que fazer outro serviço. Huldbrand fica dividido, chora pelos cantos e aguarda o desenrolar dos fatos. Bertalda ordena que removam a pedra sobre a fonte, afinal, quer se preparar devidamente para o seu casamento.

Na noite do casamento, antes ainda do casal se encontrar para as núpcias, Undine sai da fonte e vai até Huldbrand. Ele aceita o beijo da morte que ela lhe dá e chamam o padre para enterrar do cavaleiro.

"Dann musst du sterben" é a única frase que identifico que aparece tanto no filme como no livro. Mas as condições para que Hulbrand morra são diversas - aliás, não saberia dizer quem é Huldbrand no filme, já que Undine fica entre dois homens. Uma coisa é certa: a morte. Se não fosse assim, não haveria herói nem tragédia.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Seminário Nacional de Vigilância Territorial Indígena

Participamos de muitas reuniões de preparação desse evento que tinha como objetivo reunir lideranças de uns 30 territórios indígenas que pudessem compartilhar suas experiências de vigilância territorial. Foi criado um grupo de zap para trocarmos informações entre nós e havia um link para todo o material (planilhas de quem vem, programação, material), mas parece que o link só funcionava para quem tinha email da Funai. O evento era da Funai, o MPI pagou diárias e passagens e acompanhou a preparação. 

O artista gráfico pegou uma imagem de rio e procurou um corpo hídrico que tivesse o formato de olho. Depois ele colocou essa pupila amendoada no meio, como se fosse olho de animal e espalhou cílios-pontas de flecha em formação de cocar. 

Reparou que só tem mulheres na foto dessa última reunião? 

Quando, numa das últimas reuniões, estávamos passando pela programação, havia um bloco com relato de experiências emblemáticas: Univaja que era Civaja (no Vale do Javari) que é pioneira e agora está oferecendo formação para outros povos; Urubu Branco e Munduruku (porque lá as mulheres é que tomam a frente). Mencionei que o MPI tinha acabado de encerrar um curso de formação em vigilância com os Yanomami - e que o curso tinha sido feito em parceria com a Univaja. Pagu decidiu que então, além das três experiências, ainda cabia essa e anotou: Yanomami.

Só que Yanomami é um universo. Ao ler o nome do povo que ocupa a maior terra indígena do Brasil, a Funai pensou na Hutukara, a associação fundada pelo Davi Kopenawa. E a gente pensava nos jaguares e kopariri que fizeram o curso de formação. Vieram todos - e fez sentido, porque os Yanomami são de recente contato, ou seja, não falam muito português. A Hutukara desenvolveu, com o ISA, um aplicativo de alerta em que o parente podia gravar um áudio em língua indígena e transmitir pra Hutukara que traduzia e passava a denúncia para a Casa de Governo instalada no contexto da emergência Yanomami. 

Eu estou atrás de um cocar 

No primeiro dia, a primeira mesa foi formada por autoridades tanto da Funai como do MPI. Quando nossa nova Secretária Nacional recém chegada na SEDAT subiu, foi muito aplaudida. Lúcia Alberta, satisfeita, disse que ela era só emprestada pro MPI e que ela ia voltar pra Funai. 

Quem conhece e cuida do território são os indígenas. A Funai tem poder de polícia administrativa, ou seja, não pode prender alguém por ilícitos, mas pode acionar as forças de segurança pública. Fiscalização (controle e apreensão/destruição de materiais) é o que as forças de segurança pública fazem, os indígenas fazem vigilância - que não é reconhecida nem regulamentada. Então o seminário era um convite para os parentes dizerem pra Funai como fazem a vigilância, o que precisam e como o pessoal que faz a fiscalização deveria se comportar. Teve feira de experiências com fotos, mapas e relatos.

No primeiro dia, as quatro experiências apresentaram fotos e relatos para a plenária. Teve gente que achou estranho ver três pessoas do mesmo povo (Yanomami) apresentando e a solução foi iniciar o segundo dia com experiências extra: Xingu e Xukuru. O pessoal da facilitação tinha contratado uma equipe que faz esses desenhos. Tanto o desenhista como a colega dele estavam na plenária, ouvindo e vendo tudo, mas ela anotava conceitos e palavras-chave em post-its.
No último dia, todos os painéis que ele tinha desenhado foram apresentados na tela grande com zoom, pra todo mundo lembrar e ver o que tinha sido dito ao longo do seminário.
Aliás, essa parte da metodologia foi bastante elogiada. No primeiro dia, ainda na fila pro cadastro, cada um pode escolher um entre quatro GTs: tecnologia, financiamento, monitoramento e comunicação. Escolhido o GT, a pessoa ganhava um adesivo que era colado no crachá com o nome do participante. Do segundo dia em diante, nos reunimos em quatro salas separadas para debater sobre avanços, propostas, demandas e diretrizes para uma política de vigilância protagonizada pelos povos indígenas. Ideias eram anotadas em tarjetas pra que o que fora discutido permanecesse visível. E na hora de escolher prioridades, ganhamos 5 adesivos de bolinhas vermelhas pra colar nas tarjetas. 

Saindo no intervalo de uma discussão em GT, reparei que o meu departamento tava sentado ali fora com a Secretária. Sentei com o pessoal e fui acompanhando a conversa. Gostei de falar sobre Tanaru para a Secretária. 

Daqui pra lá: Beatriz Matos (diretora), Luciana (consultora), Samara (coordenadora), Edilena (Secretária) e Paulo (coordenador-geral)

Na plenária de encerramento, a facilitadora quis mostrar só as diretrizes pra Funai que tínhamos discutido nos GTs. A liderança do Xingu não gostou: conversamos tanto sobre tantas coisas nos grupos, eu queria ver essa discussão aqui. A liderança Krahô concordou: nós falamos de muito mais que vigilância, falamos sobre o cuidado com o território. No fim, avaliando a decisão de ter passado por todas as tarjetas que todos os grupos escreveram, veio a avaliação: fiquei contente de ver que os grupos falaram também de proteger os nossos parentes desconfiados (leia-se: isolados). 

No primeiro dia de GT, os Xerente quiseram encerrar os trabalhos com uma cantoria. Formamos o círculo, aprendemos os passos e até as palavras. Perguntei o que significava o canto e ele riu. É um canto de despedida: oh, meu povo, estamos indo embora, mas gostamos de vocês. Os parentes adoraram.

No momento da liderança Munduruku apresentar para a plenária o que tinha sido discutido no GT, ela preferiu cantar. 

O jaguar (em cima da mesa) cantou para a grande roda. 

E no fim, depois que algumas lideranças tinham escrito seu nome em tarjetas para serem considerados membros de um GT que vai monitorar as ações da Funai em relação à vigilância indígena e Janete ter anunciado que essas tarjetas seriam transformadas numa portaria, os Xerente voltaram com o canto de despedida. 

domingo, 24 de maio de 2026

Laternennacht

Minha luz acendeu,

O Sol agora sou eu!

Esse foi o refrão entoado com mais entusiasmo pelas crianças que apresentaram a peça sobre a garota que parte em busca de luz para a sua lamparina.

 

Essa foi a primeira festa da Lanterna na nova escola Moara. As crianças não tiveram que sair da escola com suas lanternas, puderam se reunir na quadra em volta da fogueira e não houve apreensão em relação às árvores e a fogueira. 
O vento anunciava uma estação do ano mais fria, as crianças cantavam sua autonomia.

sábado, 16 de maio de 2026

Mais um siso se foi

Uns vinte anos atrás, os dois sisos de cima me foram extraídos. Os de baixo ficaram. Ao longo do último ano, as cáries foram se instalando nos sisos de baixo e o dentista disse que não valia a pena restaurar siso, que era melhor extrair.

Marcamos a cirurgia pra 16h30 da sexta-feira. Na véspera, a secretária avisou que o cliente das 15h30 tinha faltado e perguntou se eu não podia chegar antes. Posso. Um tempo depois, avisou que o cliente das 14h30 também tinha desmarcado. Posso. 

Saí de lá às 17h30. Foi um parto. Pra dentista e pra assistente foi uma luta. A dentista olhava pra imagem do raio x e ficava se perguntando como é que as raízes estavam posicionadas. Quando eu esquivava, ela perguntava se era dor ou pressão que eu sentia. Pra exemplificar pressão, ela apertou o meu ombro. Mas o que eu sentia era o alicate (que ela chamava de fórceps) puxando o meu dente pra fora - o contrário de pressão. A dentista foi me enchendo de anestesia durante o processo, cheguei a ficar exausta de tanta contração. No final, eu não sentia mais nem dor nem pressão, só era assombrada pelos sons de dente quebrando. 

Me deu atestado de 5 dias. Com a cabeça cheia de anestesia, fui buscar Agnes no contraturno e as minhas coisas no MPI. Quando for extrair o outro, que ainda falta, vou numa segunda-feira, pra esse atestado ser melhor aproveitado. E vou avisar que 1h não será suficiente.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Parque Nacional Povos Indígenas do rio Tanaru

O filme Corumbiara (2009) de Vincent Carelli (nosso Adrian Cowell), começa em 1986, na gleba Corumbiara, fazenda Ivipytã, em que havia acontecido um massacre de povo indígena. Apesar dos vestígios identificados por Marcelo Santos (Funai), e Polícia Federal, a Funai (Sidney Possuelo) desinterditou a área interditada judicialmente e Marcelo foi proibido de retornar à região. Mas Marcelo Santos e Vincent Carelli insistiram. Uma vez Chefe dos Índios Isolados em Rondônia, Marcelo Santos ganhou autonomia para retornar a Corumbiara - dessa vez com o assistente Altair Algayer.

Em 1995, foram à fazenda de Antenor Duarte acompanhados por dois jornalistas do Estadão. Acontece então o contato com dois Kanoê, a Justiça interdita a Terra e logo depois membros do MST são massacrados no que ficou conhecido como o Massacre de Corumbiara. Faroeste. 

Havia um falante de Kanoê em Guajará-Mirim, levado pra lá nos anos 50 pelo SPI (Serviço de Proteção aos Índios) pra liberar o espaço para os seringalistas. Faroeste com suporte do Estado. Esses dois Kanoê que Marcelo contactou provavelmente tinham ficado pra trás nesse movimento do Estado de remover indígenas como se fossem animais. 

Os Kanoê condiziram a equipe da Funai aos Akuntsu: um grupo isolado leva a outro e ambos seguem sendo de recente contato até hoje. Daí veio, em 1996, a notícia (contada por funcionário de serraria) de uma maloca de índio a 40km de onde estavam. Os Kanoê (tanto os recém-contactados como o senhor idoso de Guajará-Mirim) toparam fazer essa expedição. Encontraram vestígios na madeira das árvores (cortes), um buraco fundo com estrepes dentro e a maloca abandonada - com um buraco dentro. Os vestígios confirmam a existência de um (grupo? povo?) isolado, mas as interdições eram temporárias, era preciso comprovar periodicamente que os vestígios apontam para pessoas.

Em 1998 (1h33' no filme) Altair Algayer faz uma parada na frente da palhoça e diz: "ele tá dentro da casa". Marcelo, Vincent e Purá Kanoê esperam do lado de fora e acompanham os movimentos da ponta de uma flecha que mira neles de dentro. Eles oferecem comida, fazem fogo, esperam, mas durante as 6 horas que rodearam a palhoça, o "índio do buraco" não emitiu um som sequer, nem se deu a ver. Perante a Justiça, o "índio do buraco" só passou a existir quando sua imagem foi divulgada. Interdições judiciais garantiram que não houvesse tentativas de contato por parte de fazendeiros, peões ou jagunços, mas elas caducavam.

Nos anos seguintes, o pessoal da Funai percebeu que o "índio do buraco" abandonava a sua palhoça toda vez que percebia que estava sendo monitorado e fazia uma nova morada (com buraco dentro) mais adiante. Depois do primeiro avistamento, passaram-se 4 anos até que o "índio do buraco" fizesse sua primeira roça, tal a desconfiança. Quando a Funai entendeu que ele se fixaria no território, uma conjunção inusitada se deu: para não entregar as terras da fazenda ao MST, o fazendeiro fez um acordo com a FUNAI e em 2006 saiu a primeira Portaria da Restrição de Uso.  

Gosto desse mapa (da autoria de Altair Algayer) que está no Relatório de Fundamentação da Destinação da Terra Indígena Tanaru apresentado ao STF no âmbito da ADPF 991, cujo relator é Edson Fachin. O mapa mostra em vermelho a área que foi interditada judicialmente entre 1988 e 2006. A primeira palhoça (representada por um triângulo) estava fora dessa área. Nem com a lupa eu consegui ler todos os números de habitação, mas sei que foram 53 no total. A área em verde representa a área de mais ou menos 8 mil hectares abrangida pela Portaria de Restrição de Uso da Funai. Caducou e foi renovada em 2009, 2012, 2015 e a última foi válida por dez anos, ou seja, o impedimento de acesso à área foi até 2025 (Tanaru faleceu em 2022). Essa área verde é floresta. Ao redor, a fazenda é pasto e monocultura.

Perceba que o território da TI Tanaru sofreu alterações: o que era o lote 37 da Fazenda Modelo passou a incluir os lotes 36 e 46 da Fazenda Sorcel. Trocando em miúdos, a TI Tanaru era composta de partes de fazendas. Essas terras trocaram de dono ao longo dos anos. E como esse território correspondia à reserva de floresta das fazendas e não continha imóveis, não houve "vantagem" para os fazendeiros.

Após o falecimento do indígena, constatado em 2022, dois processos judiciais relativos à regularização fundiária da TI Tanaru começaram a correr em paralelo: de um lado, a ADPF 991, na qual a APIB acionou o STF contra a União Federal em razão da não regularização fundiária das TIs ocupadas por povos indígenas isolados; de outro, a Ação  Civil Pública movida pelo MPF pela Justiça Federal de Vilhena-Rondônia. No caso da ACP, em audiência de conciliação realizada em 2024, o juiz de Vilhena - RO determinou sua suspensão em função da tramitação da ADPF 991, que versa sobre o mesmo tema e corre em instância superior. (Relatório Tanaru, 2025, p. 17)

Pois é. Temos apenas duas TIs homologadas para uso exclusivo de povos isolados: Massaco (RO), a primeira, e Hi-Merimã (AM). Kawahiva do Rio Pardo (MT) só foi declarada, ao passo que Pirititi (RR), Piripkura (MT), Ituna-Itatá (PA), Jacareuba-Katawixi (AM), Mamoriá Grande (AM), Mashko Piro do rio Chandless (AC) e Igarapé Taboca do Alto Tarauacá (AC) são interditadas por Portarias de Restrição de Uso. A ADPF 991 determina (1) a reestruturação da FUNAI para melhor atender aos povos isolados e (2) que todas as Portarias de Restrição de Uso sigam vigentes até a demarcação (homologação) ou até que se descarte a existência de indígena isolado na terra. 

E por que existem essas Portarias de Restrição de Uso? Porque o rito demarcatório tem, em sua primeira fase, um Relatório Antropológico que comprove ocupação indígena tradicional. Como etnografar um povo isolado? O que Altair e Cangussu (suponho que tenham trabalhado nisso) fizeram pra que Massaco e Hi-Merimã fossem demarcadas é entender, pelos vestígios dos isolados, qual é a área que eles ocupam permanentemente, usam para suas atividades produtivas, para preservar os recursos ambientais e para a reprodução física e cultural (lugares sagrados e cemitérios inclusos). 

A Lei 14.701, já com o Marco Temporal incluso, que regulamenta o artigo 321 da Constituição e explica o rito demarcatório, determina que: 

Art. 4º São terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas brasileiros aquelas que, na data da promulgação da Constituição Federal, eram, simultaneamente:       (Promulgação partes vetadas)

I - habitadas por eles em caráter permanente;

II - utilizadas para suas atividades produtivas;

III - imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar;

IV - necessárias à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.

A reprodução física do "índio do buraco" não era possível desde 1996, quando se entendeu que ele era o último sobrevivente de um povo. No caso dos Piripkura - são dois homens, tio e sobrinho - essa reprodução física também não vai acontecer. E talvez esse tenha sido um argumento pra que a TI Tanaru não tenha sido declarada Terra Indígena depois da morte do "índio do buraco". O outro argumento é que se trataria de uma terra indígena sem indígena.

Teve uma reviravolta - que provavelmente não seguirá adiante, mas enfim. Quando o "índio do buraco" foi encontrado sem vida por Altair, o MPF de Vilhena solicitou a coleta de material genético para determinar a etnia do "índio do buraco". Ora, cultura não se classifica a partir da biologia. Na notícia que saiu domingo passado no Globo, o MPF Vilhena defende que há um outro povo que se autodenomina Guaratira/Tanaru que reivindica o território da TI Tanaru como seu território ancestral. Pena que não habitavam a TI Tanaru em caráter permanente, né.

A TI Tanaru é fruto de um acordo com fazendeiros - que contavam com a finitude do povo Tanaru. Com a criação do Parque Nacional, uma Unidade de Conservação Integral, está prevista a indenização aos fazendeiros pelas terras. Quando é criada uma Terra Indígena, reconhece-se o direito originário ao território, o que torna nulos todos os títulos de propriedade particular, porque a TI é terra da União. Assim sendo, quando é demarcada uma Terra Indígena, a indenização recai não sobre a terra, mas sobre as benfeitorias se for comprovada boa fé de quem ocupou terras indígenas. Ou seja, a criação do Parque Nacional gera indenização de terras (muito dinheiro) aos fazendeiros, a criação de Terra Indígena gera indenização apenas das benfeitorias - que não existem, porque a TI incide sobre a reserva de floresta das fazendas. É claro que o interesse na criação do Parque é maior - mesmo porque o que se quer é preservar a memória dos povos indígenas do rio Tanaru e sua resistência para sobreviver.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Aniversário conjunto

No ano passado, não conseguimos organizar a festa de aniversário da Agnes porque os finais de semana coincidiam com feriados ou com outras festas dos colegas de turma. Estivemos diante do dilema de fazer festa no dia 18, correndo risco de o pessoal viajar por causa do feriadão de Tiradentes, e fazer festa antes do aniversário dela, dia 11. Resolvemos alugar uma casa e a primeira que visitamos só tinha dia 11. A gente gostou da vibe da casa, cheia de frutíferas, plantadas por um agrônomo que logo se entendeu com a Agnes. Entre o meu aniversário (completei 48!) e o da Agnes (10 anos), o dia 11 pareceu um compromisso bacana. A festa com as crianças começaria às 14h. Como teve sábado letivo, o pessoal da escola dela chegou essa hora mesmo.

Fiz algumas viagens entre a casa da festa e a nossa casa pra buscar coisas e fiquei matutando como lidar com um arco enorme que a proprietária tinha dito que tinha. Se a festa fosse temática (sei lá, 10 anos ainda tem tema?), daria pra lugar capinhas, mas ninguém foi atrás disso. Numa das pendulações entre casa da festa e casa, passei numa loja de festa, pra ver se tinham as tais das capinhas. Não trabalhavam com isso há anos, mas a moça desenhou um arco e ficou pensando como preencher o vazio com coisas pendentes: balões, plantas, tecido. Lembrei de um lençol amarelo que eu tinha aposentado por ser muito justo na cama queen, peguei canetinhas e aproveitei o arco. 

O churrasco foi feito para os adultos - Altaci, Alessandra + Réverson e Rose. Conforme o pessoal foi chegando, alguns pais foram ficando.
Quando as crianças chegaram, se espalharam pela piscina, quadra, foram conhecer o pomar e os animais (patos e galinhas). Quase todas as crianças perguntaram se Agnes morava ali. A mãe do Milton ainda lembrava onde era o banheiro e me contou que tinha passado o Réveillon naquela casa. 
Tivemos ajuda de outras mães pra dispor os brigadeiros e o bolo. Luis ainda perguntou se acendia as velas antes ou depois de cantar parabéns e fomos tachados de pais que não sabem como funcionam festas de aniversário infantis (em Brasília), mas deu certo. Agnes curtiu a festa, não houve crise alguma, as pessoas saíram felizes e contentes, me dando parabéns. Aceitei os parabéns.


quinta-feira, 9 de abril de 2026

Momento histórico do passado

A reunião na manhã do dia 07 de abril, bem na hora da Marcha do ATL, era com lideranças Manchineri e Jaminawa e representantes da Coiab sobre a ausência da FUNAI na TI Cabeceira do Rio Acre e a presença incômoda, ao lado, da Estação Ecológica gerida pelo ICMBio. Na Unidade de Conservação, os indígenas não podem caçar, nem coletar a castanha que cai no chão. A maior preocupação era que o Parque está bem no meio da rota dos Mashko Piro, um grupo grande de indígenas isolados peruanos. Os Manchineri e os isolados são Yine e falam a mesma língua. 

Clica na imagem pra ver melhor

Reconheci Carlos Travassos, que se apresentou como consultor - mas já foi Coordenador Geral de Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato da Funai. No final da reunião, fui dizer a ele que eu lembrava dele da SBPC de 2014 que aconteceu no Acre, na UFAC. Eu tinha feito uma pergunta pra ele sobre povos isolados na área de impacto das usinas do Madeira. Luis e eu estávamos coletando material pro nosso filme e a resposta da Funai de que havia povos isolados ali perto de onde queriam construir a UHE Santo Antônio segurou o licenciamento até trocarem o chefe da Coordenação Regional (ou equivalente) que depois assinou uma certidão negativa.

Localizei o vídeo que eu fiz do Travassos falando do princípio da precaução e dos tempos tanto do empreendimento como da Funai para comprovar a presença de isolados.
 

Em julho de 2014 aconteceu o primeiro contato depois de 20 anos sem eventos de contato. Foi lá no Acre, no rio Xinane. Desconfio que Carlos Travassos e Txai Terry estavam ali na SBPC pra narrar esse contato.

domingo, 5 de abril de 2026

Páscoa no Cerrado

Depois de Agnes encontrar os ovos de Páscoa escondidos, nos preparamos para fazer uma trilha no Parque da Água Mineral.

Como as piscinas não estavam abertas, havia bem pouco público no Parque e nas trilhas. 

Esse foi o primeiro presente: a tranquilidade. O segundo foram os tesouros escondidos. Agnes e eu revezamos a máquina fotográfica e já não sei mais quem fez qual foto.





No total, fizemos 10km de trilha, um grande feito pra Agnes que ainda não completou 10 anos.